Virginia Woolf e o Ensaio

“Regozijo-me em coincidir com o leitor comum; pois, pelo senso comum dos leitores, não corrompidos pelos preconceitos literários, depois de todos os refinamentos da sutileza e o dogmatismo do aprendizado, deve finalmente ser determinado que todos clamam por honras poéticas”

Samuel Johnson

A escritora inglesa Virginia Woolf é reconhecida como um dos grandes nomes da literatura modernista, além de ser uma das mais importantes representantes do time que desenvolveu a técnica narrativa de fluxo de consciência. De fato, Woolf foi uma prolífica leitora e escritora, seus romances como Orlando e Mrs. Dalloway entraram rapidamente para o cânone literário do século XX e sua produção – incluindo diários e cartas – foi sendo propaganda com o decorrer das décadas. Um dos seus textos que ganhou novos olhares e impulsos, na época e depois de sua publicação, foi o longo ensaio Um Teto Todo Seu, de 1929.

Depois de ser convidada para palestrar sobre o tema mulheres e literatura, Virginia Woolf se deparou com uma das grandes lacunas na história do gênero: onde estavam as mulheres que escreveram? Onde estavam seus livros? Onde elas estavam nos compêndios de ensino e teoria literária? É com esse atordoamento que ela escreve um longo ensaio tentando refletir sobre essa ausência, unindo crítica histórica e social. Mas, não era a primeira vez que a autora fazia uso do ensaio para escrever sobre sua visão literária e crítica de costumes. Há pelo menos dez anos publicava semanalmente em suplementos literários, acumulando centenas de textos que já tinham sua própria unidade que refletia uma premissa muito básica para ela: a de ser escrita através do olhar de um leitor comum.

Uma das antologias de seus ensaios mais conhecida é justamente a de O Leitor Comum, onde ela escreve, no ensaio homônimo, sobre as premissas desse leitor livre dos academicismos e regras de manuais. Usando um trecho – que abre esse texto – do crítico inglês Samuel Johnson, do século XVIII, ela cria sua própria metodologia de escrita de ensaios, mesmo daqueles que não falavam sobre a literatura em si. Afinal, um observador comum seria protagonista dessa lógica e, para Virginia Woolf, era uma motivação quase política na afirmação pelo comum: ela mesma não havia frequentado a universidade e tudo que sabia era mérito da biblioteca de seu pai e de sua fome intensa por conhecimento.

No ínicio do ensaio Profissões para Mulheres (no Brasil em Profissões para Mulheres e outros artigos Feministas, pela L&PM, tradução de Denise Bottmann) ela dá o tom de comum dizendo que “Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer.” E ela segue comentando sobre a importância de um diálogo como escritora, uma profissão também negada às mulheres, com aquelas que estavam em fábricas ou outras atividades laborais.

Quando falava de livros e literatura, Virginia Woolf também não era indiferente. No ensaio Horas na Biblioteca (no Brasil em A Leitora Incomum, pela Arte e Letra, tradução de Emanuela Siqueira) ela começa o ensaio alfinetando, dizendo que “Vamos começar resolvendo a velha confusão entre o homem que ama aprender e o homem que ama ler, e apontar que não há qualquer ligação entre eles. O intelectual é um sedentário, um solitário entusiasta concentrado, que busca através dos livros um grão de verdade específico para acreditar”. Não eram raros os comentários críticos aos homens das letras, os chamados de intelectuais sedentários. O leitor comum sonhado pela escritora seria sempre o Outro e não mais o homem acadêmico dos círculos ingleses, cuja voz era a única respeitada.

Por esses e outros motivos, a produção ensaística de Virginia Woolf foi relegada em segundo plano, mesmo com uma produção tão prolífica. Acusada de impressionista e, ironicamente, pouco teórica, muitas são as análises preguiçosas desses textos. No Brasil, o ensaio é uma categoria pouco produzida e incentivada, também afetando para que traduções desses textos chegassem até o leitor. Porém, temos atualmente quatro antologias interessantes dessa produção publicadas no Brasil e elas ajudam a adentrar na produção reflexiva da autora, permitindo que possa se ampliar a análise de sua obra e construção de pensamento.

A primeira a ser publicada, em 2012, foi Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas, citado anteriormente, que reúne textos de Virginia Woolf que discutem a situação da mulher escritora e suas relações com a condição da mulher na sociedade. Apesar do uso da palavra feminista, os textos discutem temas mais caros ao início do século XX, onde os movimentos de mulheres ainda não tinha nome próprio. Porém, são textos fundamentais para notar a perspicácia no olhar da autora sobre a produção literária e como a sociedade moderna se comportava naquele período. Muitas das metáforas como a do anjo do lar, a importância do ato com fruição da leitura e a relação do cotidiano com a análise literária, estão presentes mesmo em textos com um único eixo temático: a autoria de mulheres.

Em 2014, a extinta Cosac Naify editou O Valor do Riso, organizado e traduzido por Leonardo Froés. São quase trinta ensaios que compõem essa antologia e finalmente o panorama da produção é alargado. Baseado no volume The Essays of Virginia Woolf, essa edição segue a publicação mais crítica, porém mais acatada, dos ensaios. Desde o famoso O Leitor Comum, passando por textos sobre Londres e sua visão apurada do urbano como Músicos de Rua, reflexões sobre a literatura contemporânea da época no excelente Ficção Moderna, terminando em mais textos em que pensa a produção de autoras como Jane Austen, e o Quatro Figuras, que escreve sobre a biografia de algumas mulheres.

Mas não apenas de temas pontuais se deu a produção de ensaios da inglesa. Há um trabalho poético muito potente em seus ensaios, as metáforas não são pensadas à revelia e atendem muito da demanda romancista de Virginia Woolf. A antologia O Sol e o Peixe, de 2016, organizada e traduzida por Tomás Tadeu e editada pela Autêntica, traz nove ensaios de prosa poética. São textos divididos em três seções onde os temas mais caros à escrita de Woolf surgem envolvidos em um ritmo e pensados como literatura. Desde uma reflexão sobre Montaigne, até uma divagação sobre a, ainda embrionária, arte do cinema, os ensaios mostram como a romancista e a pensadora não andavam separadas.

A antologia mais recente é A Leitora Incomum , editada pela curitibana Arte e Letra e traduzida por Emanuela Siqueira. Além do livro ser artesanal, dialogando mais de perto com a fruição da leitura e o feitio do livro – Virginia fala muito sobre o cheiro e a textura do objeto – também foca em ensaios que tragam a leitora como crítica literária. Como citado anteriormente, a produção ensaística de Virginia Woolf sempre foi considerada aquém à produção de outros intelectuais. Como sempre pensava sobre a experiência de leitura, a biografia de autores e os seus modos de fazer, sua crítica foi considerada impressionista. Os cinco ensaios dessa antologia dão conta de propor um outro olhar para a construção do pensamento da autora. É possível perceber, por exemplo, que várias metáforas que ela sempre usa em seus ensaios, como a força das águas – e tudo relacionado a esse universo – aparecem como ondas, indo e voltando. Ou mesmo a crítica aos intelectuais que, como afirma em um ensaio, matam o prazer pela leitura, está sempre presente. Nesse volume, também há o ensaio que homenageia uma autora: Katherine Mansfield. O interessante é que muitos estudiosos de Woolf dizem que ela mantinha uma relação de ciúme com a neozelandesa, logo, o ensaio Uma mente implacavelmente Sensível dá conta de desfazer esse boato; a admiração é o ritmo do texto.

Assim como nos romances, Virgínia Woolf cria, dá seu próprio ritmo, constrói universos e caminhos nos seus ensaios. Longe de ter a euforia de um impressionista, ela está mais próxima do prazer em ouvir uma pessoa apaixonada. A antropóloga francesa Michèle Petit, importante pesquisadora de mediação de leitura, diz que apenas um apaixonado pode falar de amor, ou seja, apenas um leitor apaixonado pode nos convencer a ler. Então, somos levados por Virginia Woolf – de mãos dadas – a observar os livros nas bibliotecas, a ler em diálogo, a observar os detalhes das roupas, das conversas e a olhar por entre janelas e portas. Dessa forma, assim como ela, deixaremos de ser leitores comuns, passando a ser seres humanos incomuns à literatura e à vida.

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Bowie, Bach e Bebop: Como a música impulsionou Basquiat

Texto traduzido do NY Times.

“Não sei como descrever meu trabalho” “É como perguntar ao Miles: ‘Como soa a sua corneta?”

Em 1979, aos 19 anos, o artista Jean-Michel Basquiat mudou-se para um apartamento abandonado na rua 12 leste, em Manhattan, com Alexis Adler, sua namorada na época. O imóvel, um prédio de seis andares sem elevador, estava deteriorado e parcamente mobiliado. Basquiat, falido e impossibilitado de dispor de telas, pintou despreocupado nas paredes, no chão e até mesmo nas roupas de Adler.
O único objeto que permaneceu intocado foi o aparelho de som da namorada, que tinha um lugar privilegiado numa estante tirada da rua.

“O principal para nós era ter grandes alto-falantes e um estéreo explosivo. Esse foi o único objeto que comprei.”, diz Adler, que ainda vive no apartamento. Relembra que quando Basquiat estava por perto, “a música tocava o tempo todo”.

Em setembro passado, foi aberta a exposição “Basquiat: Boom for Real” no ¹ Barbican Centre, em Londres. A mostra destaca o relacionamento do artista com música, texto, filme e televisão. Mas é o jazz – o estilo musical que constituiu a maior parte da grande coleção de discos de Basquiat – que se destaca como temática e uma fonte de inspiração pessoal.

A primeira grande retrospectiva de seu trabalho na Grã-Bretanha é uma espécie de retorno ao lar para a arte de Basquiat: em 1984, sua primeira mostra institucional abriu na Fruitmarket Gallery, em Edimburgo, Escócia e depois viajou para o Institute of Contemporary Arts, em Londres. Em um gratificante encerramento de ciclo, será exibido em Barbican um grande desenho que Basquiat fez em Londres para a exposição do instituto, mas que acabou não sendo exposto naquele momento.

Os gostos de Basquiat eram ecléticos: Curtis Mayfield, Donna Summer, Bach, Beethoven, David Byrne, Charlie Parker, Miles Davis, Aretha Franklin, o album “Metal Box”, do Public Image Ltd. “Ele tinha suas faixas favoritas que simplesmente tocava e tocava”, diz Adler. O “Low” do Bowie, definitivamente. E o lado B do “Heroes”. A influência musical era enorme.

Em dado momento, Basquiat acumulava uma coleção de mais de 3000 discos. Abrangia blues, música clássica, soul, disco e até zydeco, um tipo de música popular do sul de Luisiana. Ele também fazia sua própria música: como líder do Gray, um quarteto de art noise experimental; como o produtor do single “Beat Bop”; e como D.J. em locais como o famigerado Mudd Club, em TriBeCa.

Basquiat fez, com frequência, referências em seu trabalho aos músicos que mais admirava. Prestou homenagem a Parker, cujo apelido era Bird, em pinturas como “Bird on Money”, “Charles the First” e “CPRKR”. “Max Roach” foi uma reverência para a visão e estilo do baterista de jazz com o mesmo nome.

E em “King Zulu”, uma pintura magistral, inspirada nos primórdios do jazz, que ocupa um espaço notável em Barbican, Basquiat evocou a memória de trompetistas como Bix Beiderbecke, Bunk Johnson e Howard McGhee. No centro do azul intenso do quadro, um rosto pintado de menestrel olha de soslaio, a imagem foi tirada de uma fotografia de Louis Armstrong mascarado como um rei Zulu, em um ² Mardi Gras de New Orleans, em 1949.

Basquiat era especialmente devoto ao bebop, o gênero incansavelmente inventivo representado nas figuras de Parker, Davis, Ornette Coleman e Thelonious Monk. O amor de Basquiat pelo bebop alimentou a sua arte, diz Eleanor Nairne, co-curadora de “Boom for Real”.

“O bebop foi um movimento bastante intelectual”, diz ela. “Foi também bastante iconoclasta em querer romper com essas harmonias mais antigas do jazz. Essa ideia de um tipo de ruptura e esses músicos que eram tão jovens, poderosas forças vibrantes; haviam muitos paralelos que ele viu em sua vida e trabalho.”

Basquiat, que morreu de uma overdose aos 27 anos, atingiu alturas vertiginosas em sua curta carreira. Sua primeira venda, a pintura “Cadillac Moon”, foi para Debbie Harry, líder do Blondie, em 1981. Ela pagou 200 dólares.

Em poucos meses, seus trabalhos estavam sendo vendidos por dezenas de milhares de dólares. Aos 20 anos ele havia conseguido seu primeiro milhão. No entanto, Basquiat estava incomodado com o sucesso. Ele tinha uma profunda noção de seu lugar como um dos poucos afro-americanos em um mundo artístico predominantemente branco, onde era considerado por alguns como pouco mais que um intruso.
O crítico estadunidense Hilton Kramer certa vez descreveu Basquiat como “um aproveitador sem talento, malandro mas perdidamente ignorante, que usou de sua juventude, aparência, cor da pele e abundante sex appeal” para ganhar fama.

Segundo Nairne, Basquiat era “constantemente, de forma desconfortável, muito consciente das maneiras racistas com as quais ele costumava ser classificado.” E ele encontrou um forte paralelo entre a sua posição e as dos seus heróis do jazz.

“São músicos que, em uma esfera de suas vidas, são incrivelmente celebrados.”, diz a Sra. Nairne. “E em outros aspectos, no cotidiano e nos termos mais banais, sempre reduzidos à cor de suas peles. Tiveram que, literalmente, usar a porta dos fundos dos clubes. Não há como separar a sua música do tratamento pela sociedade. Havia muita identificação ali.”

SAMO

No final das contas, Basquiat sentiu-se mais em casa no centro de Nova Iorque. Ele teve notoriedade no fim dos anos 70 como um grafiteiro usando a marca “SAMO”, rabiscando as ruas da baixa Manhattan com máximas sardônicas e ardilosamente poéticas: “SAMO em defesa da chamada vanguarda”; “SAMO como final para uma fantasia de neon chamada ‘vida’.”.

A cena do centro era uma famosa fusão de tendências de arte emergentes, urbana, grafite, casas noturnas da moda como a Mudd Club e Area, e os novíssimos gêneros musicais como New Wave e hip-hop.
Esse florescimento aconteceu em um contexto maior de MTV, sampleamento, scratching e teorias semióticas e pós-modernas; um momento em que a criação e disseminação da cultura parecia um processo cada vez mais fluído e sem limites.

Tudo estava em processo de fusão” diz Adler. Para Basquiat “foi um período de descoberta”.
A natureza multifacetada da cena deu licença para Basquiat a entrecruzar formas artísticas, de maneira a desenvolver seu próprio estilo. Ele recitou poesia no palco e produziu o hipnotizante hip-hop “Beat Bop”, do grafiteiro Rammellzee e do rapper K-Rob, que continua sendo um clássico do gênero.

No Gray, tocava sintetizador e clarineta, e fazia experimentos ao estilo de Steve Reich, fazendo looping com fragmentos de áudio em um gravador de rolo. O grupo se apresentava esporadicamente mas atraiu admiradores, incluindo o Sr. Byrne e o pioneiro do hip-hop, Fab 5 Freddy. Uma resenha na Interview Magazine os descreveu como “um conjunto de sons, com efeitos sonoros de bebop industrial, fácil de ouvir.”

Basquiat saiu do Gray em 1981, quando a pintura passou a dominar a sua atenção mais seriamente. Mas a música permaneceu uma marca significante na sua realização criativa.
David Bowie, escrevendo após a morte de Basquiat, o saudou como um espírito semelhante cuja sensibilidade pertencia tanto ao rock como à arte.

“Seu trabalho se relaciona com o rock de formas que poucos outros artistas visuais se aproximam”, observou o músico. “Ele parecia sintetizar o fluxo frenético da imagem e experiências transitórias, colocando-as através de um tipo de reorganização interna e vestindo a tela com essa consequente rede de acasos.”

O próprio Basquiat era menos exibido. “Não sei como descrever meu trabalho”, refletiu uma vez. “É como perguntar ao Miles: ‘Como soa a sua corneta?”

¹ Barbican Centre – Espaço cultural que inclui teatro, espaços para exposição, cinema, restaurantes no centro de Londres.(https://www.barbican.org.uk/)

² Mardi Gras é a terça-feira de Carnaval (igual ao Brasil) de Nova Orleans

Joaquim Apresenta: Gretchen Cadillac

 

Fundada em 2015, os curitibanos da Gretchen Cadillac não estão para brincadeira. Ou melhor, a brincadeira é justamente unir várias coisas bacanas que curtem e torná-las realidade. Como o nome sugere, unindo duas potências da música pop brasileira a banda tem um projeto que supera muito a cena atual do rock. Mano Seixasrock (vocal), JR Hellboy Menezes (guitarra), Alysson Pugas (guitarra) e Leo Neto (bateria) já se conheciam há algum tempo, tocando junto pela cena roqueira de Curitiba, e se uniram para um projeto mais ambicioso. O primeiro trabalho do grupo, intitulado de Fliperama Mundo Cão é uma ópera rock multimídia que une música, cinema e quadrinhos, paixões assumidas dos caras.

Como você vai assistir na entrevista com o Abonico Smith abaixo, não foi nada fácil tirar do papel a ideia de fazer um trabalho conceitual. Exigiu organização e planejamento, todo mundo trabalhou junto e uniu uma equipe de primeira para executar o projeto. O roteiro é do próprio guitarrista JR Hellboy Menezes, conta com quatorze temas envolvendo o protagonista Roque, aqui encarnado pelo Mano Seixasrock e o restante da banda dá conta de viabilizar a narrativa de forma que a sonoridade seja elemento essencial. Roque é engolido por uma máquina de pinball nos anos 70, durante as quatorze fases que ele irá passar todos os seus vícios entram na jogada, mostrando que ele tem levado uma vida que pode ser comandada mais por vilões se ele não conseguir detonar um a um. Se ele vai sair dessa, só escutando, lendo e assistindo os caras para saber!

Mano e JR contam na entrevista que a ideia é o clássica jornada do herói, comum nas histórias em quadrinhos, só que aqui dialogando com várias linguagens, tornando a trajetória muito mais instigante. A banda começou o projeto com crowdfunding e aos poucos foi soltando faixas, histórias em formatos de pergaminhos e vídeos. Agora é a vez de mostrar a ópera rock por completo, não apenas as composições e interpretações da narrativa, mas o trabalho gráfico de quatorze artistas diferentes envolvidos. O lançamento vai rolar na Cinemateca de Curitiba e promete ser uma experiência extra sensorial! Veja a entrevista e o teaser do show e cuidado para não ser engolido pelo mundo cão.

 

 

Joaquim Apresenta: Trem Fantasma

Partindo do nome de uma música d’Os Mutantes, os curitibanos do Trem Fantasma não temem em organizar as muitas referências de cada membro da banda e criar um estilo próprio e bem produzido. Rayman, Yuri e Leonardo (Marcos, ainda não havia chegado) não titubeam em afirmar – numa conversa bacana, que você pode ver abaixo, com o Abonico Smith – que assim que os australianos do Tame Impala lançaram seu disco de estreia, ficaram ligados que um dos estilos que eles mais curtiam, o psicodélico, poderia ser feito de uma forma moderna e criativa. Não deu outra, os três que se conheciam – e tocavam em outros projetos – desde a época da escola, resolveram se juntar para produzir e encontrar uma sonoridade construída por todos e deu muito certo!

As influências clássicas de cada um foram se somando e dialogando com o que eles ouviam de contemporâneo e também com o que liam. Algumas letras escritas por Rayman tem influências diretas do Paulo Leminski, parceiro constante do pai do baixista, o Paulo Juk do Blindagem, outro clássico de Curitiba. Os membros compõem de forma separada e tocam vários instrumentos, não pense que isso atrapalha o processo, pelo contrário, todos acabam acrescentando um pouco em cada composição. Difícil mesmo é separar tanto material bacana para caber um único disco.

Lapso é o debut do quarteto e foi produzido pelo Beto da banda gaúcha Cachorro Grande. O próprio Beto conta em entrevista que tinha ouvido a EP da Trem Fantasma e se tornado um grande fã da banda, pediu pros caras enviarem uma demo que foi logo repassada ao selo 180 que logo inseriu os caras no catálogo. O disco merece destaque mesmo, é um som cheio de energia e camadas psicodélicas, dá para ficar pirando durante toda a execução. Apesar das comparações com feito hoje em dia pelos já mencionados Tame Impala e Boogarins, a Trem Fantasma consegue ir além e se destacar, imprimindo a identidade de cada membro. E como eles não deixam o tempo passar, já está no prelo o segundo disco Dias Confusos e o clipe do single homônimo você vê aqui embaixo. Além disso, se você tiver a oportunidade de ver eles ao vivo, veja! Como você pode assistir em nosso canal – um pocket especial feito na loja – os caras mantém o público animado do ínicio ao fim. Faça essa viagem com a gente!

Gilberto Gil e Caetano Veloso em Londres

É agosto de 1970 e há 600 mil pessoas em um campo na Ilha de Wight, assistindo o maior festival de música já sediado por ali. Irão, ao longo dos cinco dias de evento, presenciar performances do The Who, The Doors, Joni Mitchell e Leonard Cohen, além do último show de Jimi Hendrix. Mas as atrações principais do segundo dia são dois brasileiros desconhecidos, acompanhados por uma trupe de dançarinos nus cobertos por um plástico vermelho. A dupla começa cantando em português, acompanhada por tambores africanos e flauta. Em seguida, ligam suas guitarras e tocam um set enlouquecido, misturando rock psicodélico, funk e samba.

Os dois caras são Gilberto Gil e Caetano Veloso. Passará algum tempo antes de que estejam lotando arenas pelo mundo afora ou, no caso de Gil, servindo como ministro no governo brasileiro. No verão de 1970 são apenas peças exóticas na cena underground de Londres, improvisando com o Hawkwind e frequentando galerias de arte, comunidades hippies e festivais de música.

“Fiquei atônito ao descobrir como esses caras eram famosos”, diz Nick Turner do Hawkind. “Pareciam tão humildes, tão generosos, tão ansiosos para improvisar com qualquer um.”

Dois anos antes, Caetano e Gil eram dois dos maiores artistas brasileiros, estrelas influentes na sorrateira e subversiva cena de rock psicodélico brasileiro, a Tropicália. Isso durou até a ditadura militar decidir que eles eram uma ameaça. Em dezembro de 1968 foram presos em São Paulo. Tiveram suas cabeças raspadas, ficaram dois meses encarcerados e outros quatro em prisão domiciliar.

“Os militares queriam que deixássemos o país”, diz Caetano. “Nos deixaram fazer um show para levantar dinheiro para a passagem de avião”. Enquanto o resto do mundo assistia às aterrissagens na lua em 21 de julho de 1969, Caetano e Gil se preparavam para deixar o Brasil. Não voltariam por três anos.

“Nosso empresário foi para a Europa na nossa frente, para ver onde moraríamos”, diz Gil. “Lisboa e Madri estavam fora de questão porque Portugal e Espanha também passavam por violentas ditaduras. Paris tinha um ambiente musical entediante. Londres era o melhor lugar para um músico estar.”

Gil, Veloso, seu empresário e suas respectivas esposas acabaram morando em uma casa no número 16 da Redesdale Street, no Chelsea, em Londres, um lugar que amigos brasileiros que os visitavam chamavam de “a Capela Sistina”. Juntos frequentaram museus, galerias de arte e jogos de futebol, e aprenderam a amar o Santo Circo Voador, do Monty Python – Veloso diz que esse surrealismo influenciou algumas de suas músicas mais experimentais.

Durante seu primeiro ano em Londres, Caetano ficou deprimido e com saudades de casa, enquanto Gil era bem mais otimista. “Nós chegamos na semana em que os Beatles lançaram Abbey Road, vimos os Rolling Stones na Roundhouse, improvisamos com ótimos músicos, encontramos pessoas incríveis, ouvimos reggae pela primeira vez”, diz ele. “O fato de que você podia andar em direção a um policial e lhe pedir informações – no Brasil isso simplesmente não acontece!”

Enquanto esteve na preso, Gilberto Gil adotou uma dieta macrobiótica e começou a meditar e investigar o misticismo oriental. Chegou em uma cena hippie londrina que compartilhava seus novos interesses, e rapidamente estabeleceu relações com muitas figuras-chave da contracultura da capital, incluindo o jornalista e vocalista anárquico Mick Farren, Turner e Thomas Crimble do Hawkwind.

Gil, Caetano e suas famílias.

Através de Crimble, Gil envolveu-se com um grupo de boêmios abastados que estavam montando o que viria ser propriamente o primeiro festival de Glastonbury. “A primeira vez que visitei a fazenda Worthy, no outono de 1970, Gil estava lá com Arabella Churchill, Andrew Kerr e Thomas Crimble (co-fundadores do Festival de Glastonbury)” diz Bil Harkin, que desenhou o palco pirâmide original de Glastonbury. “Todos passaram meses na fazenda de Michael Eavis, fumando maconha e discutindo formas de realizar um festival gratuito. Havia ideias de unificar o espiritualismo, o clima, arte e a música.

“Um dos modelos era o carnaval brasileiro, um exemplo perfeito de um festival de artes gratuito, multidisciplinar e quase espontâneo. Lembro-me de ter conversas com Gil sobre medicina alternativa, dervixes giratórios, música africana, indiana e latino-americana, além do poder da música como uma força de cura. Ele estava tinindo de ideias e isso foi crucial para a forma como o festival se desenvolveu.”

Gil convidou Caetano para algumas das primeiras reuniões de Glastonbury – Jarkin lembra dele sugerindo que o palco principal fosse no formato de uma cabana gigante. “Todos gostaram da ideia da tenda”, diz Harkin. “Isso quase ofuscou a minha pirâmide. Se as coisas fossem diferentes, 40 anos depois, poderiamos estar assistindo a um palco-cabana!” Gil permaneceu no festival para se apresentar, aparecendo brevemente em Glastonbury Fayre, filme de Nic Roeg.

Caetano também fez música no exílio, mas ele tendia a ser mais introvertido. Ele brinca descrevendo seu disco de 1971, London London [Caetano Veloso 1971], como “um registro de depressão”. Há músicas como Little More Blue, com a letra “Um dia tive que deixar meu país, praia calma e palmeira” e a faixa-título, com um lamento agridoce “grama verde, olhos azuis, céu cinza, Deus abençoe”.

“Sempre admirei o rock britânico”, diz ele, “que chamo de ‘neo-rock’. Em Londres eu consegui vê-lo de perto: Led Zeppelin, T-Rex, Pink Floyd, o The Who, a Incredible String Band, Jimi Hendrix e, claro, os Rolling Stones. Aprendi que o grande rock não era sobre volume e selvageria, mas sobre precisão e economia.

“Também aprendi sobre autenticidade. Inicialmente eu era relutante em tocar guitarra nos meus próprios discos e delegava isso a músicos mais qualificados. Mas produtores me convenceram que as fraquezas do meu estilo de tocar guitarra eram parte do charme da música. Isso foi muito libertador.”. Caetano ainda tem um grande interesse pelo rock alternativo britânico, seu disco de 2006, o Cê, tem empréstimos do post-punk experimental.

As dívidas de Gil com seu exílio são mais complexas. Seu primeiro disco londrino, Gilberto Gil (Nêga), tem ele tocando versões solo e acústicas de músicas de Steve Winwood, Beatles e Hendrix, mas o reggae tornou-se o legado mais duradouro de seu encanto na Inglaterra. “Fomos sortudos de estar em Notting Hill no momento em que a cultura da Jamaica – Jimmy Cliff, Bob Marley, Burning Spear – estava estourando”, diz ele. “Eu também estava fascinado por tudo da cultura Rasta. Me ajudou a identificar o que tinha de africano na cultura brasileira.”. Mais tarde, Gil levaria essas ideias de volta para o Brasil, engajando-se com políticas negras e sendo pioneiro em alguns dos primeiros híbridos de samba-reggae.

Ambos olham para seu tempo em exílio com carinho. “Nunca quis viver fora do Brasil.” diz Gil. “Mas Londres é uma das cidades mais interessantes do mundo, e tenho sorte de ter vivido lá.” “Só agora posso dizer que gosto da música que gravei ali” diz Caetano. “As coisas que aprendemos no exílio nos tornaram músicos mais criativos. Também nos tornou pessoas mais fortes.”.

Traduzido do The Guardian, escrito por John Lewis, tradução de Emanuela Siqueira

Joaquim Apresenta: Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral

Os nomes de Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral raramente estão separados quando aparecem em contracapas dos discos mais celebrados, no Brasil, dos últimos anos. Mesmo com seus trabalhos solos, estes artistas, junto com outros nomes como Kiko Dinucci e Thiago França no Metá Metá, produzem muito e ajudam a desenhar a prolífica cena contemporânea da música brasileira. O grupo até deu um nome para o coletivo: Clube da Encruza. Quase que uma paródia com o Clube da Esquina – uma das suas influências – eles afirmam que o nome tem mais a ver com a ideia dos orixás, especificamente de Exu, que segundo Juçara Marçal é o que abre os caminhos para a arte e a criatividade.


Em entrevista para o Joaquim Apresenta, os três contam um pouco mais sobre o processo de trabalhar juntos e a química entre si acontecer de forma plena. A cantora Juçara Marçal abraça projetos que vão do samba raiz à sonoridade noise e experimental, como é o caso de seu trabalho com o artista Cadu Tenório no disco Anganga (2015). Rodrigo Campos, no momento da entrevista estava divulgando o álbum Conversas com Toshiro, que é influenciado por elementos que vão desde a cultura pop, arte contemporânea até a literatura existencialista. Outro trabalho seu com Juçara, o Sambas do Absurdo é inspirado no Mito de Sísifo de Albert Camus e tem letras do artista Nuno Ramos, que também assina a capa. Já Marcelo Cabral é produtor e além de colaborar muito com o Clube da Encruza, assina trabalhos de artistas como Criolo e Karol Conka. Um time de primeira linha, que merece muita atenção!

Nos dois episódios do programa o Abonico Smith consegue criar um diálogo com os artistas onde fica claro, como o próprio Marcelo Cabral diz, que é o “prazer em criar” que move todos os projetos e a criação coletiva – mesmo que as ideias partam de um indivíduo – é que dá o tom especial para os trabalhos desse grupo que já construiu uma identidade particular na música brasileira.

Boa parte dos discos em vinil do grupo tem saído pelo ótimo selo Goma Gringa, que capricha na produção gráfica dos discos e cria um diálogo único entre material físico a sonoridade dos artistas. Outro selo que merece destaque, e lança o material do Passo Torto (outro projeto que envolve esse grupo e outro do nordeste) é o Assustado Discos, quem também se mantém atento ao melhor da produção atual no país.

Assista a entrevista, procure os discos dos artistas aqui na Joaquim! Se gostar acompanhe o nosso trabalho pelo canal do youtube e compartilhe com os amigos.

Joaquim Apresenta é uma parceria da Joaquim Livros & Discos, Mondo Bacana e Max Olsen Produção Audiovisual

Elton John, ganha o título de lenda da Record Store Day

“É como entrar numa livraria e sentir o cheiro dos livros. Meu deus, quão bom é isso?”

Já são dez anos que a Record Store Day entrou para o calendário oficial da música mundial. Desde 2007 o terceiro sábado do mês de abril é aguardado por milhares de colecionadores e fãs do vinil espalhados pelo mundo. Apesar do dia oficialmente focar nos Estados Unidos, Inglaterra e alguns outros países, o clima é de festa em muitas lojas de discos espalhadas pelo mundo. Claro que estamos incluídos no grupo de entusiastas! Você pode saber mais sobre a história da data e sobre seus embaixadores nos links que vamos deixar no final desse texto.

Elton John se divertindo e engordando a coleção de discos.

Em 2017, para comemorar em alto estilo essa primeira década, a Record Store Day nomeou ninguém menos que Sir Elton John como a grande lenda do evento. O músico inglês deu um depoimento inspirado (você pode assistir aqui embaixo, sem legendas) contando desde os seu primeiro 45 rotações, falou da emoção de ter o disco 17-11-70 reeditado em vinil durante o evento e ainda descreveu todas as sensações que envolvem aquele prazer característico dos colecionadores. Ressaltou a importância não apenas da sonoridade do disco de vinil – que segundo ele diz, já gravou em muitos estúdios desde o começo da sua carreira e que sim, o som do vinil é o melhor – mas também de todo ritual de escolher o disco e colocar a agulha para trabalhar. Ir às lojas de discos procurar o disco certo para o momento é outro momento ressaltado, diz ele “Eu amo lojas de disco, posso ir a uma em Las Vegas e gastar três horas lá. Apenas sentir o cheiro, dar uma olhada, a maravilha das memórias.”.

Além da nomeação à lenda do evento, a Record Store Day chamou a cantora St. Vincent para ser a embaixadora do evento esse ano. Muitos lançamentos estão previstos para o dia e vários colecionadores já estão fazendo as suas listas. Por aqui vamos comemorar com um acervo caprichado, descontos e muita música rolando durante o dia inteiro. Acompanhe nosso evento no facebook e não perca esse dia em que os fãs do bolachão se encontram para celebrar esse amor em comum.

Mais sobre a Record Store Day

A história da Record Store Day
Jack White & Record Store Day
Dave Grohl, embaixador de 2015