JOAQUIM

Livros & Discos

Joaquim Apresenta: Trem Fantasma

Partindo do nome de uma música d’Os Mutantes, os curitibanos do Trem Fantasma não temem em organizar as muitas referências de cada membro da banda e criar um estilo próprio e bem produzido. Rayman, Yuri e Leonardo (Marcos, ainda não havia chegado) não titubeam em afirmar – numa conversa bacana, que você pode ver abaixo, com o Abonico Smith – que assim que os australianos do Tame Impala lançaram seu disco de estreia, ficaram ligados que um dos estilos que eles mais curtiam, o psicodélico, poderia ser feito de uma forma moderna e criativa. Não deu outra, os três que se conheciam – e tocavam em outros projetos – desde a época da escola, resolveram se juntar para produzir e encontrar uma sonoridade construída por todos e deu muito certo!

As influências clássicas de cada um foram se somando e dialogando com o que eles ouviam de contemporâneo e também com o que liam. Algumas letras escritas por Rayman tem influências diretas do Paulo Leminski, parceiro constante do pai do baixista, o Paulo Juk do Blindagem, outro clássico de Curitiba. Os membros compõem de forma separada e tocam vários instrumentos, não pense que isso atrapalha o processo, pelo contrário, todos acabam acrescentando um pouco em cada composição. Difícil mesmo é separar tanto material bacana para caber um único disco.

Lapso é o debut do quarteto e foi produzido pelo Beto da banda gaúcha Cachorro Grande. O próprio Beto conta em entrevista que tinha ouvido a EP da Trem Fantasma e se tornado um grande fã da banda, pediu pros caras enviarem uma demo que foi logo repassada ao selo 180 que logo inseriu os caras no catálogo. O disco merece destaque mesmo, é um som cheio de energia e camadas psicodélicas, dá para ficar pirando durante toda a execução. Apesar das comparações com feito hoje em dia pelos já mencionados Tame Impala e Boogarins, a Trem Fantasma consegue ir além e se destacar, imprimindo a identidade de cada membro. E como eles não deixam o tempo passar, já está no prelo o segundo disco Dias Confusos e o clipe do single homônimo você vê aqui embaixo. Além disso, se você tiver a oportunidade de ver eles ao vivo, veja! Como você pode assistir em nosso canal – um pocket especial feito na loja – os caras mantém o público animado do ínicio ao fim. Faça essa viagem com a gente!

Gilberto Gil e Caetano Veloso em Londres

É agosto de 1970 e há 600 mil pessoas em um campo na Ilha de Wight, assistindo o maior festival de música já sediado por ali. Irão, ao longo dos cinco dias de evento, presenciar performances do The Who, The Doors, Joni Mitchell e Leonard Cohen, além do último show de Jimi Hendrix. Mas as atrações principais do segundo dia são dois brasileiros desconhecidos, acompanhados por uma trupe de dançarinos nus cobertos por um plástico vermelho. A dupla começa cantando em português, acompanhada por tambores africanos e flauta. Em seguida, ligam suas guitarras e tocam um set enlouquecido, misturando rock psicodélico, funk e samba.

Os dois caras são Gilberto Gil e Caetano Veloso. Passará algum tempo antes de que estejam lotando arenas pelo mundo afora ou, no caso de Gil, servindo como ministro no governo brasileiro. No verão de 1970 são apenas peças exóticas na cena underground de Londres, improvisando com o Hawkwind e frequentando galerias de arte, comunidades hippies e festivais de música.

“Fiquei atônito ao descobrir como esses caras eram famosos”, diz Nick Turner do Hawkind. “Pareciam tão humildes, tão generosos, tão ansiosos para improvisar com qualquer um.”

Dois anos antes, Caetano e Gil eram dois dos maiores artistas brasileiros, estrelas influentes na sorrateira e subversiva cena de rock psicodélico brasileiro, a Tropicália. Isso durou até a ditadura militar decidir que eles eram uma ameaça. Em dezembro de 1968 foram presos em São Paulo. Tiveram suas cabeças raspadas, ficaram dois meses encarcerados e outros quatro em prisão domiciliar.

“Os militares queriam que deixássemos o país”, diz Caetano. “Nos deixaram fazer um show para levantar dinheiro para a passagem de avião”. Enquanto o resto do mundo assistia às aterrissagens na lua em 21 de julho de 1969, Caetano e Gil se preparavam para deixar o Brasil. Não voltariam por três anos.

“Nosso empresário foi para a Europa na nossa frente, para ver onde moraríamos”, diz Gil. “Lisboa e Madri estavam fora de questão porque Portugal e Espanha também passavam por violentas ditaduras. Paris tinha um ambiente musical entediante. Londres era o melhor lugar para um músico estar.”

Gil, Veloso, seu empresário e suas respectivas esposas acabaram morando em uma casa no número 16 da Redesdale Street, no Chelsea, em Londres, um lugar que amigos brasileiros que os visitavam chamavam de “a Capela Sistina”. Juntos frequentaram museus, galerias de arte e jogos de futebol, e aprenderam a amar o Santo Circo Voador, do Monty Python – Veloso diz que esse surrealismo influenciou algumas de suas músicas mais experimentais.

Durante seu primeiro ano em Londres, Caetano ficou deprimido e com saudades de casa, enquanto Gil era bem mais otimista. “Nós chegamos na semana em que os Beatles lançaram Abbey Road, vimos os Rolling Stones na Roundhouse, improvisamos com ótimos músicos, encontramos pessoas incríveis, ouvimos reggae pela primeira vez”, diz ele. “O fato de que você podia andar em direção a um policial e lhe pedir informações – no Brasil isso simplesmente não acontece!”

Enquanto esteve na preso, Gilberto Gil adotou uma dieta macrobiótica e começou a meditar e investigar o misticismo oriental. Chegou em uma cena hippie londrina que compartilhava seus novos interesses, e rapidamente estabeleceu relações com muitas figuras-chave da contracultura da capital, incluindo o jornalista e vocalista anárquico Mick Farren, Turner e Thomas Crimble do Hawkwind.

Gil, Caetano e suas famílias.

Através de Crimble, Gil envolveu-se com um grupo de boêmios abastados que estavam montando o que viria ser propriamente o primeiro festival de Glastonbury. “A primeira vez que visitei a fazenda Worthy, no outono de 1970, Gil estava lá com Arabella Churchill, Andrew Kerr e Thomas Crimble (co-fundadores do Festival de Glastonbury)” diz Bil Harkin, que desenhou o palco pirâmide original de Glastonbury. “Todos passaram meses na fazenda de Michael Eavis, fumando maconha e discutindo formas de realizar um festival gratuito. Havia ideias de unificar o espiritualismo, o clima, arte e a música.

“Um dos modelos era o carnaval brasileiro, um exemplo perfeito de um festival de artes gratuito, multidisciplinar e quase espontâneo. Lembro-me de ter conversas com Gil sobre medicina alternativa, dervixes giratórios, música africana, indiana e latino-americana, além do poder da música como uma força de cura. Ele estava tinindo de ideias e isso foi crucial para a forma como o festival se desenvolveu.”

Gil convidou Caetano para algumas das primeiras reuniões de Glastonbury – Jarkin lembra dele sugerindo que o palco principal fosse no formato de uma cabana gigante. “Todos gostaram da ideia da tenda”, diz Harkin. “Isso quase ofuscou a minha pirâmide. Se as coisas fossem diferentes, 40 anos depois, poderiamos estar assistindo a um palco-cabana!” Gil permaneceu no festival para se apresentar, aparecendo brevemente em Glastonbury Fayre, filme de Nic Roeg.

Caetano também fez música no exílio, mas ele tendia a ser mais introvertido. Ele brinca descrevendo seu disco de 1971, London London [Caetano Veloso 1971], como “um registro de depressão”. Há músicas como Little More Blue, com a letra “Um dia tive que deixar meu país, praia calma e palmeira” e a faixa-título, com um lamento agridoce “grama verde, olhos azuis, céu cinza, Deus abençoe”.

“Sempre admirei o rock britânico”, diz ele, “que chamo de ‘neo-rock’. Em Londres eu consegui vê-lo de perto: Led Zeppelin, T-Rex, Pink Floyd, o The Who, a Incredible String Band, Jimi Hendrix e, claro, os Rolling Stones. Aprendi que o grande rock não era sobre volume e selvageria, mas sobre precisão e economia.

“Também aprendi sobre autenticidade. Inicialmente eu era relutante em tocar guitarra nos meus próprios discos e delegava isso a músicos mais qualificados. Mas produtores me convenceram que as fraquezas do meu estilo de tocar guitarra eram parte do charme da música. Isso foi muito libertador.”. Caetano ainda tem um grande interesse pelo rock alternativo britânico, seu disco de 2006, o Cê, tem empréstimos do post-punk experimental.

As dívidas de Gil com seu exílio são mais complexas. Seu primeiro disco londrino, Gilberto Gil (Nêga), tem ele tocando versões solo e acústicas de músicas de Steve Winwood, Beatles e Hendrix, mas o reggae tornou-se o legado mais duradouro de seu encanto na Inglaterra. “Fomos sortudos de estar em Notting Hill no momento em que a cultura da Jamaica – Jimmy Cliff, Bob Marley, Burning Spear – estava estourando”, diz ele. “Eu também estava fascinado por tudo da cultura Rasta. Me ajudou a identificar o que tinha de africano na cultura brasileira.”. Mais tarde, Gil levaria essas ideias de volta para o Brasil, engajando-se com políticas negras e sendo pioneiro em alguns dos primeiros híbridos de samba-reggae.

Ambos olham para seu tempo em exílio com carinho. “Nunca quis viver fora do Brasil.” diz Gil. “Mas Londres é uma das cidades mais interessantes do mundo, e tenho sorte de ter vivido lá.” “Só agora posso dizer que gosto da música que gravei ali” diz Caetano. “As coisas que aprendemos no exílio nos tornaram músicos mais criativos. Também nos tornou pessoas mais fortes.”.

Traduzido do The Guardian, escrito por John Lewis, tradução de Emanuela Siqueira

Joaquim Apresenta: Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral

Os nomes de Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral raramente estão separados quando aparecem em contracapas dos discos mais celebrados, no Brasil, dos últimos anos. Mesmo com seus trabalhos solos, estes artistas, junto com outros nomes como Kiko Dinucci e Thiago França no Metá Metá, produzem muito e ajudam a desenhar a prolífica cena contemporânea da música brasileira. O grupo até deu um nome para o coletivo: Clube da Encruza. Quase que uma paródia com o Clube da Esquina – uma das suas influências – eles afirmam que o nome tem mais a ver com a ideia dos orixás, especificamente de Exu, que segundo Juçara Marçal é o que abre os caminhos para a arte e a criatividade.


Em entrevista para o Joaquim Apresenta, os três contam um pouco mais sobre o processo de trabalhar juntos e a química entre si acontecer de forma plena. A cantora Juçara Marçal abraça projetos que vão do samba raiz à sonoridade noise e experimental, como é o caso de seu trabalho com o artista Cadu Tenório no disco Anganga (2015). Rodrigo Campos, no momento da entrevista estava divulgando o álbum Conversas com Toshiro, que é influenciado por elementos que vão desde a cultura pop, arte contemporânea até a literatura existencialista. Outro trabalho seu com Juçara, o Sambas do Absurdo é inspirado no Mito de Sísifo de Albert Camus e tem letras do artista Nuno Ramos, que também assina a capa. Já Marcelo Cabral é produtor e além de colaborar muito com o Clube da Encruza, assina trabalhos de artistas como Criolo e Karol Conka. Um time de primeira linha, que merece muita atenção!

Nos dois episódios do programa o Abonico Smith consegue criar um diálogo com os artistas onde fica claro, como o próprio Marcelo Cabral diz, que é o “prazer em criar” que move todos os projetos e a criação coletiva – mesmo que as ideias partam de um indivíduo – é que dá o tom especial para os trabalhos desse grupo que já construiu uma identidade particular na música brasileira.

Boa parte dos discos em vinil do grupo tem saído pelo ótimo selo Goma Gringa, que capricha na produção gráfica dos discos e cria um diálogo único entre material físico a sonoridade dos artistas. Outro selo que merece destaque, e lança o material do Passo Torto (outro projeto que envolve esse grupo e outro do nordeste) é o Assustado Discos, quem também se mantém atento ao melhor da produção atual no país.

Assista a entrevista, procure os discos dos artistas aqui na Joaquim! Se gostar acompanhe o nosso trabalho pelo canal do youtube e compartilhe com os amigos.

Joaquim Apresenta é uma parceria da Joaquim Livros & Discos, Mondo Bacana e Max Olsen Produção Audiovisual

Elton John, ganha o título de lenda da Record Store Day

“É como entrar numa livraria e sentir o cheiro dos livros. Meu deus, quão bom é isso?”

Já são dez anos que a Record Store Day entrou para o calendário oficial da música mundial. Desde 2007 o terceiro sábado do mês de abril é aguardado por milhares de colecionadores e fãs do vinil espalhados pelo mundo. Apesar do dia oficialmente focar nos Estados Unidos, Inglaterra e alguns outros países, o clima é de festa em muitas lojas de discos espalhadas pelo mundo. Claro que estamos incluídos no grupo de entusiastas! Você pode saber mais sobre a história da data e sobre seus embaixadores nos links que vamos deixar no final desse texto.

Elton John se divertindo e engordando a coleção de discos.

Em 2017, para comemorar em alto estilo essa primeira década, a Record Store Day nomeou ninguém menos que Sir Elton John como a grande lenda do evento. O músico inglês deu um depoimento inspirado (você pode assistir aqui embaixo, sem legendas) contando desde os seu primeiro 45 rotações, falou da emoção de ter o disco 17-11-70 reeditado em vinil durante o evento e ainda descreveu todas as sensações que envolvem aquele prazer característico dos colecionadores. Ressaltou a importância não apenas da sonoridade do disco de vinil – que segundo ele diz, já gravou em muitos estúdios desde o começo da sua carreira e que sim, o som do vinil é o melhor – mas também de todo ritual de escolher o disco e colocar a agulha para trabalhar. Ir às lojas de discos procurar o disco certo para o momento é outro momento ressaltado, diz ele “Eu amo lojas de disco, posso ir a uma em Las Vegas e gastar três horas lá. Apenas sentir o cheiro, dar uma olhada, a maravilha das memórias.”.

Além da nomeação à lenda do evento, a Record Store Day chamou a cantora St. Vincent para ser a embaixadora do evento esse ano. Muitos lançamentos estão previstos para o dia e vários colecionadores já estão fazendo as suas listas. Por aqui vamos comemorar com um acervo caprichado, descontos e muita música rolando durante o dia inteiro. Acompanhe nosso evento no facebook e não perca esse dia em que os fãs do bolachão se encontram para celebrar esse amor em comum.

Mais sobre a Record Store Day

A história da Record Store Day
Jack White & Record Store Day
Dave Grohl, embaixador de 2015

Joaquim Apresenta: Leonardo Panço

Para quem acompanha a cena da música independente e underground brasileira, desde os anos 90, é quase impossível não ter lido o nome de Leonardo Panço em algum fanzine. Naquela época ele tinha a banda Soutien Xiita, depois montou o selo Tamborete que revelou nomes como o Gangrena Gasosa e o Zumbi do Mato. Ainda nos anos 90 o cara tocava e coordenava a banda Jason, – ele conta as peripécias da banda pela Europa no livro Jason, 2001 uma Odisseia na Europa. Mesmo tendo selo e bandas para coordenar, Panço já queria escrever literatura – e escreveu em 2009 o Caras dessa Idade já não leem Manuais – e queria ainda mais. Logo que saiu da Jason, em 2010, continuou produzindo projetos próprios, publicando livros como Tempos e o mais recentemente Superfícies que une literatura, fotografia e música.

Passando por Curitiba para divulgar o Superfícies ele conversou com o Abonico Smith relembrando as peripécias do passado e falando sobre o momento atual e os trabalhos mais recentes. No primeiro episódio ele conta com detalhes como foi dar forma para o projeto do livro, unindo as imagens abstratas de superfícies, os textos curtos de epifanias do cotidiano e as faixas curtas que acompanham em CD. No segundo episódio eles conversam sobre a carreira musical do Panço, sempre unindo a produção escrita com a música, seguindo a tradição de cenas norte-americanas como a do hardcore de Washington D.C.

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PARTE 1

PARTE 2

Joaquim Apresenta: O Terno – Entrevista

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Apenas quatro anos separam o debut 66 dos paulistanos d’O Terno, o auto-intitulado O Terno (2014) e o recente Melhor do que Parece (também pelo selo/coletivo Risco), disco que chamou à atenção por influência sólidas nos anos 60 e 70 sem deixar de demonstrar autenticidade. Em entrevista para o nosso programa Joaquim Apresenta, Tim, Guilherme e Gabriel contam como o trabalho flui entre eles e como tudo vai ganhando contornos conforme o que vão ouvindo e dialogando. Quando Abonico Smith pergunta para Tim se o pai – Maurício Pereira que, junto ao André Abujamra, tinha a dupla Mulheres Negras – havia o influenciado de alguma forma, ele afirma que sim, que o pai sempre o incentivava a ouvir desde o clássico ao pop e sertanejo, dizendo não existir música ruim e sim formas diferentes de produzir.

Os três discos da carreira da banda deixam claras essas influências variadas aliadas à construção da maturidade dos integrantes. Se em 66 há a presença de letras irônicas e divertidas, somadas à uma sonoridade indie – bem animada e ritmada – o segundo disco já soa mais soturno e reflexivo. Em Melhor do que Parece são claras as influências do início da Motown e Rascals, tendo bastante do soul, perceptível logo na primeira faixa. As letras bem humoradas também estão presentes assim como as letras mais afetivas, ou melhor, como afirma Tim, mais “com o coração aberto”.

Veja a entrevista abaixo na íntegra, onde eles contam mais detalhadamente os processos de produção e a cena independente brasileira. Acompanhe também o trabalho da banda pelas redes sociais. O Terno lançou seus discos, também em formato vinil, pelo selo Risco e garante também um ótimo projeto gráfico.

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Ouça o disco na íntegra:

Desvendando “Blackstar”, último disco de David Bowie

“Há uma quantidade de estrelas negras no álbum…não apenas a estrela, de cinco, pontas, na frente. Elas simbolizam diferentes coisas na vida. Por exemplo, há a “roseta”, que parece um pouco com uma etiqueta de preço. Ou seja, ainda é um produto comercial; você ainda pode comprá-lo. Há a “estrela-guia”, a ideia de uma pessoa que você segue na vida ou algo espiritual que a música te dá. Portanto, há uma série de outras coisas disponíveis, não apenas na superfície, mas espero que as pessoas as vejam. E, também, não necessariamente de forma imediata.” Jonathan Barnbrook

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A morte de David Bowie, em 10 de janeiro de 2016, pegou todo o mundo de surpresa. Havia uma aura de eternidade ao redor do camaleão, talvez por sabermos que ele era formado por múltiplas personalidades significativas, desde o glam Ziggy Stardust ou a faceta mais introspectiva que viveu em Berlim, houve o sóbrio Thomas Jerome Newton – alienígena que veio a terra em busca de água – e thin white duck dos anos 80, sem contar o Bowie industrial, confortável na América, dos anos 90. Quando ouvíamos que poderíamos ser heróis, nem que fosse por apenas um dia, imaginávamos Bowie eternamente sumindo e aparecendo, sempre com uma nova faceta e novas ideias. Em 2013, quando voltou com The Next Day, vimos ele se desconstruir e dizer que estava, literalmente, pronto para a próxima jornada. Desde o fim de 2015 já se ouvia murmurinhos sobre a sequência desse retorno e no oitavo dia de 2016, o sombrio Blackstar já era comentado em todos os cantos do mundo.

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Blackstar já se apresentava clássico, o design de Jonathan Barnbrook era enigmático por si só, disco e embalagem toda preta, com uma estrela recortada na capa. Um álbum que flertava com o jazz e com letras poderosas e reflexivas já tinha todas as qualidades para ser histórico mas, infelizmente, se tornou mitológico por algo que ninguém esperava: a morte de David Bowie, dois dias depois do lançamento. Como toda a obra do artista nas últimas quatro décadas, tudo parece ter sido minuciosamente pensado, como se tivesse deixado uma mensagem de adeus exatamente na sua melhor forma, nos fazendo prestar atenção cuidadosamente na sua arte.

Com o passar dos últimos doze meses muitas descobertas foram feitas no entorno da versão impressa, em vinil, do disco Blackstar, mas, como bem diz o próprio designer, muitas ainda podem surgir, Bowie era incansável. Para celebrar essa obra-prima de despedida do camaleão vamos enumerar os segredos – compilados pela revista Spin – que os fãs descobriram ao longo do último ano. Se surgirem novas descobertas, com certeza vamos adicionar aqui. Hora de desempacotar o disco!

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LUZ REFLETIDA

Quando o vinil é exposto à luz, os lados refletem uma estrela, ou pelo menos é o que parece na imagem. Alguns fãs interpretaram como uma espaçonave ou mesmo um pássaro. Há uma boa possibilidade que seja apenas uma estrela. De qualquer forma, uma ótima ideia.

Crédito: Robert Matthews

Crédito: Robert Matthews

LUZ NEGRA

Toda a embalagem de Blackstar é preta e fosca, com alguns detalhes em verniz e um recorte, em formato de estrela, que expõe o vinil. Um fã descobriu que, quando exposta à uma luz negra, a estrela e os símbolos em verniz brilham, os deixando em evidência e lembrando aquelas estrelas fosforescentes que eram comuns serem coladas nos tetos de quartos.

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Essa é uma das descobertas mais específicas. Um fã descobriu que o tempo das faixas, na parte de trás da embalagem, foi escrita com uma fonte chamada terminal. Essa fonte é encontrada numa plataforma de design open source chamada…Lazarus! O nome da primeira faixa de divulgação do disco, com um clipe bem enigmático. O fã chega a questionar se Bowie estaria nos mandando uma mensagem. Será?

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BOWIE REFLETIDO

Esse achado pode ser mais uma feliz coincidência do que algo mais proposital. A embalagem de Blackstar é gatefold, ou seja, é uma capa dupla. De um lado da capa é possível ver estrelas – igual aquelas noites bonitas estreladas – e do outro lado, David Bowie em uma janela. Como qualquer superfície brilhante, ela reflete. Se você deixar a capa estrelada em determinado ângulo, com a da imagem do cantor na frente, poderá ver Bowie refletido nas estrelas. Muito bacana imaginar o Starman em meio às estrelas, não?

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B.O.W.I.E

Há fragmentos de estrelas, como se fosse um código, na capa do disco, logo abaixo da grande estrela recortada. Prestando atenção, dá para interpretar que as estrelas juntas podem ser lidas como BOWIE. Faz sentido, a estrela completa seria um “O”, a última um “E” e assim por diante. Um fã também lembra que esse disco é o único da carreira do camaleão a não ter o rosto dele na capa. Mesmo The Next Day, é a capa de Heroescom uma faixa em cima. Em Blackstar o cantor não está em imagem, mas em código. Ou melhor, como fragmentos de estrelas que continuam a brilhar no céu.

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STARMAN

Um dos fãs mais atentos passou horas observando a constelação que está na contracapa. Depois de muito olhar ele percebeu uma espécie de ligação entre as estrelas mais brilhantes e isso formaria um desenho rústico de uma pessoa, como um boneco de palitos. Para o fã, faria todo sentido, pois como era conhecido por Starman, nada incomum ter uma formação de estrelas inteirinha para ele.

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De qualquer forma, acreditando ou não em todas essas interpretações, o disco em vinil de Blackstar, o mais vendido em 2016, é um marco histórico para a música, para os fãs é a certeza da grandeza do camaleão musical e visual que era David Bowie.

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O Punk também é Negro!

“Eu não sou uma ‘punk negra’. Eu sou negra e gosto de punk”

Tasha Fierce, punk/escritora/ativista sobre a invisibilidade negra no punk

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H.R.,vocalista do Bad Brains no fim dos anos 70.

Há 40 anos o termo punk ganhava contornos como uma vertente importante na história, ate então recente, do rock. Na Inglaterra o Sex Pistols louvava a morte da rainha e o The Clash queria colocar fogo na capital da Inglaterra. Nos Estados Unidos os Ramones inauguravam a cena do famoso bar CBGB, de Nova Iorque, e louvavam o tédio dos adolescentes pós-flower poweR. O gênero vinha para dar atitude ao inconformismo dos jovens que não se reconheciam dentro do sistema. Através da música, das roupas e da cultura em geral, ele se sentiam empoderados para gritar, ovacionar e criticar o meio em que viviam.

Dessa forma o punk acabou se tornando uma subcultura que dialogou com uma infinidade de outras lutas sociais e ideológicas. Mesmo que os jornais, marcas de roupa e a mídia quisessem vender uma idéia única do que o movimento era – um monte de rebeldes sem causa, trajando roupas rasgadas e cabelos coloridos – ele foi muito além. Até hoje descobrimos submundos gerados pela influência do movimento e que reverberam em vários cantos do mundo e camadas sociais.

E se o Punk era sobre inconformismo e luta para desequilibrar um sistema que não representava minorias, era quase impossível que varios grupos étnicos e de Gênero não se sentissem finalmente próximos de um instrumento para dar voz às suas pautas. Por exemplo, no fim dos anos 80 graças à cultura do faça-você-mesmo e aos zines propagados nos anos 70, o movimento feminista riot grrrl encontrou no punk rock uma forma de discutir machismo, violência contra a mulher, sororidade e outros assuntos que vinham em diálogo com as garotas que gostavam do estilo, mas se sentiam excluídas dos meios repletos de homens. Apesar do pouco destaque para vários artistas negros, o punk rock também tem excelentes histórias para contar sobre o envolvimento deles fazendo som de protesto e luta. Muitos artistas foram pioneiros e lutaram em duas frentes: uma para sobreviver na própria cultura negra como estranhos e outra dentro da cena punk, que os colocava de lado. Esses artistas são além de vanguardistas, autênticos, rebeldes e engajados politicamente.

É um pouco da história dessas pessoas que queremos contar através de bandas do passado, do presente e de vários cantos do mundo. Queremos dar mais motivos para achar que o Punk não morreu e continua sendo uma forma necessária de dar voz à todo tipo de minoria. Prepare os fones, deixe as letras e os acordes simples entrarem no seu ouvido e seja contaminado pelo espírito revolucionário do Punk!

A Band Called (DEATH)

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Em 2012 o documentário A Band Called Death trouxe à tona a história de uma banda de Detroit, formada por irmãos, que no começo dos anos 70 fazia um som vanguardista para se chamar de Punk e muito mais ousado para ser apenas rock’n’roll. Vindos da periferia da cidade, os irmãos Hackney faziam um som totalmente diferente do que se esperava da comunidade negra, que na época vivia no entorno da Motown e do Soul. Eram influenciados por The Who, Alice Cooper, com a sujeira dos Stooges as letras que criticavam os políticos também filosofavam com a sua juventude. O Death se tornou cult no começo dos anos 2000 em círculso de colecionadores e hoje os irmãos – menos David, o mentor da banda, que já faleceu – fazem turnês pelo mundo e acabaram de lançar um novo disco, passando pelo Brasil no começo de 2016.

Poly Styrene e X-Ray Spex

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Poly Styrene, ou melhor, Marianne Joan Elliot-Said era filha de uma irlandesa com um somali e foi pioneira no Punk inglês. Como muitos adolescentes da época (basta lembrar do Joy Division e de toda cena de Manchester) , após assistir um show do Sex Pistols ela decidiu montar uma banda, o X-Ray Spex. A banda durou apenas três anos mas suficientes para Poly Styrene se tornar uma figura-chave no movimento inglês, não apenas como negra mas por ser mulher no front de uma banda punk, compondo e provocando com suas músicas.

Pure Hell

Os americanos do Pure Hell são frequentemente citados como a primeira banda totalmente formada por afro-americanos. Eram da Philadelphia e surgiram em 1974, no auge do movimento no eixo NY-Los Angeles-Londres. Eram grandes fãs do New York Dolls – inclusive andando com os caras e acompanhando shows – mas não fizeram muito sucesso na época, lançando seu único disco “Noise Addiction” vinte e oito anos depois. De qualquer forma, são lembrados como influência por bandas como o Bad Brains e pelo falecido Lemmy Kilmister, vocalista do Motörhead.

Bad Brains

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A sonoridade do Bad Brains, ainda nos anos 70, assustava tamanho era sua maturidade musical. A banda simplesmente influenciou o que viria ser o hardcore e outras vertentes do meio alternativo dos anos 80 e 90. A banda surgiu em 1977 em uma cena prolífica de Washington DC e misturava punk, soul, reggae e distorciam tudo que as pessoas esperavam por jovens negros seguidores do rastafári. O último disco é de 2012 e recentemente o vocalista H.R. foi diagnosticado com uma doença no cérebro, mas não afirmou se iria parar de cantar.

BANDAS CONTEMPORÂNEAS

Big Joanie (Inglaterra)

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O trio de garotas Big Joanie vem de Londres para provar que nem o punk rock e muito menos o riot grrrl morreram. Elas possuem o próprio selo Sista Punk Records e não escondem sua maior motivação: fazer música para que os jovens negros possam se sentir representados. A baterista Chardine é ativista e recentemente falou em um TEDtalk sobre a importância do crescimento da cena punk negra, intitulado de “Como o punk me tornou uma feminista negra”.

TCIYF (África do Sul)

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O TCIYF é da cidade de Soweto e uma banda cheia de atitude para além da cara malvada dos membros em fotos. Como parte de um coletivo de skatistas, a banda surgiu como uma forma de rejeição aos estilos populares na África do Sul como o hip-hop e o kwaito, que eles não se sentem representados. E o que é melhor para mostrar o inconformismo além de montar uma banda Punk?

Project Black Pantera (Brasil)

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Apesar do nome em inglês o Project Black Pantera (Projeto Pantera Negra) é brasileiro e foi formado em 2014, em Uberaba, nas Minas Gerais. Mais uma banda que derruba por terra o que o senso comum espera de caras usando rastafáris subindo em um palco. O trio mistura o peso do thrash metal, rapidez e letras ao melhor estilo hardcore. Os caras cantam em português e a primeira faixa de divulgação, intitulada “Rede Social”, faz uma crítica ao uso das redes sociais para alimentar o próprio ego.

Crystal Axis (Quênia)

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O que mais impressiona no Crystal Axis é a qualidade das composições e gravações que correm a internet. A banda é uma das primeiras de punk que se tem notícia na cidade de Nairóbi, no Quênia, mas desde 2013 não deu mais notícias. Flertando com o post-punk, música instrumental e letras reflexivas, a banda inaugurou uma cena importante no país, esperamos que incentive muitas outras bandas.

Revista “Leite Quente” e as peculiaridades de Curitiba

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Curitiba é uma cidade que inspira à criação de períodicos, suplementos culturais, fanzines e afins. Desde que Dalton Trevisan criou a Revista Joaquim na década de 40, a capital do Paraná engatou uma publicação atrás da outra. Foram Raposas, Nicolaus, Rascunhos e hoje Relevos e Cândidos – entre outros – circulam por além dos limites da cidade. O ritmo se mantém e parece sempre deixar uma semente para que quando algum título sair de circulação, outro apareça na sequência. No fim dos anos 80, logo de cara trazendo um Leminski mostrando as garras, surge a Leite Quente – expressão que denota o sotaque da região – a fim de mostrar à outros cantos do país do que Curitiba é feita e do que se alimenta.

Primeira edição da Leite Quente com Leminski

Primeira edição da Leite Quente com Leminski

A revista, que infelizmente hoje é pouco encontrada além da Casa de Memória de Curitiba e alguns sebos, teve sua primeira edição em 1989 – a qual já falamos aqui – e define bem o que seriam as nove próximas edições, sem uma periodicidade exata, mas que seguiriam firmes até 1992. O periódico era editado por Maí Mendonça, na época diretora de Patrimônio Cultural na Fundação Cultural de Curitiba e contava sempre com um assunto que norteava um ensaio escrito por um ou mais convidados, quase sempre de forma descontraída e linguagem coloquial, dialogando com o leitor como em uma conversa casual em que um morador da cidade apresenta as excentricidades aos visitantes.

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A Leite Quente seguiu após a estreia com Leminski e o pequeno tratado sobre o modo de falar do curitibano que afeta todos os seus costumes, incluindo os mais banais, como comprar uma cachorro-quente na rua. Nos dois anos seguintes tratou de assuntos peculiares como as famosas duas nevascas na cidade e o frio que molda o humor do curitibano, o comportamento do mesmo quando desce ao litoral levando na mala a carranca e suas maneiras urbanas, até um divertido e bonito ensaio fotográfico dos perfis dos curitibanos famosos.

Depois de tratar da linguagem do curitibano – e dos paranaenses em geral – os dois próximos editoriais trataram da formação cultural da cidade influenciada pelos estados do sul. Apesar de um pouco de exagero e saudosismo no 2º número intitulado de Passe a cuia, chê, fazendo uma extensa revisão da história dos gaúchos na cidade, a terceira edição, falando dos “catarinas” – um modo até simpático de tratar os migrantes do estado vizinho – abre com um Manoel Carlos Karam divertido, contando que estava indo para Nova Iorque em 1966 e sua pernoite na cidade já durava 23 anos.

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Número sobre a influência catarinense no Paraná.

A imagem que ilustrou a edição Os Catarinas do Paraná é a da divisa entre os estados e o trem Rápido Sul-Brasileiro que circulava entre eles, foto de Domingos Fogiatto, fotógrafo conhecido pelos registros clássicos do Paraná. A imagem é figurativa já que os dois estados já estiveram em disputas de território e a divisa sempre será a lembrança do início do século XX. A edição conta com ensaio de Deonisio da Silva, escritor, etimologista e um típico catarina em Curitiba.

A 4ª edição, intitulada de A Cidade sem mar voltou com Manoel Carlos Karam, dessa vez com um ensaio completo, sobre o comportamento do curitibano quando desce para o litoral. Karam era conhecido por seu tom irônico e divertido e justamente com esse humor peculiar do escritor e dramaturgo a edição arranca muitos risos, mesmo de quem não vive na capital paranaense, mas que também não é nenhum bicho de praia. Karam conta uma informação muito útil para quem um dia pretenda vir para Curitiba: por aqui só existem duas estações, o inverno e a rodoferroviária. A ilustração Mar imáginário na Praça Tiradentes, que estampa a capa – talvez a mais bela entre as edições – é de Abrão Assad e mostra ao fundo a Catedral Basílica de Curitiba e a praça Tiradentes, imersos numa enorme onda. A cidade não tem mar, mas o imaginário dá conta do recado.

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Curitibano não tem mar mas se diverte também.

“Eis aí um tema de tese. Existe sol em Curitiba? A cidade sem mar é obrigatoriamente uma cidade sem sol? A cidade com ano de duas estações – inverno e rodoferroviária – não tem direito a sol? Não há sol no inverno, mas há sol na rodoferroviária. Um enorme sol pintado na traseira dos ônibus da Graciosa, a empresa que tem linhas de Curitiba para o litoral. O curitibano leva o sol nas costas ao fazer o trajeto Curitiba-Atlântico.” (p.8, Dez. 89)

Engatando no fato do curitibano ser mal acostumado com o calor, o 5º número da Leite Quente estampou na capa um boneco de neve feito na mitológica nevasca de 1928. O ensaio ficou por conta da jornalista Rosirene Gemael, conhecida por atuar no jornalismo cultural do Paraná. É bacana perceber o bom humor em mais uma edição da revista, pois Rosirene consegue nesse ensaio definir – e assumir – o motivo do famoso mal humor curitibano: o frio. Mas calma lá, ela também deixa claro que a neve é capaz de aquecer o coração do curitibano e elevar o seu humor, aumentando a lista de excentricidades da cidade.

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Só existem duas estações em Curitiba: frio e a rodoferroviária.

Nada é mais peculiar ao curitibano que o frio. Homens da metereologia, transeuntes que soltam fumacinhas pela boca, anônimos e estatísticos que morrem pelas ruas (na verdade, em qualquer época do ano), pediatra, pneumologista, cobradores de ônibus lotado pedindo um passinho para trás, os engenheiros e arquitetos que não planejam casas e apartamentos voltados para o sol e farmacêuticos que garantem o melhor antigripal, são figuras típicas dessa Curitiba com apenas duas estações. Rosirene apresenta inclusive um vocabulário de expressões muito úteis para esse período do ano como banho de gato, veranico, chuva de molhar bobo e expressões como cerração baixa, sol que racha.

“Que a cidade não espere coerência e lealdade do frio. Definitivamente ele não é o melhor amigo do homem. É volúvel. E extremamente frívolo. Vem, se instala, se esparrama, se atreve ao máximo e de repente, sem aviso prévio some, para voltarem seguida, mais violento do que nunca.” (p.21, julho de 90, número 5)

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Atlético Paranaense ou Coritiba?

Depois de tratar das duas peculiaridades mais populares do curitibano – o frio e a falta de intimidade com o mar – o 6º número da Leite Quente trouxe um assunto caro à qualquer capital e cidade brasileira: o futebol. Com textos de vários autores e ilustrações do cartunista Solda, Atletiba Literário foi uma edição que conta a rivalidade dos dois principais times da cidade, na epoca, o Atlético Paranaense e o Coritiba. Escritores atleticanos e coxas – além de outros indefinidos quanto à identidade futebolística da cidade – contam suas peripécias quando o assunto é explicar o futebol de Curitiba e como lidam com isso. A edição é criativa a ponto de trazer capa dupla – uma vermelha e outra verde, claro – e assim o leitor pode começar a leitura pelo seu time favorito.

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Sobre as mocinhas da cidade.

O 7º número da revista auto intitula-se bem ao estilo de Dalton Trevisan: As Mocinhas da Cidade. As personagens femininas da sociedade curitibana, alocadas num contexto ao longo do século XX, são descritas pela escritora e bibliotecária Maria Thereza Brito de Lacerda. Ela faz um completo ensaio contando sobre como era ser uma jovem mulher entre as décadas de 40 e 50. O relato acaba denunciando uma cidade com costumes bastante provincianos e repleto de outros que mais parecem – hoje, pelo menos – um manual teatral de boas maneiras para mocinhas comportadas.

Os três últimos volumes da Leite Quente, já adentrados na década de 90, tratam de assuntos mais contemporâneos da cidade. A 8ª capa conta com o ensaio Nariz, Retratos de um Perfil Curitibano, da fótografa Vilma Slomp sobre – literalmente – os perfis curitibanos. O time clicado trazendo nomes como Poty Lazarotto, Ariel Coelho, Hélio Leites e Sylvio Back, tiveram seus perfis comentados por amigos e outras figuras conhecidas de Curitiba. Um aspecto interessante é a escolha que cada convidado fez para tratar dos perfis. Valêncio Xavier optou por um poema em prosa ao descrever Ariel Coelho, já outros preferem usar as lembranças e sentimentos para declarar um carinho ou mesmo respeito e admiração por uma pessoa. As fotografias de Slomp revelam muito sobre cada homenageado, parecendo que ela observou atentamente cada um e os fotografou em ângulos que realmente revelassem muito sobre o fotografado.

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O nariz e o perfil dizem muito sobre o espaço geográfico.

O 9º talvez seja o mais crítico dos 10 números da revista. Intitulado de Curitiba vista por um pé-vermelho, a edição conta com um ótimo ensaio – e fotos – do jornalista Nilson Monteiro, um pé-vermelho, ou seja, como são conhecidos os habitantes do norte do Paraná por conta da terra vermelha encontrada por lá. O olhar de Nilson tem um viés mais realista do que já contavam as outras edições. Monteiro analisa a Curitiba do ínicio dos anos 90 com um olhar de quem já não vê somente a cidade do futuro proposta nos anos 70 e 80. Trata de uma Curitiba mais urbanizada, a mesma que ganhou prêmios pelo mundo afora, não deixando de ser Brasil, abrigando pessoas do mundo todo e com todas as mazelas de um grande centro urbano como infra-estrutura e problemas de habitação na cidade e na região metropolitana. Nilson já comenta nesse ensaio que Curitiba parece a capital da buzina, denunciando um dos problemas mais persistentes nos últimos 20 anos, o trânsito impaciente. Claro que nem tudo são críticas, ele faz excelentes imagens e comenta sobre a organização da cidade, mas sempre com um olhar sincero e necessário de estrangeiro, encantado e impressionado.

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Olhando Curitiba com olhos maus críticos.

A última edição da Leite Quente, com o título de Noite Quente traça um paralelo sobre o que era “curtir” a noite em 1956 e o que isso significava em 1992. Escrito por Paulo Roberto Marins, ele faz um levantamento baseado em crônicas escritas nesse período. Desde bares a bórdeis conhecidos, botecos onde se bebe uma cerveja nas ruas a figuras típicas depois das 18h, a edição homenageia outra face de Curitiba, a cidade mutante e que conta uma história em cada esquina.

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É na noite que captura-se histórias.

Assim como boa parte de capitais e cidades maiores, Curitiba é uma cidade formada muito além das pessoas que nasceram por aqui, uma cidade de pessoas que escolheram ficar. Um dos motes mais presentes nas 10 edições da Leite Quente é a figura do estrangeiro, do personagem que vai se tornando curitibano e ganhando aspectos comuns da cidade. Um catarina que aqui ficou, um gaudério que estava passando, um pé-vermelho que só veio tirar umas fotos, ou ainda paulista, nordestinos e mais recentemente haitianos, todos completam essas características que formam a cidade. O mais bacana de revisitar todas as 10 edições da Leite Quente é perceber que ela consegue abarcar dois lados de Curitiba: um primeiro sobre a formação da cidade, seus costumes, seus mitos e linguagens e um segundo que traça uma linha no horizonte de que como a cidade iria se desenvolver depois dos anos 90 e ainda se mostra mutante todos os dias. Se você for uma dessas pessoas que quando passa um tempo em algum lugar gosta de se sentir personagem do espaço, tente encontrar algum volume da revista, provavelmente você se sentirá mais à vontade para pedir um cachorro-quente com duas vinas na Praça Tiradentes, irá abrir um sorriso em dias de muito frio com sol ou mesmo estender um pano quando passear em algum parque. Curitiba é feita de várias facetas, já diria Leminski no primeiro número da Leite Quente “Não admito viver numa cidade artificial” e os 10 volumes dão conta de mostrar que a cidade é naturalmente cheia de peculiaridades.

Agradecimento à Casa de Memória da Fundação Cultural de Curitiba por ceder as imagens de capa da Leite Quente e fornecer as revistas para leitura e escrita desse texto.

Confissões de um viciado em música: David Bowie

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Em uma matéria da revista Vanity Fair, de 2003, David Bowie foi convidado a falar de alguns de seus álbuns favoritos. De uma coleção de aproximadamente 2,500 discos o camaleão contou que muita coisa havia se perdido e nem tudo tinha sido possível fazer cópias em CD. Decidiu elencar 25 – sem ordem de preferência ou gênero – que remontavam a lembranças afetivas ou grandes descobertas.

Na lista que você vai ler abaixo, figuram nomes clássicos como James Brown, Syd Barret e Velvet Underground – vistos de novas perspectivas – até nomes esquecidos pela crítica e meios especializados, mas pioneiros em vários sentidos. Fique numa posição confortável para ler essa lista do camaleão. Tenha uma caneta e papel em mãos e se prepare para uma viagem de descobertas musicais que comprovam que Bowie tinha um ouvido aguçado e sabia realmente usar as referências como ninguém.

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THE LAST POETS

THE LAST POETS
(1970, Douglas)

Um dos pilares do rap. Todas as habilidades narrativas dos “griot”*, estilhaçadas em ira, apresenta um dos discos mais políticos para causar na lista da Billboard. Falando em rap (O quê?), posso pegar carona nessa grande leva com a coletânea de 1974 “The Revolution will not be televised” (Flying Dutchman), que reúne o que há de melhor do formidável trabalho de Gil Scott-Heron.

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SHIPBUILDING

ROBERT WYATT
(1982, Rough Trade)

Não é um álbum e sim um EP de 12’ polegadas. Todavia, um disco. A bem recebida e implacavelmente contagiante música escrita com Elvis Costello, e a interpretação de Wyatt é definitiva. Desoladora – reduz homens fortes a garotinhas chorosas.

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THE FABULOUS LITTLE RICHARD

LITTLE RICHARD
(1959, Specialty)

Excepcionalmente moderadas, estas performances foram gravadas por Richard em suas primeiras sessões na Specialty, a maioria em 1955. Esse disco me foi vendido com desconto pela Jane Greene. Mais sobre ela depois.

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MUSIC FOR 18 MUSICIANS

STEVE REICH
(1978, ECM)

Música de gamelão [instrumento musical javanês semelhante à marimba] balinês travestida de Minimalismo. Vi isso ao vivo no centro de Nova Iorque no fim dos anos 70. Todos com camisas brancas e calças pretas. Tendo acabado uma turnê em camisas brancas e calças pretas, imediatamente reconheci o grande talento e bom gosto de Reich. A música (e os ginastas envolvidos em executar a proposta “tag-team” de revezamento) me admirou. Surpreendente

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THE VELVET UNDERGROUND & NICO

THE VELVET UNDERGROUND
(1967, Verve)

Trazido de NY por um ex-empresário meu, Ken Pitt. Pitt fez alguns trabalhos de relações públicas e isso o colocou em contato com a Factory. Warhol havia dado para ele essa versão sem capa, prensada como teste (Eu ainda a tenho, sem selo, apenas um pequeno adesivo com o nome do Warhol nele) e disse, “Você gosta de coisas estranhas – veja o que acha disso”. O que eu “achei disso” foi que isso era a melhor banda do mundo. Em Dezembro daquele ano, minha banda Buzz terminou, mas não sem o meu pedido de tocarmos “I’m waiting for the Man” como uma das músicas no bis do nosso último show. Surpreendentemente, não apenas fui o primeiro a fazer cover do Velvet antes de qualquer um no mundo, fiz isso antes do disco sair. Isso sim é a essência do Mod.

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TUPELO BLUES

JOHN LEE HOOKER
(1962, Riverside)

Em 1963, eu trabalhava como artista comercial júnior em uma agência de publicidade de Londres. Meu chefe, Ian, um modernista estilo a la Gerry Mulligan – cabelo curto e botas Chelsea – foi bastante encorajador para minha paixão pela música, algo que ele e eu compartilhávamos e costumava me mandar em tarefas na loja de discos Dobell’s Jazz, na rua Charing Cross, sabendo que eu ficaria lá a maior parte da manhã, até depois do horário de almoço. Foi lá, nos escaninhos, que achei o primeiro disco do Bob Dylan. Ian me mandou lá para achar um disco do John Lee Hooker para ele e me aconselhou a pegar uma cópia para mim, pois era maravilhoso. Dentro de semanas meu parceiro George Underwood e eu havíamos mudado o nome de nosso pequeno conjunto de R&B para Hooker Brothers e incluímos no nosso set a “Tupelo” do Hooker e a versão do Dylan de “House of the Rising Sun” . Adicionamos bateria em “House”, achamos que estavámos fazendo alguma espécie de inovação musical, e ficamos de cara quando o Animals gravou a música que teve recepção assombrosa. Lembre-se, tocamos nossa versão ao vivo apenas duas vezes, em clubes pequenos ao sul do Tâmisa, na frente de mais ou menos 40 pessoas, nenhum deles era do Animals. Não foi roubo, então!

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BLUES, RAGS AND HOLLERS

KOERNER, RAY AND GLOVER
(1963, Elektra)

Comprado na Dobell’s [famosa loja de discos, especializada em folk, blues, jazz e world music de Londres que funcionou entre os anos 1950 e 1980]. À sua maneira, “Spider” John Koerner foi uma influência para Bob Dylan, com quem costumava tocar nos cafés de Dinkytown, a parte artística nos arredores da Universidade de Minnesota. Derrubando as fracas vocalizações dos trios “folk” como o Kingston Trio e Peter, Paul e O-quê-fosse, Koerner e companhia mostraram como isso deveria ser feito. Primeira vez que ouvi um violão de 12 cordas.

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THE APOLLO THEATRE PRESENTS: IN PERSON! THE JAMES BROWN SHOW

JAMES BROWN

(1963, King)

Meu antigo colega de classe Geoff MacCormack trouxe esse para minha casa numa tarde, ofegante e animado. Ele disse “Você nunca na sua vida ouviu algo como isso”. Fui ver Jane Green naquela mesma tarde. Duas das músicas desse álbum, “Try Me” e “Lost Someone” se tornaram vagas inspirações da “Rock & Roll Suicide” do Ziggy. A performance de Brown no Apollo ainda permanece para mim como uma das mais excitantes de álbuns ao vivo de todos os tempos. A música Soul agora tinha um rei indiscutível.

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FORCES OF VICTORY

LINTON KWESI JOHNSON
(1979, Mango)

Uma contribuição anglo-caribenha para a história do rap. Esse cara escreveu algumas das mais emocionantes poesias da música popular. A dolorosamente triste “Sonny’s Lettah (Anti-Sus Poem)” vale sozinha o valor do reconhecimento. Apesar de não cantada, a palavra falada vai ao encontro da excelente banda, esse deve ser um dos discos mais importantes de reggae de todos os tempos. Eu dei o meu original recentemente para o Mos Def, em quem vejo conexões com Johnson, pensando já ter cópia disso em CD. Droga, não tenho. Então agora eu estou procurando uma cópia por toda parte.

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THE RED FLOWER OF TACHAI BLOSSOMS EVERYWHERE: MUSIC PLAYED ON NATIONAL INSTRUMENTS

VARIOUS ARTISTS
(1972, China Record Company)

Como você pode não amar música com seleções intituladas “Delivering Public-Grain to the State” ou “Galloping Across the Grasslands” (um verdadeiro batida, aquela). Independente dos títulos parecerem com sobras de um disco do Brian Eno, estas faixas são na verdade maravilhosos exemplos de música folclórica tocada com instrumentos tradicionais. Comprei cerca de 20 dez polegadas diferentes desse gênero a preços ridiculamente baixos na Chinese Woodblock Print Fair em Berlim no fim dos anos 70. A arte da capa ostenta uma barragem hidroelétrica inteligente e de aparência altamente funcional, semelhante mas presumivelmente menor que aquela que agora está inundando centenas de vilas em ambos os lados do glorioso rio Yangtze. Mesmo assim, belos tons pastéis, e elegante impressão em branco e dourado.

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BANANA MOON

DAEVID ALLEN
(1971, Caroline/Virgin)

É possível, que as vertentes do embrionário glam começaram aqui. Eu coloquei para tocar isso essa manhã e foi espantoso ouvir algo que soa como Bryan Ferry e Spider from Mars (juntos, finalmente) na primeira faixa, gravado exatos dois anos antes dos “oficiais” lançamentos glam de qualquer um dos dois protagonistas acima mencionados. Não há, entretanto, dúvidas sobre a grande influência de Allen e seu companheiro de banda Robert Wyatt nas mais “elevadas” camadas do pop com sua unidade multifacetada, o Soft Machine. Banana Moon tornou-se o passo de transição solo de Allen para depois formar o lunático Gong. Wyatt também veio a ter uma longa e respeitosa carreira solo, intermitentemente trabalhando com o ex-Roxy Brian Eno.

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JACQUES BREL IS ALIVE AND WELL AND LIVING IN PARIS

CAST ALBUM
(1968, CBS)

Na metade dos anos 60 eu estava tendo um vai-e-volta com uma maravilhosa cantora e compositora que havia sido namorada de Scott Walker. Para o meu desgosto, a música de Walker tocava dia e noite no apartamento dela. Infelizmente perdi o contato com ela, mas inesperadamente mantive um carinhoso e admirável grande amor pelo trabalho do Walker. Um dos autores que ele fez cover num dos seus primeiros álbuns foi Jacques Brel. Isso foi o suficiente para me levar ao teatro para pegar o álbum quando veio para Londres em 1968. No momento que o elenco, liderado pelo tradutor rústico e noturno do Brooklyn Mort Shuman, chegava na música que tratava dos caras que faziam fila para suas injeções contra sífilis (“Next”), eu estava completamente convencido. Por meio de Brel, descobri a canção francesa como revelação. Aqui estava uma forma de canção popular onde poemas como os de Sartre, Cocteau, Verlaine e Baudelaire eram conhecidos e adotados pela população em geral. Não hesite, por favor.

electrosoniks

THE ELECTROSONIKS: ELECTRONIC MUSIC

TOM DISSEVELT
(1960, Vendor Philips)

Este é um daqueles álbuns estranhos lançados pelas gravadoras para exibir aquele estéreo moderno. Apenas que, aqui a Philips optou por uma pioneira dupla de holandeses, Tom Dissevelt e Kid Baltan. Como exploradores sonoros esses dois estão no mesmo grau de Ennio Morricone, mas mais excêntricos. Eu adoraria um mix 5.1 desses absurdos. As anotações do encarte nos informam que “chimpanzés estão pintando, gorilas estão escrevendo”. Bom trabalho.

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THE 5000 SPIRITS OF THE LAYERS OF THE ONION

THE INCREDIBLE STRING BAND
(1967, Hannibal)

OK, aqui está o álbum com a capa mais viajada. As cores estão em todo lugar, um verdadeiro deslumbre para os olhos. Provavelmente executada pelo grupo artístico conhecido como “The Fool.” Basicamente trancado em uma cápsula do tempo por muitos anos – é animador descobrir que esse estranho apanhado de coisas místicas do folk do Meio Leste e Celta se mantém memoravelmente bem até hoje. Um festival de verão obrigatório nos anos 60, eu e o T. Rex Marc Bolan somos grandes fãs.

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TEN SONGS BY TUCKER ZIMMERMAN

TUCKER ZIMMERMAN
(1969, Regal Zonophone/EMI
)

Aí está um título com transparência. O cara é qualificado demais para o folk, na minha opinião. Diplomas em teoria e composição, aluno do compositor Henry Onderdonk, bolsa em Fullbright, e ele quer ser Dylan. Um desperdício de um talento incendiário? Não na minha opinião. Eu sempre achei esse álbum de austeras e raivosas composições cativante, e muitas vezes me pergunto, o que será que aconteceu com ele? Tucker, um americano, foi um dos primeiros artistas produzidos pelo meu amigo e co-produtor Tony Visconti, também americano, depois de se toparem em Londres. Porque será que ele sumiu? Ah, é, ele tem um website. Mora na Bélgica. Pesquisem sobre ele.

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FOUR LAST SONGS (STRAUSS)

GUNDULA JANOWITZ
(1973, DG)

Como “aquele livro”, este é um álbum que continuamente dou para amigos e conhecidos. Embora Eleanor Steber e Lisa della Casa façam boas interpretações deste trabalho monumental, a performance de Janowitz para Four Last Songs do Strauss foi descrita, merecidamente, como transcendental. Ela dói como amor por uma vida que está apagando silenciosamente. Eu não conheço outra música, nem outra performance, que me comove tanto quanto essa.

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THE ASCENSION

GLENN BRANCA
(1981, 99Records)

Comprado em Zurich, Suiça . Essa foi uma compra impulsiva. A capa me pegou. Robert Longo produziu o que essencialmente é a melhor capa dos anos 80 (e além, alguns diriam). Misteriosa no sentido religioso, angústia da Renascença vestida de Mugler. E por dentro… Bem, o que a princípio soa como a dissonância é logo assimilado como uma peça sobre as possibilidades de sobretons de guitarras em massa. Não exatamente Minimalismo – ao contrário de La Monte Young e seu trabalho dentro do sistema harmônico, Branca usa os sobretons produzidos pelas vibrações de uma corda de guitarra. Amplificados e reproduzidos por muitas guitarras simultaneamente, você tem um efeito parecido com o drone de monges budistas do Tibet , só que muito, muito mais alto. Duas figuras-chave na banda de Branca eram o compositor David Rosenbloom (do incrível Souls of Chaos, 1984) e Lee Ranaldo, figura fundadora junto com Thurston Moore do grande Sonic Youth. Ao longo dos anos, Branca ficou ainda mais barulhento e mais complexo que isso, mas aqui na faixa-título seu manifesto já está completo.

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THE MADCAP LAUGHS

SYD BARRETT
(1970, Harvest/EMI)

Syd sempre será o Pink Floyd para alguns de nós, fãs mais velhos. Ele fez esse álbum, reza a lenda, estando frágil e precariamente fora de controle. Malcolm Jones, um de seus produtores na época, nega veementemente. Confiarei em Jones, pois ele estava lá. A faixa de destaque para mim é “Dark Globe”, gloriosamente perturbadora e mordaz de uma só vez.

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BLACK ANGELS

GEORGE CRUMB
(1972, Cri)

Comprado em Nova Iorque no meio dos anos 70. Provavelmente uma das únicas peças para concerto inspiradas pela Guerra do Vietnã. Mas também é um estudo de aniquilação espiritual. Eu ouvi esta peça pela primeira vez no período mais sombrio do meus próprios anos 70, e fiquei muito apavorado. Na época, Crumb era uma das novas vozes no mundo da composição e Black Angels uma de suas obras mais caóticas. Ainda é difícil para mim ouvir isto sem uma sensação de pressentimento. Realmente, às vezes, soa como a própria obra do diabo.

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FUNKY KINGSTON

TOOTS & THE MAYTALS
(1973, Dragon)

Se você se considera meio louco por reggae, você terá esse, obviamente. Toots Hibbert me conquistou com sua poderosa “Pressure Drop”, contribuição para a trilha sonora de Harder They Come no começo dos anos 70. Seguiu então este fantástico e verdadeiramente álbum funky em 1973. Eu estava morando em uma rua fora da bastante gentrificada Cheney Walk em Londres, e pela primeira vez comecei a receber reclamações de vizinhos em relação ao volume no qual eu ouvia meus discos, esta belezura sendo a principal culpada. Hibbert, a propósito, afirma ser “o Inventor do Reggae”. Boa, Toots.

5.0.2

5.0.2

DELUSION OF THE FURY

HARRY PARTCH
(1971, Columbia)

Comprado em Londres na HMV, Oxford Street. Eu tenho apenas uma vaga memória de quando eu ouvi falar desse cara pela primeira vez. Eu acredito que foi Tony Visconti, meu produtor de muitas vezes, que me deu a dica. Um tipo maluco e certamente uma vez sem-teto, Partch passou a inventar e fazer dúzias dos instrumentos mais extraordinários. (Quando foi a última vez que você viu alguém tocando o Bloboy, o Eucal Blossom, ou o Spoils of War? Como você afina um Spoils of War? Eu penso.) Então, entre os anos 30 e 70, ele escreveu incríveis e evocativas composições para os instrumentos, seus temas variando de mitologia a dias pegando trens durante a Depressão. Delusion representa o melhor resumo do que Partch fazia. Por vezes bastante assustador e positivamente arrasador. Tendo escolhido um caminho musical que fugia dos compositores mainstream, ele definiu a base para pessoas como Terry Riley e La Monte Young.

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OH YEAH

CHARLES MINGUS
(1961, Atlantic)

No começo dos anos 60, Medhurst’s era a maior loja de departamento em Bromley, [Bromley é um distrito, bairro de Londres] . Em termos de estilo, eles seriam pulverizados por seus competidores, que estocaram antecipadamente a nova mobília “G-Plan” de estilo escandinavo. Mas Medhurst’s tinha uma fantástica seção de discos, liderada por um maravilhoso “casal”, Jimmy e Charles. Não existia um lançamento americano que eles não tinham ou não podiam ter. Era tão descolada quanto qualquer estabelecimento londrino. Eu teria tido uma jornada musical bem seca se não fosse por esse lugar. Jane Greene, a assistente de caixa, acabou gostando de mim, e sempre que eu aparecia, que era quase todas as tardes depois do colégio, ela me deixava tocar discos na “cabine musical” à vontade até a loja fechar às 17h30. Jane quase sempre se juntava a mim, e nós dávamos uns amassos ao som de Ray Charles ou Eddi Cochran. Isso era bem excitante, pois na época eu tinha uns 13 ou 14 anos e ela era uma mulher de 17. Minha primeira mulher mais velha. Charles me deixava comprar com um enorme desconto, me permitindo construir uma coleção fabulosa ao longo dos dois ou três anos em que eu frequentei a loja. Dias felizes. Jimmy, o parceiro mais jovem, me recomendou esse disco do Mingus certo dia por volta de 1961. Eu perdi minha cópia da Medhurst, mas continuei a re-comprar as edições com o passar dos anos, já que era re-lançado de tempos em tempos. Nele há a faixa bastante singular “Wham Bam Thank You Ma’am.” Também foi a minha introdução à Roland Kirk.

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LE SACRE DU PRINTEMPS

IGOR STRAVINSKY
(1960, MFP/EMI)

Para mim, um clássico exemplo dos olhos fazendo a compra. Desculpe a piada. No final dos anos 50, a Woolworth’s produziu uma série barata de álbuns clássicos em seu selo Music for Pleasure. Eu encontrei esse nas prateleiras e fiquei tão encantado com a foto da montanha (Ayres Rock em Austrália, como descobri) que era impossível resistir. Com a ajuda das anotações no encarte, que eu achei incrivelmente iluminadoras, eu quase podia construir minha própria dança imaginada para esse fantástico pedaço de música. O tema ostinato para as quatro tubas é um riff tão poderoso quanto qualquer outro encontrado no rock. Antigamente na minha então vida curta, eu havia comprado The Planets Suite do Gustav Holst, motivado por assistir uma tremenda série sci-fi na BBC chamada The Quartermass Experiment detrás do sofá, quando meus pais achavam que eu tinha ido para cama. Após cada episódio eu voltava para meu quarto nas pontas dos dedos, rígido de medo, de tão poderosa que a ação parecia para mim. A música titular era “Mars, the Bringer of War”, então eu já sabia que música clássica não era um tédio.

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THE FUGS

THE FUGS
(1966, ESP)

As anotações no encarte foram escritas por Allen Ginsberg e contém estes perenes trechos: “Quem está no outro lado? Pessoas que pensam sermos maus. Outro lado? Não, não façamos disso uma guerra, todos nós seremos destruídos, nós sofreremos até a morte se escolhermos a Porta da Guerra.” Eu achei na Internet o texto de uma propaganda de jornal para o Fugs, que, junto com o Velvet Underground, tocou no April Fools Dance e Models Ball no Village Gate em 1966. O FBI tinha os na lista como “The Fags.” Essa com certeza foi uma das bandas underground mais liricamente explosivas. Não eram os maiores músicos do mundo, mas o quão “punk” era tudo aquilo? Tuli Kupferberg, co-compositor do Fugs e performer, em colaboração com Ed Sanders, acaba de finalizar o novo álbum do Fugs enquanto escrevo. Tuli tem 80 anos.

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THE GLORY (????) OF THE HUMAN VOICE

FLORENCE FOSTER JENKINS
(1962, RCA)

Entre a metade e o final dos anos 70, Norman Fisher, colecionador de arte e pessoas [sic], realizou as festas noturnas mais diversas de toda Nova Iorque. Pessoas de todos os setores do assim e não tanto avant-garde se aglomeravam em seu pequeno apartamento no centro, simplesmente porque Norman era um imã. Carismático, divertidíssimo, e brilhante em apresentar todas as pessoas certas para as pessoas erradas. Seu gosto musical era tão efervescente quanto ele mesmo. Duas de suas recomendações me marcaram ao longo dos anos. Uma foi Manhattan Tower, o primeiro musical de rádio por Gordon Jenkins (sem relação com Florence), e a outra The Glory (???) of the Human Voice. Madame Jenkins era tão rica, sociável, e devota à opera. Ela possuía – e era alegremente inconsciente disso – o pior par de cordas vocais no mundo da música. Ela agraciava Nova Iorque com sua voz monstruosa uma ou duas vezes por ano, com recitais particulares no Ritz-Carlton para uns poucos sortudos. Tão populares eram esses eventos que os ingressos eram vendidos a preços exorbitantes. Para atender à demanda, Madame contratou o Carnegie Hall. Foi a grande bilheteria daquele ano, 1944. Todo mundo e Noël Coward estavam lá, caindo pelos corredores, em histerias mal contidas. Ao interpretar a canção “Clavelitos”, Madame, que chegava a mudar de roupa três vezes durante um recital, ficou tão compenetrada pontuando as cadências da música, atirando pequenas flores vermelhas de uma cesta, que a própria cesta, entusiasmada, seguiu as flores em direção ao colo de um fã maravilhado. Tenha medo, tenha muito medo.

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