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Livros & Discos

Notas sobre a Literatura Contemporânea (1)

Boa parte das discussões em torno da literatura produzida nos últimos 20 anos ficam no entorno da afirmação que nada mais se criou e que o discurso romanesco do século XIX perdeu fôlego, principalmente por flertar tanto com outras linguagens. Mas para os leitores ávidos não existe nenhum enfraquecimento, pelo contrário, a sensação é de que nunca houve tanta produção e proliferação de escrita ficcional. Vivemos o chamado boom dos novos escritores, tanto no Brasil como na literatura mundial e pensando nessa enorme teia de possibilidades e leituras que o blog do Joaquim vai trazer e indicar – em formato de notas – o estilo de alguns desses autores que tornam a Literatura do Presente tão interessante e necessária de leitura. Cada vez serão apresentados dois autores, um brasileiro e um internacional, e uma de suas obras.

Desde dos seus primórdios, a literatura é uma arte que funciona como leitura de realidade e a forma que o escritor decide trabalhar esse real é uma escolha muito particular e interessante. No Brasil, principalmente no período que se iniciou nos anos 90, a produção literária passou a ser mais fragmentada, curta e direta. O urbano e as mazelas desse espaço geográfico em um país de tantas desigualdades, passaram a ser o cenário e as personagens de boa parte da produção nacional.

Marçal Aquino é um dos nomes inicializadores desse estilo mais cru e voltado aos anti-heróis sociais trazendo narrativas extremadas de linguagem direta e instigante. Todos os personagens são criaturas do urbano e do cansaço cotidiano e sempre há uma dubiedade nestas figuras, não sabemos da sua natureza, elas oscilam entre serem os mocinhos e os bandidos e é nesse aspecto que reside a instigação na leitura.

Atualmente, a coleção Má Companhiada editora Cia das Letras surgiu com a intenção de relançar e tornar acessível a literatura dita como marginal, tanto nacional como mundial. Sendo que o termo marginal pode se referir à dificuldade desses autores a divulgarem suas obras ou ainda ao estilo de narrativa e personagens serem referenciados pelas margens sociais, o selo dá início relançando obras consideradas clássicas no estilo.

O romance O Invasor (Cia das Letras, 2011),de Marçal Aquino, é o primeiro nome a ser colocado em prática pela Má Companhia. O livro é de 1997, foi adaptado para o cinema pelo diretor Beto Brant e é de fato uma obra-referência do que seria feito anos depois pela geração chamada de 00. A narrativa da obra é formada por uma rede de intrigas e desentendimentos totalmente não alheia ao leitor que fica imerso na velocidade dos acontecimentos.

Ambientado em São Paulo, O invasor narra a história de três engenheiros, sócios numa construtora, que entram em conflito no momento em que são convidados a participar de uma falcatrua. Dois deles decidem eliminar o sócio que atrapalha os negócios, sem imaginar que estão colocando em movimento engrenagens que irão tragá-los num pesadelo de ambição, culpa e violência. Com certeza um livro imperdível e que abriria espaços para novos trabalhos do escritor/roteirista e afins.

Veja o booktrailer do livro:

Já em âmbito mundial, a literatura não segue tanto essa necessidade dos países emergentes na verborragia das questõe sociais. A maioria dos escritores são um pouco mais velhos que os atuais Brasileiros e transitam entre a realidade e a ficção de formas extremamente interessantes e de certa forma mais oníricas em relação ao hiperrealismo nacional.

Um dos nomes mais em voga é o catalão Enrique Vila-Matas, que esteve recentemente no Brasil. As suas obras são uma mescla de ensaio, crônica jornalística e novela. A sua literatura, fragmentária e irônica, dilui os limites entre a ficção e a realidade. Um dos aspectos mais interessantes de Vila-Matas é trazer á tona todo tipo de referência para que o leitor possa se situar mais confortavelmente dentro da narrativa. Cineastas, escritores e frases que aludem outras obras são recorrentes em boa parte da obra ficcional do catalão.

Suicídios Exemplares (Cosac Naify,2009)é o quinto trabalho de Vilas-Matas e uma das obras mais interessantes dele. Funcionando como itinerário irônico sobre o suicídio, a obra é composta por vários contos sobre o ato não consumado do suicídio. Paras as personagens criadas pelo catalão, mais difícil que se matar é justamente abandonar, em vida, a obsessão pela morte em si.

A ironia permeia cada conto que compõe a obra e muitos dos elementos, tais como referências literárias, obsessão pelo nada e ironia, se apresentam como futuros elementos tipicamente vilamatianos. Suicídios Exemplares é um ótimo ínicio para se prender no estilo do espanhol que desde, a década de 70, vêm reformulando muitos conceitos literários, justamente fazendo o que há de mais contemporâneo na literatura hoje: viver intensamente o hibridismo usando todas as referências e vivências cotidianas, usando a realidade como personagem e plano de fundo.

Como falar da produção literária atual sem falar das inúmeras influências que um escritor sofre hoje? Sem citar as formas de hibridização que a palavra escrita vem aplicando? Ou ainda, a estética do papel com o design e a migração – e em muitos casos, a oscilação entre um e outro – do papel para o multimídia?

Os dois livros citados nesse post – entre outros dos autores – estão disponíveis na Joaquim Livraria & Sebo, não deixe de conferir! E aguarde outras notas sobre a Literatura produzida no agora.

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