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90 anos da Semana de Arte Moderna (1922)

Talvez hoje você conheça nomes como Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Pagu e etc. como clássicos que você estudou na escola. Esses nomes, há 90 anos atrás, causaram furor na cultura – e modo de vê-la – brasileira dando inicio a um movimento que ficou conhecido como Modernismo, envolvendo a Literatura, as Artes Plásticas e a música brasileira.

A semana de Arte Moderna aconteceu em São Paulo no Teatro Municipal, que naquele momento tinha apenas 10 anos de existência e era costumeiramente frequentado pela elite paulista que ia assistir espetáculos estrangeiros. Foram três dias (13, 15 e 17 de fevereiro de 1922) de encantamento e estranhamento vivenciados na capital paulista que ainda não compreendia muito bem o que significava as manifestações dos jovens intelectuais.

Os três dias daquele ano foram apenas um marco dentro de um movimento que se iniciou antes mesmo de 1922 e se estendeu até pelo menos a década de 1970, como analisa alguns estudiosos do assunto. O movimento foi definido pela necessidade de ruptura com a influência, em demasia, das movimentações artísticas europeias e necessidade da criação de uma cultura propriamente Brasilieira.

Uma das cabeças idealizadoras foi o escritor Oswald de Andrade que foi conhecido por ser o mais alarmante e experimentalista do grupo. Recém-chegado da Europa o escritor voltou ao Brasil vociferando sobre o atraso cultural do país já que para os lados europeus as vanguardas estavam causando revoluções. Claro que na época, Oswald não foi único jovem a voltar do antigo continente e perceber que o Brasil apenas assimilava a cultura de lá e juntando um grupo de artistas determinados deram luz ao que viria a ser aquela semana de 1922, algo como a afirmação de uma cultura tupiniquim.

Tupi or not Tupi, uma sociedade pau-brasil e práticas de antropofagia cultural são apenas algumas das características determinadas pelos jovens modernistas que queriam a todo custo uma cultura que definisse bem os – até aquele momento – 400 anos de história do país. Várias obras foram marcantes nesse momento como o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, que abriu portas para a literatura com polifonia, inovação narrativa e linguística. Macunaíma é um herói sem caráter que representa um povo sem identidade, que apenas assimila o que e onde está. Além dessa caricatura crítica do personagem, o livro é rico de folclore, lendas e mitos brasileiros com interessantes releituras.

As mulheres escritoras também começaram a mostrar suas caras e opiniões. Uma expoente no assunto foi Pagu (Patrícia Galvão), amante e posterior mulher de Oswald de Andrade, uma revolucionária de carteirinha. O seu primeiro romance Parque Industrial é considerado um marco inicial na literatura proletária e tem intensa ambientação na classe operária e sua geografia enraizada no cenário industrial paulista no bairro do Brás.

Talvez tenha sido nas Artes Plásticas que houveram as maiores críticas ao Modernismo pois era justamente nesse ramos que as vanguardas européias se destacavam. Antes mesmo de 1922, a pintora Anita Malfatti foi duramente criticada por Monteiro Lobato que dizia que o trabalho dela era uma réplica dos estilos europeus misturado com uma perturbação mental. Já Tarsila do Amaral se focava num sentido mais afetivo da pintura, sem deixar de ousar como fez nos retratos biográficos (abaixo Mário de Andrade) e com significações dentro do movimento Antropofágico e Pau-Brasil (quadro Antropofagia).

Já na música o maior representante do momento foi Heitor Villa-Lobos que causava sentimentos confusos à plateia que o escutava, eram aplausos misturados às vaias que não compreendiam os motivos de se juntar música clássica com tambores indígenas. Sendo que justamente essas junções fariam a carreira do pianista extremamente fecunda no exterior, sendo considerado um dos maiores do mundo.

Mas há algumas polêmicas quando se remonta as causas que deram vez às manifestações de 1922. Como toda boa revolta, aqueles três dias foram organizados às pressas e sem um sentido bem definido, sabia-se apenas que o Brasil precisava mostrar o que tinha de próprio na arte. As leituras de poesia e trechos de romances foram tanto ovacionadas quanto vaiadas pois muitas obras rompiam com o estilo vigente dos cânones. O recém-lançado, pela editora Companhia das Letras 1922: A semana que não terminou, do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, traz uma minuciosa viagem pelos detalhes daquela semana mostrando que tudo funcionou de forma dual, como por exemplo, o patrocínio do evento dos revolucionários artistas foi justamente dos ricos da sociedade do Café de São Paulo. O cafeicultor Paulo Padro foi o maior mecenas do artistas modernista, o antropologo Gilberto Freyre o descrevia como ¨o maior caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde¨ no Brasil, pois o empresário assinava prefácios de obras e se se sentia muito à vontade em meio aos revolucionários.

Independente das motivações – e até as formas que se deram – a Semana de Arte Moderna de 1922 foi um dos marcos mais importante na cultura brasileira. Depois disso, as Artes como um todo passaram a ter suas próprias manifestações e estilos sempre assumindo um jeitinho brasileiro de criar. De fato, é uma semana que não teve fim e esperamos que ela continue rendendo frutos e reflexões parra além do seu centenário.

Você encontra aqui na Joaquim todos os livros que ilustram esse post. Inclusive o catálogo Percurso Afetivo da mostra sobre a Tarsila do Amaral que aconteceu no MON em 2008.

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2 opiniões sobre “90 anos da Semana de Arte Moderna (1922)

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