JOAQUIM

Livros & Discos

Com a palavra: Mulheres

¨Não se nasce mulher, torna-se mulher¨ Simone de Beauvoir

Mesmo que a data de 08 de março tenha sido marcada no ano de 1857 com a morte de mulheres trabalhadoras em Nova York, em protesto por melhores condições de trabalho, a figura feminina sempre teve suas representantes controversas, representações de força e coragem em várias áreas. Cada época da História documentada houveram mulheres firmes de suas convicções que deixaram um legado imensurável em escritos, pinturas, fotografia e em tantas outras áreas.

No Brasil, devido ao atraso em questão de publicações próprias, ensino formal e uma dominação masculina mais ferrenha, o pouco que se encontra sobre mulheres escrevendo no século XIX pode ser lido em livros como o belo trabalho Escritoras Brasileiras do século XIX, em dois grandes volumes organizados por Zahide Muzart e editado pela Editora Mulheres. Uma tarefa árdua de compilação que já caracteriza os sinais de vitalidade e necessidade de ruptura por parte das mulheres nesse período.

No século XX, com a Semana de Arte Moderna trazendo à tona a necessidade de mudanças para as artes e até comportamento, muitas mulheres despontaram com seus trabalhos. Desde Pintura, Literatura, Moda e indo até outros movimentos como os sindicais e etc, a Mulher já não queria ser uma figura simplória e queria estar lado a lado com os homens. Desse primeiro período já falamos de Pagu com o seu Parque Industrial (1933) inaugurando uma visão sobre o proletariado paulista e iniciando um novo momento para as mulheres escritoras.

A partir da década de 30 o número de mulheres se destacando cresceu ainda mais, muitos movimentos feministas floresciam e o papel da mulher diante a família ia contornando outros caminhos. No Brasil vamos ter mulheres fortes, mesmo que diferentes entre si, produzindo uma literatura intima e com incríveis identidades. E para começar é impossível não falar de Clarice Lispector.

Nascida na Ucrania a escritora veio cedo para o país e viveu boa parte de sua vida por aqui. Clarice escrevia para qualquer mulher, tamanho o teor de consciência feminina de seus livros. Diferente de Pagu, que escrevia sobre a mulher e o social, Lispector escrevia com o íntimo, tratando das questões mais existenciais do ser feminino. Em Paixão segundo G.H., por exemplo, ela consegue criar quase um tratado completo de uma mulher e o seu sentido de ser através de devaneios íntimos. A escritora tinha a capacidade de questionar sentimentos aparentemente banais com um profundidade muito tocante.


Enquanto Clarice Lispector era íntima e densa, Hilda Hilst era explosão pura. Dona de uma liberdade só dela, alcançou obras excelentes nas áreas que se propunha escrever: teatro, poesia e ficção. Em Fluxo-Floema, a primeira obra em prosa da escritora, há tudo de visceral que poucas mulheres haviam se dado ao luxo antes. São cinco textos num espécie de devaneio psicodélico onde tudo pode tomar rumos inesperados e Hilda se sentia muito à vontade de ora falar de sentimentos e logo usar uma linguagem mais escatológica para o leitor se desconcertar. A escritora ficou conhecida por sua intensidade poética, sedutora e ousada.


E falando de sedução nossa memória sempre encontra o nome da francesa Anais Nin, que carregava o conteúdo erótico aliado a uma psicanálise freudinana como um estilo seu. Com certeza, a franco-cubana foi uma forte referência a muitas escritoras do século XX por conseguir tratar o sexo na literatura sendo extremamente delicada. Em Delta de Vênus: História Eróticas a escritora recebeu uma encomenda misteriosa e construiu histórias sensuais que se passam num ambiente europeu-aristorático onde algumas crenças são quebradas através de experiências sexuais.

Aliás, a liberdade é uma das bandeiras flemulantes da maioria das escritoras que mais guardamos apreço. Desde Pagu, Clarice, Hilda e até Anais, que mesmo casada se manteve livre para outras relações como o famoso caso com Henry Miller. Mas talvez a maior representante do conceito libertário de viver tenha sido Simone de Beauvoir. A escritora francesa, que estudou filosofia e foi uma grande representante do Existencialismo, manteve durante boa parte de sua vida uma relação aberta com Jean-Paul Sartre, além de ser uma feminista convicta. Em A Mulher Desiludida, Simone traz em três novelas mulheres de meia idade em crises pessoais. Marcada pelo existencialismo carregava muito de si nas personagens e questionava o papel da mulher na sociedade, principalmente como a outra da relação e seu papel no meio familiar.

Como é difícil escolher apenas algumas mulheres sensacionais desse mundo de palavras! Ok, não vamos esquecer das incríveis poetisas que parecem falar com a gente ao pé do ouvido. As duas que escolhemos são reflexos e construções de tantas outras e você vai perceber como elas vão criando laços e vamos acabar relacionando muitas outras mulheres.

Elizabeth Bishop era americana mas quando chegou ao Brasil para passar um breve feriado acabou ficando por cerca de 20 anos, apaixonada pela arquiteta Lota de Macedo Soares. Bishop foi a porta voz de muitos poetas brasileiros traduzindo grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sua poesia, escrita em língua inglesa, era cheia de sentimento e bastante autobiográfica. No Brasil escrevia belos poemas sobre a paisagem e a forma que via as festas e o comportamento do povo.

A brasileira Ana Cristina Cesar também era uma poetisa apaixonada. Mas diferente de Bishop, que tinha uma leveza e otimismo nas palavras, Ana já era mais confessional e parecia que levava até as últimas consequências suas palavras. Foi uma das representantes da poesia marginal e seu estilo se construiu quando ficou um período fora e voltou contaminada pela poesia de Sylvia Plath e Emily Dickinson, levando sua influência até as últimas consequências, cometendo suicídio em 1983.

Todas as mulheres que citamos – reiterando que deixamos muitas de fora – percebe-se uma força além. Todas carregavam um estigma que faziam questão de expor em palavras ora densas, ora frias, sentimentos elevados em últimos graus. Mulheres que abdicaram de planos de vida perfeitos para doarem suas vidas à uma arte que aliviava suas angústias: a arte da palavra.

Difícil mesmo enumerar todas essas figuras incríveis que fazem nossa imaginação ir longe em tantos momentos. Que não somente em datas específicas, com uma motivação tão triste, possamos para observar, ler e lembrar de mulheres incríveis.

“A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.” (Elizabeth Bishop)

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