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Só é possível filosofar em Alemão

É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão

(Caetano Veloso, em Língua)

Já disse Caetano e temos que concordar com a premissa de que se você quer saber um pouco mais sobre os grandes estudos do pensamento humano, vai se deparar com algum sobrenome quase impronúnciavel vindo da terra da Oktober Fest. O pensamento alemão mantém um histórico firme por mais de três séculos e constrói toda uma tradição em torno das áreas de filosofia, sociologia e pensamento crítico. Contando com boas universidades desde o século XVII dá destaque a vários estudos, começando lá com Leibniz, um garoto prodígio – era doutor aos 20 anos – e que desenvolvia estudos matemáticos e de lógica, ao lado de Isaac Newton desenvolveu o cálculo moderno.

Foi no século XVIII que a coisa engrenou mesmo, ainda influenciados pelas ciências mais naturais, mas já tocados por um senso crítico, nessa época se destacam os estudos de Immanuel Kant e Georg W.F. Hegel. O primeiro teve dois períodos bem distintos de produção: um pré-crítico bem ao estilo dogmático e impenetrante de ideias e outro denominado crítico, influenciado por Hume com teor questionador. Já Hegel sofria de racionalismo crônico – fazendo um pouco de jus ao estilo alemão – trabalhava com categorias e relações de racional e o real, para ele toda a realidade era justificável. O pensador tinha ideias tão firmes que gerou uma corrente intitulada de Hegenialismo que mais tarde influenciou outras linhas – umas mais e outras menos ortodoxas – inclusive o Marxismo.


Aliás, Karl Marx, juntamente com o parceiro Friendrich Engels, talvez formem uma das figuras mais pops do pensamento alemão, afinal, até hoje suas ideias ecoam pelo pensamento político-social mundo afora. Marx era basicamente um teórico social e político que se sentia tocado pela relação do homem com o trabalho e o emergir do capitalismo. Em O Capital fez uma profunda análise da trajetória humana até o capitalismo chegando numa sociedade de classes, como chamava. Desde cedo, Marx preocupa-se com a exploração do homem no trabalho. A creditava que a classe operária se levantaria contra esta exploração e se tornaria sujeito de sua existência e não apenas um peão na mão do capital. A idéias de Marx viria a influenciar profundamente muito do futuro pensamento alemão, como a Escola de Frankfurt já no século XX.


Mas antes de Marx e o pensamento alemão beberem de águas políticas e basicamente sociais haviam de um lado outros contribuidores para o pensamento humano que discutiam sobre o papel do homem perante a própria vida. Arthur Schopenhauer, nomeado por Nietzsche como o Cavaleiro Solitário, foi o primeiro a ousar uma abordagem entre a filosofia e o pensamento oriental, ditando, inclusive, ideias para se alcançar ao Nirvana com jejum, castidade e solidão. Claro que havia um tom de melancolia e um certo mau humor por ele que não via muito sentido nas pessoas lutarem para viver, afirmava que a força se encontrava na negação e acreditava que o mundo é uma representação individual. O A Arte de conhecer a si mesmo é uma bela pedida para conhecer mais sobre o filósofo já que conta com uma série de anotações dele reunidas postumamente sobre suas reflexões cotidianas.


E é esse senhor casmurro que vai influenciar muito um dos filósofos mais polêmicos, Herr Friendrich Nietzsche. Criado por uma família extremamente religiosa iniciou seus estudos em filologia muito cedo, fatores que o levaram a ler muitos autores que o fizeram questionar totalmente o papel da religião na sociedade e na formação de caráter. Os assuntos preferidos do filósofo eram a tragédia grega e a música e acabaram por permear muito a obra dele. Em Além do Bem e do Mal, que ele considerava uma de suas grandes obras, ele faz um apanhado geral de todos os seus temas recorrentes como o perspectivismo, a vontade de poder e suas ramificações, a crítica da moralidade, a psicologia da religião e a definição de um tipo de homem nobre.

Interessante notar que até meados do século XIX a filosofia alemã nascia dentro das universidades mas não era de cunho acadêmico propriamente dito pois Schopenhauer, Marx e Nietzsche são leituras fáceis de se encontrar e podem ser consideradas até populares. Já no século XX o academicismo surge com mais força, principalmente com o advento da Escola de Frankfurt.

Grupo da Escola de Frankfurt

O último século marcou a Europa profundamente, duas guerras foram suficientes para que o velho continente abalasse suas estruturas incluindo o campo intelectual. A Alemanha manteve seu status e tradição no campo do pensamento pois vinham de pelo menos dois séculos de estudo fortificadores. Em 1924 nasceu a Escola de Frankfurt, um anexo da Universidade da cidade que foi responsável pelos últimos grandes momentos do pensamento alemão.

A Escola de Frankfurt reunia filósofos e cientistas sociais de mentalidade marxista que cultivavam a chamada Teoria Crítica da Sociedade. Grandes nomes que estudamos hoje como Walter Benjamim, Theodor Adorno e Herbert Marcuse faziam parte desse grupo que se preocupava em pensar a futura sociedade. Criticavam tanto o capitalismo quanto o socialismo soviético já que o último se mostrava bastante utópico, buscavam alternativas cabíveis no contemporâneo.

Horkheimer e Adorno

O trabalho não era mais o centro da discussão de dominação, surgia nesse momento uma crítica à qualquer mecanismo de alienação de massa e questionamentos culturais que foram ganhando fortes correntes no decorrer do século. Todos os filósofos tinham laços tanto com teorias e a academia quanto com a a Arte.
Adorno, por exemplo, estudou música e escrevia muito sobre isso, Walter Benjamin era tradutor, escrevia literatura e suas teorias literárias são muito interessantes. É extremamente válida a leitura da trilogia Obras Escolhidas, que saiu por aqui com uma ótima tradução de Sergio Paulo Rouanet e mostra toda versatilidade de Benjamin, além de uma leitura agradável já que ele via tudo através do ato da experiência e a considerava formadora.

Como bem se sabe, a Segunda Guerra Mundial foi um enorme divisor de águas para a Alemanha e a Europa que não voltariam a ser os mesmo lugares. A maior parte do grupo, na Escola de Frankfurt, era de origem judia o que os fez migrar para vários países. Benjamin acaba se suicidando numa dessas mudanças, já que carregava um espirito mais romântico e menos categórico e os outros rumaram primeiramente para Genebra e acabaram se instalando de fato nos Estado Unidos, na Universidade de Columbia, em Nova York.


É nesse período que os autores da Escola recebem uma atenção redobrada pois passam a publicar em inglês o que nos permitiu ter conhecimento de boa parte dos estudo críticos. Somente em 1953 a Escola de Frankfurt voltou a ter a sede na Alemanha e Adorno prosseguiu sua missão de transformação dialética da racionalidade do Ocidente, na sua obra Dialética Negativa e garantiu por mais um tempo o seu nome e o da tradição. Recomendamos a leitura de Minima Moralia, escrito por Adorno nesse período exilado e que é uma reunião de aforismos sobre suas ideias.

Marcuse fica nos EUA e fortalece seus estudos na preocupação com o racionalismo e os avanços tecnológicos, influenciou decisivamente muitos movimentos pacifistas e insurreições estudantis típicas do começos dos anos 70. De certa forma a Escola de Frankfurt como conhecida, se desfragmenta mas deixando muitos discípulos que escrevem assiduamente até hoje.

Agora você entende um pouco esse anseio do Caetano dizendo que só podemos filosofar em alemão? Claro que há muitos outros filósofos sensacionais na Alemanha e em breve vamos falar mais sobre o controverso Heidegger. Dê uma passadinha aqui Joaquim (ou mande um e-mail) para saber mais sobre a nossa estante de filosofia que está recheada de figuras que nos fazem entender o nosso papel por aqui. Até lá!

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