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Minha classe gosta Logo é uma bosta

¨pequeno nos contos, enigmático no romance, dogmático nos ensaios, toupeira na poesia, escrachado no Haikai e torrencial na verbosidade do ainda indefinido Catatau¨

Essa é uma breve definição do pesquisador-leminskiano Ildefonso Mello, um dos membros do Grupo de Estudos Catatau, que se encontra no SESC Paço da Liberdade, em Curitiba, para se debruçar sobre a obra do tudoaomesmotempo Paulo Leminski.

Muito se pode dizer da existência de grupos pesquisadores que se levam bastante a sério fora da academia e o Grupo de Estudos Catatau é um desses. Em terças-feiras alternadas desenvolvem um estudo muito pertinente na obra completa de Leminski onde um dos objetivos centrais dos encontros é elaborar uma metodologia para escrever um livro sobre a obra do escritor. E isso sem lançar mão das questões da importância dessa obra hoje ou da figura do escritor como mito dentro das livrarias, sebos e meios literários.

Toda a produção de Paulo Leminski é objeto de estudo. Desde as traduções em várias línguas – lembrando que ele já traduziu desde o japonês de Mishima até o latim de Petrônio – poesia, haicais, artigos de opinião, música e colaboração do escritor em meios de grande circulação como zines, suplementos e jornais.

Numa pesquisa tão minuciosa, de um homem que estava o tempo todo produzindo ou se envolvendo em algo, é claro que surgem algumas produções inesperadas ou que não tenham tido tanta atenção na época. É o caso de um texto intitulado Minha classe gosta logo é uma bosta no suplemento cultural Raposa Magazine, que circulava na década de 80 e que Paulo Leminski colaborou, sendo a primeira essa de edição número 0 em que ele assina a capa que foi publicada em dois momentos. Um texto divertido sobre a raposa, uma bela introdução do que seria o suplemento durante 12 edições recheadas de bons autores e ilustradores.

Considerada uma novela, Minha classe gosta logo é uma bosta saiu em novembro de 1981 e hoje é bastante rara. O texto traz a voz do Leminski inventivo, rápido, pouca pausa e atirando para todo o lado. Uma crítica ferrenha a sua própria geração e no que ela se transformaria num futuro próximo. Leminski abusa das referências e, brincando com o subtítulo la capitulação de um nuvô romã, segue à risca as atitudes do movimento francês Nouveau Roman em quebrar todas as ligações com a escrita clássica.

School is out forever, grita a contracultura, a escola acabou para sempre, e soa engraçado num país que ainda não teve escola para todos. Colonizados até os ossos. O colonizado importando tudo – até a revolta contra a metrópole.

Permissividade anárquica. Contra o horário. O salário. O emprego. A carreira. A gravata. O cabelo curto. O serviço militar. A caretice.

Slogan. Um homem sempre certo, quanto ao principal. Um homem pânico. Privada Joke. Um homem pálido de anos e anos num país sem sol, a História da Literatura Universal. Pisa de leve sobre o chão da cidade que viu nascer, crescer e negar. De leve, bem leve. Quase voando. Minha poética por uma política!

Mesmo que esse texto, do inicio da década de 80, tenhas suas particularidades bem Leminskianas, ainda faz parte de um número de escritos que circulam fora do eixo comum das obras de Paulo Leminski. E isso já prova mais um pouco das propostas, bastante únicas, desse curitibano que já nessa época era multimidiático (veja o que já escrevemos sobre ele e o grafite)

O Grupo de Estudos Catatau também tem encontros abertos ao público, então se você tem algum material, comentário ou simplesmente quer saber como andam os estudos, participe! O grupo conta com nomes que conviveram com o escritor e entusiastas da obra munidos de boas ferramentas querendo descobrir se a filosofia de Paulo Leminski ainda é pertinente e se ele era um homem ou simplesmente um mito dentro da livraria.

Capa da edição número 0 da Raposa Magazine com texto de Paulo Leminski

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Uma opinião sobre “Minha classe gosta Logo é uma bosta

  1. meus parachoques, a todos os que se juntam nessa torre de espreita,caçando o brilho do Leminski. O Leminski é o seguinte:

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