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E aí Gilles, Deleuze?

A brincadeira com um dos grandes nomes pós-estruturalistas é para ilustrar a força da França no pensamento moderno, um passado que ecoa nas definições filosóficas contemporâneas. Depois de tratarmos da Alemanha e o pensamento dos séculos XVIII, XIX e XX, com a sua influente Escola de Frankfurt, vamos tratar da romântica e inspiradora França como berço e mantenedora do pensamento moderno e pós esse período que ainda age fortemente na academia mundo afora.

Nem só da beleza de Paris viveu a França até hoje. Não basta sabermos que a capital foi moradia para muitos escritores, poetas e artistas vanguardistas do seculo XX. Além de toda magia – um tanto ao estilo de Woody Allen – a França foi o berço dos primeiros questionamentos da situação de escuridão que vivia a sociedade européia com a Idade Média e a Era das Trevas. Aí que entra na história um letreiro grande com os dizeres Cogito, ergo sum proferida pelo simpático senhor de franja, René Descartes, o pai da dúvida.

Se hoje parece exagerado o conceito de que devemos duvidar de tudo para entendermos nosso papel na sociedade, na época foi um belo “chutar o balde” para que as luzes voltassem a funcionar. Era o primeiro passo para a chamada era do Iluminismo, uma espécie de estufa para o pensamento moderno. O método cartesiano consiste na dúvida das coisas que não sejam objetivas e claras, aliás, o questionamento é a base do pensamento de Descartes, considerado o pai do pensamento moderno e com certeza um grande impulso para que a França se tornasse um verdadeiro celeiro de questionamentos influenciadores.

Em Discurso Sobre o Método, de 1637, narrado em primeira pessoa, Descartes relata a sua busca de um método para desenvolver a sua própria tradição de produção de conhecimento. Lido até hoje e amplamente discutido acabou influenciando muita gente, incluindo, por exemplo, Paulo Leminski que usa a voz de Descartes no livro Catataupara narrar os seus métodos, caso viesse parar no Brasil – lembrando que ele fez parte do grupo de Maurício de Nassau, que deu o start para a colonização de Recife.

Mesmo que Descartes tivesse colocado a dúvida na jogada, ele tinha lá suas limitações como com as regras sociais onde ele achava que a razão não deveria influenciar. E aí que um grupo que se considerava Iluminista resolveu duvidar de tudo mesmo, incluindo as normas sociais e claro, a religião que comandava tudo até ali. Então que o século XVII e XVIII foram essenciais para as luzes da razão e a quebra de tradições que oprimiam a vida social e a construção de uma chamada maioridade intelectual.

Jean-Jacques Rosseau foi um dos representantes franceses do movimento e duramente criticado principalmente por suas opiniões religiosas, acreditava que cada homem deveria encontrar sua fé conforme o seu coração. Cartas Escritas da Montanha é um dos pontos altos da sua produção intelectual em que ele revela certa mágoa em relação às condenações que suas obras receberam e medita sobre as tradições de seu lugar de origem, a Suíça.

Mas foi o século XX, com suas guerras e dúvidas quanto ao futuro, que a França mostrou ser um terreno fértil para o pensamento moderno. Vindos de três séculos de revolução e questionamento, com o Iluminismo influenciando momentos decisivos como a Revolução Francesa e Americana, a academia francesa já tinha sua própria tradição intelectual que ia formando grupos bastante influentes no pensamento moderno.

liberdade, igualdade e fraternidade

O Existencialismo talvez tenha sido uma das correntes mais fortes, que perdurou por quase todo o século XX e ainda hoje influencia muitas produções. Marcado por colocar sobre os ombros dos homens o peso de suas ações, o Existencialismo valoriza a liberdade do ser de cada um, não culpando uma suposta essência. Para Jean-Paul Sartre a existência precede a essência, primeiro existimos e entendemos nosso contexto e depois passamos a construir nossa essência fundada em nossas próprias decisões.

Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir

Sartre e cia. influenciaram muito as gerações pós-guerras que foram marcadas por um sentimento de vazio e confusão após se encontrarem numa Europa devastada. Juntamente com grandes nomes como Albert Camus e Simone de Beauvoir o existencialismo se tornou uma forte corrente cultural, influenciando a literatura, a música e até a moda.

A Segunda Guerra Mundial foi um marco também para a propagação dos estudos europeus na América. Assim como foi com os alemães e a Escola de Frankurt, os anos entre 1940 a 1945 foram extremamente interessantes para os franceses. Depois da Guerra muitos estudiosos foram publicados na América ganhando uma grande visibilidade e permitindo a formação de um novo terreno para a academia americana, incluindo por exemplo a ideia de publicação de Anais de textos, tipico da academia francesa.

Uma das características mais interessantes do pensamento francês moderno é a capacidade dos intelectuais abrangerem um número de áreas diversas e conseguir alternar entre elas de forma muito coerente. Michel Foucault, por exemplo, estudou filosofia e psicologia e uniu as duas de forma brilhante como em História da Loucura, considerado o pontapé de seu trabalho, Vigiar e Punir ou com a História da Sexualidade, projeto inacabado devido sua morte prematura. Em todos os estudos de Foucault a relação de poder é que dita as movimentações dos trabalhos e trabalhando com diferentes objetos conseguiu construir uma obra plural e profunda.

Gilles Deleuze foi um grande amigo de Foucault que mesmo não trabalhando junto com ele compartilhava de muitos conceitos e ideias em comum. Acreditava que a filosofia era uma eterna criação de conceitos, ele mesmo era um criador prolifico de termos – máquinas-desejantes, corpo-sem-órgãos, desterritorialização, rizoma e etc – mas nunca os considerou como donos de verdades, apenas uma visão particular. Produziu bastante em parceria com Felix Guattari, como por exemplo, Mil Platôs em que enfatizam a prudência em processos de experimentação para que estas não acabem caindo à regras morais. Deleuze também usou o cinema para expor suas ideias de imagem-movimento e imagem-tempo.

A produção do pensamento pós-moderno é a que mais ecoa na academia atualmente, principalmente por ser uma produção ativa e como citado antes, extremamente prolifica e plural. Jacques Derrida, um dos filósofos mais procurados, é o pai da ideia de Desconstrução e junto com outros pensadores vai dar tom aos estudos pós-estruturalistas e pós modernos de linguagem e literatura. Derrida afirma uma teoria de decomposição dos elementos de um texto para que cada parte possa ser analisada separadamente e com sua própria força e aí sim o texto ser tratado como um todo. A Escritura e a Diferença é um livro que reúne um bom panorama da obra do pensador com artigos e conferências no entorno de suas teorias e ideias.

Outro pensador, transeunte de temas e extremamente contemporâneo, é Roland Barthes conhecido na semiótica, fotografia e inclusive na Moda. Desenvolveu estudos e teorias em todas as áres em que signos fossem elementos fundamentais e relacionados ativamente com o leitor, observador ou espectador. O Sistema da Moda e Mitologias são apenas duas obras que podem ilustrar levemente a produção desse francês que colocava no papel cada pequeno incômodo que lhe surgia à mente.

Outro filósofo que discute a moda de forma muito interessante é Gilles Lipovetski que trabalha com as ideias de efêmero e vazio numa sociedade que considera hipermoderna. Em Império do Efêmero, ele busca elaborar um caráter libertário para a moda afim de que se torne um signo que anuncia o surgimento de democracia.

Parece que Penso, Logo Existo de Descartes, foi realmente levada a sério pelos seus sucessores franceses. A lista de nomes é grande e colocamos no nosso hall apenas alguns, mas já deu pra perceber que além de saber alemão, o francês também é importante para uma educação filosófica, não é?

Muitos dos nomes citados não eram naturalmente franceses mas parece que foi somente ali e nessa língua foi que encontraram liberdade para construirem seus pensamentos. Claro que não mencionamos todos os nomes do grande time do pensamento francês, principalmente em se tratando do último século que ainda está em ebulição. Dê uma passadinha aqui Joaquim (ou mande um e-mail) para saber mais sobre a nossa estante de filosofia que está recheada de figuras que nos fazem entender o nosso papel por aqui. Até lá!

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Uma opinião sobre “E aí Gilles, Deleuze?

  1. Senti falta de Levi-Strauss, Philippe Descola, Bruno Latour e os brasileiros Viveiros de Castro e Tania Stolze Lima. Impossível pensar os desdobramento do pensamento filosófico e antropológico francês atual sem passar por estes autores. Figuras expoentes do pós-estruturalismo que subvertem a máxima descartiana de “penso, logo existo”, para “o outro existe, logo pensa”; retomam o pensamento deleuziano e prefiguram uma revolução ontológica de natureza vs. cultura da filosofia moderna, tendo como base as filosofias/cosmologias ameríndias.

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