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“Seja Marginal, Seja Herói”

Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No planalto central do país
Viva a Bossa, sa, sa
Viva a Palhoça, ça, ça, ça, ça
Viva a Bossa, sa, sa
Viva a Palhoça, ça, ça, ça, ça

Tropicália, Caetano Veloso


Caetano Veloso e Gilberto Gil sopram velas muito perto – entre junho e agosto – e não há como relembrar da história musical deles os separando. A dupla, juntamente com os Mutantes, Tom Zé, Hélio Oiticica entre outros, são os protagonistas do movimento que durou pouco oficialmente, mas mudou alguns rumos da cultura brasileira e o modo de enxergar o sentido de popular dentro dela: a Tropicália.

O tropicalismo, que durou cerca de dois anos, foi um movimento fundamental de identidade cultural durante os duros anos de 1967 e 1968, em plena Ditadura Militar, no Brasil. Muitas movimentações aconteciam pelo país recém colocado numa situação que boicotava os direitos civis. É justamente nesses períodos tensos que grupos encontram refúgio na arte para suportar a censura de tudo, e não foi diferente com alguns jovens que acreditavam na mudança através da estética de sua músia, poesia e arte.

Em 1967, a TV Record transmitia o III Festival de Música Popular Brasileira que já era conhecido por revelar talentos e rumos para música nacional. Esse ano, particularmente, ficou marcado por jovens artistas competindo entre si e uma plateia pronta para aplaudir ou vaiar com a mesma intensidade. Mas um grupo de jovens chamou mais a atenção, eram cheios de inovações estéticas e diziam estar em busca de uma identidade cultural brasileira, algo que correspondesse à toda diversidade existente por aqui. Foi nesse ano que Gil, Caetano Veloso e os Mutantes cantaram juntos e marcaram o ínicio do movimento Tropicália.

Com a Ditadura Militar veio um crescente orgulho nacionalista, nada entrava e nada saia e a frase “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” era a campanha da situação política. Mas muita coisa acontecia pelo mundo, o rock britânico e americano ganhavam a cabeça e ouvidos dos jovens com suas guitarras elétricas, o movimento hippie trazia um sentimento de liberdade e a pop art trazia cor. Influenciados pelo que acontecia ao seu redor e ao mesmo tempo curiosos pelos inúmero ritmos brasileiros, os tropicalistas acreditavam que esse sincretismo podia os tornar mais autênticos. As letras das músicas escondiam protestos através dos jogos linguísticos das palavras, era o concretismo poético ajudando na guerra estética que os jovens propunham.

O movimento Tropicália ultrapassou a fronteira da música e poesia concreta, a arte de Hélio Oiticica também ganhou vez com a mostra Nova Objetividade Brasileira, no Rio e o filme Terra em Transe de Glauber Rocha entra em cartaz causando polêmica pela nova estética cinematográfica. Tantas propostas surgidas num mesmo período remetiam ao acontecimento de 40 anos antes, a Semana de Arte Moderna . E a semelhança não era à toa, uma das grandes influência dos tropicalistas era justamente os modernistas de 22 e os experimentalismo dos mesmos, só divergiam quanto à cultura nacional ser exageradamente nacionalista, os jovens sessentistas tinham preferência pelo abrazileiramento de elementos pop globais.

Foram dois anos intensos de produção artística, turnês e movimento pacifíco por parte dos tropicalistas, inclusive, em 1968 foi lançado o disco-manifesto Tropicália: Ou Panis Et Circencis contando com outros artistas como Nara Leão, Gal Costa e o poeta Torquato Neto. O grupo participou de eventos importantes em prol da liberdade como a Passeata dos 100 mil, debates e programas de televisão que na época era um forte instrumento de divulgação.

Mas, em 1969 houve o conhecido incidente da “bandeira nacional”. Os Mutantes, Gilberto Gil e Caetano faziam uma temporada no Rio de Janeiro e durante um espetáculo penduraram uma bandeira, obra de Hélio Oiticica, com a frase “Seja Marginal, Seja Herói” com a imagem do traficante Cara-de-Cavalo, que havia sido assassinado pela polícia. Esta e outras alegações por parte dos militares serviram como desculpa para prenderem Caetano e Gil que foram exilados na Inglaterra, calando a Tropicália.

As vozes foram abafadas, mas os nomes dos jovens daquela noite de 67 não sairiam da memória e das páginas da história cultural brasileira. Se você quiser saber mais sobre o movimento tropicália, segue abaixo algumas dicas para ler, ouvir ou ler:

Tropicália, Documentário (2012)

Uma Noite em 67, Documentário (2010)

Texto Verbo Tropicalista, por Gilberto Gil na Pasquim de 19 a 25 de agosto de 1970

Livro: Brutalidade Jardim, Christopher Chase-Dunn, UNESP

Discos:

Tropicália, ou Panis Et Circencis, 1968

Tropicália 2, 1993

Tom Zé na Revista Bravo de julho/2012

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2 opiniões sobre ““Seja Marginal, Seja Herói”

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