JOAQUIM

Livros & Discos

As raridades da Joaquim – Parte 1

Já falamos sobre o prazer de colecionadores de vinis terem edições raras em mãos. A ótima sensação de ter algo que existiu em um outro momento, num contexto diferente do nosso e que guarda várias histórias é indescrítivel. Hoje vamos falar de edições raras de livros que, talvez mais que os vinis, carreguem em suas páginas o peso e as marcas do tempo e até a certeza de que esse objeto-livro não vá ter um fim tão breve.

Já passaram por nossas preteleiras várias preciosidades, algumas chegaram até nós e outras encontramos em situações diversas. Não importa. Hoje, elas estão aqui para serem apreciadas e quem sabe, irem parar em mãos tão empolgadas quanto às nossas.

Para começar nada como um bom e antigo personagem curitibano, que anda pela sombra do dia, se esgueirando pelas ruas do Alto da Glória e Centro da capital paranaense: o vampiro Dalton Trevisan. Nascido em 1925, muito cedo começou a escrever e ainda na adolescência colaborava com textos em jornais. Na década de 40 inicia um projeto ousado para os moldes curitibanos da época, o jornal literário Joaquim – influência para nosso nome – que contava com grandes nomes de crítica, tradutores e ilustradores como o grande parceiro de Dalton, Poty Lazzarotto.

O primeiro lançamento oficial e nacional de Dalton Trevisan foi somente em 1959 com o Novelas Nada Exemplares, pela editora José Olympio. Mas antes dessa data o escritor já publicava as famosas brochuras com seus contos que com o passar das décadas foram sendo renegadas pelo próprio autor. Os dois primeiros livros 7 anos de Pastor e Sonata ao Luar até são compreensíveis de sumiço, como disse o professor e escritor Paulo Venturelli ao Jornal Cândido de número 11, o autor ainda não encontrara sua própria voz.

Os dois volumes que temos aqui, O Ponto de Crochê (1959) e o Anel Mágico (1964), não fazem parte dessa fase pré-publicações oficiais. Dalton Trevisan, na sua última entrevista com o também escritor Luiz Vilela, em 1968, antes de se refugiar no se próprio castelo, afirma que o conto era a forma mais moderna de se contar histórias. Mas sempre fora insatisfeito com sua própria escrita, essa a causa talvez de renegar tanto alguns trabalhos, como esses que hoje temos em mãos. Dalton reescreveu alguns de seus contos afim de aperfeiçoar seu trabalho e as duas brochuras de época são formadas por contos que acabaram se transformando com o tempo e se agregando aos livros do escritor. Paulo Venturelli ressalta que essa característica de reescritura de Trevisan é necessária, já que hoje, para ele, há muitos textos flácidos e gordurosos na literatura, pedintes de revisão.

Claro que para Dalton não é nada interessante ter as primeiras tentativas de um conto circulando por aí. Que tipo de perfeccionista gostaria de ver seus rascunhos renegados disponíveis à qualquer pessoa? E é justamente aí que reside a mágica de folhear e ler os dois pequenos livretos que carregam as Marias e Joãos da Curitiba perdida de Dalton. É bastante interessante observar como o escritor com o tempo foi enxugando sua narrativa a ponto de encontrar as descrições e falas exatas para seus personagens. Muito além de obras raras, as duas brochuras são provas do trabalho inquieto de um escritor ativo por mais de 50 anos.

Trecho de livro raro de Dalton Trevisan

A Livraria e Editora Garnier, no Rio de Janeiro, foi responsável por quase um século por grandes e primeiros lançamentos no mercado brasileiro, ainda pequeno no século XIX. Foram os primeiros a editar Machado de Assis e por ampliar um mercado editorial que era essencialmente português. Além dessa ampliação de mercado, a Garnier passou a trazer edições nacionais de grandes nomes europeus, como é caso dos três Tomos relacionados ao poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Bocage foi um poeta de fama mítica que apesar de escrever bastante sobre si não se tem muita certeza de como foi sua vida. Viveu no período de transição entre o Arcadismo e Romantismo da literatura portuguesa. Viajou muito e se envolveu com problemas da Inquisição por conta do que escrevia e de sua vida boêmia, que nesse período acabou dando um gás em traduções e estudos. Considera-se que o período pós-prisão seja o mais prolifico de sua carreira.

No Brasil, a obra de Bocage sai pela primeira vez em três tomos intitulados de Manoel Maria du Bocage: excerptos: seguidos de uma noticia sobre sua vida e obras, um juizo critico, apreciações de bellezas e defeitos e estudos de lingua, organizado pelo jornalista português José Feliciano de Castilho de Barreto e Noronha, que vivia por aqui. A trilogia da obra fazia parte de uma coleção intitulada Livraria Clássica, com os principais escritores da ¨boa nota¨.

Observe nas foto que a edição é a própria de 1867, um dos pontos altos dos tomos é justamente a língua portuguesa de época e os padrões de edição que seguiam os moldes europeus. Os três livros são imponentes mostrando que na época além do valor de conteúdo da obra, o livro deveria ficar muito bem nas estantes de bibliotecas particulares.

Você já parou para pensar como um livro pode permanecer imponente por séculos e assim guardar cada passagem do tempo, incluindo a língua e contextos de época? Quantas histórias o interior e o exterior do livro guardam? O cheiro, as ações do ambiente no papel, tudo faz parte e compõe uma história, admitimos que a gente adora isso.

Mas você não achou que iriamos entregar todas as preciosidade de uma vez só, né? Aguarde que tem muitos personagens de nossas estantes esperando para contar sua história.

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