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100 anos dos opostos, porém brasileiríssimos

O mês de agosto de 2012 acolhe dois centenários importantes e cheios de polêmicas dentro da literatura, dramaturgia e teledramaturgia do cenário do século XX brasileiro: Jorge Amado e Nelson Rodrigues completariam ambos cem anos de existência. Duas figuras polêmicas que atravessaram a ditadura e eram totalmente diferentes entre si, mas também lançavam um olhar muito próximo para a figura do povo brasileiro e ainda não poupam controvérsias quando o assunto é a análise de suas obras.

Jorge Amado é um dos escritores brasileiros mais traduzidos e representante de uma cultura brasileira no exterior. Era baiano e usou sua terra natal como palco de seus romances que traziam um Brasil transitando entre o arcaico e o moderno, cheio de peculiaridades, mesclando o erudito e o popular de forma primorosa. Como não lembrar das mulheres como Gabriela, Dona Flor e Tieta do Agreste?

Sônia Braga como Gabriela

Talvez um dos grandes motivos do escritor ser bastante conhecido no exterior foi a sua participação e consagração pelo movimento comunista mundial. Como membro do Partido Comunista Brasileiro o escritor, e depois deputado, conseguiu que o culto às crenças fosse permitido, colaborando assim que os terreiros de Candomblé não sofressem mais perseguições. Em 1954, já com notória fama, colaborou para que o escritor Bertold Brecht ganhase o Prémio Estaline, se tornando uma figura mundialmente famosa e distante das mãos do partido que o perseguia.

Em 1955, Jorge Amado sairia do partido comunista e mudaria um poucos a linha de seus textos, passando a não evidenciar alguns esteriótipos dentro da sua ficção. Mas claro que a baianidade – termo que muitos estudiosos consideram criada pelo escritor – permaneceria viva na sua escrita.

Já Nelson Rodrigues nasceu em Recife, mas foi muito cedo para o Rio de Janeiro onde cresceu e tornou-se jornalista. Trabalhou um longo período como repórter policial o que daria o esqueleto para suas crônicas recheadas de homens normais vivendo situações extremas típicas de notíciarios. Mais tarde se tornou cronista de esportes mostrando o amor pelo futebol e especial o time do Fluminense. Mas seria o teatro que identificaria a voz mais forte do anjo pornográfico.

Vestido de Noiva é considerada a peça que trouxe o olhar modernista para dentro do teatro brasileiro. A primeira montagem foi feita pelo polonês Ziembisnki e traduzia muito bem o que viria a ser a carreira de Nelson: um olhar peculiar e sarcástico sobre uma sociedade que estava numa desvairada transformação.

Lucélia Santos como protagonista de Bonitinha, mas ordinária

Nelson Rodrigues, apesar do uso excessivo de elementos escandolosos e imorais, segundo a sociedade brasileira, era também moralista. Acreditava que o escândalo causado pela sua ficção iria reavivar um lado santo das pessoas, tocadas por essas cenas ¨demoníacas¨. O anjo pornográfico acreditava que a dramaturgia poderia trazer de volta alguns valores esquecidos pela modernidade. Afinal, como disse em um artigo no jornal Manchete:

“A ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo.”

Mas claro que associação do autor com sua obra é sempre perigosa. Há quem acredite ser impossível relacionar a obra de Nelson Rodrigues com a imoralidade ou a moralidade. O fato é que a obra do dramaturgo consegue ir fundo nas questões humanas trazendo o homem em seu limites. O constante afrontamento com os padrões e regras sociais – tais como uso de palavrões, sexo e etc – fizeram ele enfrentar problemas com a censura e certos moralismos, chegando no ponto exato de tocar fundo os moralismos que acusava estarem dispersos.

Ambos os escritores, que sempre foram adorados pela teledramaturgia brasileira, ganham novo fôlego na TV aberta. Remakes e novas tentativas de adaptação deixam claro que esses dois centenários, detentores de um ohar bem brasileiro, continuam atuais e independentes de suas visões políticas.

Nelson Rodrigues e Jorge Amado viam a essência dos homens dessa terra, que eram despidos das fantasias colocadas apenas sobre uma unidade do povo brasileiro, mas sim de humanos controversos quanto à sua essência. Criticavam a sociedade e política de sua época usando situações muito próximas do reais, os identificando de certa forma e tornando suas obras sempre atuais.

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