JOAQUIM

Livros & Discos

Um Godzilla chamado Amazon

Há algum tempo que o mercado livreiro entrou em polvorosa com a oficilização dos boatos da chegada da gigante Amazon no Brasil, que por acaso, acaba de ser atrasada para 2013. Em março, a revista Dinheiro explicava os motivos da empresa querer se estabelecer no país e também as dificuldades que andava encontrando para estabelecer uma data concreta do ínicio das suas atividades. Os boatos giram em torno do jogo díficil de convencer editoras a aceitarem as leis da Amazon quanto à venda dos livros digitais, um mercado extremamente tímido em um país que o próprio ato de ler é marcado por suas próprias especificidades.

Existe o engano de que Amazon é somente livros físicos baratos, e-books e o e-reader Kindle. A venda de livros é apenas uma porta de entrada para a empresa nos países, afinal, o ganha-pão da empresa são os outros 131 segmentos em que atua sem dó. A questão de que livro é caro no Brasil seria aparentemente resolvida com a chegada dos preços quase gratuitos da empresa, tornando a questão da leitura simples de ser resolvida. Mas isso a custo de quê?

A Amazon tem um uma política interessante de chegar no setor editorial propondo suas regras de uma forma bastante convincente. Desde que começou suas estratégias de vendas, em meados da década de 90, a empresa dominou o mercado e é acusada de destruir redes consolidadas de livrarias e de causar um furor enorme por onde passa. Aqui no Brasil não está sendo diferente, até o começo do ano não haviam conseguido o apoio de nem ⅓ da meta estipulada de contratos e várias editoras relataram estarem procurando alternativas para não terem que se render à gigante.

“Livros sem bateria”

A aposta central da empresa é a popularização do e-book juntamente com a venda do seu aparelho leitor, o Kindle. Por aqui já houveram inúmeras tentativas de implantar a leitura digital, mas os preços dos aparelhos ainda são bem pouco atrativos, uma média de 500 reais. Um ponto interessante é que os especialistas em pesquisa de mercado somente relevam fatos substanciais quando se trata de e-books não terem sido absorvidos ainda. Na verdade, o problema do livro – físico ou digital – no país gira num âmbito bem mais social: pouco se lê, por que gastar uma grana dessas em um aparelho sem utilidade imediata?

Ano passado, assim que iniciamos a publicar textos no blog, escrevemos sobre a perspicácia das pequenas livrarias. Falamos um pouco sobre como é a situação dos livreiros ingleses que se organizam até hoje – de forma muito criativa por sinal – para manter acesa a chama das livrarias independentes. Há algum tempo o jornal inglês Guardian publica artigos de opinião, alguns bastante polêmicos, sobre a importância das pequenas livrarias para a economia das cidades e seus bairros e de que forma a Amazon, principalmente, estaria alienando os consumidores de forma a mecaniza-los quando se trata de compra.

Os ingleses acusam a empresa americana de ter uma política implacável e cruel não dando a mínima para as consequências visando apenas lucros. Um dos principios de deslealdade de mercado é que a Amazon conseguiu, desde o começo, comprar livros diretamente das editoras a preços extremamente menores do que as livrarias comuns costumam comprar. E esse é um dos grandes empecilhos para a empresa finalmente se instalar no Brasil, muitas editoras já se pronunciaram sobre ser impossível aceitar os termos da Amazon, que age como Mefistófeles seduzindo Fausto a aceitar seus termos.

A Inglaterra – um dos países que mais questiona a ação da Amazon no território – sofre com o fechamento de livrarias menores e segmentadas que não conseguem se manter economicamente. Uma das soluções foi trabalhar com movimentos criativos e independentes de conscientização dos leitores para que não mecanizem sua paixão pelos livros. O grupo do movimento organiza circuito de eventos em livrarias e usa a internet como forte aliada para isso.

O contexto não se apresenta tão assustador para o nosso lado, ainda temos muito trabalho a executar no âmbito das políticas de leitura antes de adotarmos o tom apocaliptico para a variedade de mídias de leitura. Lendo um pouco da história da leitura no Brasil vamos nos deparar com dados relativamente recentes, há pouco mais de um século era impensável ter editoras no país e boa parte da população era analfabeta, pois havia poucas décadas que o país deixara de ser uma colônia portuguesa e a educação era extremamente precária. Mesmo que circulassem revistas como a Leitura para Todos (foto) boa parte da população ainda era pouco funcional e consumidora de livros e períodicos.

Não à toa que tablet, e-reader, e-books e comércio eletrônico sejam termos relativamente recentes no nosso vocabulário. Pense há quanto tempo você passou a comprar pela internet ou quantas pessoas você conhece que costumam ler e comprar livros digitais como um hábito. A nossa história, tanto como leitores quanto consumidores de livros, é extremamente recente com uma expansão do mercado livreiro como grandes franquias se espalhando pelas capitais e pequenas livrarias especializadas se tornando referências.

O livro antes de tudo é um produto social, independente das suas plataformas de uso. A chegada da Amazon em tantos países, usando uma política agressiva apenas demonstra que o livro, infelizmente, está se transformando numa simples mercadoria imposta ao consumo. O CEO e fundador da empresa, o americano Jeff Bezos já disse que o livro se resume ao autor e seu leitor. Seria isso mesmo verdade? Todo o conjunto de pessoas que fazem parte da cadeia de produção de um livro não são levadas em conta? E como o livro chega ao leitor, quem e com quais ferramentas se estimula o sentimento de leitura em alguém?

Pensando nessa mercadorização excessiva do livro, surgiu na França um coletivo chamado de 451, uma referência ao clássico Fahrenheit 451, do americano Ray Bradbury. O movimento é encabeçado por vários profissionais do livro, editores, diagramadores, livreiros, etc e autores como o filósofo Giorgio Agamben que se recusam a aceitar esse atual cenário de livro tratado como simples mercadoria. E, pretendendo procurar alternativas para as situações atuais, lançaram uma espécie de manifesto inicial chamando todos que também discordem da atual situação.

Inspirados com o coletivo 451 – escreveremos mais sobre ele adiante – também estamos nessa de propor uma iniciativa de discussão para a situação atual. Afinal, o que torna uma livro grandioso quase nunca é o número de vendas do mercado ou a propaganda massiva, mas sim todo o processo que envolve pessoa por pessoa até que o livro chegue ao leitor, dando sentido e o tornando um objeto social de transformação.

Acreditamos no livro, independente da mídia em que ele se encontra e não temos um espaço físico pensado e planejado por acaso. Assim como já falou, há alguns anos trás, o CEO da Penguin John Makinson, o futuro das livrarias são os espaços independentes, charmosos e cheios de identidade. Para nós, o livro não é apenas um objeto de sustento, é uma troca, um encontro*.

*Referência ao manifesto do Coletivo 451.

Esse texto, juntamente com o “A perspicácia das pequenas livrarias” e outros que darão segmento, pretendem discutir o mercado do livro como função social.

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