JOAQUIM

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Gilda: Um beijo na Boca Maldita

Vi gilda rindo
Chorando
Não sei onde
Não lembro quando

Gilda não é homem
E nem mulher
Gilda é gilda
Porque pode ser o que quiser

Bailarina
Rainha
Messalina
Mendiga boa de briga

Comam sua bunda
Chupem seu pau
Chutem sua cara
No carnaval

Gilda viva
Curitiba morta
Gilda é um pecado atrás da porta

Gilda mal falada
Gilda bendita
Ainda te mordem
Os dentes da boca maldita

E eu que nunca a amei
De verdade
Hoje sei o quanto dói uma saudade

Antonio Thadeu Wojciechowski

Curitiba é uma cidade cheia de personagens, há quem venha para cá só querendo tirar uma foto com o Oil Man ou passar na frente da casa do Dalton Trevisan, o nosso vampiro. Nós da Joaquim, que somos curitibanos de nascença ou apenas por opção, vamos começar a contar um pouco sobre a história desses personagens que tornam nossa cidade tão peculiar, como diria Rita Lee “quero ser normal em Curitiba”.

Não há turista que venha para Curitiba que não passe pela rua XV e pela Boca Maldita, ali entre o Bondinho e a Praça Osório já foi e é palco para muita coisa, desde manifestações fervorosas, lugar para se discutir política e vida curitibana, e claro, espaço para transitarem os incríveis personagens da cidade. Na segunda metade da década de 70 e inicio dos anos 80 ali foi ponto de Gilda, a rainha beijoqueira da Boca Maldita.

Considerado o primeiro travesti conhecido de Curitiba, Rubens Aparecido Rinke conseguiu muitas moedinhas, beijos e alegrias desfilando pela região central da cidade, usando seu batom e maquiagem, quebrando os tons de cinza da capital paranaense. Claro que não agradava a todos, mas não escapava do olhar de ninguém e ainda fazia muitos amigos que se divertiam com sua liberdade de transitar, fazer suas brincadeiras e viver do modo que lhe conviesse.

Não se sabe exatamente quando Gilda – uma provavel referência ao clássico filme com Rita Hayworth, a mulher fatal – desceu em terras curitibanas. O jornalista Ali Chaim diz que em 75, quando ainda estavam colocando as pedras petit pavé na região, ele estava estacionando perto da Praça Osório e um homem se aproximou dele pedindo um cigarro. O jornalista conta que logo de cara percebeu que o rapaz era irreverente, começou a conversar e soube que chegara há pouco na capital, estava cansado da família (segundo ele de Londrina) e viera viver outros ares por aqui.

O adjetivo de irreverência que Gilda ganhou, vinha do fato dela ser mesmo um personagem de Rubens Aparecido: um homem barbudo, cheio de pêlos, desfilando com vestidos e saias por cima da calça e maquiagem escandalosa. Não combinava com nenhum visual luxuoso de uma vedete travesti e sim um pastiche do que poderia ser feminino e glamuroso.

O Carnaval era o momento em que Gilda se soltava mais e inclusive muitas pessoas aguardavam a aparição da figura durante a festa. Claro que não agradando a todos, pois sendo esse o momento em que homens da alta sociedade podem se fantasiar de mulheres, ninguém quer competir com um morador de rua que se travestia por ousadia própria. Em um dos Carnavais, Gilda tentando fazer parte da famosa Banda Polaca, que por ironia trazia moças nuas sambando na avenida mas não aceitava travestis felizes, foi proibida de participar, aparecendo depois com hematomas.

Gilda era mais que um simples personagem de rua, era uma verdadeira pedra no sapato da sociedade curitibana da época, recatada e provinciana. Ela era a liberdade na rua e como conta Washington Cesar Takeuchi, do blog Circulando por Curitiba.

A melhor lembrança que tenho da Gilda aconteceu num dia de muita chuva. Naquela tarde, enquanto todas as pessoas surpreendidas pela chuva buscavam a proteção e se apertavam debaixo das marquises, lá no meio da XV, no coração da Boca Maldita, sozinha estava a Gilda de braços abertos, dançando e dando boas vindas a tempestade.


Morreu aos 32 anos,e representava a liberdade num período de preconceito, repressão e costumes provincianos. Mas, não foi esquecida e como tinha paixão pelo Carnaval, foi tema de escolas de sambas, documentários e inclusive de estudo acadêmico. A morte de Gilda é envolta em mistério, fruto do preconceito de uma sociedade que ignora tudo que está à margem. Foi enterrada no Cemitério das Flores com mais outros 18 travestis e virou mais um mito da cidade repleta de vampiros, minotauros, Oil Men e claro, Gilda beijoqueira.

Abaixo um minidocumentário, dirigido por Yanko del Pino, entrevistando pessoas da época. Uma breve homenagem à beijoqueira.

BEIJO NA BOCA MALDITA from yanko del pino on Vimeo.

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