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Antes que o Leite Quente esfrie

320ANOSCuritiba do muito pinhão. Curitiba cidade-teste. Curitiba aldeia de ares provincianos. Editorial da Revista Leite Quente, nº 1, 1989

leitequente89-leminski-oraçãoJoaquim, Raposa, Nicolau, Rascunho (…) Curitiba é um dos lugares mais prolíficos para que as revistas literárias e suplementos culturais sempre apareçam. Como já falamos em outro post, hoje a cidade não coloca medo nos seus artistas que multiplicam suas artes em várias mídias e não tem medo de mostrar a sua cara.

Em 1989, a capital paranaense completava 296 anos e surgia uma nova revista para tratar de assuntos curitibanos, o modo de vida e a poética da cidade. Intitulada com uma expressão que designa o modo bem peculiar do sotaque do sul do país, Leite Quente teve sua estreia em março daquele ano com uma edição totalmente escrita por ninguém menos que o poeta-e-tantos-outros Paulo Leminski.

leitequente89-leminski-capaLeminski morreria três meses depois do lançamento da revista e deixou nela sua assinatura de curitibano que foi, com olhar peculiar ora apaixonado pelas araucárias ora irritado com o provincianismo de quase três séculos. A primeira edição da Leite Quente, editada pela Fundação Cultural de Curitiba, leva o título de “Nossa Linguagem” e quem melhor que o querido cachorro louco para falar dessa Curitiba?

Com sua escrita sarcástica, mas já apaziguado com a vida e ainda assim poeta, Leminski deixa nessa edição o que talvez seja o seu tratado de cumplicidade com Curitiba. Se você está familiarizado com a escrita do poeta sabe muito bem que ele não fez disso um discurso dramático e saudosista. Muito pelo contrário, o escritor já começa com uma breve oração – cheia de brincadeiras com as palavras – à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais pedindo por piedade e em seguida inicia os seus artigos sobre a linguagem, modo de se vestir e viver peculiar aos habitantes da capital.

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Os textos que compõem essa edição da Leite Quente podem ser lidos como um grande ensaio de Leminski sobre o comportamento do curitibano. Começando pelo jeito de falar que fica entre um jeito sulista e paulista com suas expressões peculiares oriundas dos muitos imigrantes que aqui chegaram. Em seguida, com uma série de fotos históricas dos habitantes da cidade – documentos da Casa de Memória – ele faz divertidas legendas tratando da forma como as roupas influíam no comportamento do curitibano desde os anos 1900.

O curitibano médio não pratica o relacionamento instantâneo dos litorâneos, de pronta chegada, rápida abordagem e intimidades súbitas. O jeitão “tudo-bem” de cariocas e baianos, pode exemplo. Nem é nossa empáfia gaúcha de quem chega dizendo “no más, e me espalho nos baizinhos, dou de prancha, nos grandes, dou de talho”. (p.12)

Claro que Leminski não deixaria de falar do famoso jeitinho curitibano pouco dado à extroversão, ele arremata certeiro dizendo que “O Curitibano é cauteloso, meio arisco. Mas não tímido: analítico”. Ele também comenta sobre a pluralidade de etnias e línguas formadores da cidade que também influenciaram esse jeitão desconfiado. O própio Leminski, mestiço de pai polonês e mãe negra, dado a um pouco de tudo e falante de muitas línguas entendia muito bem essa identidade misturada da cidade cinza.

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Falando da expressão cultural da cidade, comentando sobre os amigos compositores, a cinemateca que recuperou a memória audiovisual do Paraná, Paulo Leminski finaliza com um tom saudosista de sua memória, parecendo que sabia que logo ele também viraria uma “ruína imaterial” – como ele chama o esquecimento que Curitiba dá ao que já foi,  ele diz  “Não admito viver numa cidade artificial”. Ele fala das ruas que costumava passar e já não existem, critica a cidade-modelo aclamada na Europa no fim dos anos 80 e diz , ele gostava mesmo era do tom underground que a cidade podia oferecer aos olhos dele.

Essa edição comemorativa da revista, de 24 anos atrás, marca o começo e o fim de períodos. Era a fama de Curitiba-modelo, perfeita para se viver ao olhos dos europeus e americanos e quase possível de ser vista pelos que a atravessam todos os dias, também era a despedida de Paulo Leminski, o poeta que parece, nesses agora 320 anos, ter sido redescoberto pelos curitibanos e brasileiros, ajudando que a comemoração desses mais de três séculos tenha uma pitada de poesia, antes que o leite quente esfrie.

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