JOAQUIM

Livros & Discos

Round 2 e 3: Chomsky X Žižek

13-07-29_chomsky-vs-zizek_joc3a3o-alexandre-peschanski

Chomsky versus Zizek

Há pouco mais de um mês publicamos um trecho de uma alfinetada dada pelo linguista norte-americano Noam Chomsky ao filósofo e teórico crítico esloveno Slavoj Zizek. A crítica de Chomsky a Zizek se referia basicamente à figura popular do filósofo, que ele chama de charlatão – Slavoj comumente aparece posando em fotos de revistas assim como em programas na TV e afins – e afirmou que o esloveno não fala nada além do que uma criança de 12 anos também poderia deduzir.

Claro que Zizek não iria deixar o americano falando sozinho, mas se pronunciou apenas quando o áudio e transcrição da crítica – feita no fim do ano passado – tomaram os rumos vastos da internet. Em 12 de julho passado, em uma mesa na Escola de Verão de Teoria Crítica em Londres, em meio a uma de suas falas já conhecidas pelas inúmeras conexões, Zizek solta de repente:

O que está havendo com a universidade, Chomsky etc.? Com todo o respeito que tenho por Chomsky, minha primeira colocação é que, apesar de sempre enfatizar que se tem de ser empírico, preciso, não um lacaniano maluco cheio de especulações etc., […] não há ninguém que eu conheça que tenha estado mais errado empiricamente [do que Chomsky]. Lembro quando ele defendeu a manifestação do Khmer Vermelho. E escreveu alguns textos dizendo: “Isso é propaganda ocidental. O Khmer Vermelho não é tão horrível”. Depois, quando teve de admitir que o Khmer Vermelho não era o pessoal mais bacana do universo, sua justificativa me chocou. Foi: “Com os dados de que dispunha no momento, eu tinha razão. Até aquele momento, não sabíamos o suficiente, então…”. Rejeito cabalmente esse tipo de raciocínio. Por exemplo, em relação ao stalinismo. A questão não é que se tem de saber, que se tem uma evidência fotográfica do gulag ou algo do gênero. Pelo amor de Deus, basta ouvir o discurso público do stalinismo, do Khmer Vermelho, para saber que há algo terrivelmente patológico aí. Por exemplo, o Khmer Vermelho: mesmo sem qualquer dado sobre suas prisões etc., não é de maneira perversa quase fascinante um regime que nos primeiros anos se comportou em relação a si mesmo como sendo ilegal? O regime não tinha nome. Era chamado Angka, uma organização – não Partido Comunista do Camboja, mas uma organização. Os líderes não tinham nomes. Se você perguntasse “Quem é meu líder?”, era decapitado sumariamente. Minha segunda colocação sobre Chomsky [diz respeito] à consequência dessa atitude do empírico etc., o que é minha diferença fundamental com ele […], a sua ideia de que o cinismo das pessoas no poder é tão aberto que não precisamos de uma crítica da ideologia […]. Basta trazer os fatos às pessoas, do tipo “Essa empresa está se aproveitando da situação no Iraque” etc. e discordo fortemente disso. Primeiro, mais do que nunca a vida cotidiana é ideologia. Como se pode duvidar disso quando o Paul Krugman mesmo publicou um texto relativamente bom demonstrando que a ideia de austeridade nem é uma boa teoria econômica burguesa?! […] Segundo, os cínicos são aqueles que mais tendem a iludir-se. Os cínicos não enxergam as coisas como elas são etc. […]Em relação à popularidade, fico um pouco incomodado com a ideia de que nossos sofismas são hegemônicos nas humanas. As pessoas estão malucas? Somos sempre marginais. O que é para mim a hegemonia acadêmica: é brutal. Quem consegue vagas nas universidades? Quem consegue financiamentos, fundações etc.? Somos totalmente marginais aqui. Olhe para mim: “Sei, você é uma estrela nos Estados Unidos”. Bem, eu gostaria de ser, pois gostaria do poder para usá-lo brutalmente. Mas estou longe disso. […] A vasta maioria dos acadêmicos é composta de cognitivistas e historiadores grisalhos… Não os vemos, mas são o poder. E por que estão preocupadas as pessoas no poder? Não dá para exagerar a paranoia esquerdista de que “podemos todos ser recuperados” etc. Não! Ainda acredito ingenuamente na eficiência do pensamento teórico. Não é tão simples quanto recuperar tudo. Há várias estratégias diferentes de conter-nos. Posso não ser inocente nisso, porque as pessoas gostam de dizer sobre mim: “Vá e escute-o, é um palhaço que diverte…”. É outra forma de dizer: “Não o leve a sério”.

Em poucos dias o americano fez uma longa resposta intitulada de “Fantasias” (você pode ler aqui, em inglês) e que o blog da editora Boitempo – responsável pelas edições de Slavoj Zizek no Brasil – traduziu alguns trechos:

Li com certo interesse [o comentário de Žižek a meu respeito], esperando aprender algo […] e encontrar erros que devessem ser corrigidos – tais erros existem em possivelmente tudo o que é impresso, mesmo monografias técnicas acadêmicas, bastando ler as resenhas nas publicações profissionais. Quando os encontro e sou informado sobre eles, corrijo-os. Mas não aqui. Žižek não encontra nada, literalmente nada, que esteja errado empiricamente. Isso não me surpreende. Qualquer pessoa que alega encontrar erros empíricos e é minimamente sério apresenta pelo menos alguns elementos de evidência – alguma citação, referência, pelo menos algo. Mas não há nada aqui – o que também não me surpreende. Já li sobre o conceito de fato empírico e argumento lógico de Žižek. Por exemplo, na edição de inverno de 2008 do periódico cultural alemão Lettre Internationale, Žižek me atribuiu um comentário racista sobre Obama, feito por Silvio Berlusconi. Eu o ignorei. […] Um editor da revista Harper’s, Sam Stark, se interessou e foi atrás da história. Na edição de janeiro de 2009, revelou o resultado de sua investigação. Žižek disse que baseava a atribuição a algo que tinha lido numa revista eslovena. Uma fonte maravilhosa, se é que existe. E, continuava, atribuir-me um comentário racista sobre Obama não é uma crítica, porque deveria ter feito esse comentário como “uma caracterização plenamente aceitável em nossa luta política e ideológica”. Deixo a quem quiser que decodifique essa frase. […][Em seu comentário sobre o Khmer Vermelho], Žižek está provavelmente se referindo a um trabalho em conjunto com Edward Herman nos anos 1970 (Political Economy of Human Rights) e uma década depois em Manufacturing Consent, em que revimos e respondemos às críticas às quais Žižek está aparentemente se referindo. Em PEHR, discutimos vários exemplos da distinção de Herman entre vítimas dignas e indignas. As vítimas dignas são aquelas cujo fim pode ser atribuído a um inimigo oficial, as indignas são as vítimas de nosso próprio Estado e seus crimes. Nossos dois principais exemplos foram o Camboja sob o Khmer Vermelho e a invasão do Timor Leste pela Indonésia, nos mesmos anos. […] As vítimas do Khmer Vermelho são “dignas”, pois seu fim pode ser atribuído a um inimigo. Os timorenses são “vítimas indignas”, porque somos responsáveis por seu fim: a invasão indonésia foi aprovada por Washington e apoiada mesmo nas piores atrocidades, identificadas como “genocidas” por uma investigação posterior da ONU, mas com ampla evidência naquele momento, como documentamos. Mostramos que os dois casos eram mentiras incríveis, numa escala que teria impressionado Stalin, mas em direções opostas: no caso do KV, fabricação de supostos crimes, condenações requentadas após serem rejeitadas etc. No caso do TL, diferentemente, no geral silêncio ou até negação. Os dois casos não são, claro, idênticos. O caso do TL é incomparavelmente mais significante, pois as atrocidades poderiam ter sido facilmente encerradas, como finalmente foram em setembro de 1999, basicamente por uma indicação de Washington de que o jogo tinha acabado. Em comparação, ninguém tinha qualquer proposta sobre o que fazer para parar as atrocidades do KV. […]Escrevemos que não temos como saber todos os fatos, mas sugerimos que os comentadores são confiáveis e que atentam para o registro documental e reconhecemos os observadores qualificados, em especial o Departamento de Estado dos EUA, sabidamente a fonte mais confiável. O capítulo, além disso, foi lido pela maioria dos principais acadêmicos do Camboja antes da publicação. A falta de erros não é uma grande surpresa. […]Como o leitor pode determinar, Žižek não oferece a menor evidência para apoiar suas denúncias, apenas repete o que ouviu – ou talvez leu num jornal esloveno. Não menos interessante é o choque de Žižek sobre termos usado os dados que estavam disponíveis. Ele rejeita “cabalmente” esse procedimento. Não é preciso comentar tamanha irracionalidade. […] Uma questão permanece sobre por que esse tipo de performance é levado a sério, mas deixo isso de lado.

A falta de simpatia de Chomsky com o que ele considera de “filosofias e ideias cheias de pose” não vem de hoje. Em 1971 ele teve um embate épico, em um programa de TV Holandês, com ninguém menos do que Michel Foucault. O tema do programa era discutir se existem ou não fatos inerentes ao ser humano ou se ele é construído pelas instituições sociais e culturais que o cercam e claro que o assunto deu muito pano para a manga. Com certeza, mais de 1h de muitas alfinetadas – que diga-se de passagem, muito interessantes – de ambos os lados. Você pode assistir o programa inteiro no vídeo abaixo:

O sociólogo João Alexandre Peschanski fez uma extensa análise do embate entre Chomsky e Zizek no blog da editora Boitempo, ele acredita que essa troca de farpas está ganhando muito alvoroço e espetacularização, tornando a discussão menos política. Mas será que justamente por essas características ambos os filósofos não tornam as discussões de cunho filosófico e ideológico menos acadêmicas e mais próximas de uma realidade?

E o assunto não para por aí. Zizek respondeu ao americano mais uma vez, dessa vez com um texto mais longo. Acreditamos que em breve voltaremos a falar sobre esse assunto. Você pode ler a última resposta do esloveno aqui.

Você está acompanhando a discussão de Chomsky e Zizek? Nos conte o que está achando disso tudo aqui nos comentários ou lá no Facebook!

Anúncios

Navegação de Post Único

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: