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Leia Literatura Contemporânea!

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O escritor Italo Calvino e o filósofo Giorgio Agamben, ambos italianos, possuem dois ensaios conhecidos que aparentemente vão de uma ponta à outra da Literatura sem se tocar, mas que se relacionam mais do que se imagina. O primeiro, falando dos clássicos*, propõe em uma de suas definições, que um livro se torna clássico quando nunca termina de dizer aquilo que tinha que ser dito. Já o segundo, em um ensaio sobre o contemporâneo**, diz que algo verdadeiramente pertence à sua época quando lança um olhar sobre a escuridão do presente, tentando enxergar além do breu.

A literatura contemporânea é um pouco das duas definições. Ler a literatura que nos é contemporânea é como olhar para um espelho que reflete vários níveis do que vivemos, é tentar captar o espírito de um tempo, e relacioná-lo com as obras do passado, criando assim um percurso histórico através da ficção.

Hoje o número de traduções em várias línguas leva a literatura feita no oriente ao ocidente, e vice-versa, em bem menos tempo que no passado. A internet, com sua enorme quantidade de ferramentas de compartilhamento, permite que possamos saber quem está fazendo ficção além da Europa e os Estados Unidos. No Brasil vemos nossa literatura do presente ganhando notoriedade. Em menos de um ano, por exemplo, recebemos homenagens na Feira de Frankfurt, na Alemanha e uma edição da revista inglesa Granta, dedicada aos escritores brasileiros de menos de 40 anos.

Para colaborar um pouco com o estímulo de leituras de literatura contemporânea, escolhemos alguns autores – que em alguns casos estão em férteis regiões para a literatura – que fazem ficção com um olhar fixo na escuridão do presente, sem deixar de prestar atenção no passado que os construiu.

Vale ressaltar que os dez escritores aqui indicados – cinco escritores brasileiros e cinco estrangeiros – não são suficientes para dar uma real dimensão do que vem sendo feito, mas ainda falaremos mais sobre o assunto, afinal a literatura é basicamente uma fonte inesgotável.

A Literatura Brasileira Contemporânea

A literatura feita no Brasil contemporâneo consegue ser bastante versátil, vai do romance à poesia, passando pelo conto e crônica com nomes fortes em cada estilo. Mesmo que a internet nos permita conhecer escritores em vários cantos do país, o eixo sudeste-sul ainda é predominante na nossa literatura. Boa parte dos escritores escreve sobre a vida urbana ou temas mais existencialistas como a memória e o cotidiano.

Daniel Galera

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O escritor gaúcho é um dos jovens escritores mais comentados dos últimos 10 anos. “Mãos de Cavalo”, “Cordilheira” e o recente “Barba ensopada de Sangue” são alguns dos seus trabalhos mais comentados pela crítica brasileira. Recentemente Daniel Galera passou a ser traduzido em outras línguas. Dentro do perfil de jovem branco de classe média, o escritor trata das mazelas de ser um jovem adulto e os conflitos existenciais de relacionamentos amorosos e familiares.

Luiz Ruffato

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O mineiro Luiz Ruffato ficou conhecido mundialmente na abertura da Feira de Frankfurt, em 2013, ao fazer um discurso de duras críticas sobre a dificuldade de ser um escritor no Brasil e de conviver com o nosso passado histórico. A literatura de Ruffato é marcada pelo protagonismo de personagens ora sem nomes próprios, reconhecidos e identificados conforme a geografia dos espaços em que vivem, como em seu “Eles Eram Muitos Cavalos”. Ora são marcados pela força de sobrenomes que carregam o patriarcado da colonização italiana no interior de Minas Gerais, como mostra a pentalogia “Inferno Provisório” em que trata do desenvolvimento do proletariado mineiro.

Férrez

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O escritor paulista é um dos principais expoentes do movimento conhecido como Literatura Marginal, corrente literária produzida por autores residentes nas periferias dos grandes centros urbanos brasileiros e escrita utilizando gírias e elementos próprios da comunicação desses espaços. Conquistou um público fiel de leitores com títulos como “Capão Pecado” e “Manual Prático do Ódio” e mantém uma boa relação nas redes sociais estimulando a leitura e o conhecimento da cultura produzida nas periferias.

Carol Bensimon

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A escritora gaúcha faz parte do grupo de jovens escritores formados em famosas oficinas dadas em Porto Alegre pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil. Junto de Daniel Galera e outros escritores da capital gaúcha são responsáveis por reforçarem a cena independente dos anos 2000 com editoras como a Livros do Mal e a mais recente Não Editora. Por essa última, Bensimon lançou seu primeiro livro, com três contos, intitulado de “Pó de Parede”. Seu mais recente livro pela Companhia das Letras, “Todos nós adorávamos Caubóis” vem recebendo ótimos elogios. Apesar de jovem, a escritora já demonstra domínio em construir enredos orientados pelas memórias dos personagens, que dependem de si mesmas para se encontrarem no presente.

Vanessa Barbara

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Logo na sua estreia Vanessa Barbara ganhou um Jabuti. “O Livro Amarelo do Terminal”, lançado pela Cosac Naify, é um livro-reportagem que trata do cotidiano no movimentado Terminal do Tietê, em São Paulo. A prolífica escritora – que também faz parte da lista de joves autores escolhidos pela Granta – já passou por quadrinhos, romance e escreve colunas para os mais diversos tipos de publicações. Com um ar de crônica, com uma boa dose de influências populares e focada em algumas obsessões, Vanessa já tem no currículo o ótimo romance “Noites de Alface” e trabalhos em quatro mãos como a HQ “A Máquina de Goldberg” com o ilustrador Fido Nesti e o romance “Verão do Chibo”, com o escritor Emilio Fraia.

A Literatura Contemporânea Estrangeira

O olhar sobre a literatura estrangeira, em mundo mais globalizado e disponível à apenas um clique, se volta para regiões antes poucos exploradas. A literatura produzida na África e um “boom” de novos autores na América Latina e países do oriente despertam maior interesse.

Mia Couto

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Mia Couto trata de assuntos sensíveis e fortes com tons de mágica em um universo que muitas vezes parece onírico, usando recursos de linguagem próprios e metáforas de fábulas sobre a realidade. Usando como plano de fundo a África, mais especificamente Moçambique e seus conflitos sociais e armados, ele trabalha com personagens humanos que tiram grandes lições em pequenas metáforas do cotidiano. Se você ainda não leu nada de Mia, comece com o ótimo Histórias Abensonhadas, uma série de contos escritos em períodos de pós-guerra que apesar de terem o mote da morte presente, desenvolvem enredos permeados por uma esperança que somente os recomeços são capazes de causar.

E se você gostar de Mia Couto, vale a pena dedicar o olhar para outros escritores do continente africano como Ondjaki, Pepetela e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Valter Hugo Mãe

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Apesar de ser angolano e também flertar com o fantástico para escrever seus romances, Valter Hugo Mãe faz parte de um cenário contemporâneo mais voltado para Portugal. Mãe – que é um sobrenome artístico – caiu nas graças dos brasileiros depois da participação na FLIP em que leu uma carta emocionante sobre sua paixão pelo Brasil. Já escreveu vários romances, poesia e até canta em uma banda em Portugal. Seus livros contam com personagens aparentemente simples que buscam sentidos e sentimentos realmente verdadeiros para empreender na odisseia chamada vida. Um dos seus livros, “O Filho de Mil Homens” editado no Brasil pela Cosac Naify, o protagonista Crisóstomo, um homem de quarenta anos, se vê sozinho por não ter sido pai. Assim, o protagonista cria uma família inventada mas tão pura e real como uma família deve ser. O livro é construído sobre a história de vários personagens próximos entre si e é impossível não se sentir tocado pelas descobertas de cada um deles e a forma em que chegam até o protagonista tocados por um único sentimento.

Haruki Murakami

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Um dos escritores mais interessantes da cena contemporânea é o japonês Haruki Murakami. Sua literatura consegue misturar filosofia, referências pop e claro, toques de fantasia, tão caros aos japoneses. Com títulos como “Kafka à beira-mar” e “1Q84” com fortes influências ocidentais ele constrói personagens complexos que através de fluxos de consciência bem elaborados, dialogam com o leitor jovem e ainda consegue deixar os críticos impressionados. Você pode começar se aventurando com a trilogia “1Q84” que saiu em 2013 ou “Norwegian Wood” e “Minha querida Sputnik”, todos lançados no Brasil pela editora Alfaguara.

Alejandro Zambra

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O escritor chileno faz parte da nova geração da prolífica cena literária latino-americana. Com romances curtos ele ganha o leitor com narrativas envolventes e repletas de referências literárias e/ou elementos do cotidiano contemporâneo. Tratando de relacionamentos, a forma cíclica como eles se dão e a importância da memória com os pequenos elementos que restam do passado, Zambra é o tipo de escritor para se ler numa tomada só. O primeiro livro de Zambra que saiu no Brasil foi “Bonsai”, pela editora Cosac Naify que até então publicou outros dois livros do escritor.

Zadie Smith

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A escritora inglesa, filha de uma jamaicana com um inglês é um dos nomes mais importantes da literatura inglesa contemporânea, o que não é pouco para um país que escreve e publica muito. Zadie se destaca por tratar justamente do “espirito do tempo” da sociedade em que vive, com personagens – protagonistas ou não – miscigenados, sempre envolvidos com um contexto globalizado onde gêneros, identidades, orgulho das raízes, etnias e crenças se confrontam. Quase todos os romances da escritora foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras, destaque para “Dentes Brancos” e “Sobre a Beleza”.

Estas são algumas de nossas indicações para navegar no enorme e diversificado mundo da literatura contemporânea. Boa leitura!

*Italo Calvino em “Por que ler os Clássicos”, Companhia de Bolso
**Giorgio Agamben em “O que é contemporâneo”, editora Argos
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3 opiniões sobre “Leia Literatura Contemporânea!

  1. Renato em disse:

    boa lista, só acho que faltou o Franzen.

  2. Gostei do texto, mas nao achei o nome do autor (pra citar).
    Poderiam informar o nome do autor?
    Parabéns pelo trabalho.

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