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“Tudo existe para terminar em uma foto”

“Ao ser fotografada me sinto hipnotizada, aprisionada, passo a ser a pessoa observada. Porquanto eu seja uma observadora profissional, não tem jeito, sou uma amadora em se tratando de ser observada.” Susan Sontag no documentário “Regarding Susan Sontag”

Susan Sontag em Paris, por Leibovitz

Susan Sontag em Paris, por Leibovitz

Em 1948 a escritora Susan Sontag tinha apenas 15 anos de idade, e em um entrada em seu Diário (no Brasil, em edição pela Companhia das Letras) ela escreve “As ideias perturbam a regularidade da Vida” e em menos de um mês ela continua com “…E o que é ser jovem durante anos e de repente despertar para a angústia, a premência da vida?” É quase impossível não se perguntar onde estávamos na mesma idade de Sontag, quais eram os questionamentos e o que nos amendrotava. Susan Sontag escreveu sobre literatura, política, fotografia, AIDS, filosofia, artes e afins. Ela teve muitas facetas e causava espanto tamanha era sua intelectualidade. Foi uma das primeiras a unir o mundo pop ao intelectual de forma magistral, comentando a influência do cinema, da TV e da arte no cotidiano das pessoas e de que podiam ser formas importantes de pensamento e expressão. Ainda, foi vanguardista ao escrever sobre temas que muitos intelectuais desdenhavam, como o cinema B e escritores de países fora do cânone, como Machado de Assis, por exemplo.

Susan Sontag fotografada em muitas fases de sua vida

Susan Sontag fotografada em muitas fases de sua vida

Ao ler os diários de Susan Sontag – publicados após a sua morte e editados pelo filho David Rieff – nota-se que ela raramente se sentiu confortável em ter um papel no mundo, acreditava na necessidade de saber e escrever sobre um pouco de tudo, assim como fez na variedade de suas publicações. Susan gostava de ir fundo em determinados assuntos e explorar todo o modus operandi e reflexões que eles exigiam.

liebovitz sontag.redimensionadoEra uma premissa se expressar de forma direta, mesmo com opiniões dissidentes. Em 2001, por exemplo, quando ocorreram os ataques de 11 de Setembro ela foi uma dos primeiros intelectuais a ir a público e dizer que os eventos teriam sido uma resposta à política externa americana. No documentário “Regarding Susan Sontag” (algo como A respeito de Susan Sontag) lançado no fim de 2014, pela HBO, dirigido por Nancy D. Kates, é mostrado um trecho de um programa da época, em que Sontag é confrontada ao vivo por três jornalistas que a acusam de antiamericanismo, ilustrando como Susan não temia estar diante de conflitos e críticas sobre o seu trabalho.

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Regarding Susan Sontag” é justamente a desmistificação da intelectual séria e sempre preparada para discutir algum assunto em voga. A montagem feita no documentário se deu graças à paixão e necessidade que Sontag tinha pela fotografia. Em seu famoso Sobre a Fotografia (1977) ela define um dilema que nos acompanha desde a invenção do daguerreótipo até os dias atuais: “Tudo existe para terminar em uma foto”. Parafraseando Mallarmé que disse no século XIX que tudo existia para terminar em um livro, Sontag define – antes mesmo da fotografia digital e instântanea em tempos de instagram existir – que a fotografia era uma ferramenta de poder e de memória, brincando com a finitude das coisas. E levando essa ideia de poder da fotografia a sério, construindo a sua imagem paralelamente à sua identidade intelectual, Sontag se tornou uma das personalidades/intelectuais mais fotografadas de sua geração.

Ietc_cover_sontagA capa de I, Etcetera (1977), talvez seja uma das imagens definidoras de Susan Sontag. Acompanhada por uma pilha de livros, ela olha para a câmera com um olhar fixo, decidido e sério. Mesmo quando clicada com uma fantasia de urso, escrevendo em um computador, ela permanece com o olhar fixo e sedutor. Susan Sontag conseguia manter uma cumplicidade com a câmera, ela conhecia o poder da fotografia e fazia um excelente uso disso. No documentário produzido pela HBO é possível viajar pela vida de Sontag apenas vendo suas fotos pelo mundo e a cumplicidade com seus amores e amantes, até mais do que os depoimentos dados.

photographer'slife.redimensionadoNo fim dos anos 80 a fotógrafa Annie Leibovitz, conhecida por fotografar artistas para a Rolling Stone e a Vanity Fair, entrou em contato com Sontag para fazer um ensaio baseado em seu livro A AIDS e suas metáforas (1989) e assim começou a relação afetiva que durou quase 15 anos, até a morte de Susan em 2004. O relacionamento de Leibovitz e Sontag foi pouco comentado. A fotógrafa, mesmo depois da morte da companheira, pouco ou nada falou sobre os 15 anos passados juntas. Em 2006 Leibovitz lançou A Photographer’s Life 1990-2005 em que retrata os anos profissionais e pessoais passados ao lado de Susan Sontag que segundo ela era uma cúmplice por trás das lentes de suas câmeras. “A fotografia é uma invenção da mortalidade”, disse Susan em Sobre a fotografia e isso poderia ser a legenda da foto em que ela, no primeiro plano, em uma rua de Paris mantém firme o olhar para Leibovitz, um ano antes de falecer. Susan Sontag ficou eternizada nessa imagem que abre esse post.

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

Foi com o olhar de Leibovitz que Susan se despiu de intelectual e mostrou as cicatrizes causadas pelo cancer, andou pelas ruas de países em guerra, brincou com as crianças na praia, documentou os primeiros cabelos perdidos pela quimioterapia e a última tentativa de transplante. Annie diz, em uma entrevista para o NY Times, que era extremamente difícil no último ano documentar as situações, que ela não gostaria de estar lá como fotógrafa e sim apenas como companheira.

A última imagem de Susan Sontag por Annie Leibovitz, em uma maca entrando em uma ambulância aérea, saindo de Seattle voltando para Nova Iorque, deixa registrada a definição dela sobre a fotografia. Não há nada de artístico na foto, apenas a marca de um fim, um ponto final na sequência de décadas em que Sontag posou para todo tipo de câmera, dos pais ou mesmo de Andy Warhol, deixando claro que “Tudo existe para terminar em uma foto”. Provando que além das palavras as imagens se apropriam do que foi fotografado e mesmo com a certeza de finitude as imagens deixam vivos os segundos entre o enquadramento e o click.

Sontag saindo de Seattle, por Annie Leibovitz

Sontag saindo de Seattle, por Annie Leibovitz

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