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Livros & Discos

Community Bookstore, uma das últimas livrarias bagunçadas de NY

“Tenho medo de, qualquer dia desses, morrer embaixo de alguma dessas pilhas” Julio Scioli, 69 anos, dono da Community Bookstore

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Jornais americanos voltaram seus olhos recentemente para Julio Scioli e sua livraria, a Community Bookstore. Scioli acaba de vender um triplex, onde vivia no último andar e mantinha a livraria no térreo, por 5,5 milhões de dólares. Mas não é por conta do excelente negócio que Julio fez ao vender o imóvel que fez a imprensa se interessar por ele, e sim porque uma das livrarias independentes mais interessantes que restou em Nova Iorque vai fechar as suas portas, deixando um legado fora dos padrões em meio à grandes redes.

Chegando na esquina das ruas Court e Warren, no Brooklyn, por algum tempo ainda será possível enxergar Scioli sentado na frente da Community Bookstore, acenando, conversando com transeuntes e clientes ou apenas dando baforadas em seu cigarro. Logo na entrada, olhando através das janelas se vê que as pilhas dão o tom na decoração do espaço. Olhando de perto, os leitores perambulando entre os livros, tudo fica ainda mais claro, a livraria é tomada por cerca de 80 mil livros novos e usados (Julio afirma que o número é entre 60 e 100 mil) todos empilhados e organizados por uma forma que somente Julio – e frequentadores assíduos – podem entender.

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A livraria existe desde 1971 mas passou por outros endereços desde então. Até chegar no seu triplex no Brooklyn, Julio teve muitos problemas com aluguéis altos. Uma das suas histórias divertidas foi quando resolveu protestar contra o prefeito Ed Koch – que administrou a cidade entre 1978 e 1989 – e colocou sua autobiografia “Mayor” três vezes mais caro que o mercado. Claro que, como ele conta, o livro não vendeu e os preços dos aluguéis continuaram bastante altos. Foi em 1995 que Julio resolveu investir em seu próprio imóvel e chegou no último derradeiro endereço da Community.

Esqueça livrarias com cafés, lista de mais vendidos ou os últimos lançamentos. Scioli não compra livros usados, apenas aceita doações e sim, ele recebe muitas. A Community Bookstore é o tipo de lugar para quem não anseia se encontrar ou encontrar algo e sim se perder, ir até lá sem pensar no tempo gasto, ter senso de descoberta, desbravando as pilhas gigantes de livros desorganizados.

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A ideia é totalmente ir contra um controle do tempo, uma organização das tarefas diárias ou certezas do que ler. Julio Scioli fica sentado na porta da livraria e as pessoas entram e exploram, não são necessárias muitas perguntas. É divertido lver ele contando que quando um jovem, após perambular pelos livros empilhados, um pouco confuso perguntou se ele tinha um computador e ele replicou “Você quer comprar um computador?” fazendo o rapaz ir embora sem saber o que responder.

As chances de alguem chegar lá com alguns livros em mente e voltar com títulos totalmente aleatórios são enormes, ainda mais se tiver espirito aventureiro. Julio recebe centenas de doações de livros toda semana, o acervo é bastante rotativo. E vale mencionar que o horário de funcionamento da livraria também é fora do padrão, a loja não costuma abrir antes das 17h e sempre que dá adentra a madrugada. Julio diz que “As pessoas estão muito ocupadas de dia para procurar algo” e afirma que a internet não apenas deixou o comércio de livros usados mais complicado mas também tornou as pessoas mais apressadas.

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Julio Scioli completa 70 anos em 2015 e tem um ano para fechar a livraria e mais dois anos para sair do prédio. Ele brinca dizendo ao NY Times que ele sabe que tudo leva tempo, completa “Sou o primeiro a admitir que sou um pouco acumulador”. Apesar de estar fechando, por estar se aposentando, a Community é uma das últimas livrarias que, além de mostrar como tudo funcionava antes dos computadores – e como os livreiros sempre sabem onde tudo está – também se mostra como um dos últimos portais para um mundo menos apressado, obsessivo por organização e muitas vezes plástico e artificial.

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A história de Julio Scioli é inspiradora e fora dos padrões. É isso que alimenta as livrarias independentes, oferecer experiências novas e incomuns aos desbravadores de livros e discos, como é o nosso caso. Você tem experimentado novas descobertas?

Via NYTimes e Gothamist

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Uma opinião sobre “Community Bookstore, uma das últimas livrarias bagunçadas de NY

  1. Adorei o post, adorei a história. Fascinante! Uma pena que vá fechar em breve… Cultura pura.
    Estou começando um blog sobre livros, a produção editorial, os profissionais do livros e todo esse universo literário. Convido você a dar uma passada lá também e, se curtir, nos visitar sempre que quiser. 🙂
    E parabéns por este blog!

    (https://oeuliterario.wordpress.com/)

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