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“Help is Coming”: Como Pete Paphides escolheu a música para ajudar os refugiados Sírios

Peter Paphides é um importante jornalista de música da Inglaterra. Conhecido por trabalhar em revistas como a famosa Melody Maker nos anos 90, é atualmente colaborador freelancer no The Guardian, Mojo, Q e é um grande entusiasta do vinil. Diante dos atuais acontecimentos na Europa em relação aos refugiados da Síria, Peter decidiu usar a música como instrumento de sensibilização da população.

Crowded-House-Help-Is-Coming-200x200Como relata no texto abaixo, Peter acredita que a música é um importante meio de reflexão e que, dependendo dos contextos em que são colocadas, são capazes de causar grandes mudanças e mobilizações. Essa sensibilidade para a música o levou a colocar uma canção esquecida da banda australiana Crowded House aos topos de vendas digitais e compartilhamentos pela internet. As intenções de Paphides são simples, além de querer arrecadar dinheiro com as vendas da música – dinheiro destinado ao Save The Children, que cuidaria das crianças sírias – é ainda fazer as pessoas perceberem, através de uma canção, a olhar com mais atenção para o outro e suas histórias. A música em questão é “Help is Coming” e a princípio falaria das inúmeras famílias européias que chegaram de navio aos EUA, em busca de uma vida melhor, desde o século XVII. Será que o que vivemos hoje é muito diferente?

Tenho dois singles da música “Go West”. Não importa qual deles eu coloque para tocar. Qualquer um irá me levar à lágrimas, mas apenas um tem a intenção de causar esse efeito. A versão que rendeu ao Village People um single em 1979 tinha o feito de nem mais nem menos ser a música sobre o sonho americano. Com as palavras escritas e cantadas por Victor Willis (o cara que se vestia como um oficial naval), “Go West” transcendia suas intenções líricas. Para milhares de homens gays que procuravam deixar para trás os restritivos preconceitos de cidades do interior, “Go West” se tornou um novo hino de New York. Quatorze anos depois, quando o Pet Shop Boys colocou à serviço a voz masculina de Welsh para sua versão, “Go West” soou como algo totalmente diferente. Era um réquiem para a permissiva e romanceada era pré-AIDS em New York e a todos aqueles que tiveram suas vidas tomadas. Uma das versões faz você chorar porque as pessoas que a criaram, talvez não tinham ideia que era sobre os estragos causados por sua promissora terra; a outra porque você sabe como essa história terminou.

O tempo tem uma forma cruel de separar as boas músicas das ruins. As ruins não crescem ou mudam. Elas enrijecem na luz e permanecem exatamente como eram na primeira vez que você as encontrou. No entanto, músicas que você costuma relembrar, não são assim. Elas são como tudo que vive é. Elas crescem e assumem novas formas com o tempo. As verdades que elas comunicam parecem mais profundas a cada ano, sejam elas em “Heatwave” de Martha and The Vandellas falando sobre amor ou a busca angustiante de “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, do U2. Algumas músicas conectam imediatamente. Outras são presentes de autores para seus futuros “eus”. Esses dias, quando Yusuf Islam – ex-Cat Stevens – cantou “Father & Son”, ele o fez tão “do ponto de vista de alguém que tem ainda muito a aprender com seus filhos”.

Quando Fleetwood Mac toca “Silver Springs” hoje em dia, assume tanto a forma de um tapa cármico dado por Stevie Nicks em Lindsey Buckingham, como uma explicação da banda que decidiu, contra os desejos dela, omitir a versão no álbum “Rumours”. É difícil não se sentir como um intruso quando você vê os olhos de Nicks olhar para o ex e cantar “You’ll never get away from the sound of the woman that loved you.” (“Você nunca poderá fugir do som da mulher que o amou”). As melhores músicas transcendem os limites de seus compositores e exibem uma sabedoria muitas vezes perdida nas pessoas que as criaram. Temo que perdemos o Morrissey que cantava “It takes guts to be gentle and kind” (“É preciso força para ser gentil e carinhoso”), mas ainda temos bandas que conectam a humanidade de suas primeiras músicas em todo seu panorama: bandas como o British Sea Power, com “Waving Flags” que encoraja os emigrantes do leste europeu em “Welcome in/From Across the Vistula/You’ve come so very far” (“Seja bem vindo/Através do Vistula/Você vem de tão longe”.

Às vezes, é como se esses sentimentos estivessem mais evidentes na Alemanha do que aqui [Inglaterra]. Música não deveria ser o que provoca o pudor que a UKIP [Partido de Independência do Reino Unido/Conservador] e certos setores da mídia tentam esconder mas, é claro, a verdade é que ela provoca. Em 1999, três anos depois do fim, o Crowded House lançou uma coletânea de músicas inédias chamada de “Afterglow”. Uma música, “Help is Coming”, data de uma sessão inacabada de 1995 porque, nas palavras de Neil Finn, “a banda tinha perdido seu caminho”. “Help is Coming” era um silencioso, sofrido hino para todas aquelas pessoas, nas palavras de Finn, “chegaram da Europa em navios na Ilha de Ellis [New York], procurando na América uma vida melhor para suas famílias”.

Essa foi a música que se espalhou pela minha mente nas primeiras horas da última quarta-feira [09 de setembro de 2015], como as cenas dos refugiados sírios, desembarcando de botes, sendo jogadas na minha frente. No dia seguinte, Eu contatei Finn e amigos da The Vinyl Factory e perguntei a eles se poderiam produzir uma versão em vinil de “Help is Coming”, com os rendimentos para a Save the Children. Desde então, é difícil compreender a cadeia de eventos que fizeram – Via o extraordinário filme que acompanha, de Mat Whitecross – a música ganhar lançamento mundial.

Nos últimos cinco dias, junto com a minha esposa Caitlin Moran, eu peguei a música e pressionei o iTunes e a Universal para a sua reedição. Todo dia parece mais surreal que o anterior. Tenho recebido e-mais de Stella Creasy [política inglesa] se comprometendo a tentar remover os impostos em cima das vendas da música. O ator Benedict Cumberbatch [Sherlock Holmes/Jogo da Imitação] filmou uma introdução para o filme de Mat e, depois de sua performance como Hamlet no Barbican, em Londres essa semana, ele recolheu donativos em um balde. As remessas vem chegando de hora em hora. Noite passada, recebi uma mensagem dizendo que o iTunes vai tornar “Help is Coming” uma “prioridade mundial”. Eu poderia passar anos fazendo campanha, tentando e falhando encontrar o que essa música consegue – uma música que estava dormindo em um álbum quase esquecido de 16 anos – fazer em poucas horas.

Claro, ela deveria ser uma música pop que seduz as pessoas emocionalmente em relação à situação dos menos afortunados que elas. Mas há outra maneira de ver isso. Não é um milagre que uma música pop tenha o poder de fazer tudo isso?

(tradução por Emanuela Siqueira)

Peter Paphides em The Guardian (texto original)

Você pode encomendar o disco 7′ ou comprar a música online aqui.

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