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Mahommah Gardo Baquaqua e a primeira biografia de um escravo negro no Brasil

“Imagino que deva existir apenas um lugar mais horrível em toda criação que o porão de um navio negreiro, e esse lugar é um dos mais prováveis onde os senhores de escravos e seus capangas se encontrarão um dia” Mahommah Gardo Baquaqua

Baquaqua1Em 2013 o filme “12 anos de Escravidão” emocionou as plateias do mundo todo e levou o Oscar de melhor filme. O tenso relato de Solomon Northup só foi possível de ser filmado graças às memórias deixadas por ele em livro. Os diários e relatos sempre foram um dos meios mais importantes na construção da subjetividade de minorias e também como documentos históricos, indo além de preposições ou do ponto de vista quase sempre dos dominadores.

O Brasil foi o maior importador de mão de obra escrava em toda América, superando inclusive os Estados Unidos. Para se ter uma ideia, de cada europeu que entrava no país como imigrante, entravam também cerca de oito africanos escravizados, ou seja, 40% dos africanos que atravessavam o Atlântico aportavam no Brasil. O país também foi o último a abolir a escravatura, apenas em 1888, fato que ressoa até hoje na sociedade brasileira. Apesar dos dados da escravidão serem assustadores, até pouco tempo atrás não havia sequer um único documento, relato ou diário público que mostrasse a visão de um escravo em solo brasileiro, situação até corriqueira nos Estados Unidos, por exemplo.

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Rev William L Judd e Baquaqua após escapar da escravidão.

Em 2015 sai, pela primeira vez em português, os relatos de Mahommah Gardo Baquaqua, o primeiro escravo negro no Brasil a relatar as vivências terríveis como homem livre que acordou em um navio, com as mãos amarradas e vendido como escravo. Baquaqua já é bastante conhecido no meio acadêmico dos estudos Afro-Brasileiros, mas a partir do dia 30 de novembro de 2015 ganha tradução completa do seu “An interesting narrative. Biography of Mahommah G. Baquaqua” através da parceria entre Brasil e Canadá.

Baquaqua foi vendido primeiramente a um padeiro em Olinda – que o fazia carregar pedras – e depois para um comerciante da indústria do Café no Rio de Janeiro. Consequentemente, foi colocado em um navio que seguia com a carga de café para Nova Iorque, cidade que já dera fim à escravidão e onde havia abolicionistas que o ajudaram a fugir. Passou pelo Haiti, voltou para os EUA e foi no Canadá que encontrou alguém interessado em seus relatos, assim surgindo a sua biografia. A última informação sobre Baquaqua foi de que tentava voltar para a África, tentando recuperar suas raízes.

O professor e pesquisador Bruno Verás

O professor e pesquisador Bruno Verás

Desde 2003 vigora uma lei que propõe ações afirmativas e obrigatoriedade do ensino da história das populações afro-brasileiras, situação ainda não tão presente no ensino do país. O jovem professor de História pernambucano Bruno Verás, preocupado com a falta de representatividade dessas populações tomou a iniciativa de tornar real no Brasil o Projeto Baquaqua. Como candidato ao doutorado na York University entrou em contato com pesquisadores como Paul Lovejoy, responsável por importante pesquisa sobre as migrações do povo africano ao redor do mundo.

Mahommah Gardo Baquaqua, que até então era apenas estudado nos círculos acadêmicos, poderá em breve ser tão conhecido como Solomon Northup. Quando questionado pelo jornal inglês Guardian sobre o principal ponto desse projeto, Verás diz que “Quando ensinava no ensino médio, sempre que se falava em escravidão haviam poucas e indistinguíveis imagens de pessoas negras trabalhando nos canaviais” complementa ainda “O objetivo desse projeto é que será possível ver pessoas reais afetadas pela escravidão”. Além de poder circular pelas carteiras escolares Brasil afora, o Projeto Baquaqua trará novas visões a respeito da história do país.

“É um passado que os que estão no poder querem esquecer. Mas esse legado de uma da população que permanece marginalizada não pode ser esquecido.” Bruno Verás

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