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Revista “Leite Quente” e as peculiaridades de Curitiba

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Curitiba é uma cidade que inspira à criação de períodicos, suplementos culturais, fanzines e afins. Desde que Dalton Trevisan criou a Revista Joaquim na década de 40, a capital do Paraná engatou uma publicação atrás da outra. Foram Raposas, Nicolaus, Rascunhos e hoje Relevos e Cândidos – entre outros – circulam por além dos limites da cidade. O ritmo se mantém e parece sempre deixar uma semente para que quando algum título sair de circulação, outro apareça na sequência. No fim dos anos 80, logo de cara trazendo um Leminski mostrando as garras, surge a Leite Quente – expressão que denota o sotaque da região – a fim de mostrar à outros cantos do país do que Curitiba é feita e do que se alimenta.

Primeira edição da Leite Quente com Leminski

Primeira edição da Leite Quente com Leminski

A revista, que infelizmente hoje é pouco encontrada além da Casa de Memória de Curitiba e alguns sebos, teve sua primeira edição em 1989 – a qual já falamos aqui – e define bem o que seriam as nove próximas edições, sem uma periodicidade exata, mas que seguiriam firmes até 1992. O periódico era editado por Maí Mendonça, na época diretora de Patrimônio Cultural na Fundação Cultural de Curitiba e contava sempre com um assunto que norteava um ensaio escrito por um ou mais convidados, quase sempre de forma descontraída e linguagem coloquial, dialogando com o leitor como em uma conversa casual em que um morador da cidade apresenta as excentricidades aos visitantes.

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A Leite Quente seguiu após a estreia com Leminski e o pequeno tratado sobre o modo de falar do curitibano que afeta todos os seus costumes, incluindo os mais banais, como comprar uma cachorro-quente na rua. Nos dois anos seguintes tratou de assuntos peculiares como as famosas duas nevascas na cidade e o frio que molda o humor do curitibano, o comportamento do mesmo quando desce ao litoral levando na mala a carranca e suas maneiras urbanas, até um divertido e bonito ensaio fotográfico dos perfis dos curitibanos famosos.

Depois de tratar da linguagem do curitibano – e dos paranaenses em geral – os dois próximos editoriais trataram da formação cultural da cidade influenciada pelos estados do sul. Apesar de um pouco de exagero e saudosismo no 2º número intitulado de Passe a cuia, chê, fazendo uma extensa revisão da história dos gaúchos na cidade, a terceira edição, falando dos “catarinas” – um modo até simpático de tratar os migrantes do estado vizinho – abre com um Manoel Carlos Karam divertido, contando que estava indo para Nova Iorque em 1966 e sua pernoite na cidade já durava 23 anos.

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Número sobre a influência catarinense no Paraná.

A imagem que ilustrou a edição Os Catarinas do Paraná é a da divisa entre os estados e o trem Rápido Sul-Brasileiro que circulava entre eles, foto de Domingos Fogiatto, fotógrafo conhecido pelos registros clássicos do Paraná. A imagem é figurativa já que os dois estados já estiveram em disputas de território e a divisa sempre será a lembrança do início do século XX. A edição conta com ensaio de Deonisio da Silva, escritor, etimologista e um típico catarina em Curitiba.

A 4ª edição, intitulada de A Cidade sem mar voltou com Manoel Carlos Karam, dessa vez com um ensaio completo, sobre o comportamento do curitibano quando desce para o litoral. Karam era conhecido por seu tom irônico e divertido e justamente com esse humor peculiar do escritor e dramaturgo a edição arranca muitos risos, mesmo de quem não vive na capital paranaense, mas que também não é nenhum bicho de praia. Karam conta uma informação muito útil para quem um dia pretenda vir para Curitiba: por aqui só existem duas estações, o inverno e a rodoferroviária. A ilustração Mar imáginário na Praça Tiradentes, que estampa a capa – talvez a mais bela entre as edições – é de Abrão Assad e mostra ao fundo a Catedral Basílica de Curitiba e a praça Tiradentes, imersos numa enorme onda. A cidade não tem mar, mas o imaginário dá conta do recado.

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Curitibano não tem mar mas se diverte também.

“Eis aí um tema de tese. Existe sol em Curitiba? A cidade sem mar é obrigatoriamente uma cidade sem sol? A cidade com ano de duas estações – inverno e rodoferroviária – não tem direito a sol? Não há sol no inverno, mas há sol na rodoferroviária. Um enorme sol pintado na traseira dos ônibus da Graciosa, a empresa que tem linhas de Curitiba para o litoral. O curitibano leva o sol nas costas ao fazer o trajeto Curitiba-Atlântico.” (p.8, Dez. 89)

Engatando no fato do curitibano ser mal acostumado com o calor, o 5º número da Leite Quente estampou na capa um boneco de neve feito na mitológica nevasca de 1928. O ensaio ficou por conta da jornalista Rosirene Gemael, conhecida por atuar no jornalismo cultural do Paraná. É bacana perceber o bom humor em mais uma edição da revista, pois Rosirene consegue nesse ensaio definir – e assumir – o motivo do famoso mal humor curitibano: o frio. Mas calma lá, ela também deixa claro que a neve é capaz de aquecer o coração do curitibano e elevar o seu humor, aumentando a lista de excentricidades da cidade.

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Só existem duas estações em Curitiba: frio e a rodoferroviária.

Nada é mais peculiar ao curitibano que o frio. Homens da metereologia, transeuntes que soltam fumacinhas pela boca, anônimos e estatísticos que morrem pelas ruas (na verdade, em qualquer época do ano), pediatra, pneumologista, cobradores de ônibus lotado pedindo um passinho para trás, os engenheiros e arquitetos que não planejam casas e apartamentos voltados para o sol e farmacêuticos que garantem o melhor antigripal, são figuras típicas dessa Curitiba com apenas duas estações. Rosirene apresenta inclusive um vocabulário de expressões muito úteis para esse período do ano como banho de gato, veranico, chuva de molhar bobo e expressões como cerração baixa, sol que racha.

“Que a cidade não espere coerência e lealdade do frio. Definitivamente ele não é o melhor amigo do homem. É volúvel. E extremamente frívolo. Vem, se instala, se esparrama, se atreve ao máximo e de repente, sem aviso prévio some, para voltarem seguida, mais violento do que nunca.” (p.21, julho de 90, número 5)

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Atlético Paranaense ou Coritiba?

Depois de tratar das duas peculiaridades mais populares do curitibano – o frio e a falta de intimidade com o mar – o 6º número da Leite Quente trouxe um assunto caro à qualquer capital e cidade brasileira: o futebol. Com textos de vários autores e ilustrações do cartunista Solda, Atletiba Literário foi uma edição que conta a rivalidade dos dois principais times da cidade, na epoca, o Atlético Paranaense e o Coritiba. Escritores atleticanos e coxas – além de outros indefinidos quanto à identidade futebolística da cidade – contam suas peripécias quando o assunto é explicar o futebol de Curitiba e como lidam com isso. A edição é criativa a ponto de trazer capa dupla – uma vermelha e outra verde, claro – e assim o leitor pode começar a leitura pelo seu time favorito.

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Sobre as mocinhas da cidade.

O 7º número da revista auto intitula-se bem ao estilo de Dalton Trevisan: As Mocinhas da Cidade. As personagens femininas da sociedade curitibana, alocadas num contexto ao longo do século XX, são descritas pela escritora e bibliotecária Maria Thereza Brito de Lacerda. Ela faz um completo ensaio contando sobre como era ser uma jovem mulher entre as décadas de 40 e 50. O relato acaba denunciando uma cidade com costumes bastante provincianos e repleto de outros que mais parecem – hoje, pelo menos – um manual teatral de boas maneiras para mocinhas comportadas.

Os três últimos volumes da Leite Quente, já adentrados na década de 90, tratam de assuntos mais contemporâneos da cidade. A 8ª capa conta com o ensaio Nariz, Retratos de um Perfil Curitibano, da fótografa Vilma Slomp sobre – literalmente – os perfis curitibanos. O time clicado trazendo nomes como Poty Lazarotto, Ariel Coelho, Hélio Leites e Sylvio Back, tiveram seus perfis comentados por amigos e outras figuras conhecidas de Curitiba. Um aspecto interessante é a escolha que cada convidado fez para tratar dos perfis. Valêncio Xavier optou por um poema em prosa ao descrever Ariel Coelho, já outros preferem usar as lembranças e sentimentos para declarar um carinho ou mesmo respeito e admiração por uma pessoa. As fotografias de Slomp revelam muito sobre cada homenageado, parecendo que ela observou atentamente cada um e os fotografou em ângulos que realmente revelassem muito sobre o fotografado.

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O nariz e o perfil dizem muito sobre o espaço geográfico.

O 9º talvez seja o mais crítico dos 10 números da revista. Intitulado de Curitiba vista por um pé-vermelho, a edição conta com um ótimo ensaio – e fotos – do jornalista Nilson Monteiro, um pé-vermelho, ou seja, como são conhecidos os habitantes do norte do Paraná por conta da terra vermelha encontrada por lá. O olhar de Nilson tem um viés mais realista do que já contavam as outras edições. Monteiro analisa a Curitiba do ínicio dos anos 90 com um olhar de quem já não vê somente a cidade do futuro proposta nos anos 70 e 80. Trata de uma Curitiba mais urbanizada, a mesma que ganhou prêmios pelo mundo afora, não deixando de ser Brasil, abrigando pessoas do mundo todo e com todas as mazelas de um grande centro urbano como infra-estrutura e problemas de habitação na cidade e na região metropolitana. Nilson já comenta nesse ensaio que Curitiba parece a capital da buzina, denunciando um dos problemas mais persistentes nos últimos 20 anos, o trânsito impaciente. Claro que nem tudo são críticas, ele faz excelentes imagens e comenta sobre a organização da cidade, mas sempre com um olhar sincero e necessário de estrangeiro, encantado e impressionado.

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Olhando Curitiba com olhos maus críticos.

A última edição da Leite Quente, com o título de Noite Quente traça um paralelo sobre o que era “curtir” a noite em 1956 e o que isso significava em 1992. Escrito por Paulo Roberto Marins, ele faz um levantamento baseado em crônicas escritas nesse período. Desde bares a bórdeis conhecidos, botecos onde se bebe uma cerveja nas ruas a figuras típicas depois das 18h, a edição homenageia outra face de Curitiba, a cidade mutante e que conta uma história em cada esquina.

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É na noite que captura-se histórias.

Assim como boa parte de capitais e cidades maiores, Curitiba é uma cidade formada muito além das pessoas que nasceram por aqui, uma cidade de pessoas que escolheram ficar. Um dos motes mais presentes nas 10 edições da Leite Quente é a figura do estrangeiro, do personagem que vai se tornando curitibano e ganhando aspectos comuns da cidade. Um catarina que aqui ficou, um gaudério que estava passando, um pé-vermelho que só veio tirar umas fotos, ou ainda paulista, nordestinos e mais recentemente haitianos, todos completam essas características que formam a cidade. O mais bacana de revisitar todas as 10 edições da Leite Quente é perceber que ela consegue abarcar dois lados de Curitiba: um primeiro sobre a formação da cidade, seus costumes, seus mitos e linguagens e um segundo que traça uma linha no horizonte de que como a cidade iria se desenvolver depois dos anos 90 e ainda se mostra mutante todos os dias. Se você for uma dessas pessoas que quando passa um tempo em algum lugar gosta de se sentir personagem do espaço, tente encontrar algum volume da revista, provavelmente você se sentirá mais à vontade para pedir um cachorro-quente com duas vinas na Praça Tiradentes, irá abrir um sorriso em dias de muito frio com sol ou mesmo estender um pano quando passear em algum parque. Curitiba é feita de várias facetas, já diria Leminski no primeiro número da Leite Quente “Não admito viver numa cidade artificial” e os 10 volumes dão conta de mostrar que a cidade é naturalmente cheia de peculiaridades.

Agradecimento à Casa de Memória da Fundação Cultural de Curitiba por ceder as imagens de capa da Leite Quente e fornecer as revistas para leitura e escrita desse texto.
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