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O Punk também é Negro!

“Eu não sou uma ‘punk negra’. Eu sou negra e gosto de punk”

Tasha Fierce, punk/escritora/ativista sobre a invisibilidade negra no punk

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H.R.,vocalista do Bad Brains no fim dos anos 70.

Há 40 anos o termo punk ganhava contornos como uma vertente importante na história, ate então recente, do rock. Na Inglaterra o Sex Pistols louvava a morte da rainha e o The Clash queria colocar fogo na capital da Inglaterra. Nos Estados Unidos os Ramones inauguravam a cena do famoso bar CBGB, de Nova Iorque, e louvavam o tédio dos adolescentes pós-flower poweR. O gênero vinha para dar atitude ao inconformismo dos jovens que não se reconheciam dentro do sistema. Através da música, das roupas e da cultura em geral, ele se sentiam empoderados para gritar, ovacionar e criticar o meio em que viviam.

Dessa forma o punk acabou se tornando uma subcultura que dialogou com uma infinidade de outras lutas sociais e ideológicas. Mesmo que os jornais, marcas de roupa e a mídia quisessem vender uma idéia única do que o movimento era – um monte de rebeldes sem causa, trajando roupas rasgadas e cabelos coloridos – ele foi muito além. Até hoje descobrimos submundos gerados pela influência do movimento e que reverberam em vários cantos do mundo e camadas sociais.

E se o Punk era sobre inconformismo e luta para desequilibrar um sistema que não representava minorias, era quase impossível que varios grupos étnicos e de Gênero não se sentissem finalmente próximos de um instrumento para dar voz às suas pautas. Por exemplo, no fim dos anos 80 graças à cultura do faça-você-mesmo e aos zines propagados nos anos 70, o movimento feminista riot grrrl encontrou no punk rock uma forma de discutir machismo, violência contra a mulher, sororidade e outros assuntos que vinham em diálogo com as garotas que gostavam do estilo, mas se sentiam excluídas dos meios repletos de homens. Apesar do pouco destaque para vários artistas negros, o punk rock também tem excelentes histórias para contar sobre o envolvimento deles fazendo som de protesto e luta. Muitos artistas foram pioneiros e lutaram em duas frentes: uma para sobreviver na própria cultura negra como estranhos e outra dentro da cena punk, que os colocava de lado. Esses artistas são além de vanguardistas, autênticos, rebeldes e engajados politicamente.

É um pouco da história dessas pessoas que queremos contar através de bandas do passado, do presente e de vários cantos do mundo. Queremos dar mais motivos para achar que o Punk não morreu e continua sendo uma forma necessária de dar voz à todo tipo de minoria. Prepare os fones, deixe as letras e os acordes simples entrarem no seu ouvido e seja contaminado pelo espírito revolucionário do Punk!

A Band Called (DEATH)

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Em 2012 o documentário A Band Called Death trouxe à tona a história de uma banda de Detroit, formada por irmãos, que no começo dos anos 70 fazia um som vanguardista para se chamar de Punk e muito mais ousado para ser apenas rock’n’roll. Vindos da periferia da cidade, os irmãos Hackney faziam um som totalmente diferente do que se esperava da comunidade negra, que na época vivia no entorno da Motown e do Soul. Eram influenciados por The Who, Alice Cooper, com a sujeira dos Stooges as letras que criticavam os políticos também filosofavam com a sua juventude. O Death se tornou cult no começo dos anos 2000 em círculso de colecionadores e hoje os irmãos – menos David, o mentor da banda, que já faleceu – fazem turnês pelo mundo e acabaram de lançar um novo disco, passando pelo Brasil no começo de 2016.

Poly Styrene e X-Ray Spex

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Poly Styrene, ou melhor, Marianne Joan Elliot-Said era filha de uma irlandesa com um somali e foi pioneira no Punk inglês. Como muitos adolescentes da época (basta lembrar do Joy Division e de toda cena de Manchester) , após assistir um show do Sex Pistols ela decidiu montar uma banda, o X-Ray Spex. A banda durou apenas três anos mas suficientes para Poly Styrene se tornar uma figura-chave no movimento inglês, não apenas como negra mas por ser mulher no front de uma banda punk, compondo e provocando com suas músicas.

Pure Hell

Os americanos do Pure Hell são frequentemente citados como a primeira banda totalmente formada por afro-americanos. Eram da Philadelphia e surgiram em 1974, no auge do movimento no eixo NY-Los Angeles-Londres. Eram grandes fãs do New York Dolls – inclusive andando com os caras e acompanhando shows – mas não fizeram muito sucesso na época, lançando seu único disco “Noise Addiction” vinte e oito anos depois. De qualquer forma, são lembrados como influência por bandas como o Bad Brains e pelo falecido Lemmy Kilmister, vocalista do Motörhead.

Bad Brains

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A sonoridade do Bad Brains, ainda nos anos 70, assustava tamanho era sua maturidade musical. A banda simplesmente influenciou o que viria ser o hardcore e outras vertentes do meio alternativo dos anos 80 e 90. A banda surgiu em 1977 em uma cena prolífica de Washington DC e misturava punk, soul, reggae e distorciam tudo que as pessoas esperavam por jovens negros seguidores do rastafári. O último disco é de 2012 e recentemente o vocalista H.R. foi diagnosticado com uma doença no cérebro, mas não afirmou se iria parar de cantar.

BANDAS CONTEMPORÂNEAS

Big Joanie (Inglaterra)

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O trio de garotas Big Joanie vem de Londres para provar que nem o punk rock e muito menos o riot grrrl morreram. Elas possuem o próprio selo Sista Punk Records e não escondem sua maior motivação: fazer música para que os jovens negros possam se sentir representados. A baterista Chardine é ativista e recentemente falou em um TEDtalk sobre a importância do crescimento da cena punk negra, intitulado de “Como o punk me tornou uma feminista negra”.

TCIYF (África do Sul)

TCIYF

O TCIYF é da cidade de Soweto e uma banda cheia de atitude para além da cara malvada dos membros em fotos. Como parte de um coletivo de skatistas, a banda surgiu como uma forma de rejeição aos estilos populares na África do Sul como o hip-hop e o kwaito, que eles não se sentem representados. E o que é melhor para mostrar o inconformismo além de montar uma banda Punk?

Project Black Pantera (Brasil)

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Apesar do nome em inglês o Project Black Pantera (Projeto Pantera Negra) é brasileiro e foi formado em 2014, em Uberaba, nas Minas Gerais. Mais uma banda que derruba por terra o que o senso comum espera de caras usando rastafáris subindo em um palco. O trio mistura o peso do thrash metal, rapidez e letras ao melhor estilo hardcore. Os caras cantam em português e a primeira faixa de divulgação, intitulada “Rede Social”, faz uma crítica ao uso das redes sociais para alimentar o próprio ego.

Crystal Axis (Quênia)

crystalaxis

O que mais impressiona no Crystal Axis é a qualidade das composições e gravações que correm a internet. A banda é uma das primeiras de punk que se tem notícia na cidade de Nairóbi, no Quênia, mas desde 2013 não deu mais notícias. Flertando com o post-punk, música instrumental e letras reflexivas, a banda inaugurou uma cena importante no país, esperamos que incentive muitas outras bandas.

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