JOAQUIM

Livros & Discos

Arquivo para a categoria “Arte”

Bowie, Bach e Bebop: Como a música impulsionou Basquiat

Texto traduzido do NY Times.

“Não sei como descrever meu trabalho” “É como perguntar ao Miles: ‘Como soa a sua corneta?”

Em 1979, aos 19 anos, o artista Jean-Michel Basquiat mudou-se para um apartamento abandonado na rua 12 leste, em Manhattan, com Alexis Adler, sua namorada na época. O imóvel, um prédio de seis andares sem elevador, estava deteriorado e parcamente mobiliado. Basquiat, falido e impossibilitado de dispor de telas, pintou despreocupado nas paredes, no chão e até mesmo nas roupas de Adler.
O único objeto que permaneceu intocado foi o aparelho de som da namorada, que tinha um lugar privilegiado numa estante tirada da rua.

“O principal para nós era ter grandes alto-falantes e um estéreo explosivo. Esse foi o único objeto que comprei.”, diz Adler, que ainda vive no apartamento. Relembra que quando Basquiat estava por perto, “a música tocava o tempo todo”.

Em setembro passado, foi aberta a exposição “Basquiat: Boom for Real” no ¹ Barbican Centre, em Londres. A mostra destaca o relacionamento do artista com música, texto, filme e televisão. Mas é o jazz – o estilo musical que constituiu a maior parte da grande coleção de discos de Basquiat – que se destaca como temática e uma fonte de inspiração pessoal.

A primeira grande retrospectiva de seu trabalho na Grã-Bretanha é uma espécie de retorno ao lar para a arte de Basquiat: em 1984, sua primeira mostra institucional abriu na Fruitmarket Gallery, em Edimburgo, Escócia e depois viajou para o Institute of Contemporary Arts, em Londres. Em um gratificante encerramento de ciclo, será exibido em Barbican um grande desenho que Basquiat fez em Londres para a exposição do instituto, mas que acabou não sendo exposto naquele momento.

Os gostos de Basquiat eram ecléticos: Curtis Mayfield, Donna Summer, Bach, Beethoven, David Byrne, Charlie Parker, Miles Davis, Aretha Franklin, o album “Metal Box”, do Public Image Ltd. “Ele tinha suas faixas favoritas que simplesmente tocava e tocava”, diz Adler. O “Low” do Bowie, definitivamente. E o lado B do “Heroes”. A influência musical era enorme.

Em dado momento, Basquiat acumulava uma coleção de mais de 3000 discos. Abrangia blues, música clássica, soul, disco e até zydeco, um tipo de música popular do sul de Luisiana. Ele também fazia sua própria música: como líder do Gray, um quarteto de art noise experimental; como o produtor do single “Beat Bop”; e como D.J. em locais como o famigerado Mudd Club, em TriBeCa.

Basquiat fez, com frequência, referências em seu trabalho aos músicos que mais admirava. Prestou homenagem a Parker, cujo apelido era Bird, em pinturas como “Bird on Money”, “Charles the First” e “CPRKR”. “Max Roach” foi uma reverência para a visão e estilo do baterista de jazz com o mesmo nome.

E em “King Zulu”, uma pintura magistral, inspirada nos primórdios do jazz, que ocupa um espaço notável em Barbican, Basquiat evocou a memória de trompetistas como Bix Beiderbecke, Bunk Johnson e Howard McGhee. No centro do azul intenso do quadro, um rosto pintado de menestrel olha de soslaio, a imagem foi tirada de uma fotografia de Louis Armstrong mascarado como um rei Zulu, em um ² Mardi Gras de New Orleans, em 1949.

Basquiat era especialmente devoto ao bebop, o gênero incansavelmente inventivo representado nas figuras de Parker, Davis, Ornette Coleman e Thelonious Monk. O amor de Basquiat pelo bebop alimentou a sua arte, diz Eleanor Nairne, co-curadora de “Boom for Real”.

“O bebop foi um movimento bastante intelectual”, diz ela. “Foi também bastante iconoclasta em querer romper com essas harmonias mais antigas do jazz. Essa ideia de um tipo de ruptura e esses músicos que eram tão jovens, poderosas forças vibrantes; haviam muitos paralelos que ele viu em sua vida e trabalho.”

Basquiat, que morreu de uma overdose aos 27 anos, atingiu alturas vertiginosas em sua curta carreira. Sua primeira venda, a pintura “Cadillac Moon”, foi para Debbie Harry, líder do Blondie, em 1981. Ela pagou 200 dólares.

Em poucos meses, seus trabalhos estavam sendo vendidos por dezenas de milhares de dólares. Aos 20 anos ele havia conseguido seu primeiro milhão. No entanto, Basquiat estava incomodado com o sucesso. Ele tinha uma profunda noção de seu lugar como um dos poucos afro-americanos em um mundo artístico predominantemente branco, onde era considerado por alguns como pouco mais que um intruso.
O crítico estadunidense Hilton Kramer certa vez descreveu Basquiat como “um aproveitador sem talento, malandro mas perdidamente ignorante, que usou de sua juventude, aparência, cor da pele e abundante sex appeal” para ganhar fama.

Segundo Nairne, Basquiat era “constantemente, de forma desconfortável, muito consciente das maneiras racistas com as quais ele costumava ser classificado.” E ele encontrou um forte paralelo entre a sua posição e as dos seus heróis do jazz.

“São músicos que, em uma esfera de suas vidas, são incrivelmente celebrados.”, diz a Sra. Nairne. “E em outros aspectos, no cotidiano e nos termos mais banais, sempre reduzidos à cor de suas peles. Tiveram que, literalmente, usar a porta dos fundos dos clubes. Não há como separar a sua música do tratamento pela sociedade. Havia muita identificação ali.”

SAMO

No final das contas, Basquiat sentiu-se mais em casa no centro de Nova Iorque. Ele teve notoriedade no fim dos anos 70 como um grafiteiro usando a marca “SAMO”, rabiscando as ruas da baixa Manhattan com máximas sardônicas e ardilosamente poéticas: “SAMO em defesa da chamada vanguarda”; “SAMO como final para uma fantasia de neon chamada ‘vida’.”.

A cena do centro era uma famosa fusão de tendências de arte emergentes, urbana, grafite, casas noturnas da moda como a Mudd Club e Area, e os novíssimos gêneros musicais como New Wave e hip-hop.
Esse florescimento aconteceu em um contexto maior de MTV, sampleamento, scratching e teorias semióticas e pós-modernas; um momento em que a criação e disseminação da cultura parecia um processo cada vez mais fluído e sem limites.

Tudo estava em processo de fusão” diz Adler. Para Basquiat “foi um período de descoberta”.
A natureza multifacetada da cena deu licença para Basquiat a entrecruzar formas artísticas, de maneira a desenvolver seu próprio estilo. Ele recitou poesia no palco e produziu o hipnotizante hip-hop “Beat Bop”, do grafiteiro Rammellzee e do rapper K-Rob, que continua sendo um clássico do gênero.

No Gray, tocava sintetizador e clarineta, e fazia experimentos ao estilo de Steve Reich, fazendo looping com fragmentos de áudio em um gravador de rolo. O grupo se apresentava esporadicamente mas atraiu admiradores, incluindo o Sr. Byrne e o pioneiro do hip-hop, Fab 5 Freddy. Uma resenha na Interview Magazine os descreveu como “um conjunto de sons, com efeitos sonoros de bebop industrial, fácil de ouvir.”

Basquiat saiu do Gray em 1981, quando a pintura passou a dominar a sua atenção mais seriamente. Mas a música permaneceu uma marca significante na sua realização criativa.
David Bowie, escrevendo após a morte de Basquiat, o saudou como um espírito semelhante cuja sensibilidade pertencia tanto ao rock como à arte.

“Seu trabalho se relaciona com o rock de formas que poucos outros artistas visuais se aproximam”, observou o músico. “Ele parecia sintetizar o fluxo frenético da imagem e experiências transitórias, colocando-as através de um tipo de reorganização interna e vestindo a tela com essa consequente rede de acasos.”

O próprio Basquiat era menos exibido. “Não sei como descrever meu trabalho”, refletiu uma vez. “É como perguntar ao Miles: ‘Como soa a sua corneta?”

¹ Barbican Centre – Espaço cultural que inclui teatro, espaços para exposição, cinema, restaurantes no centro de Londres.(https://www.barbican.org.uk/)

² Mardi Gras é a terça-feira de Carnaval (igual ao Brasil) de Nova Orleans

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10 Discos favoritos de Tarantino

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Quentin Tarantino é conhecido pelo seu cinema visceral e apaixonado e boa parte da sua filmografia dialoga com outros filmes que o próprio diretor é fã. Além de um grande cineasta, Tarantino também é um colecionador de discos. Se você já viu alguns filmes do cara vai perceber que as trilhas sonoras são muito importantes na constução do enredo como é o caso dos dois volumes de Kill Bill, do Pulp Fiction e Django Livre, todas ótimas trilhas sonoras. Como ele próprio diz logo abaixo, quando ele está pensando em um filme ele procura músicas que reflitam a personalidade do filme e isso é possível graças ao vasto conhecimento musical e a coleção própria do diretor.

O jornalista Michael Bonner (Uncut) pediu a Quentin Tarantino falar sobre seus 10 discos favoritos e o resultado traduzido você lê logo abaixo, é muito interessante perceber a relação emotiva que o diretor tem com a música e a imagem, dá para sentir que Tarantino é como um de nós.

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Bob Dylan

 

Blood On The Tracks

“Este é o meu disco favorito de todos. Passei o fim da minha adolescência e o começo dos meus 20 anos ouvindo música antiga – rockabilly, coisas do tipo. Então eu descobri o folk quando eu tinha 25, e isso me levou ao Dylan. Ele me impressionou com esse disco. É tipo o grande álbum da segunda fase, sabe? Ele fez a primeira leva de discos nos anos 60, daí começou a fazer os álbuns menos problemáticos – e disso veio “Blood On The Tracks”. É obra prima dele.”

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Bob Dylan

 

“Tangled Up In Blue”

“Ok, talvez eu esteja trapacendo. Eu sei que essa é do Blood on Tracks, mas essa é a minha música favorita de todas. É uma daquelas canções em que as letras são ambíguas, que na verdade você escreve a música por si próprio. É muito divertido – é como se Dylan estivesse brincando com o ouvinte, brincando com a forma que ele ou ela interpretam as letras. É bem difícil pegar músicas individuais do Blood on Tracks, porque ele funciona muito bem como um álbum inteiro. Eu costumava pensar que “If You See Her, Say Hello” era uma faixa mais poderosa que “Tangled Up in Blue” mas, ao longo dos anos meio que percebi que “Tangled…” levava vantagem, pela diversão que você pode ter com ela.

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Freda Payne

 

“Band Of Gold”

“Eu sou um grande fã de música. Amo o rock’n’roll dos anos 50, Chess, Sun, Motown. Todas as bandas de Merseybeat, grupos de garotas dos anos 60, folk. Isso era tão legal: uma combinação da forma que era produzido, o som bacana do pop/R&B, e a voz da Freda. Era um tanto cafona – sabe, tinha mesmo uma batida rápida e, nas primeiras vezes que ouvi, eu ficava tipo, totalmente ligado na animação da música. Foi apenas na terceira ou quarta ouvida que percebi que as letras eram de partir o coração.

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Elvis Presley

 

The Sun Sessions

“Esse tem sido um álbum extremamente importante para mim. Sempre fui um grande fã de rockabilly e grande fã do Elvis, e para mim esse álbum é a expressão pura do que o Elvis era. Claro, há grandes músicas individuais – mas nenhuma coletânea alcançou esse álbum. Quando eu era jovem, costumava pensar que Elvis era a voz da verdade. Não sei o que isso significa, mas a voz dele…caramba, soava pura pra caralho. Se você cresceu amando Elvis, é isso. Esqueça o período Vegas: Se você realmente gosta de Elvis, você se envergonha daquele cara em Vegas. Você sente que ele te decepcionou. O “Hillbily Cat” [fazendo referência à fase 53-55] nunca te decepciona.”

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Phil Ochs

 

“I Ain’t Marching Anymore”

“Ok, daqui em diante não haverá nenhuma ordem. É o mesmo com os filmes: Tenho meus três favoritos – Taxi Driver, Blow Up e Onde Começa o Inferno – e depois disso depende do meu humor. Esse é um dos meus álbuns favoritos de protesto/folk. Enquanto Dylan era um poeta, Ochs era um jornalista musical: Era um cronista do seu tempo, cheio de humor e compaixão. Ele escrevia músicas que poderiam parecer bem simples, e então, no último verso, ele dizia algo que, tipo, deixava você arrasado. Uma música que eu gosto muito nesse disco é “Here’s to the State of Mississipi” – Basicamente, isso é tudo o que o filme “Mississipi em Chamas” deveria ter sido.

Phil Ochs

 

“The Highwayman”

“Estou trapaceando de novo. Esse é um poema de Alfred Noakes que Ochs musicou. O vocal me fez explodir em lágrimas mais vezes do que prefiro lembrar.”

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Elmer Bernstein

 

“The Great Escape”

“Eu tinha uma grande coleção de trilhas sonoras de filmes. Não me entusiasmo mais com elas, até porque agora a maioria das trilhas são uma coletânea de músicas de rock, metade delas nem aparece no filme. Essa é um verdadeiro clássico. Ela tem um tema principal que traz o filme direto para a sua cabeça. Todas as faixas são boas – e é tão eficaz. Levei tempos para conseguir uma cópia, e, cara, eu quase chorei quando finalmente consegui.”

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Bernard Herrmann

 

“Sisters”

“Este é de um filme do Brian de Palma. É um filme assustador, e a trilha sonora…ok, se você quer se assustar, desligue as luzes, sente no meio da sala e ouça esse disco. Você não vai durar um minuto. Quando eu estou começando a pensar sobre um filme, eu vou começar procurando por músicas que reflitam a personalidade do filme, vou começar procurando músicas que possam refletir essa personalidade. O disco que mais penso sobre é aquele que toca durante os créditos de abertura, porque é ele que vai dar o tom do filme. Como em “Cães de Aluguel”, quando você vê os caras saindo da lanchonete, e a linha do baixo de “Little Green Bag” entra – você já sabe que vai ter encrencas.”

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Jerry Goldsmith

 

“Under Fire”

“The Main Theme’ é uma das maiores peças de músicas escritas para um filme. É tão assombrosa, tão bonita – cheio de flautas de pã e coisas do tipo. É destruidor, sabe – como um tema do Morricone. Por incrível que pareça, “The Main Theme” funciona muito bem, mas nunca tocaram ela nos créditos de abertura. Colocaram ela no meio e durante os créditos finais, o que é bem estranho.”

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Jack Nitzsche

 

“Revenge”

“De todas as trilhas sonoras, esta é a melhor. É de um filme do Tony Scott – ele dirigiu Amor à Queima-Roupa – e é uma composição muito exuberante, elegante. Você não precisa conhecer o filme para apreciar a trilha sonora: Ela funciona do seu próprio jeito.”

Via Uncut

“Tudo existe para terminar em uma foto”

“Ao ser fotografada me sinto hipnotizada, aprisionada, passo a ser a pessoa observada. Porquanto eu seja uma observadora profissional, não tem jeito, sou uma amadora em se tratando de ser observada.” Susan Sontag no documentário “Regarding Susan Sontag”

Susan Sontag em Paris, por Leibovitz

Susan Sontag em Paris, por Leibovitz

Em 1948 a escritora Susan Sontag tinha apenas 15 anos de idade, e em um entrada em seu Diário (no Brasil, em edição pela Companhia das Letras) ela escreve “As ideias perturbam a regularidade da Vida” e em menos de um mês ela continua com “…E o que é ser jovem durante anos e de repente despertar para a angústia, a premência da vida?” É quase impossível não se perguntar onde estávamos na mesma idade de Sontag, quais eram os questionamentos e o que nos amendrotava. Susan Sontag escreveu sobre literatura, política, fotografia, AIDS, filosofia, artes e afins. Ela teve muitas facetas e causava espanto tamanha era sua intelectualidade. Foi uma das primeiras a unir o mundo pop ao intelectual de forma magistral, comentando a influência do cinema, da TV e da arte no cotidiano das pessoas e de que podiam ser formas importantes de pensamento e expressão. Ainda, foi vanguardista ao escrever sobre temas que muitos intelectuais desdenhavam, como o cinema B e escritores de países fora do cânone, como Machado de Assis, por exemplo.

Susan Sontag fotografada em muitas fases de sua vida

Susan Sontag fotografada em muitas fases de sua vida

Ao ler os diários de Susan Sontag – publicados após a sua morte e editados pelo filho David Rieff – nota-se que ela raramente se sentiu confortável em ter um papel no mundo, acreditava na necessidade de saber e escrever sobre um pouco de tudo, assim como fez na variedade de suas publicações. Susan gostava de ir fundo em determinados assuntos e explorar todo o modus operandi e reflexões que eles exigiam.

liebovitz sontag.redimensionadoEra uma premissa se expressar de forma direta, mesmo com opiniões dissidentes. Em 2001, por exemplo, quando ocorreram os ataques de 11 de Setembro ela foi uma dos primeiros intelectuais a ir a público e dizer que os eventos teriam sido uma resposta à política externa americana. No documentário “Regarding Susan Sontag” (algo como A respeito de Susan Sontag) lançado no fim de 2014, pela HBO, dirigido por Nancy D. Kates, é mostrado um trecho de um programa da época, em que Sontag é confrontada ao vivo por três jornalistas que a acusam de antiamericanismo, ilustrando como Susan não temia estar diante de conflitos e críticas sobre o seu trabalho.

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Regarding Susan Sontag” é justamente a desmistificação da intelectual séria e sempre preparada para discutir algum assunto em voga. A montagem feita no documentário se deu graças à paixão e necessidade que Sontag tinha pela fotografia. Em seu famoso Sobre a Fotografia (1977) ela define um dilema que nos acompanha desde a invenção do daguerreótipo até os dias atuais: “Tudo existe para terminar em uma foto”. Parafraseando Mallarmé que disse no século XIX que tudo existia para terminar em um livro, Sontag define – antes mesmo da fotografia digital e instântanea em tempos de instagram existir – que a fotografia era uma ferramenta de poder e de memória, brincando com a finitude das coisas. E levando essa ideia de poder da fotografia a sério, construindo a sua imagem paralelamente à sua identidade intelectual, Sontag se tornou uma das personalidades/intelectuais mais fotografadas de sua geração.

Ietc_cover_sontagA capa de I, Etcetera (1977), talvez seja uma das imagens definidoras de Susan Sontag. Acompanhada por uma pilha de livros, ela olha para a câmera com um olhar fixo, decidido e sério. Mesmo quando clicada com uma fantasia de urso, escrevendo em um computador, ela permanece com o olhar fixo e sedutor. Susan Sontag conseguia manter uma cumplicidade com a câmera, ela conhecia o poder da fotografia e fazia um excelente uso disso. No documentário produzido pela HBO é possível viajar pela vida de Sontag apenas vendo suas fotos pelo mundo e a cumplicidade com seus amores e amantes, até mais do que os depoimentos dados.

photographer'slife.redimensionadoNo fim dos anos 80 a fotógrafa Annie Leibovitz, conhecida por fotografar artistas para a Rolling Stone e a Vanity Fair, entrou em contato com Sontag para fazer um ensaio baseado em seu livro A AIDS e suas metáforas (1989) e assim começou a relação afetiva que durou quase 15 anos, até a morte de Susan em 2004. O relacionamento de Leibovitz e Sontag foi pouco comentado. A fotógrafa, mesmo depois da morte da companheira, pouco ou nada falou sobre os 15 anos passados juntas. Em 2006 Leibovitz lançou A Photographer’s Life 1990-2005 em que retrata os anos profissionais e pessoais passados ao lado de Susan Sontag que segundo ela era uma cúmplice por trás das lentes de suas câmeras. “A fotografia é uma invenção da mortalidade”, disse Susan em Sobre a fotografia e isso poderia ser a legenda da foto em que ela, no primeiro plano, em uma rua de Paris mantém firme o olhar para Leibovitz, um ano antes de falecer. Susan Sontag ficou eternizada nessa imagem que abre esse post.

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

Foi com o olhar de Leibovitz que Susan se despiu de intelectual e mostrou as cicatrizes causadas pelo cancer, andou pelas ruas de países em guerra, brincou com as crianças na praia, documentou os primeiros cabelos perdidos pela quimioterapia e a última tentativa de transplante. Annie diz, em uma entrevista para o NY Times, que era extremamente difícil no último ano documentar as situações, que ela não gostaria de estar lá como fotógrafa e sim apenas como companheira.

A última imagem de Susan Sontag por Annie Leibovitz, em uma maca entrando em uma ambulância aérea, saindo de Seattle voltando para Nova Iorque, deixa registrada a definição dela sobre a fotografia. Não há nada de artístico na foto, apenas a marca de um fim, um ponto final na sequência de décadas em que Sontag posou para todo tipo de câmera, dos pais ou mesmo de Andy Warhol, deixando claro que “Tudo existe para terminar em uma foto”. Provando que além das palavras as imagens se apropriam do que foi fotografado e mesmo com a certeza de finitude as imagens deixam vivos os segundos entre o enquadramento e o click.

Sontag saindo de Seattle, por Annie Leibovitz

Sontag saindo de Seattle, por Annie Leibovitz

Os 3 M’s dos Quadrinhos Argentinos

Liniers

Liniers

É quase impossível navegar pelas redes sociais e não se deparar com alguma tira de arrancar sorrisos do argentino Liniers. Com a série Macanudo, ele caiu no gosto dos brasileiros pelos idos dos anos 2000, e apesar de bastante conhecido na internet, o quadrinista só foi editado no país em 2008 quando a editora Zarabatana deu conta de trazer os divertidos personagens da série argentina para o país.

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“Patorozú”, quadrinho clássico argentino

A história dos quadrinhos na Argentina – ou ainda comics, tebeos ou apenas historietas – teve uma trajetória parecida com a nossa no Brasil, começando ainda no século XIX, passando pelas charges, cartuns e chegando nos quadrinhos do século XX. Entre a transição dos séculos, apesar da pressão para copiar o estilo clássico de Comics americana, os argentinos já pendiam pela característica que iria ser fundamental nos seus quadrinhos: o cunho político e crítico, exposto com altas doses de criatividade.

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Mafalda, de Quino

Desde o principio não foi fácil para os quadrinistas argentinos se livrarem da enxurrada de material estrangeiro que marcava presença nos períodicos do país. Além de comandarem o mercado, muitos editores exigiam que os argentinos fizessem trabalhos parecidos com os de fora, mas eles não traziam a realidade dos leitores, entretinham mas não figuravam no cotidiano. Foi nesse momento que alguns quadrinistas rompem com editores para criar personagens que dialogassem mais de perto com o público nacional, criando assim uma identidade.

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Mafalda

Para quem conhece os 3 M’s dos quadrinhos hermanos sabe que a crítica pode estar branda no discurso, mas sempre está presente. Mafalda, Macanudo e Mulheres Alteradas possuem seus estilos próprios e conquistaram território além mar del plata justamente por serem marcados por suas próprias críticas. Mafalda, ironicamente, surgiu da necessidade de uma marca de geladeiras propagar o seu nome. O quadrinista Quino criou ela e sua família com cunho publicitário, mas a personagem era tão livre que foi ganhando forma e acabou virando referência nacional, com críticas ferrenhas à tudo que acontecia no país. Mafalda, com sua aversão à sopa e opiniões na ponta da língua, se tornou símbolo do país e inclusive ganhou uma estátua na cidade em 2009.

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Mulheres Alteradas, de Maitena

Os kioscos – como são chamados as bancas de jornais na Argentina – sempre foram responsáveis em divulgar a cena de HQs do país. Ao desembarcar no aeroporto da capital portenha, o visual da cidade é acompanhado por Mafalda, pelos personagens de Liniers, pela explosão das mulheres alteradas de Maitena ou a vasta gama de personagens que surgiram nos principais periodícos ou zines do país.

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Revista Fierro, capa de edição em parceria com o Brasil

Os jornais argentinos, no fim dos anos 80, foram os responsáveis pela massiva nacionalização dos quadrinhos. Mesmo que isso tenha acontecido por questões econômicas, a situação foi fundamental para os quadrinistas argentinos sairem de seu anonimato e começassem a ter vez no circuito. Mas vale ressaltar que os zines e revistas foram fundamentais para que a arte circulasse, inclusive fora do país. Como não mencionar a excelente revista Fierro, conhecida no mundo todo por trazer o melhor do trabalho independente argentino?

Liniers por exemplo, começou publicando em várias revistas independentes, criando a sua própria identidade. Os famosos pinguins sempre estiveram presentes enquanto ele ia agregando outros personagens ao seu mundo fantástico e sensível. Interessante notar que ele sempre se fez presente nos seus desenhos, primeiro como um homenzinho de nariz vermelho – uma das características do seus personagens humanos – e mais tarde como o coelho de óculos que hoje é a sua marca.

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abraçoliniers

mulheres_alteradasFoi Maitena Burundarena a responsável para Liniers entrar no circuito das tiras de períodicos. Desde 1992 a quadrinista publicava suas tiras – que viraram sinônimo de quadrinhos feministas – na revista argentina Para Tí. Antes de Mulheres Alteradas, Maitena fazia trabalhos diversos nos quadrinhos, principalmente no eixo erótico. Mas seu lado crítico falou mais alto e ela passou a retratar o universo feminino e as diferenças cotidianas com o convívio masculino. Recentemente, a quadrinista veio ao Brasil e disse não ter mais interesse em fazer quadrinhos e lançou um romance elogiado chamado Segredos de Menina (editora Benvirá) em que relaciona a ditadura na Argentina e o universo de uma garota de 12 anos.

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Mulheres Alteradas

Mas claro que os quadrinhos argentinos vão bem além dos famosos 3M’s. Sempre existiram trabalhos independentes de intercâmbio entre Brasil e Argentina e algumas editoras – como a Zarabatana e a Martins Fontes – tem se esforçado em trazer mais opções ao leitor brasileiro. Só para instigar o leitor com um exemplo, em 2011 a Martins Fontes trouxe a primeira edição de um dos quadrinhos mais importantes da cena argentina. O Eternauta chegou ao Brasil 50 anos depois e traz uma ficção científica sensacional sobre um homem que encontra a si mesmo do futuro, para Phlip K. Dick nenhum botar defeito. Muitas referências políticas e críticas sociais são encontradas no roteiro de Héctor German Oesterheld e nos ótimos desenhos de Solano López e isso há pelo menos cinco décadas atrás. E vale mencionar que Oesterheld era ativista político e desapareceu – assim como toda sua família – durante a ditadura argentina.

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O Eternauta, de Oesterheld

No livro Bienvenido – Um passeio pelos quadrinhos argentinos (Zarabatana, 2010), o pesquisador Paulo Ramos enumera dois grandes motivos para que os quadrinhos argentinos não cheguem em tanta quantidade por aqui: A possível dificuldade do humor, a transposição das piadas para a nossa cultura e a ainda massiva presença dos americanos no mercado. Esperamos que essa situação continue contornando e que haja a presença de todos, afinal quadrinhos nunca são demais.

Na Internet você pode encontrar facilmente trabalhos excelentes de alguns quadrinistas argentinos. Abaixo, alguns ótimos exemplos:

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Kioskerman

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Decur

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Max Aguirre

As pinturas de borda e os segredos dos Livros

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Livro do acervo da Universidade de Iowa

As tecnologias que tanto facilitam nossas vidas há pelo menos um século também servem de apoio para muitos anunciarem o fim de muitas coisas, e o livro impresso é uma delas. Mas será que um objeto desenhado de forma tão prática, sem consumo de energia, ergonômico e artístico vai perder mesmo seu espaço nessa sociedade contemporânea? Uma notícia interessante, vinda diretamente da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, nos ajuda a pensar sobre como os livros podem carregar arte e seus próprios mistérios, e não estamos falando apenas do seu conteúdo.

Colleen Theisen, que colabora no setor de coleções especiais e arquivos da Universidade, postou nas redes sociais .gifs (imagens animadas que você pode ver abaixo) demonstrando como funcionam as pinturas de borda em livros que datam aproximadamente a metade do século 18. Um dos livros em questão se chama Autumn, de Robert Mudie e faz parte de uma coleção grande onde quatro livros representam as estações do ano, outros dois o céu e inferno e há ainda os que representam os elementos da natureza.

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A pintura de borda é uma técnica muito antiga e seus primórdios datam no século 10 mas teve seu auge e aprimoramento na Idade Média, lá pelos séculos 17 e 18 onde pinturas ilustrativas e principalmente cenas bíblicas, serviam para distrair e ilustrar as leituras, além de serem verdadeiras e minuciosas obras de arte. Foi no século 17 que apareceu a primeira pintura de borda feita nas margens superior ou inferior dos livros, completamente invisível quando fechado e nítida quando as páginas do livro estão declinadas ou são ventiladas como em uma animação.

Você pode acompanhar o trabalho de restauração e catalogação dos acervos especiais em que Colleen trabalha no Iowa, através do tumblr que ela criou. Um deleite para apreciadores de artes centenárias através de algo tão rápido, virtual e tecnológico como a Internet. É incrível imaginar que esses livros – entre outros materiais de acervo – sobreviveram ao tempo e todo tipo de intempérie e agora pode trazer mais um pouco de História. Provavelmente, o fim do livro está bem longe!

Ah! A pintura de borda ainda é praticada hoje, um dos artistas mais atuantes é o inglês Martin Frost.

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Pintura de borda por Martin Frost

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Urbano Bazar 2012

O último evento que a Joaquim Livraria & Sebo vai estar no ano. Apareçam!

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Cross-dressing é vintage!

O termo Cross-Dressing (algo como, travestir-se no português) ganhou certa notoriedade quando o quadrinista Laerte passou a usar roupas femininas e falar abertamente sobre a sua vontade de vestir-se de mulher. Laerte comendo no vídeo abaixo que frequenta grupos de discussão do assunto e que a vivência dessa experiência é muito grande e interessante. Ainda, fala que é muitas pessoas gostariam de extrapolar os limites que os códigos sociais impõem.

A verdade é que a prática é mais velha do que se imagina. Quando crianças, muitos de nós colocou a camisa do pai, os colares da mãe e coisas do tipo sem a mínima intenção de tratar de gênero ou revelar uma opção sexual. Se tem notícia de muitos momentos em que homens e mulheres trocaram as vestimentas por necessidade profissional ou por puro prazer. No período Elizabetano inglês, por exemplo, os papéis femininos no teatro eram interpretados por homens ou ainda o contrário, como mostra o filme Shakespeare Apaixonado (1998).

Mesmo com todas as polêmicas – para quem conhece pouco ou simplesmente tem opiniões levianas – a prática já fez parte de vários momentos de muitos artistas, escritores e pessoas do nosso mundo pop em geral. Dá uma olhada aí embaixo:

Uma foto incrível de Charles Chaplin, no set de “A Busy Day”, em 1914

Duas fotos do escritor F. Scott Fitzgerald em 1916, no The New York Times.

Nenhuma novidade que a artista Frida Kahlo gostava de se transvestir. Na foto, ela com suas irmãs e primas, fotografada por Guillermo Kahlo, em 1926

Versão de Mick Jagger, em 1996, fotografado por Anton Corbijn

Mick Jagger e Jerry Hall. Fotografados por Philippe Morillon, 1978

Keith Richards, posando para uma foto do encarte do álbum Have You Seen Your Mother, Baby, Standing in the Shadow?. Photo by Jerrold Schatzberg, 1966

Marcel Duchamp e seu alter ego Rrose Sélavy, fotografado por ninguém menos que Man Ray, em 1921

Claro, o Queen em I Want to break Free, em 1984

Post baseado em Vintage Photos of Pop Culture Icons in Drag

As Pin-ups de Elvgren

É inegável a beleza nos traços das pin-ups caracterizadas pelo americano Gil Elvgren, talvez um dos maiores responsáveis pela popularização do estilo de mulheres curvílineas em poses levemente provocativas que mexiam – claro, mexem ainda – com o imaginário de todos.

Mesmo com um certo boom da volta das pin-ups, agora mais modernas com piercings e tatuagens, o momento-chave do estilo foi entre os anos 50 e 60, época de maior circulação de campanhas publicitárias e principalmente os clássicos calendários da Brown & Bigelow que eram ansiosamente aguardados com pinturas de belas mulheres hiper-realistas em cada mês do ano. Aliás, a expressão Pin-Up vem justamente de pinned up on the wall, ou seja, pregar na parede.

Olhando a imensidão de pin-ups retratadas pelos pincéis de Gil Elvgren deve-se imaginar de onde vinha tanta inspiração para retratar as belas mulheres e a resposta é simples, ele usava, na maioria dos desenhos, a sua própria esposa. Elvgren usava a técnica de fotografar a modelo antes e fazia o desenho baseado na imagem, variava a cor, corte e movimento do cabelo, deixava o corpo com mais curvas, cinturas mais finas, seios bem desenhados e as roupas com tons mais vivos.

Elvgren costumava dizer que as pinturas perfeitas de mulheres deveriam representar um rosto de 15 anos num corpo de 20. Uma polêmica talvez para hoje em dia, mas na época era algo totalmente plausível sendo que o romance Lolita, de Vladimir Nabokov, já era bem representado pela provocativa versão cinematográfica de Stanley Kubrick.

Não à toa alguns chamam Gil Elvgren como o pai do Photoshop, afinal, foi o primeiro a tratar as imagens de mulheres de acordo com os padrões de mídia da época e fez isso por mais de 40 anos. Sim, mídia. Lembre-se que Hollywood, por exemplo, reinava e muitas atrizes passaram pelo estúdio de Elvgren antes de conseguir papéis no cinema. Nomes como Myrna Hansen, Myrna Loy, Donna Reed, Arlene Dahl, Barbara Hale e Kim Novak, a clássica protagonista de Um corpo que Cai, de Hitchcock, foram algumas das beldades que Gil fotografou, pintou e transformou em ícone pop da cultura das pin-ups.

Se você quiser conhecer mais do trabalho hiper-realista de Gil Elvgren recomendamos a belissima edição da editora alemã Taschen Gil Elvgren: The Complete Pin-Ups.

90 anos da Semana de Arte Moderna (1922)

Talvez hoje você conheça nomes como Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Pagu e etc. como clássicos que você estudou na escola. Esses nomes, há 90 anos atrás, causaram furor na cultura – e modo de vê-la – brasileira dando inicio a um movimento que ficou conhecido como Modernismo, envolvendo a Literatura, as Artes Plásticas e a música brasileira.

A semana de Arte Moderna aconteceu em São Paulo no Teatro Municipal, que naquele momento tinha apenas 10 anos de existência e era costumeiramente frequentado pela elite paulista que ia assistir espetáculos estrangeiros. Foram três dias (13, 15 e 17 de fevereiro de 1922) de encantamento e estranhamento vivenciados na capital paulista que ainda não compreendia muito bem o que significava as manifestações dos jovens intelectuais.

Os três dias daquele ano foram apenas um marco dentro de um movimento que se iniciou antes mesmo de 1922 e se estendeu até pelo menos a década de 1970, como analisa alguns estudiosos do assunto. O movimento foi definido pela necessidade de ruptura com a influência, em demasia, das movimentações artísticas europeias e necessidade da criação de uma cultura propriamente Brasilieira.

Uma das cabeças idealizadoras foi o escritor Oswald de Andrade que foi conhecido por ser o mais alarmante e experimentalista do grupo. Recém-chegado da Europa o escritor voltou ao Brasil vociferando sobre o atraso cultural do país já que para os lados europeus as vanguardas estavam causando revoluções. Claro que na época, Oswald não foi único jovem a voltar do antigo continente e perceber que o Brasil apenas assimilava a cultura de lá e juntando um grupo de artistas determinados deram luz ao que viria a ser aquela semana de 1922, algo como a afirmação de uma cultura tupiniquim.

Tupi or not Tupi, uma sociedade pau-brasil e práticas de antropofagia cultural são apenas algumas das características determinadas pelos jovens modernistas que queriam a todo custo uma cultura que definisse bem os – até aquele momento – 400 anos de história do país. Várias obras foram marcantes nesse momento como o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, que abriu portas para a literatura com polifonia, inovação narrativa e linguística. Macunaíma é um herói sem caráter que representa um povo sem identidade, que apenas assimila o que e onde está. Além dessa caricatura crítica do personagem, o livro é rico de folclore, lendas e mitos brasileiros com interessantes releituras.

As mulheres escritoras também começaram a mostrar suas caras e opiniões. Uma expoente no assunto foi Pagu (Patrícia Galvão), amante e posterior mulher de Oswald de Andrade, uma revolucionária de carteirinha. O seu primeiro romance Parque Industrial é considerado um marco inicial na literatura proletária e tem intensa ambientação na classe operária e sua geografia enraizada no cenário industrial paulista no bairro do Brás.

Talvez tenha sido nas Artes Plásticas que houveram as maiores críticas ao Modernismo pois era justamente nesse ramos que as vanguardas européias se destacavam. Antes mesmo de 1922, a pintora Anita Malfatti foi duramente criticada por Monteiro Lobato que dizia que o trabalho dela era uma réplica dos estilos europeus misturado com uma perturbação mental. Já Tarsila do Amaral se focava num sentido mais afetivo da pintura, sem deixar de ousar como fez nos retratos biográficos (abaixo Mário de Andrade) e com significações dentro do movimento Antropofágico e Pau-Brasil (quadro Antropofagia).

Já na música o maior representante do momento foi Heitor Villa-Lobos que causava sentimentos confusos à plateia que o escutava, eram aplausos misturados às vaias que não compreendiam os motivos de se juntar música clássica com tambores indígenas. Sendo que justamente essas junções fariam a carreira do pianista extremamente fecunda no exterior, sendo considerado um dos maiores do mundo.

Mas há algumas polêmicas quando se remonta as causas que deram vez às manifestações de 1922. Como toda boa revolta, aqueles três dias foram organizados às pressas e sem um sentido bem definido, sabia-se apenas que o Brasil precisava mostrar o que tinha de próprio na arte. As leituras de poesia e trechos de romances foram tanto ovacionadas quanto vaiadas pois muitas obras rompiam com o estilo vigente dos cânones. O recém-lançado, pela editora Companhia das Letras 1922: A semana que não terminou, do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, traz uma minuciosa viagem pelos detalhes daquela semana mostrando que tudo funcionou de forma dual, como por exemplo, o patrocínio do evento dos revolucionários artistas foi justamente dos ricos da sociedade do Café de São Paulo. O cafeicultor Paulo Padro foi o maior mecenas do artistas modernista, o antropologo Gilberto Freyre o descrevia como ¨o maior caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde¨ no Brasil, pois o empresário assinava prefácios de obras e se se sentia muito à vontade em meio aos revolucionários.

Independente das motivações – e até as formas que se deram – a Semana de Arte Moderna de 1922 foi um dos marcos mais importante na cultura brasileira. Depois disso, as Artes como um todo passaram a ter suas próprias manifestações e estilos sempre assumindo um jeitinho brasileiro de criar. De fato, é uma semana que não teve fim e esperamos que ela continue rendendo frutos e reflexões parra além do seu centenário.

Você encontra aqui na Joaquim todos os livros que ilustram esse post. Inclusive o catálogo Percurso Afetivo da mostra sobre a Tarsila do Amaral que aconteceu no MON em 2008.

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