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Virginia Woolf e o Ensaio

“Regozijo-me em coincidir com o leitor comum; pois, pelo senso comum dos leitores, não corrompidos pelos preconceitos literários, depois de todos os refinamentos da sutileza e o dogmatismo do aprendizado, deve finalmente ser determinado que todos clamam por honras poéticas”

Samuel Johnson

A escritora inglesa Virginia Woolf é reconhecida como um dos grandes nomes da literatura modernista, além de ser uma das mais importantes representantes do time que desenvolveu a técnica narrativa de fluxo de consciência. De fato, Woolf foi uma prolífica leitora e escritora, seus romances como Orlando e Mrs. Dalloway entraram rapidamente para o cânone literário do século XX e sua produção – incluindo diários e cartas – foi sendo propaganda com o decorrer das décadas. Um dos seus textos que ganhou novos olhares e impulsos, na época e depois de sua publicação, foi o longo ensaio Um Teto Todo Seu, de 1929.

Depois de ser convidada para palestrar sobre o tema mulheres e literatura, Virginia Woolf se deparou com uma das grandes lacunas na história do gênero: onde estavam as mulheres que escreveram? Onde estavam seus livros? Onde elas estavam nos compêndios de ensino e teoria literária? É com esse atordoamento que ela escreve um longo ensaio tentando refletir sobre essa ausência, unindo crítica histórica e social. Mas, não era a primeira vez que a autora fazia uso do ensaio para escrever sobre sua visão literária e crítica de costumes. Há pelo menos dez anos publicava semanalmente em suplementos literários, acumulando centenas de textos que já tinham sua própria unidade que refletia uma premissa muito básica para ela: a de ser escrita através do olhar de um leitor comum.

Uma das antologias de seus ensaios mais conhecida é justamente a de O Leitor Comum, onde ela escreve, no ensaio homônimo, sobre as premissas desse leitor livre dos academicismos e regras de manuais. Usando um trecho – que abre esse texto – do crítico inglês Samuel Johnson, do século XVIII, ela cria sua própria metodologia de escrita de ensaios, mesmo daqueles que não falavam sobre a literatura em si. Afinal, um observador comum seria protagonista dessa lógica e, para Virginia Woolf, era uma motivação quase política na afirmação pelo comum: ela mesma não havia frequentado a universidade e tudo que sabia era mérito da biblioteca de seu pai e de sua fome intensa por conhecimento.

No ínicio do ensaio Profissões para Mulheres (no Brasil em Profissões para Mulheres e outros artigos Feministas, pela L&PM, tradução de Denise Bottmann) ela dá o tom de comum dizendo que “Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer.” E ela segue comentando sobre a importância de um diálogo como escritora, uma profissão também negada às mulheres, com aquelas que estavam em fábricas ou outras atividades laborais.

Quando falava de livros e literatura, Virginia Woolf também não era indiferente. No ensaio Horas na Biblioteca (no Brasil em A Leitora Incomum, pela Arte e Letra, tradução de Emanuela Siqueira) ela começa o ensaio alfinetando, dizendo que “Vamos começar resolvendo a velha confusão entre o homem que ama aprender e o homem que ama ler, e apontar que não há qualquer ligação entre eles. O intelectual é um sedentário, um solitário entusiasta concentrado, que busca através dos livros um grão de verdade específico para acreditar”. Não eram raros os comentários críticos aos homens das letras, os chamados de intelectuais sedentários. O leitor comum sonhado pela escritora seria sempre o Outro e não mais o homem acadêmico dos círculos ingleses, cuja voz era a única respeitada.

Por esses e outros motivos, a produção ensaística de Virginia Woolf foi relegada em segundo plano, mesmo com uma produção tão prolífica. Acusada de impressionista e, ironicamente, pouco teórica, muitas são as análises preguiçosas desses textos. No Brasil, o ensaio é uma categoria pouco produzida e incentivada, também afetando para que traduções desses textos chegassem até o leitor. Porém, temos atualmente quatro antologias interessantes dessa produção publicadas no Brasil e elas ajudam a adentrar na produção reflexiva da autora, permitindo que possa se ampliar a análise de sua obra e construção de pensamento.

A primeira a ser publicada, em 2012, foi Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas, citado anteriormente, que reúne textos de Virginia Woolf que discutem a situação da mulher escritora e suas relações com a condição da mulher na sociedade. Apesar do uso da palavra feminista, os textos discutem temas mais caros ao início do século XX, onde os movimentos de mulheres ainda não tinha nome próprio. Porém, são textos fundamentais para notar a perspicácia no olhar da autora sobre a produção literária e como a sociedade moderna se comportava naquele período. Muitas das metáforas como a do anjo do lar, a importância do ato com fruição da leitura e a relação do cotidiano com a análise literária, estão presentes mesmo em textos com um único eixo temático: a autoria de mulheres.

Em 2014, a extinta Cosac Naify editou O Valor do Riso, organizado e traduzido por Leonardo Froés. São quase trinta ensaios que compõem essa antologia e finalmente o panorama da produção é alargado. Baseado no volume The Essays of Virginia Woolf, essa edição segue a publicação mais crítica, porém mais acatada, dos ensaios. Desde o famoso O Leitor Comum, passando por textos sobre Londres e sua visão apurada do urbano como Músicos de Rua, reflexões sobre a literatura contemporânea da época no excelente Ficção Moderna, terminando em mais textos em que pensa a produção de autoras como Jane Austen, e o Quatro Figuras, que escreve sobre a biografia de algumas mulheres.

Mas não apenas de temas pontuais se deu a produção de ensaios da inglesa. Há um trabalho poético muito potente em seus ensaios, as metáforas não são pensadas à revelia e atendem muito da demanda romancista de Virginia Woolf. A antologia O Sol e o Peixe, de 2016, organizada e traduzida por Tomás Tadeu e editada pela Autêntica, traz nove ensaios de prosa poética. São textos divididos em três seções onde os temas mais caros à escrita de Woolf surgem envolvidos em um ritmo e pensados como literatura. Desde uma reflexão sobre Montaigne, até uma divagação sobre a, ainda embrionária, arte do cinema, os ensaios mostram como a romancista e a pensadora não andavam separadas.

A antologia mais recente é A Leitora Incomum , editada pela curitibana Arte e Letra e traduzida por Emanuela Siqueira. Além do livro ser artesanal, dialogando mais de perto com a fruição da leitura e o feitio do livro – Virginia fala muito sobre o cheiro e a textura do objeto – também foca em ensaios que tragam a leitora como crítica literária. Como citado anteriormente, a produção ensaística de Virginia Woolf sempre foi considerada aquém à produção de outros intelectuais. Como sempre pensava sobre a experiência de leitura, a biografia de autores e os seus modos de fazer, sua crítica foi considerada impressionista. Os cinco ensaios dessa antologia dão conta de propor um outro olhar para a construção do pensamento da autora. É possível perceber, por exemplo, que várias metáforas que ela sempre usa em seus ensaios, como a força das águas – e tudo relacionado a esse universo – aparecem como ondas, indo e voltando. Ou mesmo a crítica aos intelectuais que, como afirma em um ensaio, matam o prazer pela leitura, está sempre presente. Nesse volume, também há o ensaio que homenageia uma autora: Katherine Mansfield. O interessante é que muitos estudiosos de Woolf dizem que ela mantinha uma relação de ciúme com a neozelandesa, logo, o ensaio Uma mente implacavelmente Sensível dá conta de desfazer esse boato; a admiração é o ritmo do texto.

Assim como nos romances, Virgínia Woolf cria, dá seu próprio ritmo, constrói universos e caminhos nos seus ensaios. Longe de ter a euforia de um impressionista, ela está mais próxima do prazer em ouvir uma pessoa apaixonada. A antropóloga francesa Michèle Petit, importante pesquisadora de mediação de leitura, diz que apenas um apaixonado pode falar de amor, ou seja, apenas um leitor apaixonado pode nos convencer a ler. Então, somos levados por Virginia Woolf – de mãos dadas – a observar os livros nas bibliotecas, a ler em diálogo, a observar os detalhes das roupas, das conversas e a olhar por entre janelas e portas. Dessa forma, assim como ela, deixaremos de ser leitores comuns, passando a ser seres humanos incomuns à literatura e à vida.

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Patti Smith lê Jack Kerouac ao som de Thurston Moore e Lenny Kaye

The last hotel
I can see the black wall
I can see the silhouette on the window
He’s talking, at a rhythm
He’s talking, at a rhythm
But, I don’t care
I’m not interested in what he’s saying
I’m only interested in the last hotel
I’m only interested in the fact that it’s the last hotel
Deep, discordant, dark, sweet
The last hotel
The last hotel
Ghosts in my bed
The goats I bled
The last hotel
JACK KEROUAC

Carl Solomon, Patti Smith, Allen Ginsberg e William S. Burroughs

Carl Solomon, Patti Smith, Allen Ginsberg e William S. Burroughs

No livro “Só Garotos” (Companhia das Letras) Patti Smith conta sobre os seus primeiros anos em Nova Iorque, a fuga da jovem do interior que sonhava ser poeta, ler e escrever em algum loft no Village, tomar cafés em lanchonetes baratas e viver na contracultura. Muitas das histórias vividas pela rainha e poeta do Punk no ínicio dos anos 70 soam muito parecidas com os relatos dos homens e mulheres da Geração Beat durante os anos 40 e 50.

Os Beats iriam influenciar as gerações seguintes, os movimentos contraculturais não seriam os mesmos sem os relatos verborrágicos de Jack Kerouac, a poesia certeira e crítica de Allen Ginsberg ou as memórias e poesias das mulheres da época como Diane di Prima e Joyce Johnson, que colocaram um contraponto nas aventuras contadas pelos homens à beira da estrada.

Entre 1954 e 1965, Jack Kerouac desenvolveu várias ideias em relação à poesia associada a sua prosa espontânea. Conhecido por seus romances, Kerouac passou a escrever poemas sobre assuntos corriqueiros associados à situações um tanto oníricas que dessem um ar de fantasia ao verso. Essa produção foi reunida no livro “Pomes All Sizes” (brincadeira com a palavra poema e pomo) e “The Last Hotel” faz parte dessa coletânea. Relatando brevemente sobre o tédio de estar em um lugar – provavelmente já cansado de perambular – ele se vê com a cabeça longe, pensando em quantas camas de hotel dormiu, nas pessoas que se deitaram com ele e na efemeridade disso tudo. Um breve verso que diz muito sobre Jack Kerouac e que iria ser fundamental posteriormente para compositores como Lou Reed e Patti Smith criarem seus versos acompanhados de dissonantes riffs de guitarra.

000000000-0+026.redimensionadoBaseada nessa produção, nos anos 90 uma grande homenagem intitulada de “Kicks Joy Darkness” foi organizada para Jack Kerouac, que mesmo não sendo muito fã de rock – preferia o jazz e bebop – foi agraciado por nomes como Morphine, Michael Stipe (R.E.M), Lydia Lunch, Steven Tyler, Joe Strummer e meio a tantos outros, Patti Smith fez uma versão do poema “The Last Hotel/O Último Hotel” com acompanhamento de violão por Thurston Moore (Sonic Youth) e Lenny Kaye, companheiro de banda. “Last Hotel” poderia muito bem ser uma narrativa sobre os dias que Patti passou com Mapplethorpe no Hotel Chelsea, talvez por isso sua voz se encaixe tão bem no trecho.

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Lenny Kaye/Patti Smith/Thurston Moore

O último hotel
Consigo ver a parede preta
Consigo ver a silhueta na janela
Ele fala, no ritmo
Ele fala, no ritmo
Mas, eu não ligo
Não me interessa o que ele diz
Só me interessa o último hotel
Só me interessa o fato que esse é o último hotel
Profundo, dissonante, escuro, doce
O último hotel
O último hotel
Fantasmas em minha cama
Corpos lascivos em que suei
O último hotel

(tradução de Emanuela Siqueira)

Ouça o disco completo pelo Spotify abaixo

“Tudo existe para terminar em uma foto”

“Ao ser fotografada me sinto hipnotizada, aprisionada, passo a ser a pessoa observada. Porquanto eu seja uma observadora profissional, não tem jeito, sou uma amadora em se tratando de ser observada.” Susan Sontag no documentário “Regarding Susan Sontag”

Susan Sontag em Paris, por Leibovitz

Susan Sontag em Paris, por Leibovitz

Em 1948 a escritora Susan Sontag tinha apenas 15 anos de idade, e em um entrada em seu Diário (no Brasil, em edição pela Companhia das Letras) ela escreve “As ideias perturbam a regularidade da Vida” e em menos de um mês ela continua com “…E o que é ser jovem durante anos e de repente despertar para a angústia, a premência da vida?” É quase impossível não se perguntar onde estávamos na mesma idade de Sontag, quais eram os questionamentos e o que nos amendrotava. Susan Sontag escreveu sobre literatura, política, fotografia, AIDS, filosofia, artes e afins. Ela teve muitas facetas e causava espanto tamanha era sua intelectualidade. Foi uma das primeiras a unir o mundo pop ao intelectual de forma magistral, comentando a influência do cinema, da TV e da arte no cotidiano das pessoas e de que podiam ser formas importantes de pensamento e expressão. Ainda, foi vanguardista ao escrever sobre temas que muitos intelectuais desdenhavam, como o cinema B e escritores de países fora do cânone, como Machado de Assis, por exemplo.

Susan Sontag fotografada em muitas fases de sua vida

Susan Sontag fotografada em muitas fases de sua vida

Ao ler os diários de Susan Sontag – publicados após a sua morte e editados pelo filho David Rieff – nota-se que ela raramente se sentiu confortável em ter um papel no mundo, acreditava na necessidade de saber e escrever sobre um pouco de tudo, assim como fez na variedade de suas publicações. Susan gostava de ir fundo em determinados assuntos e explorar todo o modus operandi e reflexões que eles exigiam.

liebovitz sontag.redimensionadoEra uma premissa se expressar de forma direta, mesmo com opiniões dissidentes. Em 2001, por exemplo, quando ocorreram os ataques de 11 de Setembro ela foi uma dos primeiros intelectuais a ir a público e dizer que os eventos teriam sido uma resposta à política externa americana. No documentário “Regarding Susan Sontag” (algo como A respeito de Susan Sontag) lançado no fim de 2014, pela HBO, dirigido por Nancy D. Kates, é mostrado um trecho de um programa da época, em que Sontag é confrontada ao vivo por três jornalistas que a acusam de antiamericanismo, ilustrando como Susan não temia estar diante de conflitos e críticas sobre o seu trabalho.

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Regarding Susan Sontag” é justamente a desmistificação da intelectual séria e sempre preparada para discutir algum assunto em voga. A montagem feita no documentário se deu graças à paixão e necessidade que Sontag tinha pela fotografia. Em seu famoso Sobre a Fotografia (1977) ela define um dilema que nos acompanha desde a invenção do daguerreótipo até os dias atuais: “Tudo existe para terminar em uma foto”. Parafraseando Mallarmé que disse no século XIX que tudo existia para terminar em um livro, Sontag define – antes mesmo da fotografia digital e instântanea em tempos de instagram existir – que a fotografia era uma ferramenta de poder e de memória, brincando com a finitude das coisas. E levando essa ideia de poder da fotografia a sério, construindo a sua imagem paralelamente à sua identidade intelectual, Sontag se tornou uma das personalidades/intelectuais mais fotografadas de sua geração.

Ietc_cover_sontagA capa de I, Etcetera (1977), talvez seja uma das imagens definidoras de Susan Sontag. Acompanhada por uma pilha de livros, ela olha para a câmera com um olhar fixo, decidido e sério. Mesmo quando clicada com uma fantasia de urso, escrevendo em um computador, ela permanece com o olhar fixo e sedutor. Susan Sontag conseguia manter uma cumplicidade com a câmera, ela conhecia o poder da fotografia e fazia um excelente uso disso. No documentário produzido pela HBO é possível viajar pela vida de Sontag apenas vendo suas fotos pelo mundo e a cumplicidade com seus amores e amantes, até mais do que os depoimentos dados.

photographer'slife.redimensionadoNo fim dos anos 80 a fotógrafa Annie Leibovitz, conhecida por fotografar artistas para a Rolling Stone e a Vanity Fair, entrou em contato com Sontag para fazer um ensaio baseado em seu livro A AIDS e suas metáforas (1989) e assim começou a relação afetiva que durou quase 15 anos, até a morte de Susan em 2004. O relacionamento de Leibovitz e Sontag foi pouco comentado. A fotógrafa, mesmo depois da morte da companheira, pouco ou nada falou sobre os 15 anos passados juntas. Em 2006 Leibovitz lançou A Photographer’s Life 1990-2005 em que retrata os anos profissionais e pessoais passados ao lado de Susan Sontag que segundo ela era uma cúmplice por trás das lentes de suas câmeras. “A fotografia é uma invenção da mortalidade”, disse Susan em Sobre a fotografia e isso poderia ser a legenda da foto em que ela, no primeiro plano, em uma rua de Paris mantém firme o olhar para Leibovitz, um ano antes de falecer. Susan Sontag ficou eternizada nessa imagem que abre esse post.

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

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Por Leibovitz

Foi com o olhar de Leibovitz que Susan se despiu de intelectual e mostrou as cicatrizes causadas pelo cancer, andou pelas ruas de países em guerra, brincou com as crianças na praia, documentou os primeiros cabelos perdidos pela quimioterapia e a última tentativa de transplante. Annie diz, em uma entrevista para o NY Times, que era extremamente difícil no último ano documentar as situações, que ela não gostaria de estar lá como fotógrafa e sim apenas como companheira.

A última imagem de Susan Sontag por Annie Leibovitz, em uma maca entrando em uma ambulância aérea, saindo de Seattle voltando para Nova Iorque, deixa registrada a definição dela sobre a fotografia. Não há nada de artístico na foto, apenas a marca de um fim, um ponto final na sequência de décadas em que Sontag posou para todo tipo de câmera, dos pais ou mesmo de Andy Warhol, deixando claro que “Tudo existe para terminar em uma foto”. Provando que além das palavras as imagens se apropriam do que foi fotografado e mesmo com a certeza de finitude as imagens deixam vivos os segundos entre o enquadramento e o click.

Sontag saindo de Seattle, por Annie Leibovitz

Sontag saindo de Seattle, por Annie Leibovitz

Leia Literatura Contemporânea!

livros

O escritor Italo Calvino e o filósofo Giorgio Agamben, ambos italianos, possuem dois ensaios conhecidos que aparentemente vão de uma ponta à outra da Literatura sem se tocar, mas que se relacionam mais do que se imagina. O primeiro, falando dos clássicos*, propõe em uma de suas definições, que um livro se torna clássico quando nunca termina de dizer aquilo que tinha que ser dito. Já o segundo, em um ensaio sobre o contemporâneo**, diz que algo verdadeiramente pertence à sua época quando lança um olhar sobre a escuridão do presente, tentando enxergar além do breu.

A literatura contemporânea é um pouco das duas definições. Ler a literatura que nos é contemporânea é como olhar para um espelho que reflete vários níveis do que vivemos, é tentar captar o espírito de um tempo, e relacioná-lo com as obras do passado, criando assim um percurso histórico através da ficção.

Hoje o número de traduções em várias línguas leva a literatura feita no oriente ao ocidente, e vice-versa, em bem menos tempo que no passado. A internet, com sua enorme quantidade de ferramentas de compartilhamento, permite que possamos saber quem está fazendo ficção além da Europa e os Estados Unidos. No Brasil vemos nossa literatura do presente ganhando notoriedade. Em menos de um ano, por exemplo, recebemos homenagens na Feira de Frankfurt, na Alemanha e uma edição da revista inglesa Granta, dedicada aos escritores brasileiros de menos de 40 anos.

Para colaborar um pouco com o estímulo de leituras de literatura contemporânea, escolhemos alguns autores – que em alguns casos estão em férteis regiões para a literatura – que fazem ficção com um olhar fixo na escuridão do presente, sem deixar de prestar atenção no passado que os construiu.

Vale ressaltar que os dez escritores aqui indicados – cinco escritores brasileiros e cinco estrangeiros – não são suficientes para dar uma real dimensão do que vem sendo feito, mas ainda falaremos mais sobre o assunto, afinal a literatura é basicamente uma fonte inesgotável.

A Literatura Brasileira Contemporânea

A literatura feita no Brasil contemporâneo consegue ser bastante versátil, vai do romance à poesia, passando pelo conto e crônica com nomes fortes em cada estilo. Mesmo que a internet nos permita conhecer escritores em vários cantos do país, o eixo sudeste-sul ainda é predominante na nossa literatura. Boa parte dos escritores escreve sobre a vida urbana ou temas mais existencialistas como a memória e o cotidiano.

Daniel Galera

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O escritor gaúcho é um dos jovens escritores mais comentados dos últimos 10 anos. “Mãos de Cavalo”, “Cordilheira” e o recente “Barba ensopada de Sangue” são alguns dos seus trabalhos mais comentados pela crítica brasileira. Recentemente Daniel Galera passou a ser traduzido em outras línguas. Dentro do perfil de jovem branco de classe média, o escritor trata das mazelas de ser um jovem adulto e os conflitos existenciais de relacionamentos amorosos e familiares.

Luiz Ruffato

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O mineiro Luiz Ruffato ficou conhecido mundialmente na abertura da Feira de Frankfurt, em 2013, ao fazer um discurso de duras críticas sobre a dificuldade de ser um escritor no Brasil e de conviver com o nosso passado histórico. A literatura de Ruffato é marcada pelo protagonismo de personagens ora sem nomes próprios, reconhecidos e identificados conforme a geografia dos espaços em que vivem, como em seu “Eles Eram Muitos Cavalos”. Ora são marcados pela força de sobrenomes que carregam o patriarcado da colonização italiana no interior de Minas Gerais, como mostra a pentalogia “Inferno Provisório” em que trata do desenvolvimento do proletariado mineiro.

Férrez

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O escritor paulista é um dos principais expoentes do movimento conhecido como Literatura Marginal, corrente literária produzida por autores residentes nas periferias dos grandes centros urbanos brasileiros e escrita utilizando gírias e elementos próprios da comunicação desses espaços. Conquistou um público fiel de leitores com títulos como “Capão Pecado” e “Manual Prático do Ódio” e mantém uma boa relação nas redes sociais estimulando a leitura e o conhecimento da cultura produzida nas periferias.

Carol Bensimon

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A escritora gaúcha faz parte do grupo de jovens escritores formados em famosas oficinas dadas em Porto Alegre pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil. Junto de Daniel Galera e outros escritores da capital gaúcha são responsáveis por reforçarem a cena independente dos anos 2000 com editoras como a Livros do Mal e a mais recente Não Editora. Por essa última, Bensimon lançou seu primeiro livro, com três contos, intitulado de “Pó de Parede”. Seu mais recente livro pela Companhia das Letras, “Todos nós adorávamos Caubóis” vem recebendo ótimos elogios. Apesar de jovem, a escritora já demonstra domínio em construir enredos orientados pelas memórias dos personagens, que dependem de si mesmas para se encontrarem no presente.

Vanessa Barbara

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Logo na sua estreia Vanessa Barbara ganhou um Jabuti. “O Livro Amarelo do Terminal”, lançado pela Cosac Naify, é um livro-reportagem que trata do cotidiano no movimentado Terminal do Tietê, em São Paulo. A prolífica escritora – que também faz parte da lista de joves autores escolhidos pela Granta – já passou por quadrinhos, romance e escreve colunas para os mais diversos tipos de publicações. Com um ar de crônica, com uma boa dose de influências populares e focada em algumas obsessões, Vanessa já tem no currículo o ótimo romance “Noites de Alface” e trabalhos em quatro mãos como a HQ “A Máquina de Goldberg” com o ilustrador Fido Nesti e o romance “Verão do Chibo”, com o escritor Emilio Fraia.

A Literatura Contemporânea Estrangeira

O olhar sobre a literatura estrangeira, em mundo mais globalizado e disponível à apenas um clique, se volta para regiões antes poucos exploradas. A literatura produzida na África e um “boom” de novos autores na América Latina e países do oriente despertam maior interesse.

Mia Couto

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Mia Couto trata de assuntos sensíveis e fortes com tons de mágica em um universo que muitas vezes parece onírico, usando recursos de linguagem próprios e metáforas de fábulas sobre a realidade. Usando como plano de fundo a África, mais especificamente Moçambique e seus conflitos sociais e armados, ele trabalha com personagens humanos que tiram grandes lições em pequenas metáforas do cotidiano. Se você ainda não leu nada de Mia, comece com o ótimo Histórias Abensonhadas, uma série de contos escritos em períodos de pós-guerra que apesar de terem o mote da morte presente, desenvolvem enredos permeados por uma esperança que somente os recomeços são capazes de causar.

E se você gostar de Mia Couto, vale a pena dedicar o olhar para outros escritores do continente africano como Ondjaki, Pepetela e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Valter Hugo Mãe

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Apesar de ser angolano e também flertar com o fantástico para escrever seus romances, Valter Hugo Mãe faz parte de um cenário contemporâneo mais voltado para Portugal. Mãe – que é um sobrenome artístico – caiu nas graças dos brasileiros depois da participação na FLIP em que leu uma carta emocionante sobre sua paixão pelo Brasil. Já escreveu vários romances, poesia e até canta em uma banda em Portugal. Seus livros contam com personagens aparentemente simples que buscam sentidos e sentimentos realmente verdadeiros para empreender na odisseia chamada vida. Um dos seus livros, “O Filho de Mil Homens” editado no Brasil pela Cosac Naify, o protagonista Crisóstomo, um homem de quarenta anos, se vê sozinho por não ter sido pai. Assim, o protagonista cria uma família inventada mas tão pura e real como uma família deve ser. O livro é construído sobre a história de vários personagens próximos entre si e é impossível não se sentir tocado pelas descobertas de cada um deles e a forma em que chegam até o protagonista tocados por um único sentimento.

Haruki Murakami

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Um dos escritores mais interessantes da cena contemporânea é o japonês Haruki Murakami. Sua literatura consegue misturar filosofia, referências pop e claro, toques de fantasia, tão caros aos japoneses. Com títulos como “Kafka à beira-mar” e “1Q84” com fortes influências ocidentais ele constrói personagens complexos que através de fluxos de consciência bem elaborados, dialogam com o leitor jovem e ainda consegue deixar os críticos impressionados. Você pode começar se aventurando com a trilogia “1Q84” que saiu em 2013 ou “Norwegian Wood” e “Minha querida Sputnik”, todos lançados no Brasil pela editora Alfaguara.

Alejandro Zambra

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O escritor chileno faz parte da nova geração da prolífica cena literária latino-americana. Com romances curtos ele ganha o leitor com narrativas envolventes e repletas de referências literárias e/ou elementos do cotidiano contemporâneo. Tratando de relacionamentos, a forma cíclica como eles se dão e a importância da memória com os pequenos elementos que restam do passado, Zambra é o tipo de escritor para se ler numa tomada só. O primeiro livro de Zambra que saiu no Brasil foi “Bonsai”, pela editora Cosac Naify que até então publicou outros dois livros do escritor.

Zadie Smith

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A escritora inglesa, filha de uma jamaicana com um inglês é um dos nomes mais importantes da literatura inglesa contemporânea, o que não é pouco para um país que escreve e publica muito. Zadie se destaca por tratar justamente do “espirito do tempo” da sociedade em que vive, com personagens – protagonistas ou não – miscigenados, sempre envolvidos com um contexto globalizado onde gêneros, identidades, orgulho das raízes, etnias e crenças se confrontam. Quase todos os romances da escritora foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras, destaque para “Dentes Brancos” e “Sobre a Beleza”.

Estas são algumas de nossas indicações para navegar no enorme e diversificado mundo da literatura contemporânea. Boa leitura!

*Italo Calvino em “Por que ler os Clássicos”, Companhia de Bolso
**Giorgio Agamben em “O que é contemporâneo”, editora Argos

Frente e Verso, um LP em homenagem a Paulo Leminski

“Lembrem de mim
como de um
que ouvia chuva
com quem assiste missa
como quem hesita, mestiça
entre a pressa e a preguiça”

leminski-recordPaulo Leminski, o poeta marginal, o polaco de Curitiba, o homem das muitas línguas e um-pouco-de-tudo-mais. Com o lançamento de “Toda Poesia” (Companhia das Letras), em 2013, parece que Leminski entrou no imaginário brasileiro sem fazer muito esforço, estando presente desde grafites em muros, haicais escritos em poltronas de ônibus, até em grandes exposições em São Paulo e Curitiba.

Desde a morte de Leminski em 1989, as memórias sobre o poeta, pai, amigo e criador sempre tentaram se manter presentes no imaginário do curitibano. “Frente e Verso”, um vinil promocional de época, distríbuido pelo Sistema Sul de Comunicação (hoje conhecido como a emissora RIC TV de Curitiba) em alguma celebração de fim de ano, é um desses pequenos registros do tempo que ganha valor atemporal.

Criando um mosaico polifônico de comentários, histórias e detalhes, o áudio de pouco mais de 34 minutos é um registro confortável e íntimo de pessoas que passaram momentos únicos ao lado do hiperativo artista. Alice Ruiz conta da primeira vez que viu aquele “barbudo que lembrava um chinês” subiu ao palco da reitoria para declamar um poema, a ainda pequena Estrela Leminski lembra da textura do cabelo do pai e artistas lembram de como era inspirador ouvir as ideias – aparentemente – mirabolantes e desenvolvidas de Paulo Leminski.

Como quem não quer nada, Leminski entra em cena em “Frente e Verso” com seu sotaque “leite quente”, como música de fundo de um e outro comentário, nas letras embaladas pelo violão de algum amigo. Meio que dizendo para quem ouve, que ele vai estar sempre presente, jamais esquecido, assim como diz Helena Kolody ao final do áudio “Ele é um valor que ficará para sempre, porque além de inteligência ele tinha muita personalidade. Então, o que ele fazia era diferente de tudo que se fez antes e depois dele. O nome do Leminski não vai se apagar, ele vai crescer pelo tempo afora, como aqueles que são geniais”.

Um leitor nunca dorme sozinho

The Monk Who Sold His Ferrari

Ano passado escrevemos um post bacana sobre campanhas criativas de incentivo à leitura pelo mundo afora. Tornar a leitura algo interessante e atividade atrativa em meio à tanta velocidade de dados, imagens e sons não é uma tarefa tão simples como parece, mas tem muita gente que leva isso a sério e transforma a criatividade da publicidade – normalmente voltada à produtos de maior consumo – em grande aliada à campanhas inspiradoras.

Stalin

Sherlock Holmes

E nessa onda de inspirar leitores, a cadeia de livrarias israelita – considerada a maior e mais antiga do país – Steimatzky resolveu apostar numa criativa campanha de incentivo à leitura. Com o lema “The Right Book Will Always Keep You Company.” [O livro certo sempre lhe manterá em companhia] a campanha traz desde personagens clássicos como Dom Quixote e Sancho Pança, passando por Sherlock Holmes e indo até Gandalf, do Senhor dos Anéis que adormeceram ao lado de leitores com os respectivos livros em mãos.

Gandalf

Don Quixote

Que leitor nunca dormiu com livros ao lado ou acabou sonhando com as histórias e personagens de livros? Um livro nunca nos torna impunes ao seu enredo e personagens e mais ainda, muito bacana ver campanhas de leitura que ultrapassam ele como um produto, tornando o livro antes de tudo, parte cotidiana de nossas vidas.

pipi

Via

Patti Smith lê Virginia Woolf

Virginia Woolf foi uma escritora enigmática que desperta até hoje os mais diversos sentimentos nos seus leitores. Considerada a primeira grande difusora do que se conhece como a técnica de fluxo de consciência, não se importava em dar vozes aos seus personagens não os colocando em barreiras de tempo e espaço.

capaGDAs Ondas é um romance experimental, considerado um playpoem – uma espécie de “peça poema” – que mistura a voz de seis personagens diferentes. A obra é considerada um marco na obra da escritora pois passava a abandonar as trivialidades do romance clássico fazendo um romance cheio de poesia e introspecção. Virginia não gostava de caracterizar esses personagens como individuais, pois não acreditava que eles fossem separados. O histórico de instabilidades mentais e emocionais da escritora conta que ela frequentemente contava que ouvia vozes em sua cabeça e mesmo que isso nem sempre fosse inspirador, fazia ela imaginar que fossem várias dela mesma que conversavam dentro da sua cabeça.

virginiawoolf-perfilO que Patti Smith e Virginia Woolf teriam em comum? Além de ambas serem escritoras no vídeo acima em que Patti homenageia a escritora no 67º aniversário da sua morte – eternizada pela carta deixada à Leonard Woolf – durante a abertura da exposição Land 250, uma exibição de fotografias e trabalhos artísticos de Patti Smith desde 1965 até 2007, na Fundação Cartier de Arte Contemporânea, em Paris.

Eu não acho que isso seja triste. Eu só acho que é o dia em que decidiu dizer adeus. Portanto, não estamos celbrando o dia, estamos simplesmente reconhecendo que este é o dia. Se eu tivesse um título para dar ao dia de hoje, eu chamaria isso de “Wave”. Estamos acenando para Virgínia.

A performance é acompanhada no piano e guitarra pela filha Jesse e o filho Jackson. O trecho lido é curto e o resto da apresentação se resume a uma homenagem própria de Patti Smith. A performance é feita com um misto de vozes e sons que poderiam agradar Woolf já que foi vanguardista em vários aspectos.

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Fotos de Patti Smith na casa de Virginia Woolf, em Sussex

Não é a primeira vez que Patti Smith fala da sua paixão por Woolf. O álbum de 79 intitulado de “Wave” também foi homenagem, ele antecederia uma semi-aposentadoria da cantora na década de 80. A exposição ainda conta com um set de fotografias feitas em Sussex, na Monk’s House de Woolf, onde costumava se refugiar durante surtos de depressão.

Além de ouvir Patti Smith lendo Virginia Woolf ouça abaixo o único áudio que se tem notícia da voz da escritora, gravado em 1937, pela rádio BBC, de Londres.

Urbano Bazar 2012

O último evento que a Joaquim Livraria & Sebo vai estar no ano. Apareçam!

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Vladimir Nabokov na TV

Vladimir Nabokov, escritor russo-americano, ganhou fama após seu primeiro romance escrito em inglês – já havia escrito outros nove em russo – ter virado polêmica e apreciação: Lolita, um texto que trata da obsessão passional de um homem mais velho por uma garota de 15 anos, sedutora e consciente de suas armas. Altamente descritivo e rico em detalhes que elaboram o enredo, Nabokov acaba se tornando uma referência e grande prosador da língua inglesa.

Durante quase duas décadas, o escritor lecionou aulas de literatura – estudou em Cambridge após sair da Rússica por conta da Revolução – nas universidades de Wellesley e Cornell. Nabokov não era apenas um escritor de ficção prolífico, mas gostava de escrever muitos ensaios sobre as obras que tinha maior apreço. Não sendo tão acadêmico, ele se utilizava mais da sua visão de leitor e teorias desenvolvidas durante a leitura. No livro Lectures of Literature (algo, como “Aulas de Literatura”) ele trata de várias obras em que enxergava pontos e demonstrações. Autores como Joyce, Jonh Updike e Jane Austen são comentados, mas uma das referências mais comentadas de Nabokov foi a Metamorfose, de Franz Kafka.

Muitas anotações, rascunhos e teorias eram elaboradas pelo russo que via a novela de Kafka como uma obra de inesgotável ideias. Como mostra a imagem acima, o escritor rascunhou, inclusive, o inseto terrível que Gregor Samsa se viu preso naquela manhã.

De tão conhecidas que ficaram suas teorias acerca da Metamorfose, em 1989 uma emissora de televisão reproduz, bem ao estilo de séries de TV, um aula de Vladimir Nabokov em 1940. Interpretado pelo ator Christopher Plummer, Nabokov ganha trejeitos específicos e uma sotaque ácido de um inglês/francês/russo bastante peculiar. O vídeo de 20 minutos é uma aula sobre Franz Kafka e comentários sobre a novela dos dias de Gregor Samsa transformado em inseto. Os alunos foram introduzidos à leitura de Nabokov sobre texto, incluindo os rascunhos do escritor de como seria o formato do caixeiro após aquela manhã.

Observe as ideias sobre a apatia de Gregor no novo corpo e peculiaridades como o não uso das asas que adquiriu, provavelmente te façam ter novos olhares sobre a obra. Claro que o vídeo traz um tom teatral para as aulas que talvez não fossem tão estimulantes assim na época. Mas a pergunta que fica é o que levou a televisão a reproduzir isso de forma tão interessante ou de que forma filmes como A Sociedade dos Poetas Mortos – onde um professor universitário incita seus alunos com poesias de Walt Whitman – são produções tão escassas e são encontradas num limbo tão restrito?

Não temos muitas respostas, mas em um momento em que uma vertente do senso comum apedreja a televisão, que de de fato fornece cada vez mais programas superficiais e de puro entretenimento, ainda temos a internet que guarda essa pérolas atemporais.

Joaquim recomenda:

LolitaVladimir Nabokov

A MetamorfoseFranz Kafka

Post Baseado em artigo do Open Culture

100 anos dos opostos, porém brasileiríssimos

O mês de agosto de 2012 acolhe dois centenários importantes e cheios de polêmicas dentro da literatura, dramaturgia e teledramaturgia do cenário do século XX brasileiro: Jorge Amado e Nelson Rodrigues completariam ambos cem anos de existência. Duas figuras polêmicas que atravessaram a ditadura e eram totalmente diferentes entre si, mas também lançavam um olhar muito próximo para a figura do povo brasileiro e ainda não poupam controvérsias quando o assunto é a análise de suas obras.

Jorge Amado é um dos escritores brasileiros mais traduzidos e representante de uma cultura brasileira no exterior. Era baiano e usou sua terra natal como palco de seus romances que traziam um Brasil transitando entre o arcaico e o moderno, cheio de peculiaridades, mesclando o erudito e o popular de forma primorosa. Como não lembrar das mulheres como Gabriela, Dona Flor e Tieta do Agreste?

Sônia Braga como Gabriela

Talvez um dos grandes motivos do escritor ser bastante conhecido no exterior foi a sua participação e consagração pelo movimento comunista mundial. Como membro do Partido Comunista Brasileiro o escritor, e depois deputado, conseguiu que o culto às crenças fosse permitido, colaborando assim que os terreiros de Candomblé não sofressem mais perseguições. Em 1954, já com notória fama, colaborou para que o escritor Bertold Brecht ganhase o Prémio Estaline, se tornando uma figura mundialmente famosa e distante das mãos do partido que o perseguia.

Em 1955, Jorge Amado sairia do partido comunista e mudaria um poucos a linha de seus textos, passando a não evidenciar alguns esteriótipos dentro da sua ficção. Mas claro que a baianidade – termo que muitos estudiosos consideram criada pelo escritor – permaneceria viva na sua escrita.

Já Nelson Rodrigues nasceu em Recife, mas foi muito cedo para o Rio de Janeiro onde cresceu e tornou-se jornalista. Trabalhou um longo período como repórter policial o que daria o esqueleto para suas crônicas recheadas de homens normais vivendo situações extremas típicas de notíciarios. Mais tarde se tornou cronista de esportes mostrando o amor pelo futebol e especial o time do Fluminense. Mas seria o teatro que identificaria a voz mais forte do anjo pornográfico.

Vestido de Noiva é considerada a peça que trouxe o olhar modernista para dentro do teatro brasileiro. A primeira montagem foi feita pelo polonês Ziembisnki e traduzia muito bem o que viria a ser a carreira de Nelson: um olhar peculiar e sarcástico sobre uma sociedade que estava numa desvairada transformação.

Lucélia Santos como protagonista de Bonitinha, mas ordinária

Nelson Rodrigues, apesar do uso excessivo de elementos escandolosos e imorais, segundo a sociedade brasileira, era também moralista. Acreditava que o escândalo causado pela sua ficção iria reavivar um lado santo das pessoas, tocadas por essas cenas ¨demoníacas¨. O anjo pornográfico acreditava que a dramaturgia poderia trazer de volta alguns valores esquecidos pela modernidade. Afinal, como disse em um artigo no jornal Manchete:

“A ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo.”

Mas claro que associação do autor com sua obra é sempre perigosa. Há quem acredite ser impossível relacionar a obra de Nelson Rodrigues com a imoralidade ou a moralidade. O fato é que a obra do dramaturgo consegue ir fundo nas questões humanas trazendo o homem em seu limites. O constante afrontamento com os padrões e regras sociais – tais como uso de palavrões, sexo e etc – fizeram ele enfrentar problemas com a censura e certos moralismos, chegando no ponto exato de tocar fundo os moralismos que acusava estarem dispersos.

Ambos os escritores, que sempre foram adorados pela teledramaturgia brasileira, ganham novo fôlego na TV aberta. Remakes e novas tentativas de adaptação deixam claro que esses dois centenários, detentores de um ohar bem brasileiro, continuam atuais e independentes de suas visões políticas.

Nelson Rodrigues e Jorge Amado viam a essência dos homens dessa terra, que eram despidos das fantasias colocadas apenas sobre uma unidade do povo brasileiro, mas sim de humanos controversos quanto à sua essência. Criticavam a sociedade e política de sua época usando situações muito próximas do reais, os identificando de certa forma e tornando suas obras sempre atuais.

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