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Virginia Woolf e o Ensaio

“Regozijo-me em coincidir com o leitor comum; pois, pelo senso comum dos leitores, não corrompidos pelos preconceitos literários, depois de todos os refinamentos da sutileza e o dogmatismo do aprendizado, deve finalmente ser determinado que todos clamam por honras poéticas”

Samuel Johnson

A escritora inglesa Virginia Woolf é reconhecida como um dos grandes nomes da literatura modernista, além de ser uma das mais importantes representantes do time que desenvolveu a técnica narrativa de fluxo de consciência. De fato, Woolf foi uma prolífica leitora e escritora, seus romances como Orlando e Mrs. Dalloway entraram rapidamente para o cânone literário do século XX e sua produção – incluindo diários e cartas – foi sendo propaganda com o decorrer das décadas. Um dos seus textos que ganhou novos olhares e impulsos, na época e depois de sua publicação, foi o longo ensaio Um Teto Todo Seu, de 1929.

Depois de ser convidada para palestrar sobre o tema mulheres e literatura, Virginia Woolf se deparou com uma das grandes lacunas na história do gênero: onde estavam as mulheres que escreveram? Onde estavam seus livros? Onde elas estavam nos compêndios de ensino e teoria literária? É com esse atordoamento que ela escreve um longo ensaio tentando refletir sobre essa ausência, unindo crítica histórica e social. Mas, não era a primeira vez que a autora fazia uso do ensaio para escrever sobre sua visão literária e crítica de costumes. Há pelo menos dez anos publicava semanalmente em suplementos literários, acumulando centenas de textos que já tinham sua própria unidade que refletia uma premissa muito básica para ela: a de ser escrita através do olhar de um leitor comum.

Uma das antologias de seus ensaios mais conhecida é justamente a de O Leitor Comum, onde ela escreve, no ensaio homônimo, sobre as premissas desse leitor livre dos academicismos e regras de manuais. Usando um trecho – que abre esse texto – do crítico inglês Samuel Johnson, do século XVIII, ela cria sua própria metodologia de escrita de ensaios, mesmo daqueles que não falavam sobre a literatura em si. Afinal, um observador comum seria protagonista dessa lógica e, para Virginia Woolf, era uma motivação quase política na afirmação pelo comum: ela mesma não havia frequentado a universidade e tudo que sabia era mérito da biblioteca de seu pai e de sua fome intensa por conhecimento.

No ínicio do ensaio Profissões para Mulheres (no Brasil em Profissões para Mulheres e outros artigos Feministas, pela L&PM, tradução de Denise Bottmann) ela dá o tom de comum dizendo que “Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer.” E ela segue comentando sobre a importância de um diálogo como escritora, uma profissão também negada às mulheres, com aquelas que estavam em fábricas ou outras atividades laborais.

Quando falava de livros e literatura, Virginia Woolf também não era indiferente. No ensaio Horas na Biblioteca (no Brasil em A Leitora Incomum, pela Arte e Letra, tradução de Emanuela Siqueira) ela começa o ensaio alfinetando, dizendo que “Vamos começar resolvendo a velha confusão entre o homem que ama aprender e o homem que ama ler, e apontar que não há qualquer ligação entre eles. O intelectual é um sedentário, um solitário entusiasta concentrado, que busca através dos livros um grão de verdade específico para acreditar”. Não eram raros os comentários críticos aos homens das letras, os chamados de intelectuais sedentários. O leitor comum sonhado pela escritora seria sempre o Outro e não mais o homem acadêmico dos círculos ingleses, cuja voz era a única respeitada.

Por esses e outros motivos, a produção ensaística de Virginia Woolf foi relegada em segundo plano, mesmo com uma produção tão prolífica. Acusada de impressionista e, ironicamente, pouco teórica, muitas são as análises preguiçosas desses textos. No Brasil, o ensaio é uma categoria pouco produzida e incentivada, também afetando para que traduções desses textos chegassem até o leitor. Porém, temos atualmente quatro antologias interessantes dessa produção publicadas no Brasil e elas ajudam a adentrar na produção reflexiva da autora, permitindo que possa se ampliar a análise de sua obra e construção de pensamento.

A primeira a ser publicada, em 2012, foi Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas, citado anteriormente, que reúne textos de Virginia Woolf que discutem a situação da mulher escritora e suas relações com a condição da mulher na sociedade. Apesar do uso da palavra feminista, os textos discutem temas mais caros ao início do século XX, onde os movimentos de mulheres ainda não tinha nome próprio. Porém, são textos fundamentais para notar a perspicácia no olhar da autora sobre a produção literária e como a sociedade moderna se comportava naquele período. Muitas das metáforas como a do anjo do lar, a importância do ato com fruição da leitura e a relação do cotidiano com a análise literária, estão presentes mesmo em textos com um único eixo temático: a autoria de mulheres.

Em 2014, a extinta Cosac Naify editou O Valor do Riso, organizado e traduzido por Leonardo Froés. São quase trinta ensaios que compõem essa antologia e finalmente o panorama da produção é alargado. Baseado no volume The Essays of Virginia Woolf, essa edição segue a publicação mais crítica, porém mais acatada, dos ensaios. Desde o famoso O Leitor Comum, passando por textos sobre Londres e sua visão apurada do urbano como Músicos de Rua, reflexões sobre a literatura contemporânea da época no excelente Ficção Moderna, terminando em mais textos em que pensa a produção de autoras como Jane Austen, e o Quatro Figuras, que escreve sobre a biografia de algumas mulheres.

Mas não apenas de temas pontuais se deu a produção de ensaios da inglesa. Há um trabalho poético muito potente em seus ensaios, as metáforas não são pensadas à revelia e atendem muito da demanda romancista de Virginia Woolf. A antologia O Sol e o Peixe, de 2016, organizada e traduzida por Tomás Tadeu e editada pela Autêntica, traz nove ensaios de prosa poética. São textos divididos em três seções onde os temas mais caros à escrita de Woolf surgem envolvidos em um ritmo e pensados como literatura. Desde uma reflexão sobre Montaigne, até uma divagação sobre a, ainda embrionária, arte do cinema, os ensaios mostram como a romancista e a pensadora não andavam separadas.

A antologia mais recente é A Leitora Incomum , editada pela curitibana Arte e Letra e traduzida por Emanuela Siqueira. Além do livro ser artesanal, dialogando mais de perto com a fruição da leitura e o feitio do livro – Virginia fala muito sobre o cheiro e a textura do objeto – também foca em ensaios que tragam a leitora como crítica literária. Como citado anteriormente, a produção ensaística de Virginia Woolf sempre foi considerada aquém à produção de outros intelectuais. Como sempre pensava sobre a experiência de leitura, a biografia de autores e os seus modos de fazer, sua crítica foi considerada impressionista. Os cinco ensaios dessa antologia dão conta de propor um outro olhar para a construção do pensamento da autora. É possível perceber, por exemplo, que várias metáforas que ela sempre usa em seus ensaios, como a força das águas – e tudo relacionado a esse universo – aparecem como ondas, indo e voltando. Ou mesmo a crítica aos intelectuais que, como afirma em um ensaio, matam o prazer pela leitura, está sempre presente. Nesse volume, também há o ensaio que homenageia uma autora: Katherine Mansfield. O interessante é que muitos estudiosos de Woolf dizem que ela mantinha uma relação de ciúme com a neozelandesa, logo, o ensaio Uma mente implacavelmente Sensível dá conta de desfazer esse boato; a admiração é o ritmo do texto.

Assim como nos romances, Virgínia Woolf cria, dá seu próprio ritmo, constrói universos e caminhos nos seus ensaios. Longe de ter a euforia de um impressionista, ela está mais próxima do prazer em ouvir uma pessoa apaixonada. A antropóloga francesa Michèle Petit, importante pesquisadora de mediação de leitura, diz que apenas um apaixonado pode falar de amor, ou seja, apenas um leitor apaixonado pode nos convencer a ler. Então, somos levados por Virginia Woolf – de mãos dadas – a observar os livros nas bibliotecas, a ler em diálogo, a observar os detalhes das roupas, das conversas e a olhar por entre janelas e portas. Dessa forma, assim como ela, deixaremos de ser leitores comuns, passando a ser seres humanos incomuns à literatura e à vida.

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Community Bookstore, uma das últimas livrarias bagunçadas de NY

“Tenho medo de, qualquer dia desses, morrer embaixo de alguma dessas pilhas” Julio Scioli, 69 anos, dono da Community Bookstore

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Jornais americanos voltaram seus olhos recentemente para Julio Scioli e sua livraria, a Community Bookstore. Scioli acaba de vender um triplex, onde vivia no último andar e mantinha a livraria no térreo, por 5,5 milhões de dólares. Mas não é por conta do excelente negócio que Julio fez ao vender o imóvel que fez a imprensa se interessar por ele, e sim porque uma das livrarias independentes mais interessantes que restou em Nova Iorque vai fechar as suas portas, deixando um legado fora dos padrões em meio à grandes redes.

Chegando na esquina das ruas Court e Warren, no Brooklyn, por algum tempo ainda será possível enxergar Scioli sentado na frente da Community Bookstore, acenando, conversando com transeuntes e clientes ou apenas dando baforadas em seu cigarro. Logo na entrada, olhando através das janelas se vê que as pilhas dão o tom na decoração do espaço. Olhando de perto, os leitores perambulando entre os livros, tudo fica ainda mais claro, a livraria é tomada por cerca de 80 mil livros novos e usados (Julio afirma que o número é entre 60 e 100 mil) todos empilhados e organizados por uma forma que somente Julio – e frequentadores assíduos – podem entender.

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A livraria existe desde 1971 mas passou por outros endereços desde então. Até chegar no seu triplex no Brooklyn, Julio teve muitos problemas com aluguéis altos. Uma das suas histórias divertidas foi quando resolveu protestar contra o prefeito Ed Koch – que administrou a cidade entre 1978 e 1989 – e colocou sua autobiografia “Mayor” três vezes mais caro que o mercado. Claro que, como ele conta, o livro não vendeu e os preços dos aluguéis continuaram bastante altos. Foi em 1995 que Julio resolveu investir em seu próprio imóvel e chegou no último derradeiro endereço da Community.

Esqueça livrarias com cafés, lista de mais vendidos ou os últimos lançamentos. Scioli não compra livros usados, apenas aceita doações e sim, ele recebe muitas. A Community Bookstore é o tipo de lugar para quem não anseia se encontrar ou encontrar algo e sim se perder, ir até lá sem pensar no tempo gasto, ter senso de descoberta, desbravando as pilhas gigantes de livros desorganizados.

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A ideia é totalmente ir contra um controle do tempo, uma organização das tarefas diárias ou certezas do que ler. Julio Scioli fica sentado na porta da livraria e as pessoas entram e exploram, não são necessárias muitas perguntas. É divertido lver ele contando que quando um jovem, após perambular pelos livros empilhados, um pouco confuso perguntou se ele tinha um computador e ele replicou “Você quer comprar um computador?” fazendo o rapaz ir embora sem saber o que responder.

As chances de alguem chegar lá com alguns livros em mente e voltar com títulos totalmente aleatórios são enormes, ainda mais se tiver espirito aventureiro. Julio recebe centenas de doações de livros toda semana, o acervo é bastante rotativo. E vale mencionar que o horário de funcionamento da livraria também é fora do padrão, a loja não costuma abrir antes das 17h e sempre que dá adentra a madrugada. Julio diz que “As pessoas estão muito ocupadas de dia para procurar algo” e afirma que a internet não apenas deixou o comércio de livros usados mais complicado mas também tornou as pessoas mais apressadas.

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Julio Scioli completa 70 anos em 2015 e tem um ano para fechar a livraria e mais dois anos para sair do prédio. Ele brinca dizendo ao NY Times que ele sabe que tudo leva tempo, completa “Sou o primeiro a admitir que sou um pouco acumulador”. Apesar de estar fechando, por estar se aposentando, a Community é uma das últimas livrarias que, além de mostrar como tudo funcionava antes dos computadores – e como os livreiros sempre sabem onde tudo está – também se mostra como um dos últimos portais para um mundo menos apressado, obsessivo por organização e muitas vezes plástico e artificial.

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A história de Julio Scioli é inspiradora e fora dos padrões. É isso que alimenta as livrarias independentes, oferecer experiências novas e incomuns aos desbravadores de livros e discos, como é o nosso caso. Você tem experimentado novas descobertas?

Via NYTimes e Gothamist

Mais:

Livraria City Lights, a livraria dos Beats

Leia Literatura Contemporânea!

livros

O escritor Italo Calvino e o filósofo Giorgio Agamben, ambos italianos, possuem dois ensaios conhecidos que aparentemente vão de uma ponta à outra da Literatura sem se tocar, mas que se relacionam mais do que se imagina. O primeiro, falando dos clássicos*, propõe em uma de suas definições, que um livro se torna clássico quando nunca termina de dizer aquilo que tinha que ser dito. Já o segundo, em um ensaio sobre o contemporâneo**, diz que algo verdadeiramente pertence à sua época quando lança um olhar sobre a escuridão do presente, tentando enxergar além do breu.

A literatura contemporânea é um pouco das duas definições. Ler a literatura que nos é contemporânea é como olhar para um espelho que reflete vários níveis do que vivemos, é tentar captar o espírito de um tempo, e relacioná-lo com as obras do passado, criando assim um percurso histórico através da ficção.

Hoje o número de traduções em várias línguas leva a literatura feita no oriente ao ocidente, e vice-versa, em bem menos tempo que no passado. A internet, com sua enorme quantidade de ferramentas de compartilhamento, permite que possamos saber quem está fazendo ficção além da Europa e os Estados Unidos. No Brasil vemos nossa literatura do presente ganhando notoriedade. Em menos de um ano, por exemplo, recebemos homenagens na Feira de Frankfurt, na Alemanha e uma edição da revista inglesa Granta, dedicada aos escritores brasileiros de menos de 40 anos.

Para colaborar um pouco com o estímulo de leituras de literatura contemporânea, escolhemos alguns autores – que em alguns casos estão em férteis regiões para a literatura – que fazem ficção com um olhar fixo na escuridão do presente, sem deixar de prestar atenção no passado que os construiu.

Vale ressaltar que os dez escritores aqui indicados – cinco escritores brasileiros e cinco estrangeiros – não são suficientes para dar uma real dimensão do que vem sendo feito, mas ainda falaremos mais sobre o assunto, afinal a literatura é basicamente uma fonte inesgotável.

A Literatura Brasileira Contemporânea

A literatura feita no Brasil contemporâneo consegue ser bastante versátil, vai do romance à poesia, passando pelo conto e crônica com nomes fortes em cada estilo. Mesmo que a internet nos permita conhecer escritores em vários cantos do país, o eixo sudeste-sul ainda é predominante na nossa literatura. Boa parte dos escritores escreve sobre a vida urbana ou temas mais existencialistas como a memória e o cotidiano.

Daniel Galera

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O escritor gaúcho é um dos jovens escritores mais comentados dos últimos 10 anos. “Mãos de Cavalo”, “Cordilheira” e o recente “Barba ensopada de Sangue” são alguns dos seus trabalhos mais comentados pela crítica brasileira. Recentemente Daniel Galera passou a ser traduzido em outras línguas. Dentro do perfil de jovem branco de classe média, o escritor trata das mazelas de ser um jovem adulto e os conflitos existenciais de relacionamentos amorosos e familiares.

Luiz Ruffato

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O mineiro Luiz Ruffato ficou conhecido mundialmente na abertura da Feira de Frankfurt, em 2013, ao fazer um discurso de duras críticas sobre a dificuldade de ser um escritor no Brasil e de conviver com o nosso passado histórico. A literatura de Ruffato é marcada pelo protagonismo de personagens ora sem nomes próprios, reconhecidos e identificados conforme a geografia dos espaços em que vivem, como em seu “Eles Eram Muitos Cavalos”. Ora são marcados pela força de sobrenomes que carregam o patriarcado da colonização italiana no interior de Minas Gerais, como mostra a pentalogia “Inferno Provisório” em que trata do desenvolvimento do proletariado mineiro.

Férrez

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O escritor paulista é um dos principais expoentes do movimento conhecido como Literatura Marginal, corrente literária produzida por autores residentes nas periferias dos grandes centros urbanos brasileiros e escrita utilizando gírias e elementos próprios da comunicação desses espaços. Conquistou um público fiel de leitores com títulos como “Capão Pecado” e “Manual Prático do Ódio” e mantém uma boa relação nas redes sociais estimulando a leitura e o conhecimento da cultura produzida nas periferias.

Carol Bensimon

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A escritora gaúcha faz parte do grupo de jovens escritores formados em famosas oficinas dadas em Porto Alegre pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil. Junto de Daniel Galera e outros escritores da capital gaúcha são responsáveis por reforçarem a cena independente dos anos 2000 com editoras como a Livros do Mal e a mais recente Não Editora. Por essa última, Bensimon lançou seu primeiro livro, com três contos, intitulado de “Pó de Parede”. Seu mais recente livro pela Companhia das Letras, “Todos nós adorávamos Caubóis” vem recebendo ótimos elogios. Apesar de jovem, a escritora já demonstra domínio em construir enredos orientados pelas memórias dos personagens, que dependem de si mesmas para se encontrarem no presente.

Vanessa Barbara

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Logo na sua estreia Vanessa Barbara ganhou um Jabuti. “O Livro Amarelo do Terminal”, lançado pela Cosac Naify, é um livro-reportagem que trata do cotidiano no movimentado Terminal do Tietê, em São Paulo. A prolífica escritora – que também faz parte da lista de joves autores escolhidos pela Granta – já passou por quadrinhos, romance e escreve colunas para os mais diversos tipos de publicações. Com um ar de crônica, com uma boa dose de influências populares e focada em algumas obsessões, Vanessa já tem no currículo o ótimo romance “Noites de Alface” e trabalhos em quatro mãos como a HQ “A Máquina de Goldberg” com o ilustrador Fido Nesti e o romance “Verão do Chibo”, com o escritor Emilio Fraia.

A Literatura Contemporânea Estrangeira

O olhar sobre a literatura estrangeira, em mundo mais globalizado e disponível à apenas um clique, se volta para regiões antes poucos exploradas. A literatura produzida na África e um “boom” de novos autores na América Latina e países do oriente despertam maior interesse.

Mia Couto

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Mia Couto trata de assuntos sensíveis e fortes com tons de mágica em um universo que muitas vezes parece onírico, usando recursos de linguagem próprios e metáforas de fábulas sobre a realidade. Usando como plano de fundo a África, mais especificamente Moçambique e seus conflitos sociais e armados, ele trabalha com personagens humanos que tiram grandes lições em pequenas metáforas do cotidiano. Se você ainda não leu nada de Mia, comece com o ótimo Histórias Abensonhadas, uma série de contos escritos em períodos de pós-guerra que apesar de terem o mote da morte presente, desenvolvem enredos permeados por uma esperança que somente os recomeços são capazes de causar.

E se você gostar de Mia Couto, vale a pena dedicar o olhar para outros escritores do continente africano como Ondjaki, Pepetela e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Valter Hugo Mãe

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Apesar de ser angolano e também flertar com o fantástico para escrever seus romances, Valter Hugo Mãe faz parte de um cenário contemporâneo mais voltado para Portugal. Mãe – que é um sobrenome artístico – caiu nas graças dos brasileiros depois da participação na FLIP em que leu uma carta emocionante sobre sua paixão pelo Brasil. Já escreveu vários romances, poesia e até canta em uma banda em Portugal. Seus livros contam com personagens aparentemente simples que buscam sentidos e sentimentos realmente verdadeiros para empreender na odisseia chamada vida. Um dos seus livros, “O Filho de Mil Homens” editado no Brasil pela Cosac Naify, o protagonista Crisóstomo, um homem de quarenta anos, se vê sozinho por não ter sido pai. Assim, o protagonista cria uma família inventada mas tão pura e real como uma família deve ser. O livro é construído sobre a história de vários personagens próximos entre si e é impossível não se sentir tocado pelas descobertas de cada um deles e a forma em que chegam até o protagonista tocados por um único sentimento.

Haruki Murakami

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Um dos escritores mais interessantes da cena contemporânea é o japonês Haruki Murakami. Sua literatura consegue misturar filosofia, referências pop e claro, toques de fantasia, tão caros aos japoneses. Com títulos como “Kafka à beira-mar” e “1Q84” com fortes influências ocidentais ele constrói personagens complexos que através de fluxos de consciência bem elaborados, dialogam com o leitor jovem e ainda consegue deixar os críticos impressionados. Você pode começar se aventurando com a trilogia “1Q84” que saiu em 2013 ou “Norwegian Wood” e “Minha querida Sputnik”, todos lançados no Brasil pela editora Alfaguara.

Alejandro Zambra

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O escritor chileno faz parte da nova geração da prolífica cena literária latino-americana. Com romances curtos ele ganha o leitor com narrativas envolventes e repletas de referências literárias e/ou elementos do cotidiano contemporâneo. Tratando de relacionamentos, a forma cíclica como eles se dão e a importância da memória com os pequenos elementos que restam do passado, Zambra é o tipo de escritor para se ler numa tomada só. O primeiro livro de Zambra que saiu no Brasil foi “Bonsai”, pela editora Cosac Naify que até então publicou outros dois livros do escritor.

Zadie Smith

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A escritora inglesa, filha de uma jamaicana com um inglês é um dos nomes mais importantes da literatura inglesa contemporânea, o que não é pouco para um país que escreve e publica muito. Zadie se destaca por tratar justamente do “espirito do tempo” da sociedade em que vive, com personagens – protagonistas ou não – miscigenados, sempre envolvidos com um contexto globalizado onde gêneros, identidades, orgulho das raízes, etnias e crenças se confrontam. Quase todos os romances da escritora foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras, destaque para “Dentes Brancos” e “Sobre a Beleza”.

Estas são algumas de nossas indicações para navegar no enorme e diversificado mundo da literatura contemporânea. Boa leitura!

*Italo Calvino em “Por que ler os Clássicos”, Companhia de Bolso
**Giorgio Agamben em “O que é contemporâneo”, editora Argos

Os 3 M’s dos Quadrinhos Argentinos

Liniers

Liniers

É quase impossível navegar pelas redes sociais e não se deparar com alguma tira de arrancar sorrisos do argentino Liniers. Com a série Macanudo, ele caiu no gosto dos brasileiros pelos idos dos anos 2000, e apesar de bastante conhecido na internet, o quadrinista só foi editado no país em 2008 quando a editora Zarabatana deu conta de trazer os divertidos personagens da série argentina para o país.

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“Patorozú”, quadrinho clássico argentino

A história dos quadrinhos na Argentina – ou ainda comics, tebeos ou apenas historietas – teve uma trajetória parecida com a nossa no Brasil, começando ainda no século XIX, passando pelas charges, cartuns e chegando nos quadrinhos do século XX. Entre a transição dos séculos, apesar da pressão para copiar o estilo clássico de Comics americana, os argentinos já pendiam pela característica que iria ser fundamental nos seus quadrinhos: o cunho político e crítico, exposto com altas doses de criatividade.

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Mafalda, de Quino

Desde o principio não foi fácil para os quadrinistas argentinos se livrarem da enxurrada de material estrangeiro que marcava presença nos períodicos do país. Além de comandarem o mercado, muitos editores exigiam que os argentinos fizessem trabalhos parecidos com os de fora, mas eles não traziam a realidade dos leitores, entretinham mas não figuravam no cotidiano. Foi nesse momento que alguns quadrinistas rompem com editores para criar personagens que dialogassem mais de perto com o público nacional, criando assim uma identidade.

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Mafalda

Para quem conhece os 3 M’s dos quadrinhos hermanos sabe que a crítica pode estar branda no discurso, mas sempre está presente. Mafalda, Macanudo e Mulheres Alteradas possuem seus estilos próprios e conquistaram território além mar del plata justamente por serem marcados por suas próprias críticas. Mafalda, ironicamente, surgiu da necessidade de uma marca de geladeiras propagar o seu nome. O quadrinista Quino criou ela e sua família com cunho publicitário, mas a personagem era tão livre que foi ganhando forma e acabou virando referência nacional, com críticas ferrenhas à tudo que acontecia no país. Mafalda, com sua aversão à sopa e opiniões na ponta da língua, se tornou símbolo do país e inclusive ganhou uma estátua na cidade em 2009.

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Mulheres Alteradas, de Maitena

Os kioscos – como são chamados as bancas de jornais na Argentina – sempre foram responsáveis em divulgar a cena de HQs do país. Ao desembarcar no aeroporto da capital portenha, o visual da cidade é acompanhado por Mafalda, pelos personagens de Liniers, pela explosão das mulheres alteradas de Maitena ou a vasta gama de personagens que surgiram nos principais periodícos ou zines do país.

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Revista Fierro, capa de edição em parceria com o Brasil

Os jornais argentinos, no fim dos anos 80, foram os responsáveis pela massiva nacionalização dos quadrinhos. Mesmo que isso tenha acontecido por questões econômicas, a situação foi fundamental para os quadrinistas argentinos sairem de seu anonimato e começassem a ter vez no circuito. Mas vale ressaltar que os zines e revistas foram fundamentais para que a arte circulasse, inclusive fora do país. Como não mencionar a excelente revista Fierro, conhecida no mundo todo por trazer o melhor do trabalho independente argentino?

Liniers por exemplo, começou publicando em várias revistas independentes, criando a sua própria identidade. Os famosos pinguins sempre estiveram presentes enquanto ele ia agregando outros personagens ao seu mundo fantástico e sensível. Interessante notar que ele sempre se fez presente nos seus desenhos, primeiro como um homenzinho de nariz vermelho – uma das características do seus personagens humanos – e mais tarde como o coelho de óculos que hoje é a sua marca.

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abraçoliniers

mulheres_alteradasFoi Maitena Burundarena a responsável para Liniers entrar no circuito das tiras de períodicos. Desde 1992 a quadrinista publicava suas tiras – que viraram sinônimo de quadrinhos feministas – na revista argentina Para Tí. Antes de Mulheres Alteradas, Maitena fazia trabalhos diversos nos quadrinhos, principalmente no eixo erótico. Mas seu lado crítico falou mais alto e ela passou a retratar o universo feminino e as diferenças cotidianas com o convívio masculino. Recentemente, a quadrinista veio ao Brasil e disse não ter mais interesse em fazer quadrinhos e lançou um romance elogiado chamado Segredos de Menina (editora Benvirá) em que relaciona a ditadura na Argentina e o universo de uma garota de 12 anos.

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Mulheres Alteradas

Mas claro que os quadrinhos argentinos vão bem além dos famosos 3M’s. Sempre existiram trabalhos independentes de intercâmbio entre Brasil e Argentina e algumas editoras – como a Zarabatana e a Martins Fontes – tem se esforçado em trazer mais opções ao leitor brasileiro. Só para instigar o leitor com um exemplo, em 2011 a Martins Fontes trouxe a primeira edição de um dos quadrinhos mais importantes da cena argentina. O Eternauta chegou ao Brasil 50 anos depois e traz uma ficção científica sensacional sobre um homem que encontra a si mesmo do futuro, para Phlip K. Dick nenhum botar defeito. Muitas referências políticas e críticas sociais são encontradas no roteiro de Héctor German Oesterheld e nos ótimos desenhos de Solano López e isso há pelo menos cinco décadas atrás. E vale mencionar que Oesterheld era ativista político e desapareceu – assim como toda sua família – durante a ditadura argentina.

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O Eternauta, de Oesterheld

No livro Bienvenido – Um passeio pelos quadrinhos argentinos (Zarabatana, 2010), o pesquisador Paulo Ramos enumera dois grandes motivos para que os quadrinhos argentinos não cheguem em tanta quantidade por aqui: A possível dificuldade do humor, a transposição das piadas para a nossa cultura e a ainda massiva presença dos americanos no mercado. Esperamos que essa situação continue contornando e que haja a presença de todos, afinal quadrinhos nunca são demais.

Na Internet você pode encontrar facilmente trabalhos excelentes de alguns quadrinistas argentinos. Abaixo, alguns ótimos exemplos:

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Kioskerman

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Decur

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Max Aguirre

As pinturas de borda e os segredos dos Livros

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Livro do acervo da Universidade de Iowa

As tecnologias que tanto facilitam nossas vidas há pelo menos um século também servem de apoio para muitos anunciarem o fim de muitas coisas, e o livro impresso é uma delas. Mas será que um objeto desenhado de forma tão prática, sem consumo de energia, ergonômico e artístico vai perder mesmo seu espaço nessa sociedade contemporânea? Uma notícia interessante, vinda diretamente da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, nos ajuda a pensar sobre como os livros podem carregar arte e seus próprios mistérios, e não estamos falando apenas do seu conteúdo.

Colleen Theisen, que colabora no setor de coleções especiais e arquivos da Universidade, postou nas redes sociais .gifs (imagens animadas que você pode ver abaixo) demonstrando como funcionam as pinturas de borda em livros que datam aproximadamente a metade do século 18. Um dos livros em questão se chama Autumn, de Robert Mudie e faz parte de uma coleção grande onde quatro livros representam as estações do ano, outros dois o céu e inferno e há ainda os que representam os elementos da natureza.

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A pintura de borda é uma técnica muito antiga e seus primórdios datam no século 10 mas teve seu auge e aprimoramento na Idade Média, lá pelos séculos 17 e 18 onde pinturas ilustrativas e principalmente cenas bíblicas, serviam para distrair e ilustrar as leituras, além de serem verdadeiras e minuciosas obras de arte. Foi no século 17 que apareceu a primeira pintura de borda feita nas margens superior ou inferior dos livros, completamente invisível quando fechado e nítida quando as páginas do livro estão declinadas ou são ventiladas como em uma animação.

Você pode acompanhar o trabalho de restauração e catalogação dos acervos especiais em que Colleen trabalha no Iowa, através do tumblr que ela criou. Um deleite para apreciadores de artes centenárias através de algo tão rápido, virtual e tecnológico como a Internet. É incrível imaginar que esses livros – entre outros materiais de acervo – sobreviveram ao tempo e todo tipo de intempérie e agora pode trazer mais um pouco de História. Provavelmente, o fim do livro está bem longe!

Ah! A pintura de borda ainda é praticada hoje, um dos artistas mais atuantes é o inglês Martin Frost.

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Pintura de borda por Martin Frost

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Um leitor nunca dorme sozinho

The Monk Who Sold His Ferrari

Ano passado escrevemos um post bacana sobre campanhas criativas de incentivo à leitura pelo mundo afora. Tornar a leitura algo interessante e atividade atrativa em meio à tanta velocidade de dados, imagens e sons não é uma tarefa tão simples como parece, mas tem muita gente que leva isso a sério e transforma a criatividade da publicidade – normalmente voltada à produtos de maior consumo – em grande aliada à campanhas inspiradoras.

Stalin

Sherlock Holmes

E nessa onda de inspirar leitores, a cadeia de livrarias israelita – considerada a maior e mais antiga do país – Steimatzky resolveu apostar numa criativa campanha de incentivo à leitura. Com o lema “The Right Book Will Always Keep You Company.” [O livro certo sempre lhe manterá em companhia] a campanha traz desde personagens clássicos como Dom Quixote e Sancho Pança, passando por Sherlock Holmes e indo até Gandalf, do Senhor dos Anéis que adormeceram ao lado de leitores com os respectivos livros em mãos.

Gandalf

Don Quixote

Que leitor nunca dormiu com livros ao lado ou acabou sonhando com as histórias e personagens de livros? Um livro nunca nos torna impunes ao seu enredo e personagens e mais ainda, muito bacana ver campanhas de leitura que ultrapassam ele como um produto, tornando o livro antes de tudo, parte cotidiana de nossas vidas.

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Via

Urbano Bazar 2012

O último evento que a Joaquim Livraria & Sebo vai estar no ano. Apareçam!

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As 5 músicas mais mencionadas em livros

Leitores com os mais variados tipos de TOCs (transtorno obsessivo-compulsivo) uni-vos!

Lá pelo mês de agosto desse ano começou a circular na internet notícias sobre o surgimento de um site que se dedicaria a encontrar referências em livros que os ligassem a outros livros, autores, fatos, objetos e etc. Esse projeto é o Small Demons que conta com o apoio de grandes editoras americanas e em breve vai ser uma plataforma totalmente colaborativa permitindo que leitores contribuam com informações, bem ao estilo da Wikipédia.

O Small Demons vai construindo – e facilitando para nós leitores – uma rede de referências e hiperlinks que conectam enredos uns aos outros de formas que muitas vezes passam em branco quando lemos. Ao ler Clube da Luta (Leya), por exemplo, do americano Chuck Palahniuk, você encontra pessoas mencionadas como a cantora Joni Mitchell, a escritora Agatha Christie até Jesus e Cinderela, isso tudo é apresentado no site com as passagens que comprovam. Sim, é um vício para leitores vidrados em referências.

Obviamente que nós nos divertimos muito com as referências e ligações. Juntamos logo abaixo, para alimentar sua curiosidade e quem sabe de quebra achar motivos para ler alguns livros, as cinco músicas mais mencionadas em livros. Ah! o site ainda conta com boa parte dos títulos em inglês, então indicamos livros que já tenham saído por aqui e que você pode encontrar mais facilmente.

Beatles – Hey Jude

Jonathan Safran Foer – Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (Rocco)


Queen – Bohemian Rhapsody

Pornô – Irvine Welsh (Rocco)

Elvis Presley – Heartbreak Hotel

O Inocente – Ian Mcewan (Companhia das Letras)

Abba – Dancing Queen

Os filhos de Anansi – Neil Gaiman (Conrad)

Nirvana – Smells Like Teen Spirit

Alta Fidelidade – Nick Hornby (Rocco)

Um Godzilla chamado Amazon

Há algum tempo que o mercado livreiro entrou em polvorosa com a oficilização dos boatos da chegada da gigante Amazon no Brasil, que por acaso, acaba de ser atrasada para 2013. Em março, a revista Dinheiro explicava os motivos da empresa querer se estabelecer no país e também as dificuldades que andava encontrando para estabelecer uma data concreta do ínicio das suas atividades. Os boatos giram em torno do jogo díficil de convencer editoras a aceitarem as leis da Amazon quanto à venda dos livros digitais, um mercado extremamente tímido em um país que o próprio ato de ler é marcado por suas próprias especificidades.

Existe o engano de que Amazon é somente livros físicos baratos, e-books e o e-reader Kindle. A venda de livros é apenas uma porta de entrada para a empresa nos países, afinal, o ganha-pão da empresa são os outros 131 segmentos em que atua sem dó. A questão de que livro é caro no Brasil seria aparentemente resolvida com a chegada dos preços quase gratuitos da empresa, tornando a questão da leitura simples de ser resolvida. Mas isso a custo de quê?

A Amazon tem um uma política interessante de chegar no setor editorial propondo suas regras de uma forma bastante convincente. Desde que começou suas estratégias de vendas, em meados da década de 90, a empresa dominou o mercado e é acusada de destruir redes consolidadas de livrarias e de causar um furor enorme por onde passa. Aqui no Brasil não está sendo diferente, até o começo do ano não haviam conseguido o apoio de nem ⅓ da meta estipulada de contratos e várias editoras relataram estarem procurando alternativas para não terem que se render à gigante.

“Livros sem bateria”

A aposta central da empresa é a popularização do e-book juntamente com a venda do seu aparelho leitor, o Kindle. Por aqui já houveram inúmeras tentativas de implantar a leitura digital, mas os preços dos aparelhos ainda são bem pouco atrativos, uma média de 500 reais. Um ponto interessante é que os especialistas em pesquisa de mercado somente relevam fatos substanciais quando se trata de e-books não terem sido absorvidos ainda. Na verdade, o problema do livro – físico ou digital – no país gira num âmbito bem mais social: pouco se lê, por que gastar uma grana dessas em um aparelho sem utilidade imediata?

Ano passado, assim que iniciamos a publicar textos no blog, escrevemos sobre a perspicácia das pequenas livrarias. Falamos um pouco sobre como é a situação dos livreiros ingleses que se organizam até hoje – de forma muito criativa por sinal – para manter acesa a chama das livrarias independentes. Há algum tempo o jornal inglês Guardian publica artigos de opinião, alguns bastante polêmicos, sobre a importância das pequenas livrarias para a economia das cidades e seus bairros e de que forma a Amazon, principalmente, estaria alienando os consumidores de forma a mecaniza-los quando se trata de compra.

Os ingleses acusam a empresa americana de ter uma política implacável e cruel não dando a mínima para as consequências visando apenas lucros. Um dos principios de deslealdade de mercado é que a Amazon conseguiu, desde o começo, comprar livros diretamente das editoras a preços extremamente menores do que as livrarias comuns costumam comprar. E esse é um dos grandes empecilhos para a empresa finalmente se instalar no Brasil, muitas editoras já se pronunciaram sobre ser impossível aceitar os termos da Amazon, que age como Mefistófeles seduzindo Fausto a aceitar seus termos.

A Inglaterra – um dos países que mais questiona a ação da Amazon no território – sofre com o fechamento de livrarias menores e segmentadas que não conseguem se manter economicamente. Uma das soluções foi trabalhar com movimentos criativos e independentes de conscientização dos leitores para que não mecanizem sua paixão pelos livros. O grupo do movimento organiza circuito de eventos em livrarias e usa a internet como forte aliada para isso.

O contexto não se apresenta tão assustador para o nosso lado, ainda temos muito trabalho a executar no âmbito das políticas de leitura antes de adotarmos o tom apocaliptico para a variedade de mídias de leitura. Lendo um pouco da história da leitura no Brasil vamos nos deparar com dados relativamente recentes, há pouco mais de um século era impensável ter editoras no país e boa parte da população era analfabeta, pois havia poucas décadas que o país deixara de ser uma colônia portuguesa e a educação era extremamente precária. Mesmo que circulassem revistas como a Leitura para Todos (foto) boa parte da população ainda era pouco funcional e consumidora de livros e períodicos.

Não à toa que tablet, e-reader, e-books e comércio eletrônico sejam termos relativamente recentes no nosso vocabulário. Pense há quanto tempo você passou a comprar pela internet ou quantas pessoas você conhece que costumam ler e comprar livros digitais como um hábito. A nossa história, tanto como leitores quanto consumidores de livros, é extremamente recente com uma expansão do mercado livreiro como grandes franquias se espalhando pelas capitais e pequenas livrarias especializadas se tornando referências.

O livro antes de tudo é um produto social, independente das suas plataformas de uso. A chegada da Amazon em tantos países, usando uma política agressiva apenas demonstra que o livro, infelizmente, está se transformando numa simples mercadoria imposta ao consumo. O CEO e fundador da empresa, o americano Jeff Bezos já disse que o livro se resume ao autor e seu leitor. Seria isso mesmo verdade? Todo o conjunto de pessoas que fazem parte da cadeia de produção de um livro não são levadas em conta? E como o livro chega ao leitor, quem e com quais ferramentas se estimula o sentimento de leitura em alguém?

Pensando nessa mercadorização excessiva do livro, surgiu na França um coletivo chamado de 451, uma referência ao clássico Fahrenheit 451, do americano Ray Bradbury. O movimento é encabeçado por vários profissionais do livro, editores, diagramadores, livreiros, etc e autores como o filósofo Giorgio Agamben que se recusam a aceitar esse atual cenário de livro tratado como simples mercadoria. E, pretendendo procurar alternativas para as situações atuais, lançaram uma espécie de manifesto inicial chamando todos que também discordem da atual situação.

Inspirados com o coletivo 451 – escreveremos mais sobre ele adiante – também estamos nessa de propor uma iniciativa de discussão para a situação atual. Afinal, o que torna uma livro grandioso quase nunca é o número de vendas do mercado ou a propaganda massiva, mas sim todo o processo que envolve pessoa por pessoa até que o livro chegue ao leitor, dando sentido e o tornando um objeto social de transformação.

Acreditamos no livro, independente da mídia em que ele se encontra e não temos um espaço físico pensado e planejado por acaso. Assim como já falou, há alguns anos trás, o CEO da Penguin John Makinson, o futuro das livrarias são os espaços independentes, charmosos e cheios de identidade. Para nós, o livro não é apenas um objeto de sustento, é uma troca, um encontro*.

*Referência ao manifesto do Coletivo 451.

Esse texto, juntamente com o “A perspicácia das pequenas livrarias” e outros que darão segmento, pretendem discutir o mercado do livro como função social.

A capa perfeita de On The Road, por Jack Kerouac

O rascunho de ilustração acima poderia ter sido a capa do romance que foi considerado a bíblia da Geração Beat no fim dos anos 50. On The Road – que há pouco virou filme nas mãos do diretor brasileiro Walter Salles – é o clássico conhecido de Jack Kerouac que nos traços acima pede ao possível editor que a capa deveria seguir mais ou menos essa ideia. O desenho foi acompanhado de uma mensagem:

Caro Senhor Wyn,

Sugiro esta como ideia de uma capa de apelo comercial e expressiva para o livro. A capa de Cidade Pequena, Cidade Grande* foi tão sem graça quanto o título e a foto da orelha do livro. A foto de Wilbur Pippin de mim seria perfeita para On The Road…seria algo como a foto abaixo.

JK

*título brasileiro pela editora L&PM

Kerouac por Wilbur Pippin

Kerouac por Wilbur Pippin

O esforço de Kerouac foi válido mas o livro só foi editado cinco anos depois, achavam que muita coisa sobrava no enredo e outras não seriam atraentes ao mercado americano. Mas o livro tinha nascido clássico. Assim que lançado foi um sucesso tanto de crítica como de vendas, afinal o rock começava a virar um estilo de vida e a narrativa de On The Road nem parecia ter sido escrita há 10 anos antes. Depois de tanto tempo escrevendo e vivendo uma vida louca – que se seguiu até os fins dos dias – Jack Kerouac finalmente receberia o mérito de ter criado a sua obra-prima da prosa espontânea. Ainda, o livro ao longo desses 55 anos recebeu várias leituras de capas, todas baseadas na escrita, no escritor e na estrada. Veja todas nesse link.

Para conhecer mais sobre a gênese de On The Road, a Geração Beat e a vida louca de Jack Kerouac, recomendamos a leitura de:


Jack Kerouac: King of the Beats – Barry Miles, José Olympio

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