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Gilberto Gil e Caetano Veloso em Londres

É agosto de 1970 e há 600 mil pessoas em um campo na Ilha de Wight, assistindo o maior festival de música já sediado por ali. Irão, ao longo dos cinco dias de evento, presenciar performances do The Who, The Doors, Joni Mitchell e Leonard Cohen, além do último show de Jimi Hendrix. Mas as atrações principais do segundo dia são dois brasileiros desconhecidos, acompanhados por uma trupe de dançarinos nus cobertos por um plástico vermelho. A dupla começa cantando em português, acompanhada por tambores africanos e flauta. Em seguida, ligam suas guitarras e tocam um set enlouquecido, misturando rock psicodélico, funk e samba.

Os dois caras são Gilberto Gil e Caetano Veloso. Passará algum tempo antes de que estejam lotando arenas pelo mundo afora ou, no caso de Gil, servindo como ministro no governo brasileiro. No verão de 1970 são apenas peças exóticas na cena underground de Londres, improvisando com o Hawkwind e frequentando galerias de arte, comunidades hippies e festivais de música.

“Fiquei atônito ao descobrir como esses caras eram famosos”, diz Nick Turner do Hawkind. “Pareciam tão humildes, tão generosos, tão ansiosos para improvisar com qualquer um.”

Dois anos antes, Caetano e Gil eram dois dos maiores artistas brasileiros, estrelas influentes na sorrateira e subversiva cena de rock psicodélico brasileiro, a Tropicália. Isso durou até a ditadura militar decidir que eles eram uma ameaça. Em dezembro de 1968 foram presos em São Paulo. Tiveram suas cabeças raspadas, ficaram dois meses encarcerados e outros quatro em prisão domiciliar.

“Os militares queriam que deixássemos o país”, diz Caetano. “Nos deixaram fazer um show para levantar dinheiro para a passagem de avião”. Enquanto o resto do mundo assistia às aterrissagens na lua em 21 de julho de 1969, Caetano e Gil se preparavam para deixar o Brasil. Não voltariam por três anos.

“Nosso empresário foi para a Europa na nossa frente, para ver onde moraríamos”, diz Gil. “Lisboa e Madri estavam fora de questão porque Portugal e Espanha também passavam por violentas ditaduras. Paris tinha um ambiente musical entediante. Londres era o melhor lugar para um músico estar.”

Gil, Veloso, seu empresário e suas respectivas esposas acabaram morando em uma casa no número 16 da Redesdale Street, no Chelsea, em Londres, um lugar que amigos brasileiros que os visitavam chamavam de “a Capela Sistina”. Juntos frequentaram museus, galerias de arte e jogos de futebol, e aprenderam a amar o Santo Circo Voador, do Monty Python – Veloso diz que esse surrealismo influenciou algumas de suas músicas mais experimentais.

Durante seu primeiro ano em Londres, Caetano ficou deprimido e com saudades de casa, enquanto Gil era bem mais otimista. “Nós chegamos na semana em que os Beatles lançaram Abbey Road, vimos os Rolling Stones na Roundhouse, improvisamos com ótimos músicos, encontramos pessoas incríveis, ouvimos reggae pela primeira vez”, diz ele. “O fato de que você podia andar em direção a um policial e lhe pedir informações – no Brasil isso simplesmente não acontece!”

Enquanto esteve na preso, Gilberto Gil adotou uma dieta macrobiótica e começou a meditar e investigar o misticismo oriental. Chegou em uma cena hippie londrina que compartilhava seus novos interesses, e rapidamente estabeleceu relações com muitas figuras-chave da contracultura da capital, incluindo o jornalista e vocalista anárquico Mick Farren, Turner e Thomas Crimble do Hawkwind.

Gil, Caetano e suas famílias.

Através de Crimble, Gil envolveu-se com um grupo de boêmios abastados que estavam montando o que viria ser propriamente o primeiro festival de Glastonbury. “A primeira vez que visitei a fazenda Worthy, no outono de 1970, Gil estava lá com Arabella Churchill, Andrew Kerr e Thomas Crimble (co-fundadores do Festival de Glastonbury)” diz Bil Harkin, que desenhou o palco pirâmide original de Glastonbury. “Todos passaram meses na fazenda de Michael Eavis, fumando maconha e discutindo formas de realizar um festival gratuito. Havia ideias de unificar o espiritualismo, o clima, arte e a música.

“Um dos modelos era o carnaval brasileiro, um exemplo perfeito de um festival de artes gratuito, multidisciplinar e quase espontâneo. Lembro-me de ter conversas com Gil sobre medicina alternativa, dervixes giratórios, música africana, indiana e latino-americana, além do poder da música como uma força de cura. Ele estava tinindo de ideias e isso foi crucial para a forma como o festival se desenvolveu.”

Gil convidou Caetano para algumas das primeiras reuniões de Glastonbury – Jarkin lembra dele sugerindo que o palco principal fosse no formato de uma cabana gigante. “Todos gostaram da ideia da tenda”, diz Harkin. “Isso quase ofuscou a minha pirâmide. Se as coisas fossem diferentes, 40 anos depois, poderiamos estar assistindo a um palco-cabana!” Gil permaneceu no festival para se apresentar, aparecendo brevemente em Glastonbury Fayre, filme de Nic Roeg.

Caetano também fez música no exílio, mas ele tendia a ser mais introvertido. Ele brinca descrevendo seu disco de 1971, London London [Caetano Veloso 1971], como “um registro de depressão”. Há músicas como Little More Blue, com a letra “Um dia tive que deixar meu país, praia calma e palmeira” e a faixa-título, com um lamento agridoce “grama verde, olhos azuis, céu cinza, Deus abençoe”.

“Sempre admirei o rock britânico”, diz ele, “que chamo de ‘neo-rock’. Em Londres eu consegui vê-lo de perto: Led Zeppelin, T-Rex, Pink Floyd, o The Who, a Incredible String Band, Jimi Hendrix e, claro, os Rolling Stones. Aprendi que o grande rock não era sobre volume e selvageria, mas sobre precisão e economia.

“Também aprendi sobre autenticidade. Inicialmente eu era relutante em tocar guitarra nos meus próprios discos e delegava isso a músicos mais qualificados. Mas produtores me convenceram que as fraquezas do meu estilo de tocar guitarra eram parte do charme da música. Isso foi muito libertador.”. Caetano ainda tem um grande interesse pelo rock alternativo britânico, seu disco de 2006, o Cê, tem empréstimos do post-punk experimental.

As dívidas de Gil com seu exílio são mais complexas. Seu primeiro disco londrino, Gilberto Gil (Nêga), tem ele tocando versões solo e acústicas de músicas de Steve Winwood, Beatles e Hendrix, mas o reggae tornou-se o legado mais duradouro de seu encanto na Inglaterra. “Fomos sortudos de estar em Notting Hill no momento em que a cultura da Jamaica – Jimmy Cliff, Bob Marley, Burning Spear – estava estourando”, diz ele. “Eu também estava fascinado por tudo da cultura Rasta. Me ajudou a identificar o que tinha de africano na cultura brasileira.”. Mais tarde, Gil levaria essas ideias de volta para o Brasil, engajando-se com políticas negras e sendo pioneiro em alguns dos primeiros híbridos de samba-reggae.

Ambos olham para seu tempo em exílio com carinho. “Nunca quis viver fora do Brasil.” diz Gil. “Mas Londres é uma das cidades mais interessantes do mundo, e tenho sorte de ter vivido lá.” “Só agora posso dizer que gosto da música que gravei ali” diz Caetano. “As coisas que aprendemos no exílio nos tornaram músicos mais criativos. Também nos tornou pessoas mais fortes.”.

Traduzido do The Guardian, escrito por John Lewis, tradução de Emanuela Siqueira

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Joaquim Apresenta: Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral

Os nomes de Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Marcelo Cabral raramente estão separados quando aparecem em contracapas dos discos mais celebrados, no Brasil, dos últimos anos. Mesmo com seus trabalhos solos, estes artistas, junto com outros nomes como Kiko Dinucci e Thiago França no Metá Metá, produzem muito e ajudam a desenhar a prolífica cena contemporânea da música brasileira. O grupo até deu um nome para o coletivo: Clube da Encruza. Quase que uma paródia com o Clube da Esquina – uma das suas influências – eles afirmam que o nome tem mais a ver com a ideia dos orixás, especificamente de Exu, que segundo Juçara Marçal é o que abre os caminhos para a arte e a criatividade.


Em entrevista para o Joaquim Apresenta, os três contam um pouco mais sobre o processo de trabalhar juntos e a química entre si acontecer de forma plena. A cantora Juçara Marçal abraça projetos que vão do samba raiz à sonoridade noise e experimental, como é o caso de seu trabalho com o artista Cadu Tenório no disco Anganga (2015). Rodrigo Campos, no momento da entrevista estava divulgando o álbum Conversas com Toshiro, que é influenciado por elementos que vão desde a cultura pop, arte contemporânea até a literatura existencialista. Outro trabalho seu com Juçara, o Sambas do Absurdo é inspirado no Mito de Sísifo de Albert Camus e tem letras do artista Nuno Ramos, que também assina a capa. Já Marcelo Cabral é produtor e além de colaborar muito com o Clube da Encruza, assina trabalhos de artistas como Criolo e Karol Conka. Um time de primeira linha, que merece muita atenção!

Nos dois episódios do programa o Abonico Smith consegue criar um diálogo com os artistas onde fica claro, como o próprio Marcelo Cabral diz, que é o “prazer em criar” que move todos os projetos e a criação coletiva – mesmo que as ideias partam de um indivíduo – é que dá o tom especial para os trabalhos desse grupo que já construiu uma identidade particular na música brasileira.

Boa parte dos discos em vinil do grupo tem saído pelo ótimo selo Goma Gringa, que capricha na produção gráfica dos discos e cria um diálogo único entre material físico a sonoridade dos artistas. Outro selo que merece destaque, e lança o material do Passo Torto (outro projeto que envolve esse grupo e outro do nordeste) é o Assustado Discos, quem também se mantém atento ao melhor da produção atual no país.

Assista a entrevista, procure os discos dos artistas aqui na Joaquim! Se gostar acompanhe o nosso trabalho pelo canal do youtube e compartilhe com os amigos.

Joaquim Apresenta é uma parceria da Joaquim Livros & Discos, Mondo Bacana e Max Olsen Produção Audiovisual

Elton John, ganha o título de lenda da Record Store Day

“É como entrar numa livraria e sentir o cheiro dos livros. Meu deus, quão bom é isso?”

Já são dez anos que a Record Store Day entrou para o calendário oficial da música mundial. Desde 2007 o terceiro sábado do mês de abril é aguardado por milhares de colecionadores e fãs do vinil espalhados pelo mundo. Apesar do dia oficialmente focar nos Estados Unidos, Inglaterra e alguns outros países, o clima é de festa em muitas lojas de discos espalhadas pelo mundo. Claro que estamos incluídos no grupo de entusiastas! Você pode saber mais sobre a história da data e sobre seus embaixadores nos links que vamos deixar no final desse texto.

Elton John se divertindo e engordando a coleção de discos.

Em 2017, para comemorar em alto estilo essa primeira década, a Record Store Day nomeou ninguém menos que Sir Elton John como a grande lenda do evento. O músico inglês deu um depoimento inspirado (você pode assistir aqui embaixo, sem legendas) contando desde os seu primeiro 45 rotações, falou da emoção de ter o disco 17-11-70 reeditado em vinil durante o evento e ainda descreveu todas as sensações que envolvem aquele prazer característico dos colecionadores. Ressaltou a importância não apenas da sonoridade do disco de vinil – que segundo ele diz, já gravou em muitos estúdios desde o começo da sua carreira e que sim, o som do vinil é o melhor – mas também de todo ritual de escolher o disco e colocar a agulha para trabalhar. Ir às lojas de discos procurar o disco certo para o momento é outro momento ressaltado, diz ele “Eu amo lojas de disco, posso ir a uma em Las Vegas e gastar três horas lá. Apenas sentir o cheiro, dar uma olhada, a maravilha das memórias.”.

Além da nomeação à lenda do evento, a Record Store Day chamou a cantora St. Vincent para ser a embaixadora do evento esse ano. Muitos lançamentos estão previstos para o dia e vários colecionadores já estão fazendo as suas listas. Por aqui vamos comemorar com um acervo caprichado, descontos e muita música rolando durante o dia inteiro. Acompanhe nosso evento no facebook e não perca esse dia em que os fãs do bolachão se encontram para celebrar esse amor em comum.

Mais sobre a Record Store Day

A história da Record Store Day
Jack White & Record Store Day
Dave Grohl, embaixador de 2015

Desvendando “Blackstar”, último disco de David Bowie

“Há uma quantidade de estrelas negras no álbum…não apenas a estrela, de cinco, pontas, na frente. Elas simbolizam diferentes coisas na vida. Por exemplo, há a “roseta”, que parece um pouco com uma etiqueta de preço. Ou seja, ainda é um produto comercial; você ainda pode comprá-lo. Há a “estrela-guia”, a ideia de uma pessoa que você segue na vida ou algo espiritual que a música te dá. Portanto, há uma série de outras coisas disponíveis, não apenas na superfície, mas espero que as pessoas as vejam. E, também, não necessariamente de forma imediata.” Jonathan Barnbrook

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A morte de David Bowie, em 10 de janeiro de 2016, pegou todo o mundo de surpresa. Havia uma aura de eternidade ao redor do camaleão, talvez por sabermos que ele era formado por múltiplas personalidades significativas, desde o glam Ziggy Stardust ou a faceta mais introspectiva que viveu em Berlim, houve o sóbrio Thomas Jerome Newton – alienígena que veio a terra em busca de água – e thin white duck dos anos 80, sem contar o Bowie industrial, confortável na América, dos anos 90. Quando ouvíamos que poderíamos ser heróis, nem que fosse por apenas um dia, imaginávamos Bowie eternamente sumindo e aparecendo, sempre com uma nova faceta e novas ideias. Em 2013, quando voltou com The Next Day, vimos ele se desconstruir e dizer que estava, literalmente, pronto para a próxima jornada. Desde o fim de 2015 já se ouvia murmurinhos sobre a sequência desse retorno e no oitavo dia de 2016, o sombrio Blackstar já era comentado em todos os cantos do mundo.

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Blackstar já se apresentava clássico, o design de Jonathan Barnbrook era enigmático por si só, disco e embalagem toda preta, com uma estrela recortada na capa. Um álbum que flertava com o jazz e com letras poderosas e reflexivas já tinha todas as qualidades para ser histórico mas, infelizmente, se tornou mitológico por algo que ninguém esperava: a morte de David Bowie, dois dias depois do lançamento. Como toda a obra do artista nas últimas quatro décadas, tudo parece ter sido minuciosamente pensado, como se tivesse deixado uma mensagem de adeus exatamente na sua melhor forma, nos fazendo prestar atenção cuidadosamente na sua arte.

Com o passar dos últimos doze meses muitas descobertas foram feitas no entorno da versão impressa, em vinil, do disco Blackstar, mas, como bem diz o próprio designer, muitas ainda podem surgir, Bowie era incansável. Para celebrar essa obra-prima de despedida do camaleão vamos enumerar os segredos – compilados pela revista Spin – que os fãs descobriram ao longo do último ano. Se surgirem novas descobertas, com certeza vamos adicionar aqui. Hora de desempacotar o disco!

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LUZ REFLETIDA

Quando o vinil é exposto à luz, os lados refletem uma estrela, ou pelo menos é o que parece na imagem. Alguns fãs interpretaram como uma espaçonave ou mesmo um pássaro. Há uma boa possibilidade que seja apenas uma estrela. De qualquer forma, uma ótima ideia.

Crédito: Robert Matthews

Crédito: Robert Matthews

LUZ NEGRA

Toda a embalagem de Blackstar é preta e fosca, com alguns detalhes em verniz e um recorte, em formato de estrela, que expõe o vinil. Um fã descobriu que, quando exposta à uma luz negra, a estrela e os símbolos em verniz brilham, os deixando em evidência e lembrando aquelas estrelas fosforescentes que eram comuns serem coladas nos tetos de quartos.

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Essa é uma das descobertas mais específicas. Um fã descobriu que o tempo das faixas, na parte de trás da embalagem, foi escrita com uma fonte chamada terminal. Essa fonte é encontrada numa plataforma de design open source chamada…Lazarus! O nome da primeira faixa de divulgação do disco, com um clipe bem enigmático. O fã chega a questionar se Bowie estaria nos mandando uma mensagem. Será?

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BOWIE REFLETIDO

Esse achado pode ser mais uma feliz coincidência do que algo mais proposital. A embalagem de Blackstar é gatefold, ou seja, é uma capa dupla. De um lado da capa é possível ver estrelas – igual aquelas noites bonitas estreladas – e do outro lado, David Bowie em uma janela. Como qualquer superfície brilhante, ela reflete. Se você deixar a capa estrelada em determinado ângulo, com a da imagem do cantor na frente, poderá ver Bowie refletido nas estrelas. Muito bacana imaginar o Starman em meio às estrelas, não?

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B.O.W.I.E

Há fragmentos de estrelas, como se fosse um código, na capa do disco, logo abaixo da grande estrela recortada. Prestando atenção, dá para interpretar que as estrelas juntas podem ser lidas como BOWIE. Faz sentido, a estrela completa seria um “O”, a última um “E” e assim por diante. Um fã também lembra que esse disco é o único da carreira do camaleão a não ter o rosto dele na capa. Mesmo The Next Day, é a capa de Heroescom uma faixa em cima. Em Blackstar o cantor não está em imagem, mas em código. Ou melhor, como fragmentos de estrelas que continuam a brilhar no céu.

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STARMAN

Um dos fãs mais atentos passou horas observando a constelação que está na contracapa. Depois de muito olhar ele percebeu uma espécie de ligação entre as estrelas mais brilhantes e isso formaria um desenho rústico de uma pessoa, como um boneco de palitos. Para o fã, faria todo sentido, pois como era conhecido por Starman, nada incomum ter uma formação de estrelas inteirinha para ele.

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De qualquer forma, acreditando ou não em todas essas interpretações, o disco em vinil de Blackstar, o mais vendido em 2016, é um marco histórico para a música, para os fãs é a certeza da grandeza do camaleão musical e visual que era David Bowie.

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O Punk também é Negro!

“Eu não sou uma ‘punk negra’. Eu sou negra e gosto de punk”

Tasha Fierce, punk/escritora/ativista sobre a invisibilidade negra no punk

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H.R.,vocalista do Bad Brains no fim dos anos 70.

Há 40 anos o termo punk ganhava contornos como uma vertente importante na história, ate então recente, do rock. Na Inglaterra o Sex Pistols louvava a morte da rainha e o The Clash queria colocar fogo na capital da Inglaterra. Nos Estados Unidos os Ramones inauguravam a cena do famoso bar CBGB, de Nova Iorque, e louvavam o tédio dos adolescentes pós-flower poweR. O gênero vinha para dar atitude ao inconformismo dos jovens que não se reconheciam dentro do sistema. Através da música, das roupas e da cultura em geral, ele se sentiam empoderados para gritar, ovacionar e criticar o meio em que viviam.

Dessa forma o punk acabou se tornando uma subcultura que dialogou com uma infinidade de outras lutas sociais e ideológicas. Mesmo que os jornais, marcas de roupa e a mídia quisessem vender uma idéia única do que o movimento era – um monte de rebeldes sem causa, trajando roupas rasgadas e cabelos coloridos – ele foi muito além. Até hoje descobrimos submundos gerados pela influência do movimento e que reverberam em vários cantos do mundo e camadas sociais.

E se o Punk era sobre inconformismo e luta para desequilibrar um sistema que não representava minorias, era quase impossível que varios grupos étnicos e de Gênero não se sentissem finalmente próximos de um instrumento para dar voz às suas pautas. Por exemplo, no fim dos anos 80 graças à cultura do faça-você-mesmo e aos zines propagados nos anos 70, o movimento feminista riot grrrl encontrou no punk rock uma forma de discutir machismo, violência contra a mulher, sororidade e outros assuntos que vinham em diálogo com as garotas que gostavam do estilo, mas se sentiam excluídas dos meios repletos de homens. Apesar do pouco destaque para vários artistas negros, o punk rock também tem excelentes histórias para contar sobre o envolvimento deles fazendo som de protesto e luta. Muitos artistas foram pioneiros e lutaram em duas frentes: uma para sobreviver na própria cultura negra como estranhos e outra dentro da cena punk, que os colocava de lado. Esses artistas são além de vanguardistas, autênticos, rebeldes e engajados politicamente.

É um pouco da história dessas pessoas que queremos contar através de bandas do passado, do presente e de vários cantos do mundo. Queremos dar mais motivos para achar que o Punk não morreu e continua sendo uma forma necessária de dar voz à todo tipo de minoria. Prepare os fones, deixe as letras e os acordes simples entrarem no seu ouvido e seja contaminado pelo espírito revolucionário do Punk!

A Band Called (DEATH)

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Em 2012 o documentário A Band Called Death trouxe à tona a história de uma banda de Detroit, formada por irmãos, que no começo dos anos 70 fazia um som vanguardista para se chamar de Punk e muito mais ousado para ser apenas rock’n’roll. Vindos da periferia da cidade, os irmãos Hackney faziam um som totalmente diferente do que se esperava da comunidade negra, que na época vivia no entorno da Motown e do Soul. Eram influenciados por The Who, Alice Cooper, com a sujeira dos Stooges as letras que criticavam os políticos também filosofavam com a sua juventude. O Death se tornou cult no começo dos anos 2000 em círculso de colecionadores e hoje os irmãos – menos David, o mentor da banda, que já faleceu – fazem turnês pelo mundo e acabaram de lançar um novo disco, passando pelo Brasil no começo de 2016.

Poly Styrene e X-Ray Spex

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Poly Styrene, ou melhor, Marianne Joan Elliot-Said era filha de uma irlandesa com um somali e foi pioneira no Punk inglês. Como muitos adolescentes da época (basta lembrar do Joy Division e de toda cena de Manchester) , após assistir um show do Sex Pistols ela decidiu montar uma banda, o X-Ray Spex. A banda durou apenas três anos mas suficientes para Poly Styrene se tornar uma figura-chave no movimento inglês, não apenas como negra mas por ser mulher no front de uma banda punk, compondo e provocando com suas músicas.

Pure Hell

Os americanos do Pure Hell são frequentemente citados como a primeira banda totalmente formada por afro-americanos. Eram da Philadelphia e surgiram em 1974, no auge do movimento no eixo NY-Los Angeles-Londres. Eram grandes fãs do New York Dolls – inclusive andando com os caras e acompanhando shows – mas não fizeram muito sucesso na época, lançando seu único disco “Noise Addiction” vinte e oito anos depois. De qualquer forma, são lembrados como influência por bandas como o Bad Brains e pelo falecido Lemmy Kilmister, vocalista do Motörhead.

Bad Brains

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A sonoridade do Bad Brains, ainda nos anos 70, assustava tamanho era sua maturidade musical. A banda simplesmente influenciou o que viria ser o hardcore e outras vertentes do meio alternativo dos anos 80 e 90. A banda surgiu em 1977 em uma cena prolífica de Washington DC e misturava punk, soul, reggae e distorciam tudo que as pessoas esperavam por jovens negros seguidores do rastafári. O último disco é de 2012 e recentemente o vocalista H.R. foi diagnosticado com uma doença no cérebro, mas não afirmou se iria parar de cantar.

BANDAS CONTEMPORÂNEAS

Big Joanie (Inglaterra)

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O trio de garotas Big Joanie vem de Londres para provar que nem o punk rock e muito menos o riot grrrl morreram. Elas possuem o próprio selo Sista Punk Records e não escondem sua maior motivação: fazer música para que os jovens negros possam se sentir representados. A baterista Chardine é ativista e recentemente falou em um TEDtalk sobre a importância do crescimento da cena punk negra, intitulado de “Como o punk me tornou uma feminista negra”.

TCIYF (África do Sul)

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O TCIYF é da cidade de Soweto e uma banda cheia de atitude para além da cara malvada dos membros em fotos. Como parte de um coletivo de skatistas, a banda surgiu como uma forma de rejeição aos estilos populares na África do Sul como o hip-hop e o kwaito, que eles não se sentem representados. E o que é melhor para mostrar o inconformismo além de montar uma banda Punk?

Project Black Pantera (Brasil)

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Apesar do nome em inglês o Project Black Pantera (Projeto Pantera Negra) é brasileiro e foi formado em 2014, em Uberaba, nas Minas Gerais. Mais uma banda que derruba por terra o que o senso comum espera de caras usando rastafáris subindo em um palco. O trio mistura o peso do thrash metal, rapidez e letras ao melhor estilo hardcore. Os caras cantam em português e a primeira faixa de divulgação, intitulada “Rede Social”, faz uma crítica ao uso das redes sociais para alimentar o próprio ego.

Crystal Axis (Quênia)

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O que mais impressiona no Crystal Axis é a qualidade das composições e gravações que correm a internet. A banda é uma das primeiras de punk que se tem notícia na cidade de Nairóbi, no Quênia, mas desde 2013 não deu mais notícias. Flertando com o post-punk, música instrumental e letras reflexivas, a banda inaugurou uma cena importante no país, esperamos que incentive muitas outras bandas.

Confissões de um viciado em música: David Bowie

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Em uma matéria da revista Vanity Fair, de 2003, David Bowie foi convidado a falar de alguns de seus álbuns favoritos. De uma coleção de aproximadamente 2,500 discos o camaleão contou que muita coisa havia se perdido e nem tudo tinha sido possível fazer cópias em CD. Decidiu elencar 25 – sem ordem de preferência ou gênero – que remontavam a lembranças afetivas ou grandes descobertas.

Na lista que você vai ler abaixo, figuram nomes clássicos como James Brown, Syd Barret e Velvet Underground – vistos de novas perspectivas – até nomes esquecidos pela crítica e meios especializados, mas pioneiros em vários sentidos. Fique numa posição confortável para ler essa lista do camaleão. Tenha uma caneta e papel em mãos e se prepare para uma viagem de descobertas musicais que comprovam que Bowie tinha um ouvido aguçado e sabia realmente usar as referências como ninguém.

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THE LAST POETS

THE LAST POETS
(1970, Douglas)

Um dos pilares do rap. Todas as habilidades narrativas dos “griot”*, estilhaçadas em ira, apresenta um dos discos mais políticos para causar na lista da Billboard. Falando em rap (O quê?), posso pegar carona nessa grande leva com a coletânea de 1974 “The Revolution will not be televised” (Flying Dutchman), que reúne o que há de melhor do formidável trabalho de Gil Scott-Heron.

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SHIPBUILDING

ROBERT WYATT
(1982, Rough Trade)

Não é um álbum e sim um EP de 12’ polegadas. Todavia, um disco. A bem recebida e implacavelmente contagiante música escrita com Elvis Costello, e a interpretação de Wyatt é definitiva. Desoladora – reduz homens fortes a garotinhas chorosas.

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THE FABULOUS LITTLE RICHARD

LITTLE RICHARD
(1959, Specialty)

Excepcionalmente moderadas, estas performances foram gravadas por Richard em suas primeiras sessões na Specialty, a maioria em 1955. Esse disco me foi vendido com desconto pela Jane Greene. Mais sobre ela depois.

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MUSIC FOR 18 MUSICIANS

STEVE REICH
(1978, ECM)

Música de gamelão [instrumento musical javanês semelhante à marimba] balinês travestida de Minimalismo. Vi isso ao vivo no centro de Nova Iorque no fim dos anos 70. Todos com camisas brancas e calças pretas. Tendo acabado uma turnê em camisas brancas e calças pretas, imediatamente reconheci o grande talento e bom gosto de Reich. A música (e os ginastas envolvidos em executar a proposta “tag-team” de revezamento) me admirou. Surpreendente

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THE VELVET UNDERGROUND & NICO

THE VELVET UNDERGROUND
(1967, Verve)

Trazido de NY por um ex-empresário meu, Ken Pitt. Pitt fez alguns trabalhos de relações públicas e isso o colocou em contato com a Factory. Warhol havia dado para ele essa versão sem capa, prensada como teste (Eu ainda a tenho, sem selo, apenas um pequeno adesivo com o nome do Warhol nele) e disse, “Você gosta de coisas estranhas – veja o que acha disso”. O que eu “achei disso” foi que isso era a melhor banda do mundo. Em Dezembro daquele ano, minha banda Buzz terminou, mas não sem o meu pedido de tocarmos “I’m waiting for the Man” como uma das músicas no bis do nosso último show. Surpreendentemente, não apenas fui o primeiro a fazer cover do Velvet antes de qualquer um no mundo, fiz isso antes do disco sair. Isso sim é a essência do Mod.

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TUPELO BLUES

JOHN LEE HOOKER
(1962, Riverside)

Em 1963, eu trabalhava como artista comercial júnior em uma agência de publicidade de Londres. Meu chefe, Ian, um modernista estilo a la Gerry Mulligan – cabelo curto e botas Chelsea – foi bastante encorajador para minha paixão pela música, algo que ele e eu compartilhávamos e costumava me mandar em tarefas na loja de discos Dobell’s Jazz, na rua Charing Cross, sabendo que eu ficaria lá a maior parte da manhã, até depois do horário de almoço. Foi lá, nos escaninhos, que achei o primeiro disco do Bob Dylan. Ian me mandou lá para achar um disco do John Lee Hooker para ele e me aconselhou a pegar uma cópia para mim, pois era maravilhoso. Dentro de semanas meu parceiro George Underwood e eu havíamos mudado o nome de nosso pequeno conjunto de R&B para Hooker Brothers e incluímos no nosso set a “Tupelo” do Hooker e a versão do Dylan de “House of the Rising Sun” . Adicionamos bateria em “House”, achamos que estavámos fazendo alguma espécie de inovação musical, e ficamos de cara quando o Animals gravou a música que teve recepção assombrosa. Lembre-se, tocamos nossa versão ao vivo apenas duas vezes, em clubes pequenos ao sul do Tâmisa, na frente de mais ou menos 40 pessoas, nenhum deles era do Animals. Não foi roubo, então!

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BLUES, RAGS AND HOLLERS

KOERNER, RAY AND GLOVER
(1963, Elektra)

Comprado na Dobell’s [famosa loja de discos, especializada em folk, blues, jazz e world music de Londres que funcionou entre os anos 1950 e 1980]. À sua maneira, “Spider” John Koerner foi uma influência para Bob Dylan, com quem costumava tocar nos cafés de Dinkytown, a parte artística nos arredores da Universidade de Minnesota. Derrubando as fracas vocalizações dos trios “folk” como o Kingston Trio e Peter, Paul e O-quê-fosse, Koerner e companhia mostraram como isso deveria ser feito. Primeira vez que ouvi um violão de 12 cordas.

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THE APOLLO THEATRE PRESENTS: IN PERSON! THE JAMES BROWN SHOW

JAMES BROWN

(1963, King)

Meu antigo colega de classe Geoff MacCormack trouxe esse para minha casa numa tarde, ofegante e animado. Ele disse “Você nunca na sua vida ouviu algo como isso”. Fui ver Jane Green naquela mesma tarde. Duas das músicas desse álbum, “Try Me” e “Lost Someone” se tornaram vagas inspirações da “Rock & Roll Suicide” do Ziggy. A performance de Brown no Apollo ainda permanece para mim como uma das mais excitantes de álbuns ao vivo de todos os tempos. A música Soul agora tinha um rei indiscutível.

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FORCES OF VICTORY

LINTON KWESI JOHNSON
(1979, Mango)

Uma contribuição anglo-caribenha para a história do rap. Esse cara escreveu algumas das mais emocionantes poesias da música popular. A dolorosamente triste “Sonny’s Lettah (Anti-Sus Poem)” vale sozinha o valor do reconhecimento. Apesar de não cantada, a palavra falada vai ao encontro da excelente banda, esse deve ser um dos discos mais importantes de reggae de todos os tempos. Eu dei o meu original recentemente para o Mos Def, em quem vejo conexões com Johnson, pensando já ter cópia disso em CD. Droga, não tenho. Então agora eu estou procurando uma cópia por toda parte.

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THE RED FLOWER OF TACHAI BLOSSOMS EVERYWHERE: MUSIC PLAYED ON NATIONAL INSTRUMENTS

VARIOUS ARTISTS
(1972, China Record Company)

Como você pode não amar música com seleções intituladas “Delivering Public-Grain to the State” ou “Galloping Across the Grasslands” (um verdadeiro batida, aquela). Independente dos títulos parecerem com sobras de um disco do Brian Eno, estas faixas são na verdade maravilhosos exemplos de música folclórica tocada com instrumentos tradicionais. Comprei cerca de 20 dez polegadas diferentes desse gênero a preços ridiculamente baixos na Chinese Woodblock Print Fair em Berlim no fim dos anos 70. A arte da capa ostenta uma barragem hidroelétrica inteligente e de aparência altamente funcional, semelhante mas presumivelmente menor que aquela que agora está inundando centenas de vilas em ambos os lados do glorioso rio Yangtze. Mesmo assim, belos tons pastéis, e elegante impressão em branco e dourado.

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BANANA MOON

DAEVID ALLEN
(1971, Caroline/Virgin)

É possível, que as vertentes do embrionário glam começaram aqui. Eu coloquei para tocar isso essa manhã e foi espantoso ouvir algo que soa como Bryan Ferry e Spider from Mars (juntos, finalmente) na primeira faixa, gravado exatos dois anos antes dos “oficiais” lançamentos glam de qualquer um dos dois protagonistas acima mencionados. Não há, entretanto, dúvidas sobre a grande influência de Allen e seu companheiro de banda Robert Wyatt nas mais “elevadas” camadas do pop com sua unidade multifacetada, o Soft Machine. Banana Moon tornou-se o passo de transição solo de Allen para depois formar o lunático Gong. Wyatt também veio a ter uma longa e respeitosa carreira solo, intermitentemente trabalhando com o ex-Roxy Brian Eno.

jacques-brel

JACQUES BREL IS ALIVE AND WELL AND LIVING IN PARIS

CAST ALBUM
(1968, CBS)

Na metade dos anos 60 eu estava tendo um vai-e-volta com uma maravilhosa cantora e compositora que havia sido namorada de Scott Walker. Para o meu desgosto, a música de Walker tocava dia e noite no apartamento dela. Infelizmente perdi o contato com ela, mas inesperadamente mantive um carinhoso e admirável grande amor pelo trabalho do Walker. Um dos autores que ele fez cover num dos seus primeiros álbuns foi Jacques Brel. Isso foi o suficiente para me levar ao teatro para pegar o álbum quando veio para Londres em 1968. No momento que o elenco, liderado pelo tradutor rústico e noturno do Brooklyn Mort Shuman, chegava na música que tratava dos caras que faziam fila para suas injeções contra sífilis (“Next”), eu estava completamente convencido. Por meio de Brel, descobri a canção francesa como revelação. Aqui estava uma forma de canção popular onde poemas como os de Sartre, Cocteau, Verlaine e Baudelaire eram conhecidos e adotados pela população em geral. Não hesite, por favor.

electrosoniks

THE ELECTROSONIKS: ELECTRONIC MUSIC

TOM DISSEVELT
(1960, Vendor Philips)

Este é um daqueles álbuns estranhos lançados pelas gravadoras para exibir aquele estéreo moderno. Apenas que, aqui a Philips optou por uma pioneira dupla de holandeses, Tom Dissevelt e Kid Baltan. Como exploradores sonoros esses dois estão no mesmo grau de Ennio Morricone, mas mais excêntricos. Eu adoraria um mix 5.1 desses absurdos. As anotações do encarte nos informam que “chimpanzés estão pintando, gorilas estão escrevendo”. Bom trabalho.

incredible-string-band

THE 5000 SPIRITS OF THE LAYERS OF THE ONION

THE INCREDIBLE STRING BAND
(1967, Hannibal)

OK, aqui está o álbum com a capa mais viajada. As cores estão em todo lugar, um verdadeiro deslumbre para os olhos. Provavelmente executada pelo grupo artístico conhecido como “The Fool.” Basicamente trancado em uma cápsula do tempo por muitos anos – é animador descobrir que esse estranho apanhado de coisas místicas do folk do Meio Leste e Celta se mantém memoravelmente bem até hoje. Um festival de verão obrigatório nos anos 60, eu e o T. Rex Marc Bolan somos grandes fãs.

tucker-zimmerman

TEN SONGS BY TUCKER ZIMMERMAN

TUCKER ZIMMERMAN
(1969, Regal Zonophone/EMI
)

Aí está um título com transparência. O cara é qualificado demais para o folk, na minha opinião. Diplomas em teoria e composição, aluno do compositor Henry Onderdonk, bolsa em Fullbright, e ele quer ser Dylan. Um desperdício de um talento incendiário? Não na minha opinião. Eu sempre achei esse álbum de austeras e raivosas composições cativante, e muitas vezes me pergunto, o que será que aconteceu com ele? Tucker, um americano, foi um dos primeiros artistas produzidos pelo meu amigo e co-produtor Tony Visconti, também americano, depois de se toparem em Londres. Porque será que ele sumiu? Ah, é, ele tem um website. Mora na Bélgica. Pesquisem sobre ele.

strauss

FOUR LAST SONGS (STRAUSS)

GUNDULA JANOWITZ
(1973, DG)

Como “aquele livro”, este é um álbum que continuamente dou para amigos e conhecidos. Embora Eleanor Steber e Lisa della Casa façam boas interpretações deste trabalho monumental, a performance de Janowitz para Four Last Songs do Strauss foi descrita, merecidamente, como transcendental. Ela dói como amor por uma vida que está apagando silenciosamente. Eu não conheço outra música, nem outra performance, que me comove tanto quanto essa.

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THE ASCENSION

GLENN BRANCA
(1981, 99Records)

Comprado em Zurich, Suiça . Essa foi uma compra impulsiva. A capa me pegou. Robert Longo produziu o que essencialmente é a melhor capa dos anos 80 (e além, alguns diriam). Misteriosa no sentido religioso, angústia da Renascença vestida de Mugler. E por dentro… Bem, o que a princípio soa como a dissonância é logo assimilado como uma peça sobre as possibilidades de sobretons de guitarras em massa. Não exatamente Minimalismo – ao contrário de La Monte Young e seu trabalho dentro do sistema harmônico, Branca usa os sobretons produzidos pelas vibrações de uma corda de guitarra. Amplificados e reproduzidos por muitas guitarras simultaneamente, você tem um efeito parecido com o drone de monges budistas do Tibet , só que muito, muito mais alto. Duas figuras-chave na banda de Branca eram o compositor David Rosenbloom (do incrível Souls of Chaos, 1984) e Lee Ranaldo, figura fundadora junto com Thurston Moore do grande Sonic Youth. Ao longo dos anos, Branca ficou ainda mais barulhento e mais complexo que isso, mas aqui na faixa-título seu manifesto já está completo.

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THE MADCAP LAUGHS

SYD BARRETT
(1970, Harvest/EMI)

Syd sempre será o Pink Floyd para alguns de nós, fãs mais velhos. Ele fez esse álbum, reza a lenda, estando frágil e precariamente fora de controle. Malcolm Jones, um de seus produtores na época, nega veementemente. Confiarei em Jones, pois ele estava lá. A faixa de destaque para mim é “Dark Globe”, gloriosamente perturbadora e mordaz de uma só vez.

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BLACK ANGELS

GEORGE CRUMB
(1972, Cri)

Comprado em Nova Iorque no meio dos anos 70. Provavelmente uma das únicas peças para concerto inspiradas pela Guerra do Vietnã. Mas também é um estudo de aniquilação espiritual. Eu ouvi esta peça pela primeira vez no período mais sombrio do meus próprios anos 70, e fiquei muito apavorado. Na época, Crumb era uma das novas vozes no mundo da composição e Black Angels uma de suas obras mais caóticas. Ainda é difícil para mim ouvir isto sem uma sensação de pressentimento. Realmente, às vezes, soa como a própria obra do diabo.

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FUNKY KINGSTON

TOOTS & THE MAYTALS
(1973, Dragon)

Se você se considera meio louco por reggae, você terá esse, obviamente. Toots Hibbert me conquistou com sua poderosa “Pressure Drop”, contribuição para a trilha sonora de Harder They Come no começo dos anos 70. Seguiu então este fantástico e verdadeiramente álbum funky em 1973. Eu estava morando em uma rua fora da bastante gentrificada Cheney Walk em Londres, e pela primeira vez comecei a receber reclamações de vizinhos em relação ao volume no qual eu ouvia meus discos, esta belezura sendo a principal culpada. Hibbert, a propósito, afirma ser “o Inventor do Reggae”. Boa, Toots.

5.0.2

5.0.2

DELUSION OF THE FURY

HARRY PARTCH
(1971, Columbia)

Comprado em Londres na HMV, Oxford Street. Eu tenho apenas uma vaga memória de quando eu ouvi falar desse cara pela primeira vez. Eu acredito que foi Tony Visconti, meu produtor de muitas vezes, que me deu a dica. Um tipo maluco e certamente uma vez sem-teto, Partch passou a inventar e fazer dúzias dos instrumentos mais extraordinários. (Quando foi a última vez que você viu alguém tocando o Bloboy, o Eucal Blossom, ou o Spoils of War? Como você afina um Spoils of War? Eu penso.) Então, entre os anos 30 e 70, ele escreveu incríveis e evocativas composições para os instrumentos, seus temas variando de mitologia a dias pegando trens durante a Depressão. Delusion representa o melhor resumo do que Partch fazia. Por vezes bastante assustador e positivamente arrasador. Tendo escolhido um caminho musical que fugia dos compositores mainstream, ele definiu a base para pessoas como Terry Riley e La Monte Young.

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OH YEAH

CHARLES MINGUS
(1961, Atlantic)

No começo dos anos 60, Medhurst’s era a maior loja de departamento em Bromley, [Bromley é um distrito, bairro de Londres] . Em termos de estilo, eles seriam pulverizados por seus competidores, que estocaram antecipadamente a nova mobília “G-Plan” de estilo escandinavo. Mas Medhurst’s tinha uma fantástica seção de discos, liderada por um maravilhoso “casal”, Jimmy e Charles. Não existia um lançamento americano que eles não tinham ou não podiam ter. Era tão descolada quanto qualquer estabelecimento londrino. Eu teria tido uma jornada musical bem seca se não fosse por esse lugar. Jane Greene, a assistente de caixa, acabou gostando de mim, e sempre que eu aparecia, que era quase todas as tardes depois do colégio, ela me deixava tocar discos na “cabine musical” à vontade até a loja fechar às 17h30. Jane quase sempre se juntava a mim, e nós dávamos uns amassos ao som de Ray Charles ou Eddi Cochran. Isso era bem excitante, pois na época eu tinha uns 13 ou 14 anos e ela era uma mulher de 17. Minha primeira mulher mais velha. Charles me deixava comprar com um enorme desconto, me permitindo construir uma coleção fabulosa ao longo dos dois ou três anos em que eu frequentei a loja. Dias felizes. Jimmy, o parceiro mais jovem, me recomendou esse disco do Mingus certo dia por volta de 1961. Eu perdi minha cópia da Medhurst, mas continuei a re-comprar as edições com o passar dos anos, já que era re-lançado de tempos em tempos. Nele há a faixa bastante singular “Wham Bam Thank You Ma’am.” Também foi a minha introdução à Roland Kirk.

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LE SACRE DU PRINTEMPS

IGOR STRAVINSKY
(1960, MFP/EMI)

Para mim, um clássico exemplo dos olhos fazendo a compra. Desculpe a piada. No final dos anos 50, a Woolworth’s produziu uma série barata de álbuns clássicos em seu selo Music for Pleasure. Eu encontrei esse nas prateleiras e fiquei tão encantado com a foto da montanha (Ayres Rock em Austrália, como descobri) que era impossível resistir. Com a ajuda das anotações no encarte, que eu achei incrivelmente iluminadoras, eu quase podia construir minha própria dança imaginada para esse fantástico pedaço de música. O tema ostinato para as quatro tubas é um riff tão poderoso quanto qualquer outro encontrado no rock. Antigamente na minha então vida curta, eu havia comprado The Planets Suite do Gustav Holst, motivado por assistir uma tremenda série sci-fi na BBC chamada The Quartermass Experiment detrás do sofá, quando meus pais achavam que eu tinha ido para cama. Após cada episódio eu voltava para meu quarto nas pontas dos dedos, rígido de medo, de tão poderosa que a ação parecia para mim. A música titular era “Mars, the Bringer of War”, então eu já sabia que música clássica não era um tédio.

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THE FUGS

THE FUGS
(1966, ESP)

As anotações no encarte foram escritas por Allen Ginsberg e contém estes perenes trechos: “Quem está no outro lado? Pessoas que pensam sermos maus. Outro lado? Não, não façamos disso uma guerra, todos nós seremos destruídos, nós sofreremos até a morte se escolhermos a Porta da Guerra.” Eu achei na Internet o texto de uma propaganda de jornal para o Fugs, que, junto com o Velvet Underground, tocou no April Fools Dance e Models Ball no Village Gate em 1966. O FBI tinha os na lista como “The Fags.” Essa com certeza foi uma das bandas underground mais liricamente explosivas. Não eram os maiores músicos do mundo, mas o quão “punk” era tudo aquilo? Tuli Kupferberg, co-compositor do Fugs e performer, em colaboração com Ed Sanders, acaba de finalizar o novo álbum do Fugs enquanto escrevo. Tuli tem 80 anos.

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THE GLORY (????) OF THE HUMAN VOICE

FLORENCE FOSTER JENKINS
(1962, RCA)

Entre a metade e o final dos anos 70, Norman Fisher, colecionador de arte e pessoas [sic], realizou as festas noturnas mais diversas de toda Nova Iorque. Pessoas de todos os setores do assim e não tanto avant-garde se aglomeravam em seu pequeno apartamento no centro, simplesmente porque Norman era um imã. Carismático, divertidíssimo, e brilhante em apresentar todas as pessoas certas para as pessoas erradas. Seu gosto musical era tão efervescente quanto ele mesmo. Duas de suas recomendações me marcaram ao longo dos anos. Uma foi Manhattan Tower, o primeiro musical de rádio por Gordon Jenkins (sem relação com Florence), e a outra The Glory (???) of the Human Voice. Madame Jenkins era tão rica, sociável, e devota à opera. Ela possuía – e era alegremente inconsciente disso – o pior par de cordas vocais no mundo da música. Ela agraciava Nova Iorque com sua voz monstruosa uma ou duas vezes por ano, com recitais particulares no Ritz-Carlton para uns poucos sortudos. Tão populares eram esses eventos que os ingressos eram vendidos a preços exorbitantes. Para atender à demanda, Madame contratou o Carnegie Hall. Foi a grande bilheteria daquele ano, 1944. Todo mundo e Noël Coward estavam lá, caindo pelos corredores, em histerias mal contidas. Ao interpretar a canção “Clavelitos”, Madame, que chegava a mudar de roupa três vezes durante um recital, ficou tão compenetrada pontuando as cadências da música, atirando pequenas flores vermelhas de uma cesta, que a própria cesta, entusiasmada, seguiu as flores em direção ao colo de um fã maravilhado. Tenha medo, tenha muito medo.

VIA

10 Discos favoritos de Tarantino

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Quentin Tarantino é conhecido pelo seu cinema visceral e apaixonado e boa parte da sua filmografia dialoga com outros filmes que o próprio diretor é fã. Além de um grande cineasta, Tarantino também é um colecionador de discos. Se você já viu alguns filmes do cara vai perceber que as trilhas sonoras são muito importantes na constução do enredo como é o caso dos dois volumes de Kill Bill, do Pulp Fiction e Django Livre, todas ótimas trilhas sonoras. Como ele próprio diz logo abaixo, quando ele está pensando em um filme ele procura músicas que reflitam a personalidade do filme e isso é possível graças ao vasto conhecimento musical e a coleção própria do diretor.

O jornalista Michael Bonner (Uncut) pediu a Quentin Tarantino falar sobre seus 10 discos favoritos e o resultado traduzido você lê logo abaixo, é muito interessante perceber a relação emotiva que o diretor tem com a música e a imagem, dá para sentir que Tarantino é como um de nós.

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Bob Dylan

 

Blood On The Tracks

“Este é o meu disco favorito de todos. Passei o fim da minha adolescência e o começo dos meus 20 anos ouvindo música antiga – rockabilly, coisas do tipo. Então eu descobri o folk quando eu tinha 25, e isso me levou ao Dylan. Ele me impressionou com esse disco. É tipo o grande álbum da segunda fase, sabe? Ele fez a primeira leva de discos nos anos 60, daí começou a fazer os álbuns menos problemáticos – e disso veio “Blood On The Tracks”. É obra prima dele.”

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Bob Dylan

 

“Tangled Up In Blue”

“Ok, talvez eu esteja trapacendo. Eu sei que essa é do Blood on Tracks, mas essa é a minha música favorita de todas. É uma daquelas canções em que as letras são ambíguas, que na verdade você escreve a música por si próprio. É muito divertido – é como se Dylan estivesse brincando com o ouvinte, brincando com a forma que ele ou ela interpretam as letras. É bem difícil pegar músicas individuais do Blood on Tracks, porque ele funciona muito bem como um álbum inteiro. Eu costumava pensar que “If You See Her, Say Hello” era uma faixa mais poderosa que “Tangled Up in Blue” mas, ao longo dos anos meio que percebi que “Tangled…” levava vantagem, pela diversão que você pode ter com ela.

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Freda Payne

 

“Band Of Gold”

“Eu sou um grande fã de música. Amo o rock’n’roll dos anos 50, Chess, Sun, Motown. Todas as bandas de Merseybeat, grupos de garotas dos anos 60, folk. Isso era tão legal: uma combinação da forma que era produzido, o som bacana do pop/R&B, e a voz da Freda. Era um tanto cafona – sabe, tinha mesmo uma batida rápida e, nas primeiras vezes que ouvi, eu ficava tipo, totalmente ligado na animação da música. Foi apenas na terceira ou quarta ouvida que percebi que as letras eram de partir o coração.

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Elvis Presley

 

The Sun Sessions

“Esse tem sido um álbum extremamente importante para mim. Sempre fui um grande fã de rockabilly e grande fã do Elvis, e para mim esse álbum é a expressão pura do que o Elvis era. Claro, há grandes músicas individuais – mas nenhuma coletânea alcançou esse álbum. Quando eu era jovem, costumava pensar que Elvis era a voz da verdade. Não sei o que isso significa, mas a voz dele…caramba, soava pura pra caralho. Se você cresceu amando Elvis, é isso. Esqueça o período Vegas: Se você realmente gosta de Elvis, você se envergonha daquele cara em Vegas. Você sente que ele te decepcionou. O “Hillbily Cat” [fazendo referência à fase 53-55] nunca te decepciona.”

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Phil Ochs

 

“I Ain’t Marching Anymore”

“Ok, daqui em diante não haverá nenhuma ordem. É o mesmo com os filmes: Tenho meus três favoritos – Taxi Driver, Blow Up e Onde Começa o Inferno – e depois disso depende do meu humor. Esse é um dos meus álbuns favoritos de protesto/folk. Enquanto Dylan era um poeta, Ochs era um jornalista musical: Era um cronista do seu tempo, cheio de humor e compaixão. Ele escrevia músicas que poderiam parecer bem simples, e então, no último verso, ele dizia algo que, tipo, deixava você arrasado. Uma música que eu gosto muito nesse disco é “Here’s to the State of Mississipi” – Basicamente, isso é tudo o que o filme “Mississipi em Chamas” deveria ter sido.

Phil Ochs

 

“The Highwayman”

“Estou trapaceando de novo. Esse é um poema de Alfred Noakes que Ochs musicou. O vocal me fez explodir em lágrimas mais vezes do que prefiro lembrar.”

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Elmer Bernstein

 

“The Great Escape”

“Eu tinha uma grande coleção de trilhas sonoras de filmes. Não me entusiasmo mais com elas, até porque agora a maioria das trilhas são uma coletânea de músicas de rock, metade delas nem aparece no filme. Essa é um verdadeiro clássico. Ela tem um tema principal que traz o filme direto para a sua cabeça. Todas as faixas são boas – e é tão eficaz. Levei tempos para conseguir uma cópia, e, cara, eu quase chorei quando finalmente consegui.”

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Bernard Herrmann

 

“Sisters”

“Este é de um filme do Brian de Palma. É um filme assustador, e a trilha sonora…ok, se você quer se assustar, desligue as luzes, sente no meio da sala e ouça esse disco. Você não vai durar um minuto. Quando eu estou começando a pensar sobre um filme, eu vou começar procurando por músicas que reflitam a personalidade do filme, vou começar procurando músicas que possam refletir essa personalidade. O disco que mais penso sobre é aquele que toca durante os créditos de abertura, porque é ele que vai dar o tom do filme. Como em “Cães de Aluguel”, quando você vê os caras saindo da lanchonete, e a linha do baixo de “Little Green Bag” entra – você já sabe que vai ter encrencas.”

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Jerry Goldsmith

 

“Under Fire”

“The Main Theme’ é uma das maiores peças de músicas escritas para um filme. É tão assombrosa, tão bonita – cheio de flautas de pã e coisas do tipo. É destruidor, sabe – como um tema do Morricone. Por incrível que pareça, “The Main Theme” funciona muito bem, mas nunca tocaram ela nos créditos de abertura. Colocaram ela no meio e durante os créditos finais, o que é bem estranho.”

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Jack Nitzsche

 

“Revenge”

“De todas as trilhas sonoras, esta é a melhor. É de um filme do Tony Scott – ele dirigiu Amor à Queima-Roupa – e é uma composição muito exuberante, elegante. Você não precisa conhecer o filme para apreciar a trilha sonora: Ela funciona do seu próprio jeito.”

Via Uncut

“Help is Coming”: Como Pete Paphides escolheu a música para ajudar os refugiados Sírios

Peter Paphides é um importante jornalista de música da Inglaterra. Conhecido por trabalhar em revistas como a famosa Melody Maker nos anos 90, é atualmente colaborador freelancer no The Guardian, Mojo, Q e é um grande entusiasta do vinil. Diante dos atuais acontecimentos na Europa em relação aos refugiados da Síria, Peter decidiu usar a música como instrumento de sensibilização da população.

Crowded-House-Help-Is-Coming-200x200Como relata no texto abaixo, Peter acredita que a música é um importante meio de reflexão e que, dependendo dos contextos em que são colocadas, são capazes de causar grandes mudanças e mobilizações. Essa sensibilidade para a música o levou a colocar uma canção esquecida da banda australiana Crowded House aos topos de vendas digitais e compartilhamentos pela internet. As intenções de Paphides são simples, além de querer arrecadar dinheiro com as vendas da música – dinheiro destinado ao Save The Children, que cuidaria das crianças sírias – é ainda fazer as pessoas perceberem, através de uma canção, a olhar com mais atenção para o outro e suas histórias. A música em questão é “Help is Coming” e a princípio falaria das inúmeras famílias européias que chegaram de navio aos EUA, em busca de uma vida melhor, desde o século XVII. Será que o que vivemos hoje é muito diferente?

Tenho dois singles da música “Go West”. Não importa qual deles eu coloque para tocar. Qualquer um irá me levar à lágrimas, mas apenas um tem a intenção de causar esse efeito. A versão que rendeu ao Village People um single em 1979 tinha o feito de nem mais nem menos ser a música sobre o sonho americano. Com as palavras escritas e cantadas por Victor Willis (o cara que se vestia como um oficial naval), “Go West” transcendia suas intenções líricas. Para milhares de homens gays que procuravam deixar para trás os restritivos preconceitos de cidades do interior, “Go West” se tornou um novo hino de New York. Quatorze anos depois, quando o Pet Shop Boys colocou à serviço a voz masculina de Welsh para sua versão, “Go West” soou como algo totalmente diferente. Era um réquiem para a permissiva e romanceada era pré-AIDS em New York e a todos aqueles que tiveram suas vidas tomadas. Uma das versões faz você chorar porque as pessoas que a criaram, talvez não tinham ideia que era sobre os estragos causados por sua promissora terra; a outra porque você sabe como essa história terminou.

O tempo tem uma forma cruel de separar as boas músicas das ruins. As ruins não crescem ou mudam. Elas enrijecem na luz e permanecem exatamente como eram na primeira vez que você as encontrou. No entanto, músicas que você costuma relembrar, não são assim. Elas são como tudo que vive é. Elas crescem e assumem novas formas com o tempo. As verdades que elas comunicam parecem mais profundas a cada ano, sejam elas em “Heatwave” de Martha and The Vandellas falando sobre amor ou a busca angustiante de “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, do U2. Algumas músicas conectam imediatamente. Outras são presentes de autores para seus futuros “eus”. Esses dias, quando Yusuf Islam – ex-Cat Stevens – cantou “Father & Son”, ele o fez tão “do ponto de vista de alguém que tem ainda muito a aprender com seus filhos”.

Quando Fleetwood Mac toca “Silver Springs” hoje em dia, assume tanto a forma de um tapa cármico dado por Stevie Nicks em Lindsey Buckingham, como uma explicação da banda que decidiu, contra os desejos dela, omitir a versão no álbum “Rumours”. É difícil não se sentir como um intruso quando você vê os olhos de Nicks olhar para o ex e cantar “You’ll never get away from the sound of the woman that loved you.” (“Você nunca poderá fugir do som da mulher que o amou”). As melhores músicas transcendem os limites de seus compositores e exibem uma sabedoria muitas vezes perdida nas pessoas que as criaram. Temo que perdemos o Morrissey que cantava “It takes guts to be gentle and kind” (“É preciso força para ser gentil e carinhoso”), mas ainda temos bandas que conectam a humanidade de suas primeiras músicas em todo seu panorama: bandas como o British Sea Power, com “Waving Flags” que encoraja os emigrantes do leste europeu em “Welcome in/From Across the Vistula/You’ve come so very far” (“Seja bem vindo/Através do Vistula/Você vem de tão longe”.

Às vezes, é como se esses sentimentos estivessem mais evidentes na Alemanha do que aqui [Inglaterra]. Música não deveria ser o que provoca o pudor que a UKIP [Partido de Independência do Reino Unido/Conservador] e certos setores da mídia tentam esconder mas, é claro, a verdade é que ela provoca. Em 1999, três anos depois do fim, o Crowded House lançou uma coletânea de músicas inédias chamada de “Afterglow”. Uma música, “Help is Coming”, data de uma sessão inacabada de 1995 porque, nas palavras de Neil Finn, “a banda tinha perdido seu caminho”. “Help is Coming” era um silencioso, sofrido hino para todas aquelas pessoas, nas palavras de Finn, “chegaram da Europa em navios na Ilha de Ellis [New York], procurando na América uma vida melhor para suas famílias”.

Essa foi a música que se espalhou pela minha mente nas primeiras horas da última quarta-feira [09 de setembro de 2015], como as cenas dos refugiados sírios, desembarcando de botes, sendo jogadas na minha frente. No dia seguinte, Eu contatei Finn e amigos da The Vinyl Factory e perguntei a eles se poderiam produzir uma versão em vinil de “Help is Coming”, com os rendimentos para a Save the Children. Desde então, é difícil compreender a cadeia de eventos que fizeram – Via o extraordinário filme que acompanha, de Mat Whitecross – a música ganhar lançamento mundial.

Nos últimos cinco dias, junto com a minha esposa Caitlin Moran, eu peguei a música e pressionei o iTunes e a Universal para a sua reedição. Todo dia parece mais surreal que o anterior. Tenho recebido e-mais de Stella Creasy [política inglesa] se comprometendo a tentar remover os impostos em cima das vendas da música. O ator Benedict Cumberbatch [Sherlock Holmes/Jogo da Imitação] filmou uma introdução para o filme de Mat e, depois de sua performance como Hamlet no Barbican, em Londres essa semana, ele recolheu donativos em um balde. As remessas vem chegando de hora em hora. Noite passada, recebi uma mensagem dizendo que o iTunes vai tornar “Help is Coming” uma “prioridade mundial”. Eu poderia passar anos fazendo campanha, tentando e falhando encontrar o que essa música consegue – uma música que estava dormindo em um álbum quase esquecido de 16 anos – fazer em poucas horas.

Claro, ela deveria ser uma música pop que seduz as pessoas emocionalmente em relação à situação dos menos afortunados que elas. Mas há outra maneira de ver isso. Não é um milagre que uma música pop tenha o poder de fazer tudo isso?

(tradução por Emanuela Siqueira)

Peter Paphides em The Guardian (texto original)

Você pode encomendar o disco 7′ ou comprar a música online aqui.

“Freetura” com a banda Boogarins, de Goiânia

miniatura_joaquimapresentablogNo dia 10 de julho de 2015 recebemos na “sala” da loja os goianos da Boogarins. A ideia surgiu de uma parceria que a Joaquim firmou esse ano com a produtora curitibana Volcano que vem trazendo excelentes bandas do cenário nacional para tocar na capital do Paraná.

A Boogarins é uma banda que – desde 2012 – vem chamando atenção da cena psicodélica contemporânea. Misturando um som que poderia ser associado com o estilo dos australianos do Tame Impala, eles criam sua própria atmosfera reverberada com letras que mostram a inspiração vinda de bandas como os Mutantes e o Clube da Esquina.

Fernando Ribeiro e Benke Ferraz fizeram algumas gravações caseiras e mandaram para gringos que souberam ver potencial dos caras nessa nova cena de revival do psicodélico. Emplacaram um contrato com a nova-iorquina Other Music Recording e distribuição pela Fat Possum Records. A Other Music é uma loja de discos que se tornou uma interessante gravadora e a Fat Possum tem um catálogo interessante com artistas contemporâneos como Black Keys, Dinosaur Jr, Band of Horses e etc.

Em 2013 a Boogarins lançou lá fora o disco “Plantas que Curam” que ganhou notas e resenhas em importantes sites de música. O single “Lucifernandis” emplacou e a banda começou a fazer turnês por város lugares da Europa e E.U.A, tocando inclusive em um dos grandes festivais do gênero, o Austin Psych Fest. Além das músicas bacanas do disco, o Boogarins é conhecido por viagens longas e bem elaboradas em seus shows e foi com essa aproximação entre o improviso e a experimentação que eles chegaram por aqui.

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O evento intitulado de “Freetura” aconteceu de forma paralela à quarta edição do Volcano Apresenta, que ainda contou com as bandas Aldo (SP) e Audac (PR). Como explicou o vocalista e guitarrista Fernando Ribeiro, a ideia do “Freetura” é justamente improvisar e ir seguindo conforme os climas forem se criando. A banda tocou por um pouco mais de 40 minutos, criando de improviso entre livros e estantes. O criativo baterista Ynaiã (ex-Macaco Bong) usou a própria estante de livros enquanto Fernando, Benke e Raphael criavam viagens sonoras que deixaram o público hipnotizando.

Confira o vídeo editado que fizemos do som que a Boogarins fez por aqui. Foi uma experiência e tanto. Ficamos com a certeza que temos criatividade e bons sons vindos da nova geração do rock brasileiro. Vamos aguardar os novos trabalhos desses goianos!

*Você encontra o disco “Plantas que Curam” na Joaquim. Também encontra os CDs das bandas goianas Luziluzia e Carne Doce.

Mais:

– Entrevista que a Boogarins concedeu ao Curitiba Lado B

Patti Smith lê Jack Kerouac ao som de Thurston Moore e Lenny Kaye

The last hotel
I can see the black wall
I can see the silhouette on the window
He’s talking, at a rhythm
He’s talking, at a rhythm
But, I don’t care
I’m not interested in what he’s saying
I’m only interested in the last hotel
I’m only interested in the fact that it’s the last hotel
Deep, discordant, dark, sweet
The last hotel
The last hotel
Ghosts in my bed
The goats I bled
The last hotel
JACK KEROUAC

Carl Solomon, Patti Smith, Allen Ginsberg e William S. Burroughs

Carl Solomon, Patti Smith, Allen Ginsberg e William S. Burroughs

No livro “Só Garotos” (Companhia das Letras) Patti Smith conta sobre os seus primeiros anos em Nova Iorque, a fuga da jovem do interior que sonhava ser poeta, ler e escrever em algum loft no Village, tomar cafés em lanchonetes baratas e viver na contracultura. Muitas das histórias vividas pela rainha e poeta do Punk no ínicio dos anos 70 soam muito parecidas com os relatos dos homens e mulheres da Geração Beat durante os anos 40 e 50.

Os Beats iriam influenciar as gerações seguintes, os movimentos contraculturais não seriam os mesmos sem os relatos verborrágicos de Jack Kerouac, a poesia certeira e crítica de Allen Ginsberg ou as memórias e poesias das mulheres da época como Diane di Prima e Joyce Johnson, que colocaram um contraponto nas aventuras contadas pelos homens à beira da estrada.

Entre 1954 e 1965, Jack Kerouac desenvolveu várias ideias em relação à poesia associada a sua prosa espontânea. Conhecido por seus romances, Kerouac passou a escrever poemas sobre assuntos corriqueiros associados à situações um tanto oníricas que dessem um ar de fantasia ao verso. Essa produção foi reunida no livro “Pomes All Sizes” (brincadeira com a palavra poema e pomo) e “The Last Hotel” faz parte dessa coletânea. Relatando brevemente sobre o tédio de estar em um lugar – provavelmente já cansado de perambular – ele se vê com a cabeça longe, pensando em quantas camas de hotel dormiu, nas pessoas que se deitaram com ele e na efemeridade disso tudo. Um breve verso que diz muito sobre Jack Kerouac e que iria ser fundamental posteriormente para compositores como Lou Reed e Patti Smith criarem seus versos acompanhados de dissonantes riffs de guitarra.

000000000-0+026.redimensionadoBaseada nessa produção, nos anos 90 uma grande homenagem intitulada de “Kicks Joy Darkness” foi organizada para Jack Kerouac, que mesmo não sendo muito fã de rock – preferia o jazz e bebop – foi agraciado por nomes como Morphine, Michael Stipe (R.E.M), Lydia Lunch, Steven Tyler, Joe Strummer e meio a tantos outros, Patti Smith fez uma versão do poema “The Last Hotel/O Último Hotel” com acompanhamento de violão por Thurston Moore (Sonic Youth) e Lenny Kaye, companheiro de banda. “Last Hotel” poderia muito bem ser uma narrativa sobre os dias que Patti passou com Mapplethorpe no Hotel Chelsea, talvez por isso sua voz se encaixe tão bem no trecho.

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Lenny Kaye/Patti Smith/Thurston Moore

O último hotel
Consigo ver a parede preta
Consigo ver a silhueta na janela
Ele fala, no ritmo
Ele fala, no ritmo
Mas, eu não ligo
Não me interessa o que ele diz
Só me interessa o último hotel
Só me interessa o fato que esse é o último hotel
Profundo, dissonante, escuro, doce
O último hotel
O último hotel
Fantasmas em minha cama
Corpos lascivos em que suei
O último hotel

(tradução de Emanuela Siqueira)

Ouça o disco completo pelo Spotify abaixo

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