Música Cubana no Senegal

Foi rodando pela internet que encontramos um artigo da jornalista e escritora queniana Ciku Kimeria, no braço africano do site Quartz, falando sobre a influência da música cubana dos anos de 1950 nos jovens senegaleses durante as décadas de 1960 e 1970. O texto surgiu inspirado no relançamento do vinil de Star Band de Dakar: Psicodelia Afro-Cubana de Senegal (imagens na galeria abaixo, clique para ver maior), uma edição comemorativa ao aniversário de 60 anos da revolução cubana. Kimeria conta que sem as políticas de troca entre Cuba e Senegal, propostas por Fidel Castro, provavelmente essas bandas chamadas de afro-cubanas jamais existiriam. Vamos contar, em diálogo com o texto de Ciku, como a música cubana revolucionou a cena desse país da África Ocidental.

Decolonizar é, em poucas palavras e em um sentido bem amplo, é transcender historicamente a colonialidade e corresponde a um projeto profundo – e ainda mais, urgente – em subverter o padrão de poder colonial. Não mais colonizar o pensamento e as práticas e trabalhar de forma trans-histórica, ultrapassando as lógicas hegemônicas e criando novas formas de contar, escrever, cantar e produzir bens culturais em geral. A influência da música cubana na juventude senegalesa é uma dessas ações de mudar as formas de como se dão as influências, lembrando que a própria música cubana também se forma a partir das raízes africanas dos escravizados naquele país.

mapa do Senegal

Senegal, ou República do Senegal, é um país que como o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico, porém diferentemente de nós que fomos colonizados primeiramente, o país foi um dos principais pontos de captura e tráfico de escravizados. Primeiramente foram os portugueses, depois os holandeses, e por último, os franceses que lutaram com os ingleses até o século XIX, para controlar o litoral do país. Essa breve história de violência colonial é importante para perceber como apenas em 1958 o país se torna uma república autônoma e em 1960 tem o primeiro presidente, o poeta Léopold Sédar Senghor, que segundo Kimeria foi importante para que os jovens tivessem acesso e liberdade a produzir seus próprios bens culturais.

Uma breve busca sobre a música no Senegal já mostra que desde os anos de 1960 o país vive uma intensa e criativa produção, principalmente se tratando de big bands e orquestras. O texto de Ciku Kimeria começa com a memória de um dos principais saxofonistas do país, Thierno Koité, contando que durante os anos de 1960 e 1970 ele lembra de dormir “nas caixas de som em vários clubes de Dakar onde música afro-cubana era tocada. “Eu era uma criança naquela época, mas participava dos ensaios de primos e irmãos”. Koité, junto com o irmão Moundaga Koite e o primo Issa Cissohko foram um dos fundadores de um dos principais grupos de música afro-cubana no Senegal: a Orquestra Baobab, que você consegue ouvir uma extensa playlist no Spotify.

Koité diz que naquela época, Dakar – capital e maior cidade do Senegal – era onde todo mundo ia para fazer música:

“Havia o músico liberiano [Dexter Johnson] que era um dos membros da Star Band de Dakar – a banda afro-cubana mais conhecida no Senegal, fundada em 1958. Havia Barthélémy Attisso que na época era um estudante togolês na Universidade de Dakar e guitarrista da Star Band e da Orchestra Baobab”

O saxofonista ainda lembra que a cidade era a capital da África Ocidental Francesa, atraindo pessoas de todo o continente e da diáspora, como malianos, beninenses e claro, os cubanos, todos trazendo junto uma influência musical única e riquíssima. Para Ciku Kimeria esses encontros e influências eram a combinação perfeita para a música e revolução feita por essas pessoas.


É verdade que poucas bandas dominavam o cenário, porém a Star Band de Dakar foi a que colocou músicos no mapa da música mundial, como Youssou N’Dour, premiado pelo Grammy e conhecido por colaborações com cantoras como Dido e Neneh Cherry, compondo hino para a Copa do Mundo e trilhas sonoras de filmes como Kirikou e a Feiticeira, de 1998.

Star Band de Dakar

O repertório da Star Band de Dakar era inteiramente afro-cubano, Ciku diz que era “um testemunho dos ideais antiimperialistas de Cuba e do impacto que estava tendo em um país que tentava se libertar do domínio colonial e das sensibilidades pós-coloniais que o acompanhavam.”. Lembrando que com a revolução cubana de 1959, Fidel Castro tinha o interesse de colaborar com as nações africanas na luta contra o imperialismo, criando laços com as nações recém-independentes enviando médicos, professores e serviço humanitário entre as décadas de 1970 e 1980. A autora afirma que em 1978 havia mais de dez mil cubanos vivendo na África Subsaariana, além de bandas cubanas em turnê pelo continente.

Para os jovens senegaleses a música cubana permitia que criassem uma sonoridade que retratasse o modo de vida cosmopolita da capital e que nem de perto correspondia com os ideais culturais franceses, seus principais colonizadores. O orgulho cubano de suas raízes negras era um ótimo modelo para essa sociedade pós-colonial seguir e encontrar sua própria voz. A música prosperou em Medina e outros bairros nativos de Dakar, além de encontrar espaço em vários bares e boates onde a Star Band tocava e aproveitava as oportunidades para gravar seu repertório. Koité conta de um bar noturno chamado Sahel que era a casa da The Sahel Orchestra – outra banda afro-cubana bastante conhecida – e que depois de gravarem um álbum chamada Bamba, em meados dos anos de 1970, o bar se tornou um dos principais pontos de atração de jovens músicos que queriam ouvir, conversar e experimentar vários gêneros inspirados na música latina.

Léopold Sédar Senghor

O nascimento da música afro-cubana fazia sentido na cidade onde um dos principais nomes do movimento Negritude vivia e era presidente do país. Leopold Sedar Senghor junto com Aimé Césaire e Léon Gontran Dumas fundaram o movimento em Paris ainda nos de 1930, e promoviam a existência de uma cultura africana, incluindo os países da diáspora. Césaire foi o primeiro deles a usar negritude em um poema, o impacto foi tão grande que ele queimou tudo que escreveu antes disso. Porém, Senghor não era um particular apoiador da influência cubana no continente, principalmente por motivos políticos. Ciku Kimeria conta que mesmo com sua formação de esquerda – foi membro do partido socialista nos anos de Sorbonne – no seu retorno à África Senghar achou suspeito as motivações da atuação da União Soviética e Cuba no continente. No entanto, era um grande apoiador do intercâmbio cultural, sendo que a Negritude promovia o orgulho na cultura e nas artes produzida pelos negros.

Kimeria faz questão de ressaltar que os intercâmbios  culturais entre Cuba e a África datam desde o século XVIII – assim como no Brasil – com o tráfico de escravizados, sendo fundante para a formação da história musical desses países. Conta também que desde os anos de 1920 já haviam selos de música cubana na África, especialmente entre 1933 e 1958 com séries especiais para gramofones. Também gêneros como o mambo, incorporados nos salões de dança e trazidos para os centros urbanos pelos europeus apareciam pelas colônias.

A importância do rádio que popularizava os gêneros é sentida quando o saxofonista da Star Band de Dakar conta como afeto e reconhecimento falava mais alto quando programas, dos anos de 1960, chamavam os ouvintes para pedir música. Predominava a música cubana, o jazz estadunidense e a salsa, por se aproximarem com a música local e o sentimento de pertencimento.

Apesar da música afro-cubana ter visto um declínio na popularidade nos anos de 1980, com o surgimento do estilo Mbalax – que se tornaria o gênero que definiria a música senegalesa e tema para outro post – Ciku diz que o estilo está vendo um ressurgimento na cena mundial, principalmente com a Orchestra Baobab tocando em diversos lugares da Europa e das Américas desde o começo dos anos anos 2000. Com certeza o estilo nos faz refletir sobre nossas próprias produções pós-coloniais e agora decolonizadoras no Brasil, com o surgimento de artistas que dialogam com outros países de diáspora e África como Leudji Luna, Metá Metá, Afrocidade e outros. Fiquemos atentos!