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Virginia Woolf e o Ensaio

“Regozijo-me em coincidir com o leitor comum; pois, pelo senso comum dos leitores, não corrompidos pelos preconceitos literários, depois de todos os refinamentos da sutileza e o dogmatismo do aprendizado, deve finalmente ser determinado que todos clamam por honras poéticas”

Samuel Johnson

A escritora inglesa Virginia Woolf é reconhecida como um dos grandes nomes da literatura modernista, além de ser uma das mais importantes representantes do time que desenvolveu a técnica narrativa de fluxo de consciência. De fato, Woolf foi uma prolífica leitora e escritora, seus romances como Orlando e Mrs. Dalloway entraram rapidamente para o cânone literário do século XX e sua produção – incluindo diários e cartas – foi sendo propaganda com o decorrer das décadas. Um dos seus textos que ganhou novos olhares e impulsos, na época e depois de sua publicação, foi o longo ensaio Um Teto Todo Seu, de 1929.

Depois de ser convidada para palestrar sobre o tema mulheres e literatura, Virginia Woolf se deparou com uma das grandes lacunas na história do gênero: onde estavam as mulheres que escreveram? Onde estavam seus livros? Onde elas estavam nos compêndios de ensino e teoria literária? É com esse atordoamento que ela escreve um longo ensaio tentando refletir sobre essa ausência, unindo crítica histórica e social. Mas, não era a primeira vez que a autora fazia uso do ensaio para escrever sobre sua visão literária e crítica de costumes. Há pelo menos dez anos publicava semanalmente em suplementos literários, acumulando centenas de textos que já tinham sua própria unidade que refletia uma premissa muito básica para ela: a de ser escrita através do olhar de um leitor comum.

Uma das antologias de seus ensaios mais conhecida é justamente a de O Leitor Comum, onde ela escreve, no ensaio homônimo, sobre as premissas desse leitor livre dos academicismos e regras de manuais. Usando um trecho – que abre esse texto – do crítico inglês Samuel Johnson, do século XVIII, ela cria sua própria metodologia de escrita de ensaios, mesmo daqueles que não falavam sobre a literatura em si. Afinal, um observador comum seria protagonista dessa lógica e, para Virginia Woolf, era uma motivação quase política na afirmação pelo comum: ela mesma não havia frequentado a universidade e tudo que sabia era mérito da biblioteca de seu pai e de sua fome intensa por conhecimento.

No ínicio do ensaio Profissões para Mulheres (no Brasil em Profissões para Mulheres e outros artigos Feministas, pela L&PM, tradução de Denise Bottmann) ela dá o tom de comum dizendo que “Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer.” E ela segue comentando sobre a importância de um diálogo como escritora, uma profissão também negada às mulheres, com aquelas que estavam em fábricas ou outras atividades laborais.

Quando falava de livros e literatura, Virginia Woolf também não era indiferente. No ensaio Horas na Biblioteca (no Brasil em A Leitora Incomum, pela Arte e Letra, tradução de Emanuela Siqueira) ela começa o ensaio alfinetando, dizendo que “Vamos começar resolvendo a velha confusão entre o homem que ama aprender e o homem que ama ler, e apontar que não há qualquer ligação entre eles. O intelectual é um sedentário, um solitário entusiasta concentrado, que busca através dos livros um grão de verdade específico para acreditar”. Não eram raros os comentários críticos aos homens das letras, os chamados de intelectuais sedentários. O leitor comum sonhado pela escritora seria sempre o Outro e não mais o homem acadêmico dos círculos ingleses, cuja voz era a única respeitada.

Por esses e outros motivos, a produção ensaística de Virginia Woolf foi relegada em segundo plano, mesmo com uma produção tão prolífica. Acusada de impressionista e, ironicamente, pouco teórica, muitas são as análises preguiçosas desses textos. No Brasil, o ensaio é uma categoria pouco produzida e incentivada, também afetando para que traduções desses textos chegassem até o leitor. Porém, temos atualmente quatro antologias interessantes dessa produção publicadas no Brasil e elas ajudam a adentrar na produção reflexiva da autora, permitindo que possa se ampliar a análise de sua obra e construção de pensamento.

A primeira a ser publicada, em 2012, foi Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas, citado anteriormente, que reúne textos de Virginia Woolf que discutem a situação da mulher escritora e suas relações com a condição da mulher na sociedade. Apesar do uso da palavra feminista, os textos discutem temas mais caros ao início do século XX, onde os movimentos de mulheres ainda não tinha nome próprio. Porém, são textos fundamentais para notar a perspicácia no olhar da autora sobre a produção literária e como a sociedade moderna se comportava naquele período. Muitas das metáforas como a do anjo do lar, a importância do ato com fruição da leitura e a relação do cotidiano com a análise literária, estão presentes mesmo em textos com um único eixo temático: a autoria de mulheres.

Em 2014, a extinta Cosac Naify editou O Valor do Riso, organizado e traduzido por Leonardo Froés. São quase trinta ensaios que compõem essa antologia e finalmente o panorama da produção é alargado. Baseado no volume The Essays of Virginia Woolf, essa edição segue a publicação mais crítica, porém mais acatada, dos ensaios. Desde o famoso O Leitor Comum, passando por textos sobre Londres e sua visão apurada do urbano como Músicos de Rua, reflexões sobre a literatura contemporânea da época no excelente Ficção Moderna, terminando em mais textos em que pensa a produção de autoras como Jane Austen, e o Quatro Figuras, que escreve sobre a biografia de algumas mulheres.

Mas não apenas de temas pontuais se deu a produção de ensaios da inglesa. Há um trabalho poético muito potente em seus ensaios, as metáforas não são pensadas à revelia e atendem muito da demanda romancista de Virginia Woolf. A antologia O Sol e o Peixe, de 2016, organizada e traduzida por Tomás Tadeu e editada pela Autêntica, traz nove ensaios de prosa poética. São textos divididos em três seções onde os temas mais caros à escrita de Woolf surgem envolvidos em um ritmo e pensados como literatura. Desde uma reflexão sobre Montaigne, até uma divagação sobre a, ainda embrionária, arte do cinema, os ensaios mostram como a romancista e a pensadora não andavam separadas.

A antologia mais recente é A Leitora Incomum , editada pela curitibana Arte e Letra e traduzida por Emanuela Siqueira. Além do livro ser artesanal, dialogando mais de perto com a fruição da leitura e o feitio do livro – Virginia fala muito sobre o cheiro e a textura do objeto – também foca em ensaios que tragam a leitora como crítica literária. Como citado anteriormente, a produção ensaística de Virginia Woolf sempre foi considerada aquém à produção de outros intelectuais. Como sempre pensava sobre a experiência de leitura, a biografia de autores e os seus modos de fazer, sua crítica foi considerada impressionista. Os cinco ensaios dessa antologia dão conta de propor um outro olhar para a construção do pensamento da autora. É possível perceber, por exemplo, que várias metáforas que ela sempre usa em seus ensaios, como a força das águas – e tudo relacionado a esse universo – aparecem como ondas, indo e voltando. Ou mesmo a crítica aos intelectuais que, como afirma em um ensaio, matam o prazer pela leitura, está sempre presente. Nesse volume, também há o ensaio que homenageia uma autora: Katherine Mansfield. O interessante é que muitos estudiosos de Woolf dizem que ela mantinha uma relação de ciúme com a neozelandesa, logo, o ensaio Uma mente implacavelmente Sensível dá conta de desfazer esse boato; a admiração é o ritmo do texto.

Assim como nos romances, Virgínia Woolf cria, dá seu próprio ritmo, constrói universos e caminhos nos seus ensaios. Longe de ter a euforia de um impressionista, ela está mais próxima do prazer em ouvir uma pessoa apaixonada. A antropóloga francesa Michèle Petit, importante pesquisadora de mediação de leitura, diz que apenas um apaixonado pode falar de amor, ou seja, apenas um leitor apaixonado pode nos convencer a ler. Então, somos levados por Virginia Woolf – de mãos dadas – a observar os livros nas bibliotecas, a ler em diálogo, a observar os detalhes das roupas, das conversas e a olhar por entre janelas e portas. Dessa forma, assim como ela, deixaremos de ser leitores comuns, passando a ser seres humanos incomuns à literatura e à vida.

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A mesa da Joaquim: Fevereiro, quarta semana

Carnaval. Aproveitando bastante? Na quarta-feira de tarde a gente volta, aproveita e vem ver de perto essas belezas que separamos para a mesa da Joaquim desse semana!

Samba de Enredo: História e ArteAlberto Mussa e Luiz Antonio Simas: Civilização Brasileira – São 1321 sambas de enredo analisados para fazer uma introdução e apresentação histórica desse estilo que é tão brasileiro.

Tristes Trópicos Claude Levi-Strauss: Companhia das Letras – Um clássico do autor sobre os detalhes pitorescos das sociedades indígenas e como elas se relacionam com o chamado velho e novo mundo.

Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil – Gustavo Venturi e Vilma Bokani (org.): Perseu Abramo – O livro é resultado de uma ampla pesquisa entre estudiosos e pesquisadores do assunto LGBT. Vários temas preenchem os textos contando com um texto final que sintetiza resultados e comparações com possíveis novas abordagens.

Como ler LacanSlavoj Zizek: Zahar – O contemporâneo e pop Slavoj Zizek pretende explicar o mestre francês da psicanálise o associando com várias áreas como literatura, filosofia, cinema e até em novelas mexicanas.

The Beatles: A História por trás de todas as cançõesSteve Turner: Cosac Naify – Uma edição típica da Cosac Naify com muitas ilustrações coloridas e a gênese de cada letra dos reis do ié ié ié.

Enciclopédia Jon Bon Jovi: Neil Daniels: Beast Books – Um enciclopédia da carreira completa de Bon Jovi.

As armas secretas: Julio Cortázar: Civilização Brasileira – Cincos contos fásticos do escritor argentino Julio Cortázar, um dos maiores invencionistas da literatura latinoamericana.

A Paixão Segundo G.H.: Clarice Lispector: Rocco – Um marco na literatura densa de Clarice Lispector. Uma mulher em crise e um lamento sobre sua situação no mundo como mulher e como ser humano. Totalmente em primeira pessoa, um verdadeiro desconcerto.

Notas sobre a Literatura Contemporânea (1)

Boa parte das discussões em torno da literatura produzida nos últimos 20 anos ficam no entorno da afirmação que nada mais se criou e que o discurso romanesco do século XIX perdeu fôlego, principalmente por flertar tanto com outras linguagens. Mas para os leitores ávidos não existe nenhum enfraquecimento, pelo contrário, a sensação é de que nunca houve tanta produção e proliferação de escrita ficcional. Vivemos o chamado boom dos novos escritores, tanto no Brasil como na literatura mundial e pensando nessa enorme teia de possibilidades e leituras que o blog do Joaquim vai trazer e indicar – em formato de notas – o estilo de alguns desses autores que tornam a Literatura do Presente tão interessante e necessária de leitura. Cada vez serão apresentados dois autores, um brasileiro e um internacional, e uma de suas obras.

Desde dos seus primórdios, a literatura é uma arte que funciona como leitura de realidade e a forma que o escritor decide trabalhar esse real é uma escolha muito particular e interessante. No Brasil, principalmente no período que se iniciou nos anos 90, a produção literária passou a ser mais fragmentada, curta e direta. O urbano e as mazelas desse espaço geográfico em um país de tantas desigualdades, passaram a ser o cenário e as personagens de boa parte da produção nacional.

Marçal Aquino é um dos nomes inicializadores desse estilo mais cru e voltado aos anti-heróis sociais trazendo narrativas extremadas de linguagem direta e instigante. Todos os personagens são criaturas do urbano e do cansaço cotidiano e sempre há uma dubiedade nestas figuras, não sabemos da sua natureza, elas oscilam entre serem os mocinhos e os bandidos e é nesse aspecto que reside a instigação na leitura.

Atualmente, a coleção Má Companhiada editora Cia das Letras surgiu com a intenção de relançar e tornar acessível a literatura dita como marginal, tanto nacional como mundial. Sendo que o termo marginal pode se referir à dificuldade desses autores a divulgarem suas obras ou ainda ao estilo de narrativa e personagens serem referenciados pelas margens sociais, o selo dá início relançando obras consideradas clássicas no estilo.

O romance O Invasor (Cia das Letras, 2011),de Marçal Aquino, é o primeiro nome a ser colocado em prática pela Má Companhia. O livro é de 1997, foi adaptado para o cinema pelo diretor Beto Brant e é de fato uma obra-referência do que seria feito anos depois pela geração chamada de 00. A narrativa da obra é formada por uma rede de intrigas e desentendimentos totalmente não alheia ao leitor que fica imerso na velocidade dos acontecimentos.

Ambientado em São Paulo, O invasor narra a história de três engenheiros, sócios numa construtora, que entram em conflito no momento em que são convidados a participar de uma falcatrua. Dois deles decidem eliminar o sócio que atrapalha os negócios, sem imaginar que estão colocando em movimento engrenagens que irão tragá-los num pesadelo de ambição, culpa e violência. Com certeza um livro imperdível e que abriria espaços para novos trabalhos do escritor/roteirista e afins.

Veja o booktrailer do livro:

Já em âmbito mundial, a literatura não segue tanto essa necessidade dos países emergentes na verborragia das questõe sociais. A maioria dos escritores são um pouco mais velhos que os atuais Brasileiros e transitam entre a realidade e a ficção de formas extremamente interessantes e de certa forma mais oníricas em relação ao hiperrealismo nacional.

Um dos nomes mais em voga é o catalão Enrique Vila-Matas, que esteve recentemente no Brasil. As suas obras são uma mescla de ensaio, crônica jornalística e novela. A sua literatura, fragmentária e irônica, dilui os limites entre a ficção e a realidade. Um dos aspectos mais interessantes de Vila-Matas é trazer á tona todo tipo de referência para que o leitor possa se situar mais confortavelmente dentro da narrativa. Cineastas, escritores e frases que aludem outras obras são recorrentes em boa parte da obra ficcional do catalão.

Suicídios Exemplares (Cosac Naify,2009)é o quinto trabalho de Vilas-Matas e uma das obras mais interessantes dele. Funcionando como itinerário irônico sobre o suicídio, a obra é composta por vários contos sobre o ato não consumado do suicídio. Paras as personagens criadas pelo catalão, mais difícil que se matar é justamente abandonar, em vida, a obsessão pela morte em si.

A ironia permeia cada conto que compõe a obra e muitos dos elementos, tais como referências literárias, obsessão pelo nada e ironia, se apresentam como futuros elementos tipicamente vilamatianos. Suicídios Exemplares é um ótimo ínicio para se prender no estilo do espanhol que desde, a década de 70, vêm reformulando muitos conceitos literários, justamente fazendo o que há de mais contemporâneo na literatura hoje: viver intensamente o hibridismo usando todas as referências e vivências cotidianas, usando a realidade como personagem e plano de fundo.

Como falar da produção literária atual sem falar das inúmeras influências que um escritor sofre hoje? Sem citar as formas de hibridização que a palavra escrita vem aplicando? Ou ainda, a estética do papel com o design e a migração – e em muitos casos, a oscilação entre um e outro – do papel para o multimídia?

Os dois livros citados nesse post – entre outros dos autores – estão disponíveis na Joaquim Livraria & Sebo, não deixe de conferir! E aguarde outras notas sobre a Literatura produzida no agora.

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