O jazz espiritual cósmico de Kamasi Washignton

Ele toca um jazz espiritual cósmico do mais alto escalão. (Pense em A Love Supreme, de John Coltrane.) O tipo de coisa que parece, ao mesmo tempo, uma jornada através do espaço exterior e do interior humano – mas sempre com um groove sólido… Will Welch, na revista GQ, 2016

Muitos escritores na primeira metade do século XX contaram sobre o efeito do jazz em suas vidas. Desde a chamada era do jazz e a boêmia das duas primeiras décadas do século, com Fitzgerald narrando bebedeiras da alta classe nova-iorquina até os vagabundos iluminados de Jack Kerouac, sendo inspirados a viver no ritmo 4/4 pelas ruas dos Estados Unidos. Porém escritoras como Toni Morrison mostraram que o gênero era uma das formas mais importantes da cultura afro-americana construir sua identidade e também se colocar no mundo. Artistas como John Coltrane e Miles Davis, para citar apenas dois, foram importantes não apenas para mostrar que a união da música clássica com a chamada black music, como o soul e o blues, era instigante, mas também foram figuras importantes para que uma identidade se fortalecesse e alimentasse movimentos ao longo do século, desde lutas pelos direitos civis ao atual Black Lives Matter.

“Como músicos, temos uma das maiores ferramentas de juntar pessoas, que é na música. Então, eu não diria [que seja] uma responsabilidade, mas temos a oportunidade de influenciar as coisas de um jeito ou de outro, sabe?”

O californiano Kamasi Washington é um desses artistas que, com menos de quarenta anos, já foi apontado como embaixador do jazz no século XXI por trazer um novo frescor para um dos principais gêneros musicais do século XX, altamente prolífico e mediado entre o clássico e a livre invenção, mantendo sempre a pertinência política. As fotos de Kamasi não deixam o comentário acima de Will Welch apenas flutuando em um balão de elogios, o saxofonista se impõe como algo cósmico em suas fotos, lembrando outro artista importante do jazz: o também compositor afrofuturista Sun Ra. Não apenas no visual Sun Ra e Kamasi se aproximam, ambos são, em suas respectivas épocas, figuras importantes para novas visões e abordagens dentro do gênero musical.

Kamasi Washington contribuiu com o rapper Kendrick Lamar no elogiado álbum To Pimp a Butterfly, de 2015, e fez o jazz contemporâneo alcançar um público ainda mais amplo e novo. Mas não à toa, o próprio saxofonista pesquisa desde muito jovem as conexões entre o hip-hop e o jazz, porém ele evita também as rotulações. “Eu vejo toda essa música como parte da minha herança. Jazz é uma parte de mim”, diz ele se referindo a um dos gêneros musicais que cresceu exposto no bairro negro em que cresceu, além dos lugares que frequentou desde criança e faziam parte de sua herança cultural. Chegou a trabalhar, por exemplo, com o rapper Snoop Dog e mantém um grupo apelidado de “Wu-Tang do jazz” que pensa relações entre o som clássico de L.A. e o West Coast Get Down, grupo de músicos conhecidos pela experimentação e fusão de gêneros.

Aliás, fusão e experimentação são os tons que torna o jazz do século XXI tão interessante, já que graças a essas explorações é que Washington se tornou acessível a tantos ouvintes que talvez nunca tivessem contato com um disco de jazz por conta própria. Em entrevista para o Guardian, Kamasi comenta a importância de bandas de metais, por exemplo, estarem presentes nos shows da Beyoncé e de ele mesmo tocar em um festival como o Coachella. “As pessoas estão aprendendo o valor que o jazz representa: idéias de musicalidade e permitindo que multidões de pessoas se expressem dentro de seu show. Está crescendo. Uma vez que você tenha um gostinho disso, é difícil voltar atrás. ” diz ele.

A atitude de Kamasi Washington não está apenas nas suas roupas, cabelo e a constante inspiração na cultura afro-americana, toda essa atitude de experimentação, trocas e novas possibilidades se relaciona diretamente com a postura do músico que cresceu no centro-sul de Los Angeles. A região se tornou sinônimo de gueto depois das revoltas de 1992, que deixaram muitos mortos e feridos em confrontos com a polícia, mas também se tornou um lugar onde a geração de Kamasi, e também mais jovens, fizessem explodir uma nova cena do jazz e outras musicalidades em constante diálogo.

Kamasi Washington faz uma pequena turnê pelo Brasil em março de 2019 e teremos a oportunidade de ver de perto essa figura importante do novo jazz, ou melhor, da retomada do jazz e outros gêneros que dialogam com a música afrodescendente, como temos visto também na música brasileira contemporânea.

A Joaquim Livros e Discos é uma das apoiadoras do show de Kamasi Washington na Ópera de Arame, dia 24 de março de 2019.

Revista “Leite Quente” e as peculiaridades de Curitiba

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Curitiba é uma cidade que inspira à criação de períodicos, suplementos culturais, fanzines e afins. Desde que Dalton Trevisan criou a Revista Joaquim na década de 40, a capital do Paraná engatou uma publicação atrás da outra. Foram Raposas, Nicolaus, Rascunhos e hoje Relevos e Cândidos – entre outros – circulam por além dos limites da cidade. O ritmo se mantém e parece sempre deixar uma semente para que quando algum título sair de circulação, outro apareça na sequência. No fim dos anos 80, logo de cara trazendo um Leminski mostrando as garras, surge a Leite Quente – expressão que denota o sotaque da região – a fim de mostrar à outros cantos do país do que Curitiba é feita e do que se alimenta.

Primeira edição da Leite Quente com Leminski
Primeira edição da Leite Quente com Leminski

A revista, que infelizmente hoje é pouco encontrada além da Casa de Memória de Curitiba e alguns sebos, teve sua primeira edição em 1989 – a qual já falamos aqui – e define bem o que seriam as nove próximas edições, sem uma periodicidade exata, mas que seguiriam firmes até 1992. O periódico era editado por Maí Mendonça, na época diretora de Patrimônio Cultural na Fundação Cultural de Curitiba e contava sempre com um assunto que norteava um ensaio escrito por um ou mais convidados, quase sempre de forma descontraída e linguagem coloquial, dialogando com o leitor como em uma conversa casual em que um morador da cidade apresenta as excentricidades aos visitantes.

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A Leite Quente seguiu após a estreia com Leminski e o pequeno tratado sobre o modo de falar do curitibano que afeta todos os seus costumes, incluindo os mais banais, como comprar uma cachorro-quente na rua. Nos dois anos seguintes tratou de assuntos peculiares como as famosas duas nevascas na cidade e o frio que molda o humor do curitibano, o comportamento do mesmo quando desce ao litoral levando na mala a carranca e suas maneiras urbanas, até um divertido e bonito ensaio fotográfico dos perfis dos curitibanos famosos.

Depois de tratar da linguagem do curitibano – e dos paranaenses em geral – os dois próximos editoriais trataram da formação cultural da cidade influenciada pelos estados do sul. Apesar de um pouco de exagero e saudosismo no 2º número intitulado de Passe a cuia, chê, fazendo uma extensa revisão da história dos gaúchos na cidade, a terceira edição, falando dos “catarinas” – um modo até simpático de tratar os migrantes do estado vizinho – abre com um Manoel Carlos Karam divertido, contando que estava indo para Nova Iorque em 1966 e sua pernoite na cidade já durava 23 anos.

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Número sobre a influência catarinense no Paraná.

A imagem que ilustrou a edição Os Catarinas do Paraná é a da divisa entre os estados e o trem Rápido Sul-Brasileiro que circulava entre eles, foto de Domingos Fogiatto, fotógrafo conhecido pelos registros clássicos do Paraná. A imagem é figurativa já que os dois estados já estiveram em disputas de território e a divisa sempre será a lembrança do início do século XX. A edição conta com ensaio de Deonisio da Silva, escritor, etimologista e um típico catarina em Curitiba.

A 4ª edição, intitulada de A Cidade sem mar voltou com Manoel Carlos Karam, dessa vez com um ensaio completo, sobre o comportamento do curitibano quando desce para o litoral. Karam era conhecido por seu tom irônico e divertido e justamente com esse humor peculiar do escritor e dramaturgo a edição arranca muitos risos, mesmo de quem não vive na capital paranaense, mas que também não é nenhum bicho de praia. Karam conta uma informação muito útil para quem um dia pretenda vir para Curitiba: por aqui só existem duas estações, o inverno e a rodoferroviária. A ilustração Mar imáginário na Praça Tiradentes, que estampa a capa – talvez a mais bela entre as edições – é de Abrão Assad e mostra ao fundo a Catedral Basílica de Curitiba e a praça Tiradentes, imersos numa enorme onda. A cidade não tem mar, mas o imaginário dá conta do recado.

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Curitibano não tem mar mas se diverte também.

“Eis aí um tema de tese. Existe sol em Curitiba? A cidade sem mar é obrigatoriamente uma cidade sem sol? A cidade com ano de duas estações – inverno e rodoferroviária – não tem direito a sol? Não há sol no inverno, mas há sol na rodoferroviária. Um enorme sol pintado na traseira dos ônibus da Graciosa, a empresa que tem linhas de Curitiba para o litoral. O curitibano leva o sol nas costas ao fazer o trajeto Curitiba-Atlântico.” (p.8, Dez. 89)

Engatando no fato do curitibano ser mal acostumado com o calor, o 5º número da Leite Quente estampou na capa um boneco de neve feito na mitológica nevasca de 1928. O ensaio ficou por conta da jornalista Rosirene Gemael, conhecida por atuar no jornalismo cultural do Paraná. É bacana perceber o bom humor em mais uma edição da revista, pois Rosirene consegue nesse ensaio definir – e assumir – o motivo do famoso mal humor curitibano: o frio. Mas calma lá, ela também deixa claro que a neve é capaz de aquecer o coração do curitibano e elevar o seu humor, aumentando a lista de excentricidades da cidade.

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Só existem duas estações em Curitiba: frio e a rodoferroviária.

Nada é mais peculiar ao curitibano que o frio. Homens da metereologia, transeuntes que soltam fumacinhas pela boca, anônimos e estatísticos que morrem pelas ruas (na verdade, em qualquer época do ano), pediatra, pneumologista, cobradores de ônibus lotado pedindo um passinho para trás, os engenheiros e arquitetos que não planejam casas e apartamentos voltados para o sol e farmacêuticos que garantem o melhor antigripal, são figuras típicas dessa Curitiba com apenas duas estações. Rosirene apresenta inclusive um vocabulário de expressões muito úteis para esse período do ano como banho de gato, veranico, chuva de molhar bobo e expressões como cerração baixa, sol que racha.

“Que a cidade não espere coerência e lealdade do frio. Definitivamente ele não é o melhor amigo do homem. É volúvel. E extremamente frívolo. Vem, se instala, se esparrama, se atreve ao máximo e de repente, sem aviso prévio some, para voltarem seguida, mais violento do que nunca.” (p.21, julho de 90, número 5)

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Atlético Paranaense ou Coritiba?

Depois de tratar das duas peculiaridades mais populares do curitibano – o frio e a falta de intimidade com o mar – o 6º número da Leite Quente trouxe um assunto caro à qualquer capital e cidade brasileira: o futebol. Com textos de vários autores e ilustrações do cartunista Solda, Atletiba Literário foi uma edição que conta a rivalidade dos dois principais times da cidade, na epoca, o Atlético Paranaense e o Coritiba. Escritores atleticanos e coxas – além de outros indefinidos quanto à identidade futebolística da cidade – contam suas peripécias quando o assunto é explicar o futebol de Curitiba e como lidam com isso. A edição é criativa a ponto de trazer capa dupla – uma vermelha e outra verde, claro – e assim o leitor pode começar a leitura pelo seu time favorito.

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Sobre as mocinhas da cidade.

O 7º número da revista auto intitula-se bem ao estilo de Dalton Trevisan: As Mocinhas da Cidade. As personagens femininas da sociedade curitibana, alocadas num contexto ao longo do século XX, são descritas pela escritora e bibliotecária Maria Thereza Brito de Lacerda. Ela faz um completo ensaio contando sobre como era ser uma jovem mulher entre as décadas de 40 e 50. O relato acaba denunciando uma cidade com costumes bastante provincianos e repleto de outros que mais parecem – hoje, pelo menos – um manual teatral de boas maneiras para mocinhas comportadas.

Os três últimos volumes da Leite Quente, já adentrados na década de 90, tratam de assuntos mais contemporâneos da cidade. A 8ª capa conta com o ensaio Nariz, Retratos de um Perfil Curitibano, da fótografa Vilma Slomp sobre – literalmente – os perfis curitibanos. O time clicado trazendo nomes como Poty Lazarotto, Ariel Coelho, Hélio Leites e Sylvio Back, tiveram seus perfis comentados por amigos e outras figuras conhecidas de Curitiba. Um aspecto interessante é a escolha que cada convidado fez para tratar dos perfis. Valêncio Xavier optou por um poema em prosa ao descrever Ariel Coelho, já outros preferem usar as lembranças e sentimentos para declarar um carinho ou mesmo respeito e admiração por uma pessoa. As fotografias de Slomp revelam muito sobre cada homenageado, parecendo que ela observou atentamente cada um e os fotografou em ângulos que realmente revelassem muito sobre o fotografado.

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O nariz e o perfil dizem muito sobre o espaço geográfico.

O 9º talvez seja o mais crítico dos 10 números da revista. Intitulado de Curitiba vista por um pé-vermelho, a edição conta com um ótimo ensaio – e fotos – do jornalista Nilson Monteiro, um pé-vermelho, ou seja, como são conhecidos os habitantes do norte do Paraná por conta da terra vermelha encontrada por lá. O olhar de Nilson tem um viés mais realista do que já contavam as outras edições. Monteiro analisa a Curitiba do ínicio dos anos 90 com um olhar de quem já não vê somente a cidade do futuro proposta nos anos 70 e 80. Trata de uma Curitiba mais urbanizada, a mesma que ganhou prêmios pelo mundo afora, não deixando de ser Brasil, abrigando pessoas do mundo todo e com todas as mazelas de um grande centro urbano como infra-estrutura e problemas de habitação na cidade e na região metropolitana. Nilson já comenta nesse ensaio que Curitiba parece a capital da buzina, denunciando um dos problemas mais persistentes nos últimos 20 anos, o trânsito impaciente. Claro que nem tudo são críticas, ele faz excelentes imagens e comenta sobre a organização da cidade, mas sempre com um olhar sincero e necessário de estrangeiro, encantado e impressionado.

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Olhando Curitiba com olhos maus críticos.

A última edição da Leite Quente, com o título de Noite Quente traça um paralelo sobre o que era “curtir” a noite em 1956 e o que isso significava em 1992. Escrito por Paulo Roberto Marins, ele faz um levantamento baseado em crônicas escritas nesse período. Desde bares a bórdeis conhecidos, botecos onde se bebe uma cerveja nas ruas a figuras típicas depois das 18h, a edição homenageia outra face de Curitiba, a cidade mutante e que conta uma história em cada esquina.

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É na noite que captura-se histórias.

Assim como boa parte de capitais e cidades maiores, Curitiba é uma cidade formada muito além das pessoas que nasceram por aqui, uma cidade de pessoas que escolheram ficar. Um dos motes mais presentes nas 10 edições da Leite Quente é a figura do estrangeiro, do personagem que vai se tornando curitibano e ganhando aspectos comuns da cidade. Um catarina que aqui ficou, um gaudério que estava passando, um pé-vermelho que só veio tirar umas fotos, ou ainda paulista, nordestinos e mais recentemente haitianos, todos completam essas características que formam a cidade. O mais bacana de revisitar todas as 10 edições da Leite Quente é perceber que ela consegue abarcar dois lados de Curitiba: um primeiro sobre a formação da cidade, seus costumes, seus mitos e linguagens e um segundo que traça uma linha no horizonte de que como a cidade iria se desenvolver depois dos anos 90 e ainda se mostra mutante todos os dias. Se você for uma dessas pessoas que quando passa um tempo em algum lugar gosta de se sentir personagem do espaço, tente encontrar algum volume da revista, provavelmente você se sentirá mais à vontade para pedir um cachorro-quente com duas vinas na Praça Tiradentes, irá abrir um sorriso em dias de muito frio com sol ou mesmo estender um pano quando passear em algum parque. Curitiba é feita de várias facetas, já diria Leminski no primeiro número da Leite Quente “Não admito viver numa cidade artificial” e os 10 volumes dão conta de mostrar que a cidade é naturalmente cheia de peculiaridades.

Agradecimento à Casa de Memória da Fundação Cultural de Curitiba por ceder as imagens de capa da Leite Quente e fornecer as revistas para leitura e escrita desse texto.

O que fazer em Curitiba: Vá para a rua!

Férias de verão e nem sempre dá ou é uma boa ideia ir para o litoral. As vezes você prefere ficar numa boa, viajar para um lugar mais calmo, conhecer outros cantos desse vasto Brasil e vem que você decide vir para Curitiba. Desde 2012 nós fazemos um post inaugurando o ano com dicas do que fazer na capital paranaense, Janeiro é um mês agradável na cidade e as ideias são válidas tanto para os que vem passear quanto para o curitibano que quer explorar um pouco mais a cidade. Pois bem, o post de 2015 tem o lema “Vá para a rua!”.

“Mas, pera aí. Tá calor. É verão, poxa”. Sim, é verão, mas em Curitiba o clima é ameno e apesar de ter seus dias bem quentes, em sua maioria o clima é gostoso passeando na casa do 27º, ótimo para caminhar, fazer um piquenique em um parque , tomar algo bem gelado em um bar com bom som, dar um passeio de bike e encontrar uma galera fazendo a mesma coisa que você.

Curitiba vem vivendo uma fase bastante interessante de revitalização dos espaços urbanos, principalmente envolvendo a região central e o centro histórico da cidade, e a nossa lista de lugares para você conhecer vai ser baseada nessa retomada dos moradores sobre a cidade, reaprendendo que a urbe pode ser uma uma extensão de casa ou somente um lugar para se sentir à vontade, parte de um todo.

Parque Gomm

Parque Gomm
Parque Gomm

À primeira vista você pode pensar que o Parque Gomm é apenas uma extensão verde de um shopping de classe alta localizado no bairro Batel, mas essa pequena extensão de área verde tem uma boa história para contar. Assim como acontece na maioria das grandes cidades – condomínios fechados, galerias, shoppings e grandes empreendimentos com suas grandes construções vão tomando conta de espaços antes ocupados por casas com jardins e áreas verdes – parece inevitável resistir ao confronto com as grandes corporações. Mas um grupo de pessoas provou que há sim como resistir.

Em 2013 surgiu um movimento, que agiu principalmente no Facebook, chamado de “Salvemos o Bosque da Casa Gomm”. Na época, moradores da região e de outras partes da cidade foram se movimentando para coibir uma parte do projeto original do shopping que previa que uma das entradas para a garagem cortasse o bosque, levando consigo o resto do verde que sobrou do terreno junto a casa que hoje faz parte do patrimônio histórico da cidade, a casa da família Gomm. Conhecido como o Bosque da Casa Gomm, hoje o espaço se chama Parque Gomm graças à iniciativas bacanas de pessoas que se comprometeram com o espaço. Desde plantações coletivas, trocas de livros, bandas tocando nos gramados, indo até confraternizações com empregados do shopping e festas de aniversários infantis, o espaço passou a respirar em meio a prédios, lojas e um enorme shopping. O parque é de todos e faz você perceber que ainda há vida além do asfalto, carros e o cotidiano típico de uma grande cidade.

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Dica: Acompanhe o facebook do projeto e veja a programação do Parque para ver de perto as ações feitas no espaço. Caso não dê, apenas apareça em uma tarde para sentar lá e fugir do barulho dos carros. Leve um pano e respire um pouco olhando para o céu!

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Rua São Francisco

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Dando uma navegada pelo Google, não é difícil encontrar na maioria das listas de lugares em Curitiba o Largo da Ordem como parada obrigatória. Claro, ali estão muitos bares da cidade, que servem as comidas típicas e, como uma porta de entrada para o centro histórico, ele oferece um bela amostra da história da cidade. Mas a nossa dica é que você desça o Largo da Ordem em direção ao centro e encontre a velha e revitalizada Rua São Francisco, conhecida em seus primórdios como a Rua do Fogo.

Carinhosamente conhecida como “A São Francisco”, além de ser nossa vizinha, é uma dos principais cruzamentos da rua Riachuelo que guarda uma longa e boa história no centro da cidade, inclusive virou livro recentemente na mão de duas sociólogas. Durante muito tempo a rua São Francisco teve um ou outro bar funcionando mas ficou relegada a se tornar um lugar cinza e abandonado no centro da cidade, afastando as pessoas como não é incomum nesse tipo de região.

Foto por "Brooklyn Eats & Drinks"
Foto por “Brooklyn Eats & Drinks”

Primeiramente houve um projeto que visava revitalizar as ruas que circulavam a Riachuelo, colocando novos postes, calçadas e paralelepípedo da rua, dando um ar renovado a região. Mas como esse processo só funciona mesmo quando as pessoas usuárias desse espaço urbano se envolvem, desde 2012 uma série de iniciativas culminaram que a São Francisco seja hoje a responsável por uma nova retomada do centro da cidade, como um lugar humanizado e agradável de se estar.

As duas quadras que compõem a rua mostram uma diversidade bacana que denota um pouco o espírito do lugar. Tem de tudo, os bares antigos e os novos para as diversas tribos, restaurantes, cafeterias, lojas independentes, barbearia. Tem comida brasileira, mexicana, latina em geral e hambúrgueres, sem deixar de lado uma excelente variedade de cervejas que cabe em todos os bolsos e gostos. Você pode escolher ficar dentro dos bares conversando ou chamar os amigos para fora, a rua fica cheia nessa época do ano criando um clima agradável e alegre, sempre tem um ou outro artista tocando na rua e recentemente a ideia de pequenos bazares de produtos independente e até zines vem surgindo no mar de ideias de jovens empreendedores empolgados com a região e pensando no sustentável.

Foto por "Negrita Bar"
Foto por “Negrita Bar”

Uma dica bacana é se caso você passe pela região bem cedo, em horário que os bares e alguns estabelecimentos estejam ainda fechados, observe o trabalho bacana que artistas de rua fizeram. A ideia, organizada pela produtora Mucha Tinta foi chamar artistas para criarem ilustrações nas fachadas das lojas da rua, várias figuras da cidade e até o santo que deu nome a rua podem ser encontrados ali com cores e um ar alegre inconfundível no centro.

Dica: Se você gostar de uma boa movimentação chegue depois das 18h, sempre tem um som gostoso saindo de algum ponto da rua. E sobre o que comer, vá inspirado! Difícil escolher um lugar só.

Endereço:

Praça de Bolso do Ciclista

Praça de Bolso do Ciclista
Praça de Bolso do Ciclista

Se você ir até o fim da São Francisco vai desembocar na rua Presidente Faria que há pouco tempo atrás era apenas a “rua das canaletas dos biarticulados” ou que dá acesso ao Passeio Público. Com a criação da Bicicletaria Cultural em 2011 – projeto inclusive premiado internacionalmente – a rua já foi ganhando outros ares. Magrelas podiam ser estacionadas e reparadas, a movimentação cultural foi se tornando inevitável e todo tipo de ação como performances, bazares e cicloativismo foram se tornando parte do cotidiano da região e assim surgiu a necessidade de um espaço exterior, afinal as bicicletas são da rua, e através de um movimento de cidadania, como foi o do Parque Gomm, surgiu a Praça de Bolso do Ciclista.

A construção da Praça de bolso do Ciclista
A construção da Praça de bolso do Ciclista

O pequeno espaço, até então baldio, na esquina da São Francisco com a Presidente Faria, foi ganhando vida na mão de cidadãos empolgados, criativos e dedicados, verdadeiros ativistas do urbano. A praça de bolso ganhou cores, árvores e outras plantas. Ganhou estacionamento de bikes, celebrações, festas, feiras e discussões e hoje é tão requisitada quanto as praças famosas da cidade. Sugerimos que você não deixe de sentar lá uns minutinhos e tirar fotos das artes e plaquinhas penduradas com dizeres e imagens que encorajam uma vida mais pulsante no centro da cidade.

Dica: Todas as quintas de manhã acontece uma feirinha de produtos orgânicos no local, venha de bike e aproveite o dia.

Endereço:

Joaquim Livraria & Sebo

Foto pela Imer360
Foto pela Imer360

Como vizinhos de toda essa movimentação é empolgante ver que a região central está ganhando cores e principalmente, o sentimento de que não estamos sozinhos. A praça de bolso do ciclista e a chamada primavera da rua São Francisco resultou em mais vida, dando mais sentido, ânimo e sintonia para os independentes do Centro da cidade.

Nós somos uma livraria e loja de discos independente que atua com o conceito de sebo no sentido de trabalhar com o que há de raro e clássico em se tratando de usados e em sintonia com as novidades do mercado editorial em se tratando de novos. Somos vizinhos da São Francisco, ficamos na paralela Alfredo Bufren, bem perto do pŕedio histórico da UFPR. Nosso espaço é bem autoral e as paredes, através dos posteres e afins, contam um tanto da história da loja na ativa desde 2006. Sempre vai ter um som rolando e adoramos trocar ideia com os clientes.

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Para nós é muito importante e enriquecedor encontrar pessoas que apoiem o independente, que prefiram sair por aí conhecer novos lugares do que sempre frequentar os velhos lugares. Nós mesmos procuramos sempre ir além da loja física, participamos de bazares, feiras de vinil e outros eventos que nos chamam. Se você busca discos e livros não deixe de passar por aqui dar um “olá” ou mesmo de nos acompanhar nas redes sociais, você também pode ser parte do apoio às lojas, marcas, bares e artistas independentes e só sair ganhando com isso.

Dica: Passe por aqui e escolha um disco para ouvir na hora, fazemos questão que sua visita tenha uma boa trilha sonora.

Esperamos você!

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Update:

Ruas Trajano Reis e paralelas

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O bairro São Francisco, junto com uma parte do Mercês, é um dos principais pontos do Centro Histórico de Curitiba. É aqui que você vai encontrar o Largo da Ordem, as Ruínas de São Francisco, a Mesquita Imam Ali ibn Abi Talib, o Museu Paranaense e uma série de outros pontos turísticos que podem ser feitos a pé ou de bike. Se você sentir fome ou querer tomar uma boa cerveja com um som legal basta descer a rua Trajano Reis.

Trajano e paralela tomadas pelas pessoas. Foto por La Santa Bar
Trajano e paralela tomadas pelas pessoas. Foto por La Santa Bar

A rua Trajano Reis começa no largo da Ordem e termina na Praça do Gaúcho ou também conhecida como a praça do skate. São apenas cinco quadras mas a rua é repleta de excelentes opções. Assim como a São Francisco tem para todos os gostos, desde pizza, hamburguer artesanal, comida vegetariana, mexicana e afins. À noite a rua conta com alguns pubs pequenos – e até uma garagem acolhedora – em que rolam DJs, bandas independentes e outras baladas temáticas. Fique ligado também nas ruas paralelas à Trajano como a Paula Gomes e a Inácio Lustosa que tem barzinhos que são pérolas para quem curte rock, punk e folk.

Dica: Fique atento aos nomes do bares e pubs da rua e arredores, tem desde The Clash á filmes do Kubrick.

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Então é isso. Depois de conhecer o pequeno oásis verde do Parque Gomm, descer para o centro, pelo bairro São Francisco, passear dar uma descansada na Praça de Bolso do Ciclista e antes de conhecer os bares da São Francisco e da Trajano Reis, dando a volta no quarteirão, passe aqui na Alfredo Bufren trocar uma ideia, ouvir um bom disco ou sentar e ler um bom livro. Há vida além do ar-condicionado e a cidade está pulsante!

Uma dica importante é lembrar que, apesar de toda essa movimentação bonita que está acontecendo no centro de Curitiba é importante que você mantenha os mesmo cuidados de segurança de qualquer outro centro urbano, certo?

Agenda:

  • Você vem em Curitiba no Carnaval? Nos dias 13, 14, 15 e 16 acontece o Psycho Carnival, evento conhecido mundialmente por reunir no Carnaval excelentes bandas do gênero além da venda de produtos relacionados ao estilo. Mais infos aqui

Curitiba, 321 anos

“Há uma Curitiba cruel, outra fiel. Uma que aprisiona e maltrata, outra cura tuas feridas com a salivinha gelada dos rocios.

Há uma Curitiba sonâmbula, vigiada por uma lua de ossos contra a qual se lançam os cães da insônia, e uma plácida Curitiba em quarto-crescente, com suas tetas povoadas de êxtases e ternuras”

Em Canto de Amor e Desamor a Curitiba, no livro Como Ser Invisível em Curitiba, de Jamil Snege, Ed. Criar

snege-comosetornarinvisivelCuritiba completa neste sábado 321 anos, e nestas datas não há como deixar de prestar homenagens a esta cidade que nos acolhe e que amamos.
Diz o ditado que quem ama cuida…
E o cuidar deve ir além das frases feitas, enaltecedora de uma Curitiba idealizada e pouco real, de expressões como cidade de primeiro mundo, cidade europeia dos trópicos, capital ecológica do Brasil.

Somos uma cidade brasileira que como todas as grandes cidades deste país continente tem seus encantos e problemas, mas por soberba, omitimos em nosso discurso os problemas e tentamos acreditar nas fantasias.

O cuidar requer conhecer e se reconhecer na cidade construída não só por imigrantes europeus e asiáticos, mas também na grande maioria de brasileiros vindos das mais diversas regiões do país.

É se reconhecer em Leminski’s, Trevisan’s e Valêncio’s Xavier que tão bem representam parte de nossa literatura e que, pasmem, não se parecem em nada com o estereotipo do curitibano médio, ou ainda ouvindo Nho Berlamino e Nhá Gabriela, Beijo AA Força ou Blindagem.

Se reconhecer na Curitiba Underground com suas inúmeras tribos e cores e nos personagens folclóricos que povoam nossas ruas.

Entender que melhorar não passa por uma mudança cosmética de nomes de bairro, mal exemplo que começou lá com a Vila das Torres, depois o Champagnat e agora os vazios de sentido Soho’s e outras bizarrices com Arte Cívico, Jardins, Centro Cultural, mas sim na revitalização social dos espaços públicos da cidade.

Que além de um bom transporte, educação e saúde precisamos mais pedreiras, mais praças, rios limpos, parques (o bom exemplo da luta pelo Parque Gomm), mais espaços para bicicletas, cinemas da Fundação Cultural, feiras culturais, quadras culturais, museus e teatros funcionando, viradas culturais, bibliotecas.

Uma cidade viva, que respeite a diversidade, que trate bem seus moradores.

“Há uma Curitiba de afogados, degolados e suicidas – e sobre essa Curitiba nós clamamos tua indulgência, ó Senhor.

Há uma Curitiba de glutões, vendilhões, usurpadores – e por sobre esta Curitiba de avidez e cobiça nós rogamos que espalhes as cinzas da tua ira.

E há ainda a Curitiba dos puros, dos corações desarmados, daqueles que a cada manhã refazem de qualquer retalho a teia de suas vidas – sobre esses, ó Senhor – velhos, viúvas, operários, menininhos – sobre eles a torrente de tua magnanimidade, porque são eles que que retecem a teia de Curitiba, amém.” (Jamil Snege)

Feliz aniversário a grande Curitiba!

Por Marcos Ramos Duarte, o “Joaquim”.

"Umbigo de Curitiba", Carnaval da Garibaldis e Sacis, foto por Eduardo Baxo
“Umbigo de Curitiba”, Carnaval da Garibaldis e Sacis, foto por Eduardo Baxo

Frente e Verso, um LP em homenagem a Paulo Leminski

“Lembrem de mim
como de um
que ouvia chuva
com quem assiste missa
como quem hesita, mestiça
entre a pressa e a preguiça”

leminski-recordPaulo Leminski, o poeta marginal, o polaco de Curitiba, o homem das muitas línguas e um-pouco-de-tudo-mais. Com o lançamento de “Toda Poesia” (Companhia das Letras), em 2013, parece que Leminski entrou no imaginário brasileiro sem fazer muito esforço, estando presente desde grafites em muros, haicais escritos em poltronas de ônibus, até em grandes exposições em São Paulo e Curitiba.

Desde a morte de Leminski em 1989, as memórias sobre o poeta, pai, amigo e criador sempre tentaram se manter presentes no imaginário do curitibano. “Frente e Verso”, um vinil promocional de época, distríbuido pelo Sistema Sul de Comunicação (hoje conhecido como a emissora RIC TV de Curitiba) em alguma celebração de fim de ano, é um desses pequenos registros do tempo que ganha valor atemporal.

Criando um mosaico polifônico de comentários, histórias e detalhes, o áudio de pouco mais de 34 minutos é um registro confortável e íntimo de pessoas que passaram momentos únicos ao lado do hiperativo artista. Alice Ruiz conta da primeira vez que viu aquele “barbudo que lembrava um chinês” subiu ao palco da reitoria para declamar um poema, a ainda pequena Estrela Leminski lembra da textura do cabelo do pai e artistas lembram de como era inspirador ouvir as ideias – aparentemente – mirabolantes e desenvolvidas de Paulo Leminski.

Como quem não quer nada, Leminski entra em cena em “Frente e Verso” com seu sotaque “leite quente”, como música de fundo de um e outro comentário, nas letras embaladas pelo violão de algum amigo. Meio que dizendo para quem ouve, que ele vai estar sempre presente, jamais esquecido, assim como diz Helena Kolody ao final do áudio “Ele é um valor que ficará para sempre, porque além de inteligência ele tinha muita personalidade. Então, o que ele fazia era diferente de tudo que se fez antes e depois dele. O nome do Leminski não vai se apagar, ele vai crescer pelo tempo afora, como aqueles que são geniais”.

Curitiba Underground: O Documentário

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Blindagem, Beijo AA Força, Relespública, Catalépticos, Bad Folks, The Tods são apenas alguns nomes para trazer à tona a fama de cidade do rock underground que Curitiba ganhou ainda nos anos 80. “Curitiba Underground” é um documentário de 27 minutos, dirigido por Patrícia Filus, que tenta remontar brevemente a cena roqueira da capital paranaense no fim dos anos 80 e década de 90.

Contando com depoimentos dos protagonistas da época, jovens que presenciaram ao vivo os movimentos de rock de garagem, fanzines e DIY, os relatos remontam as memórias de uma verdadeira guerrilha que todos participavam para que os shows lotassem os bares onde tocavam e que as bandas não fossem esquecidas no dia seguinte. Os cartazes e flyers, que na época eram a única maneira de divulgar os eventos, assim como sair com os instrumentos nas costas, vestidos à caráter pelas ruas divulgando o seu próprio rock, são algumas das histórias contadas em pouco menos de meia hora.

O documentário ainda mescla imagens de festivais, como o “Leite Quente” de 1995 com a “Virada Cultural SQN” de 2013, traçando um paralelo em como a cidade ainda é forte na cena independente. E mesmo com as boas lembranças compartilhadas os entrevistados ainda comentam sobre como algumas coisas não mudaram, como a falta de apoio das rádios locais e maior adesão de casas noturnas deixando claro que a cena deve se manter unida. Tudo isso faz de “Curitiba Underground” um passo para se pensar sobre a chama independente que ainda circula pelas ruas da cidade.

Ah, vale mencionar que menos de um ano atrás o jornalista Hermano Vianna – no boom sobre a poesia do nosso polaco maluco Paulo Leminski – escreveu sobre o consumo “da droga cultural de Curitiba”, que segundo ele é uma das cidades mais prolíficas quando se trata de rock e poesia, um verdadeiro celeiro de arte underground. Será que vamos ter em breve um revival da cena empolgada dos anos 80 e 90? Pois como bem cita o guitarrista da Relespública no documentário, a famosa frase de Raul Seixas “Um sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. E é o que esperamos!

Antes que o Leite Quente esfrie

320ANOSCuritiba do muito pinhão. Curitiba cidade-teste. Curitiba aldeia de ares provincianos. Editorial da Revista Leite Quente, nº 1, 1989

leitequente89-leminski-oraçãoJoaquim, Raposa, Nicolau, Rascunho (…) Curitiba é um dos lugares mais prolíficos para que as revistas literárias e suplementos culturais sempre apareçam. Como já falamos em outro post, hoje a cidade não coloca medo nos seus artistas que multiplicam suas artes em várias mídias e não tem medo de mostrar a sua cara.

Em 1989, a capital paranaense completava 296 anos e surgia uma nova revista para tratar de assuntos curitibanos, o modo de vida e a poética da cidade. Intitulada com uma expressão que designa o modo bem peculiar do sotaque do sul do país, Leite Quente teve sua estreia em março daquele ano com uma edição totalmente escrita por ninguém menos que o poeta-e-tantos-outros Paulo Leminski.

leitequente89-leminski-capaLeminski morreria três meses depois do lançamento da revista e deixou nela sua assinatura de curitibano que foi, com olhar peculiar ora apaixonado pelas araucárias ora irritado com o provincianismo de quase três séculos. A primeira edição da Leite Quente, editada pela Fundação Cultural de Curitiba, leva o título de “Nossa Linguagem” e quem melhor que o querido cachorro louco para falar dessa Curitiba?

Com sua escrita sarcástica, mas já apaziguado com a vida e ainda assim poeta, Leminski deixa nessa edição o que talvez seja o seu tratado de cumplicidade com Curitiba. Se você está familiarizado com a escrita do poeta sabe muito bem que ele não fez disso um discurso dramático e saudosista. Muito pelo contrário, o escritor já começa com uma breve oração – cheia de brincadeiras com as palavras – à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais pedindo por piedade e em seguida inicia os seus artigos sobre a linguagem, modo de se vestir e viver peculiar aos habitantes da capital.

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Os textos que compõem essa edição da Leite Quente podem ser lidos como um grande ensaio de Leminski sobre o comportamento do curitibano. Começando pelo jeito de falar que fica entre um jeito sulista e paulista com suas expressões peculiares oriundas dos muitos imigrantes que aqui chegaram. Em seguida, com uma série de fotos históricas dos habitantes da cidade – documentos da Casa de Memória – ele faz divertidas legendas tratando da forma como as roupas influíam no comportamento do curitibano desde os anos 1900.

O curitibano médio não pratica o relacionamento instantâneo dos litorâneos, de pronta chegada, rápida abordagem e intimidades súbitas. O jeitão “tudo-bem” de cariocas e baianos, pode exemplo. Nem é nossa empáfia gaúcha de quem chega dizendo “no más, e me espalho nos baizinhos, dou de prancha, nos grandes, dou de talho”. (p.12)

Claro que Leminski não deixaria de falar do famoso jeitinho curitibano pouco dado à extroversão, ele arremata certeiro dizendo que “O Curitibano é cauteloso, meio arisco. Mas não tímido: analítico”. Ele também comenta sobre a pluralidade de etnias e línguas formadores da cidade que também influenciaram esse jeitão desconfiado. O própio Leminski, mestiço de pai polonês e mãe negra, dado a um pouco de tudo e falante de muitas línguas entendia muito bem essa identidade misturada da cidade cinza.

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Falando da expressão cultural da cidade, comentando sobre os amigos compositores, a cinemateca que recuperou a memória audiovisual do Paraná, Paulo Leminski finaliza com um tom saudosista de sua memória, parecendo que sabia que logo ele também viraria uma “ruína imaterial” – como ele chama o esquecimento que Curitiba dá ao que já foi,  ele diz  “Não admito viver numa cidade artificial”. Ele fala das ruas que costumava passar e já não existem, critica a cidade-modelo aclamada na Europa no fim dos anos 80 e diz , ele gostava mesmo era do tom underground que a cidade podia oferecer aos olhos dele.

Essa edição comemorativa da revista, de 24 anos atrás, marca o começo e o fim de períodos. Era a fama de Curitiba-modelo, perfeita para se viver ao olhos dos europeus e americanos e quase possível de ser vista pelos que a atravessam todos os dias, também era a despedida de Paulo Leminski, o poeta que parece, nesses agora 320 anos, ter sido redescoberto pelos curitibanos e brasileiros, ajudando que a comemoração desses mais de três séculos tenha uma pitada de poesia, antes que o leite quente esfrie.

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