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Gilberto Gil e Caetano Veloso em Londres

É agosto de 1970 e há 600 mil pessoas em um campo na Ilha de Wight, assistindo o maior festival de música já sediado por ali. Irão, ao longo dos cinco dias de evento, presenciar performances do The Who, The Doors, Joni Mitchell e Leonard Cohen, além do último show de Jimi Hendrix. Mas as atrações principais do segundo dia são dois brasileiros desconhecidos, acompanhados por uma trupe de dançarinos nus cobertos por um plástico vermelho. A dupla começa cantando em português, acompanhada por tambores africanos e flauta. Em seguida, ligam suas guitarras e tocam um set enlouquecido, misturando rock psicodélico, funk e samba.

Os dois caras são Gilberto Gil e Caetano Veloso. Passará algum tempo antes de que estejam lotando arenas pelo mundo afora ou, no caso de Gil, servindo como ministro no governo brasileiro. No verão de 1970 são apenas peças exóticas na cena underground de Londres, improvisando com o Hawkwind e frequentando galerias de arte, comunidades hippies e festivais de música.

“Fiquei atônito ao descobrir como esses caras eram famosos”, diz Nick Turner do Hawkind. “Pareciam tão humildes, tão generosos, tão ansiosos para improvisar com qualquer um.”

Dois anos antes, Caetano e Gil eram dois dos maiores artistas brasileiros, estrelas influentes na sorrateira e subversiva cena de rock psicodélico brasileiro, a Tropicália. Isso durou até a ditadura militar decidir que eles eram uma ameaça. Em dezembro de 1968 foram presos em São Paulo. Tiveram suas cabeças raspadas, ficaram dois meses encarcerados e outros quatro em prisão domiciliar.

“Os militares queriam que deixássemos o país”, diz Caetano. “Nos deixaram fazer um show para levantar dinheiro para a passagem de avião”. Enquanto o resto do mundo assistia às aterrissagens na lua em 21 de julho de 1969, Caetano e Gil se preparavam para deixar o Brasil. Não voltariam por três anos.

“Nosso empresário foi para a Europa na nossa frente, para ver onde moraríamos”, diz Gil. “Lisboa e Madri estavam fora de questão porque Portugal e Espanha também passavam por violentas ditaduras. Paris tinha um ambiente musical entediante. Londres era o melhor lugar para um músico estar.”

Gil, Veloso, seu empresário e suas respectivas esposas acabaram morando em uma casa no número 16 da Redesdale Street, no Chelsea, em Londres, um lugar que amigos brasileiros que os visitavam chamavam de “a Capela Sistina”. Juntos frequentaram museus, galerias de arte e jogos de futebol, e aprenderam a amar o Santo Circo Voador, do Monty Python – Veloso diz que esse surrealismo influenciou algumas de suas músicas mais experimentais.

Durante seu primeiro ano em Londres, Caetano ficou deprimido e com saudades de casa, enquanto Gil era bem mais otimista. “Nós chegamos na semana em que os Beatles lançaram Abbey Road, vimos os Rolling Stones na Roundhouse, improvisamos com ótimos músicos, encontramos pessoas incríveis, ouvimos reggae pela primeira vez”, diz ele. “O fato de que você podia andar em direção a um policial e lhe pedir informações – no Brasil isso simplesmente não acontece!”

Enquanto esteve na preso, Gilberto Gil adotou uma dieta macrobiótica e começou a meditar e investigar o misticismo oriental. Chegou em uma cena hippie londrina que compartilhava seus novos interesses, e rapidamente estabeleceu relações com muitas figuras-chave da contracultura da capital, incluindo o jornalista e vocalista anárquico Mick Farren, Turner e Thomas Crimble do Hawkwind.

Gil, Caetano e suas famílias.

Através de Crimble, Gil envolveu-se com um grupo de boêmios abastados que estavam montando o que viria ser propriamente o primeiro festival de Glastonbury. “A primeira vez que visitei a fazenda Worthy, no outono de 1970, Gil estava lá com Arabella Churchill, Andrew Kerr e Thomas Crimble (co-fundadores do Festival de Glastonbury)” diz Bil Harkin, que desenhou o palco pirâmide original de Glastonbury. “Todos passaram meses na fazenda de Michael Eavis, fumando maconha e discutindo formas de realizar um festival gratuito. Havia ideias de unificar o espiritualismo, o clima, arte e a música.

“Um dos modelos era o carnaval brasileiro, um exemplo perfeito de um festival de artes gratuito, multidisciplinar e quase espontâneo. Lembro-me de ter conversas com Gil sobre medicina alternativa, dervixes giratórios, música africana, indiana e latino-americana, além do poder da música como uma força de cura. Ele estava tinindo de ideias e isso foi crucial para a forma como o festival se desenvolveu.”

Gil convidou Caetano para algumas das primeiras reuniões de Glastonbury – Jarkin lembra dele sugerindo que o palco principal fosse no formato de uma cabana gigante. “Todos gostaram da ideia da tenda”, diz Harkin. “Isso quase ofuscou a minha pirâmide. Se as coisas fossem diferentes, 40 anos depois, poderiamos estar assistindo a um palco-cabana!” Gil permaneceu no festival para se apresentar, aparecendo brevemente em Glastonbury Fayre, filme de Nic Roeg.

Caetano também fez música no exílio, mas ele tendia a ser mais introvertido. Ele brinca descrevendo seu disco de 1971, London London [Caetano Veloso 1971], como “um registro de depressão”. Há músicas como Little More Blue, com a letra “Um dia tive que deixar meu país, praia calma e palmeira” e a faixa-título, com um lamento agridoce “grama verde, olhos azuis, céu cinza, Deus abençoe”.

“Sempre admirei o rock britânico”, diz ele, “que chamo de ‘neo-rock’. Em Londres eu consegui vê-lo de perto: Led Zeppelin, T-Rex, Pink Floyd, o The Who, a Incredible String Band, Jimi Hendrix e, claro, os Rolling Stones. Aprendi que o grande rock não era sobre volume e selvageria, mas sobre precisão e economia.

“Também aprendi sobre autenticidade. Inicialmente eu era relutante em tocar guitarra nos meus próprios discos e delegava isso a músicos mais qualificados. Mas produtores me convenceram que as fraquezas do meu estilo de tocar guitarra eram parte do charme da música. Isso foi muito libertador.”. Caetano ainda tem um grande interesse pelo rock alternativo britânico, seu disco de 2006, o Cê, tem empréstimos do post-punk experimental.

As dívidas de Gil com seu exílio são mais complexas. Seu primeiro disco londrino, Gilberto Gil (Nêga), tem ele tocando versões solo e acústicas de músicas de Steve Winwood, Beatles e Hendrix, mas o reggae tornou-se o legado mais duradouro de seu encanto na Inglaterra. “Fomos sortudos de estar em Notting Hill no momento em que a cultura da Jamaica – Jimmy Cliff, Bob Marley, Burning Spear – estava estourando”, diz ele. “Eu também estava fascinado por tudo da cultura Rasta. Me ajudou a identificar o que tinha de africano na cultura brasileira.”. Mais tarde, Gil levaria essas ideias de volta para o Brasil, engajando-se com políticas negras e sendo pioneiro em alguns dos primeiros híbridos de samba-reggae.

Ambos olham para seu tempo em exílio com carinho. “Nunca quis viver fora do Brasil.” diz Gil. “Mas Londres é uma das cidades mais interessantes do mundo, e tenho sorte de ter vivido lá.” “Só agora posso dizer que gosto da música que gravei ali” diz Caetano. “As coisas que aprendemos no exílio nos tornaram músicos mais criativos. Também nos tornou pessoas mais fortes.”.

Traduzido do The Guardian, escrito por John Lewis, tradução de Emanuela Siqueira

A História se repete, a Primeira vez como Tragédia e a Segunda como Farsa

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19 de março de 1964: Acontece a primeira de uma série de manifestações chamadas de “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, elas funcionam como resposta de parte da sociedade diante de uma série de ações que, o então presidente, João Goulart, anuncia para o país. Esta parte da sociedade acredita que as ações propostas pelo presidente – como uma possível reforma agrária – seja o primeiro passo para a instauração de um regime comunista no Brasil. Na época foram cerca de um milhão de brasileiros às ruas, apoiados pela Igreja, grandes empresários, latifundiários, partidos conservadores, grande imprensa e de forma velada, o governo norte-americano.

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Marcha da Família com Deus, em 2014

22 de março de 2014: Os principais jornais do país noticiam que em algumas capitais do Brasil, acontecerá a “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”. O maior número de manifestantes foi na capital paulista, acredita-se que cerca de 500 pessoas marcharam pela volta da Ditadura Militar, o fim da corrupção e comunismo no país. No Brasil inteiro a adesão dos que foram foi bastante baixa.

Além da pequena adesão à Marcha proposta em 2014, 50 longos anos também separam ambas as ações. Em 1964, a “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade” foi o estopim para o Golpe Militar que aconteceu no 1º de abril de 1964, um dia da mentira que durante 21 anos foi uma verdade dolorida para uma boa parte da população brasileira e que mesmo 30 anos após o seu fim e início da abertura política , não apagou as cicatrizes até hoje estão abertas.

Não são poucas e nefastas as heranças que o regime militar deixou e vale a pena enumerar algumas:

Impunidade e violência, a total ausência dos direitos humanos – Casos como da doméstica Cláudia da Silva, arrastada por uma viatura policial, ou ainda o sumiço do ajudante de pedreiro Amarildo, supostamente confundido com traficante e morto pela polícia, causam espanto e indignação atualmente. Este tipo de arbitrariedade se institucionaliza com o regime de 1964 e em particular a depois do AI-5 em 1968. Todos que lutaram para derrubada do regime de exceção foram perseguidos, muitos foram torturados, exilados, além dos que perderam a vida. Este comportamento autoritário ainda hoje perpassa nossa sociedade, ainda temos dificuldade em aceitar as diferenças e para muitos só a força pode reestabelecer uma hipotética ordem na nossa sociedade.

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registro de Evandro Teixeira

Censura aos meios culturais – As redes sociais hoje não deixam escapar praticamente nada que aconteça no país ou no mundo. Hoje não dependemos apenas da grande imprensa, há uma profusão de blogs, imprensa alternativa e informação em tempo real, mandada por qualquer um que tenha acesso a rede e uma câmera em seu celular. Durante a ditadura, todos os poucos meios de comunicação de massa foram censurados, até àqueles que num primeiro momento saudaram o novo regime.

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registro de Evandro Teixeira

05gNa área cultural o teatro foi o responsável pelas primeiras reações do meio artístico. O Grupo Opinião do Rio de Janeiro, formado logo depois do golpe, ficou conhecido por peças mais politizadas. Reunindo artistas ligado à União Nacional dos Estudantes – UNE, e outras figuras importantes da época como Nara Leão, João do Vale e Maria Bethânia, colocou em cartaz o musical “Opinião” e a montagem “Liberdade, Liberdade” que questionava o regime e em 1968 tudo se tornou mais complicado.

Tudo passava pela censura, de telenovelas, matérias de jornais, letras de música, livros, cinema e teatro. No início dos anos 70 dois importantes escritores, Érico Veríssimo e Jorge Amado, que vendiam muito bem inclusive fora do país, se manifestaram avisando que simplesmente parariam de publicar suas obras no Brasil, a censura oficial faz um pequeno recuo, mas mesmo assim, estima-se que mais de 200 livros foram censurados.

Um modelo de censura televisiva

Um modelo de censura televisiva

O auge da censura vem em 1968 quando foi decretado o AI-5, uma resposta do regime à uma série de ações de descontentamento da pequena sociedade civil organizada. Em 1967 eventos como o III Festival de Música Popular Brasileira, em que Gilberto Gil e Caetano Veloso davam o pontapé do que viria a ser a Tropicália, trazia canções manifestos e era transmitido em rede nacional. O diretor de cinema Glauber Rocha também lançava o filme “Terra em Transe” repleto de metáforas sobre as incoerências e ações do regime militar. E em junho de 1968, após a morte do estudante Edson Luis, acontece a passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro, considerada a grande manifestação contra ditadura militar. Em dezembro desse ano o AI-5 suspende várias garantias constitucionais, o congresso nacional é fechado por quase um ano e a linha dura do regime implementa uma série de ações que culminaram com os desaparecimentos, a torturas e mortes de muitos dos que lutavam contra o regime. É neste período também que há uma grande “diáspora” de brasileiros para o qual só restava o exílio. Boa parte da intelectualidade engajada sai do Brasil ou padece nos porões da ditadura.

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III Festival de Música Popular Brasileira

Também é importante não esquecer que o regime fechou e tornou ilegal qualquer forma de organização dos trabalhadores: sindicatos, associações profissionais e estudantis, ligas camponesas foram alvos desde os primeiros dias do golpe.

Além da falta de liberdade, os anos de chumbo trouxeram outras marcas profundas para nossa sociedade: um congresso nacional sem força para modificar os rumos da política, um bipartidarismo que acentua interesses pessoais em detrimento a programas partidários nítidos, não podíamos escolher nossos governantes, eram os militares que os escolhiam prefeitos, governadores e presidente, há um aumento da corrupção, vide escândalos como o da construção da ponte Rio-Niterói, ou a rodovia transamazônica, uma ocupação da Amazônia que nos custa até hoje um desmatamento florestal enorme, conflitos agrários e de ocupação ilegal de terras indígenas. Neste período a inflação atinge níveis extratosféricos.

Na saúde não há um atendimento a toda população, a mortalidade infantil atinge níveis muito ruins, na educação é adotada matérias que reforçam ideais defendidos pelo regime como moral e cívica e o ensino religioso obrigatório e outras como filosofia e sociologia são abolidas do currículo escolar.

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registro de Evandro Teixeira

Esses são apenas alguns pontos da realidade brasileira entre os anos de 1968 a 1985. Você consegue se imaginar vivendo em um país assim, hoje? É importante conhecer o período, seja através de filmes, músicas ou livros, não somente para compreender o nosso Brasil atual mas para não deixar que esse tipo de situação volte a se repetir.

Importante é lembrar dos muitos que resistiram, das famílias destruídas pelo desaparecimento de seus entes queridos e esclarecer para toda sociedade brasileira o que de fato ocorreu nos subterrâneos da ditadura brasileira, processo que hoje a Comissão da Verdade vem desempenhado.

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Leia: As Ilusões Armadas, em quatro volumes de Elio Gaspari, a ditadura vista de dentro do Regime, editado pela Cia das Letras originalmente e agora sendo reeditado pela Intrínseca.

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A Passeata dos 100 mil

Símbolo da Passeata dos 100 mil, foto por Evandro Teixeira

 

“Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?

Drummond diante das fotos do fotógrafo Evandro Teixeira da Passeata dos 100 mil.

Em 1964, após o Golpe Militar na presidência de João Goulart, o Brasil acompanharia pelos próximos 21 anos um regime político desprovido de liberdades e de tensão civil de grandes proporções. No Rio de Janeiro, assim como eu muitos outros lugares no país, o descontentamento com as ações políticas dos militares crescia cada vez mais. Os estudantes, que na época eram o maior símbolo de luta contra esse regime, eram também o alvo principal dos policiais outros executores de lei da época.

o corpo do estudante Edson Luis. A morte dele foi o estopim para a passeata dos 100 mil

A passeata dos 100 mil foi um dos momentos mais importantes de enfrentamento a ditadura. Em 26 de março de 1968, após uma série de retaliações aos movimentos pró-restituição da democracia e a morte do estudante Edson Luis no restaurante Calabouço, cerca de 100 mil pessoas marcharam pelas ruas do Rio de Janeiro cobrando atitudes dos atuais governantes.

Vladimir Palmeira e outros líderes estudantis da época em discurso na Passeata dos 100 mil

Um dos aspectos mais interessantes é que inicialmente a marcha começou com 50 mil pessoas e logo alcançou 100 mil. Entre os manifestantes estavam estudantes indignados pelas retaliações, artistas, escritores e intelectuais que já previam um tenso período de censuras e ainda, muitas mães que temiam pelo grande números de apreensões à jovens estudantes.

Carlos Scliar, Clarice Lispector, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento chegam a passeta

Torquato Neto, Gilberto Gil e Nana Caymmi

Edu Lobo, Itala Nandi e Chico Buarque de Holanda

A manifestação foi um dos mais importantes atos em favor da democracia desde a história republicana do país. Na época, os militares reuniram algumas lideranças civis alegando querer ouvir suas vozes, mas infelizmente não acataram nenhuma das solicitações. Durante o restante do ano de 1968 muitos outros atos de repressão foram executados contra estudantes e outras pessoas que discordassem das ações o que culminou, em dezembro desse ano, na implantação do AI-5 – Ato Institucional de número 5 – que que acabou legalizando a repressão.

Eva Todor, Tonia Carreio, Eva Vilma, Odete Lara e Norma Bengell

30 anos sem Glauber Rocha

“O que interessa é a criação. A linguagem estabelecida, em qualquer arte, cansa.”

Glauber Rocha é o nome que, na década de 60, colocou a expressão Cinema Novo em pauta e construiu uma carreira sólida, com repercussões dentro e fora do país. A busca do cineasta era uma nova estética cinematográfica focada na crítica social e reflexão sobre as condições de um país que passava por uma tensa ditadura militar.

Após 30 anos da morte do cineasta – completos nessa segunda, dia 22 – os conceitos colocados em discussão por ele, sobre a necessidade de uma nova estética sobre o audiovisual, ainda fazem parte das tentativas de consolidação do cinema brasileiro. Glauber atravessou a ditadura militar filmando e apoiando o Cinema Novo inspirado na Nouvelle Vague francesa. E mesmo que no Brasil seus filmes fossem tachados de herméticos e subversivos, ele arrancava elogios e palmas por festivais mundo afora como em Cannes.


Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro são os três longas que marcaram a carreira do cineasta baiano. Todos os três refletem um olhar apocalíptico de Glauber perante as condições sociais vividas no país no campo da política totalitária, nas mazelas e depressão da classe média urbana e na desastrosa situação social vivida no nordeste brasileiro. Se você quiser se aprofundar mais no cinema e estética de Glauber Rocha, recomendamos a leitura de A épica eletrônica de Glauber – Um Estudo Sobre Cinema e TV, editado pela UFMG, um estudo sobre o cinema e a relação com a realidade que ganha formas através de filmes de estrangeiros como Vertov e Rossellini e se completa com os clássicos do cineasta brasileiro.

Mas não era só de preocupação em produzir um cinema esteticamente diferente e carregado de opiniões que vivia Glauber Rocha. Ainda, se preocupava com o movimento cineclubista e estimulava a independência das produções nacionais, criando a sua própria produtora. Mantinha uma prolífica troca de cartas com muitas figuras como Caetano Veloso, Jorge Amado e o cineasta Nelson Pereira dos Santos. Desabafos, novos projetos e consolidação de ideias foram reunidas em Cartas ao Mundo – editado pela Cia das Letras.

Um cinema por si só performático e repleto de referências, alguns cineastas míticos do estilo como o chileno Alejandro Jodorowsky consideram o brasileiro um dos mais interessantes realizadores que já houve na história da sétima arte. Glauber queria mudar o que se entendia pelo ato de filmar e acreditava que a arte carecia de novas escolhas, sem regras preestabelecidas e com sentidos mais profundos, que tocassem pontos mais importantes. Um livro que analisa a filmografia do diretor por perspectivas de estudos cinematográficos com um olhar até poético é Sertão Mar: Glauber Rocha e a estética da fome, de Ismail Xavier, lançado pela Cosac Naify.

O cineasta morreu em 1981, no Rio de Janeiro, vítima de uma suposta septcemia e estava exilado em Portugal por muitos anos por conta da Ditadura Militar. Deixou, além de seus filmes impactantes, um vasto material de textos e reflexões sobre o Brasil e sua produção cultural. A Ditadura Militar pode ter abafado, por hora, as manifestações e a voz de Glauber e o grupo do Cinema Novo. Mas os filmes e trabalhos da época permaneceram para que hoje possamos ter nossas próprias visões e ainda questionarmos a influência de suas ideias na produção atual.

Todos os livros citados aqui também estão disponíveis na loja física – ou Estante Virtual – da Joaquim Livraria, não deixe de conferir.

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