A História se repete, a Primeira vez como Tragédia e a Segunda como Farsa

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19 de março de 1964: Acontece a primeira de uma série de manifestações chamadas de “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, elas funcionam como resposta de parte da sociedade diante de uma série de ações que, o então presidente, João Goulart, anuncia para o país. Esta parte da sociedade acredita que as ações propostas pelo presidente – como uma possível reforma agrária – seja o primeiro passo para a instauração de um regime comunista no Brasil. Na época foram cerca de um milhão de brasileiros às ruas, apoiados pela Igreja, grandes empresários, latifundiários, partidos conservadores, grande imprensa e de forma velada, o governo norte-americano.

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Marcha da Família com Deus, em 2014

22 de março de 2014: Os principais jornais do país noticiam que em algumas capitais do Brasil, acontecerá a “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”. O maior número de manifestantes foi na capital paulista, acredita-se que cerca de 500 pessoas marcharam pela volta da Ditadura Militar, o fim da corrupção e comunismo no país. No Brasil inteiro a adesão dos que foram foi bastante baixa.

Além da pequena adesão à Marcha proposta em 2014, 50 longos anos também separam ambas as ações. Em 1964, a “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade” foi o estopim para o Golpe Militar que aconteceu no 1º de abril de 1964, um dia da mentira que durante 21 anos foi uma verdade dolorida para uma boa parte da população brasileira e que mesmo 30 anos após o seu fim e início da abertura política , não apagou as cicatrizes até hoje estão abertas.

Não são poucas e nefastas as heranças que o regime militar deixou e vale a pena enumerar algumas:

Impunidade e violência, a total ausência dos direitos humanos – Casos como da doméstica Cláudia da Silva, arrastada por uma viatura policial, ou ainda o sumiço do ajudante de pedreiro Amarildo, supostamente confundido com traficante e morto pela polícia, causam espanto e indignação atualmente. Este tipo de arbitrariedade se institucionaliza com o regime de 1964 e em particular a depois do AI-5 em 1968. Todos que lutaram para derrubada do regime de exceção foram perseguidos, muitos foram torturados, exilados, além dos que perderam a vida. Este comportamento autoritário ainda hoje perpassa nossa sociedade, ainda temos dificuldade em aceitar as diferenças e para muitos só a força pode reestabelecer uma hipotética ordem na nossa sociedade.

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registro de Evandro Teixeira

Censura aos meios culturais – As redes sociais hoje não deixam escapar praticamente nada que aconteça no país ou no mundo. Hoje não dependemos apenas da grande imprensa, há uma profusão de blogs, imprensa alternativa e informação em tempo real, mandada por qualquer um que tenha acesso a rede e uma câmera em seu celular. Durante a ditadura, todos os poucos meios de comunicação de massa foram censurados, até àqueles que num primeiro momento saudaram o novo regime.

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registro de Evandro Teixeira

05gNa área cultural o teatro foi o responsável pelas primeiras reações do meio artístico. O Grupo Opinião do Rio de Janeiro, formado logo depois do golpe, ficou conhecido por peças mais politizadas. Reunindo artistas ligado à União Nacional dos Estudantes – UNE, e outras figuras importantes da época como Nara Leão, João do Vale e Maria Bethânia, colocou em cartaz o musical “Opinião” e a montagem “Liberdade, Liberdade” que questionava o regime e em 1968 tudo se tornou mais complicado.

Tudo passava pela censura, de telenovelas, matérias de jornais, letras de música, livros, cinema e teatro. No início dos anos 70 dois importantes escritores, Érico Veríssimo e Jorge Amado, que vendiam muito bem inclusive fora do país, se manifestaram avisando que simplesmente parariam de publicar suas obras no Brasil, a censura oficial faz um pequeno recuo, mas mesmo assim, estima-se que mais de 200 livros foram censurados.

Um modelo de censura televisiva
Um modelo de censura televisiva

O auge da censura vem em 1968 quando foi decretado o AI-5, uma resposta do regime à uma série de ações de descontentamento da pequena sociedade civil organizada. Em 1967 eventos como o III Festival de Música Popular Brasileira, em que Gilberto Gil e Caetano Veloso davam o pontapé do que viria a ser a Tropicália, trazia canções manifestos e era transmitido em rede nacional. O diretor de cinema Glauber Rocha também lançava o filme “Terra em Transe” repleto de metáforas sobre as incoerências e ações do regime militar. E em junho de 1968, após a morte do estudante Edson Luis, acontece a passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro, considerada a grande manifestação contra ditadura militar. Em dezembro desse ano o AI-5 suspende várias garantias constitucionais, o congresso nacional é fechado por quase um ano e a linha dura do regime implementa uma série de ações que culminaram com os desaparecimentos, a torturas e mortes de muitos dos que lutavam contra o regime. É neste período também que há uma grande “diáspora” de brasileiros para o qual só restava o exílio. Boa parte da intelectualidade engajada sai do Brasil ou padece nos porões da ditadura.

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III Festival de Música Popular Brasileira

Também é importante não esquecer que o regime fechou e tornou ilegal qualquer forma de organização dos trabalhadores: sindicatos, associações profissionais e estudantis, ligas camponesas foram alvos desde os primeiros dias do golpe.

Além da falta de liberdade, os anos de chumbo trouxeram outras marcas profundas para nossa sociedade: um congresso nacional sem força para modificar os rumos da política, um bipartidarismo que acentua interesses pessoais em detrimento a programas partidários nítidos, não podíamos escolher nossos governantes, eram os militares que os escolhiam prefeitos, governadores e presidente, há um aumento da corrupção, vide escândalos como o da construção da ponte Rio-Niterói, ou a rodovia transamazônica, uma ocupação da Amazônia que nos custa até hoje um desmatamento florestal enorme, conflitos agrários e de ocupação ilegal de terras indígenas. Neste período a inflação atinge níveis extratosféricos.

Na saúde não há um atendimento a toda população, a mortalidade infantil atinge níveis muito ruins, na educação é adotada matérias que reforçam ideais defendidos pelo regime como moral e cívica e o ensino religioso obrigatório e outras como filosofia e sociologia são abolidas do currículo escolar.

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registro de Evandro Teixeira

Esses são apenas alguns pontos da realidade brasileira entre os anos de 1968 a 1985. Você consegue se imaginar vivendo em um país assim, hoje? É importante conhecer o período, seja através de filmes, músicas ou livros, não somente para compreender o nosso Brasil atual mas para não deixar que esse tipo de situação volte a se repetir.

Importante é lembrar dos muitos que resistiram, das famílias destruídas pelo desaparecimento de seus entes queridos e esclarecer para toda sociedade brasileira o que de fato ocorreu nos subterrâneos da ditadura brasileira, processo que hoje a Comissão da Verdade vem desempenhado.

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Leia: As Ilusões Armadas, em quatro volumes de Elio Gaspari, a ditadura vista de dentro do Regime, editado pela Cia das Letras originalmente e agora sendo reeditado pela Intrínseca.

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45 anos depois da Marcha dos 100 mil

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O mês de junho de 2013 provavelmente já entrou para o hall da História do Brasil. Uma série de manifestações, que inicialmente foram encabeçadas pelo Movimento Passe Livre, seguiram pelas ruas com a ideia principal de diminuir o valor do transporte público de São Paulo. Duramente repelidos pelas ações da polícia, as primeiras manifestações ganharam status de exemplo de luta, principalmente nas redes sociais e internet que fizeram proliferar fotos, vídeos e depoimentos de manifestantes. Em poucos dias eram organizadas manifestações pelo Brasil inteiro e não somente a pauta sobre o transporte público ilustrava os cartazes na multidão, mas também um profundo descontentamento em relação ao sistema político vigente no país.

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Não foi a primeira vez que os brasileiros foram as ruas mostrar sua indignação. Para uma geração mais recente e encabeçada pelas Uniões de Estudantes no país, em 1992 houve o movimento intitulado de Caras Pintadas, caracterizados pelas cores da bandeira do país pintadas no rosto. Milhares de estudantes foram para as ruas pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, acusado de corrupção e de medidas abusivas na economia do país. Em dezembro do mesmo ano, após uma série de manifestações, o presidente Collor recebeu o impeachment, vontado no Congresso e deixou o cargo a Itamar Franco – o vice-presidente – em seu lugar.

Uma das raras fotos coloridas de 1968, pelas lentes de David Drew Zing
Uma das raras fotos coloridas de 1968, pelas lentes de David Drew Zing

Uma das manifestações mais marcantes aconteceu há exatos 45 anos atrás, num mesmo mês de junho, uma massa carioca tomou as ruas da cidade para protestar as mazelas que a Ditadura – que vigorava no país há 4 anos – causava à população. O estopim foi a morte do estudante Edson Luis (leia mais e veja fotos aqui) dentro de um restaurante universitário, fazendo com que o país ficasse ainda mais indignado com as retaliações sofridas pelo governo ditador. Inicialmente com 50 mil pessoas a marcha foi tomando forma e ganhando mais aceitação ficando conhecida como a Marcha dos 100 mil, reunindo população, intelectuais, artistas e estudantes.

Chico Buarque e Gilberto Gil na manifestação, por David Drew Zing
Chico Buarque e Gilberto Gil na manifestação, por David Drew Zing
Foto por David Drew Zing
Foto por David Drew Zing

Infelizmente a Marcha dos 100 mil, apesar da sua autenticidade popular, culminou na implantação do AI-5 – Ato Institucional que legalizava a repressão e o boicote à liberdade de expressão civil. E nem sempre as manifestações foram sinônimos de práticas em busca de maior abertura democrática. Em 1964, por exemplo, aconteceram uma série de manifestações públicas intituladas de Marcha da Família com Deus pela Liberdade e organizadas por vários setores conservadores da sociedade brasileira afim de derrubar o presidente João Goulart. Fazendo uso de frases de efeito e conseguindo adeptos usando a religião e a família, o movimento serviu para engrossar o caldo dos que acreditavam que era melhor ter um governo militar do que comunista como vinha se pregando no momento.

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Nossa história recente mostra que a pressão popular é protagonista nas mudanças do país, foi assim de forma negativa com as marchas de 64, foi assim com o revés autoritário após a passeata dos 100 mil em 68. Em outros momentos a mobilização popular trouxe avanços como as Diretas Já e o Movimento dos Caras Pintadas e esperamos que juventude que sai hoje a rua tenha esta perspectiva histórica e continuem o avanço para um país melhor, democrático e socialmente mais justo.