Iemanjá, Sincretismo e Música

Quando os povos d’África chegaram aqui
Não tinham liberdade de religião
Adotaram Senhor do Bonfim:
Tanto resistência, quanto rendição
Quando, hoje, alguns preferem condenar
O sincretismo e a miscigenação
Parece que o fazem por ignorar
Os modos caprichosos da paixão

Gilberto Gil, em De Bob Dylan a Bob Marley

Estátua representado Iemanjá, na Galeria Nacional de Arte, na Nigéria.
Dia dois de fevereiro é dia de festa no mar. Caymmi, Baden Powell com Vinicíus de Moraes, Metá Metá, Clara Nunes, Gal Costa e Natiruts são alguns dos nomes conhecidos, dos gêneros musicais mais variados, que homenageiam a orixá mais celebrada nas festas populares do Brasil: Iemanjá. A Rainha do Mar, Sereia, Dona Janaína, entre tantos outros nomes, por aqui também é fruto do sincretismo religioso e evocada por praticantes e não-praticantes do candomblé e umbanda. Nossas tradições, por exemplo, de pular sete ondas e depositar oferendas no mar no Ano Novo é uma prática ritualística direcionada à Iemanjá, mesmo que ao longo do território brasileiro ela ganhe outras formas e nomes, sempre representa a protetora dos rios e desembocaduras, senhora do destino e poderosa na fertilidade.

No lorubá – idioma secularmente falado no sul do Saara, principalmente na Nigéria e em minorias de outros países, usado largamente na prática das religiões afro-brasileiras – Yèyé omo ejá significa “mãe cujos filhos são peixes” e é um orixá das águas. Pai Rodney de Oxóssi, antropólogo e babalorixá, conta que originalmente Iemanjá não é uma deidade do mar e sim do rio. Mas devido à diáspora africana ela passou a ser associada aos atributos de água salgada, afinal os antepassados e o povo africano vieram para as américas pelas águas do mar, infelizmente por tristes condições.

A viagem das religiões pelo mar nos ajuda a entender como Iemanjá é celebrada em Cuba, na Santeria e no Vodu do Haiti, por exemplo. Com o fortalecimento da representação de mãe das águas e protetora, era quase inevitável que a imagem de Iemanjá não se relacionasse com outras como as das Nossas Senhoras católicas. Sincretizada, Iemanjá também é Nossa Senhora dos Navegantes ou da Conceição, ganhando outras representações que se relacionam mais com a construção de imagens dessa religião. A figura indígena da Iara – que vem do tupi y-îara, também deusa das águas – se juntou à figura de Iemanjá dando um aspecto de sereia, com uma representação de longos cabelos negros, levando ao nome de Dona Janaína.

Pensando nas celebrações de Iemanjá pelo Brasil, sempre no dois de fevereiro, selecionamos alguns artistas que escreveram músicas em homenagem à orixá favorito e que conseguiram em suas músicas mostrar as várias facetas da mães dos peixes e protetora dos nossos destinos.

“Iemanjá, Iemanjá/Iemanjá é dona Janaína que vem” é um lamento de Vinicius de Moraes e Baden Powell, segue o ritmo que compõe a música popular brasileira com base na musicalidade africana, principalmente a praticada nas resistências das senzalas, da forma que se manteve o próprio Candomblé. Afro-Sambas (1966) é um marco na música brasileira e assim como Dorival Caymmi celebra religiões de matriz africana. Nos dois versos da música as duas figuras se juntam numa só, iorubá e indígena juntas. A força de Iemanjá também está presente na música contemporânea, como a parceria entre o Baiana System e o Nação Zumbi, unindo dois centros do Nordeste, na letra de Alfazema – música especialmente lançada no dia 2 de fevereiro de 2018 – que repete um dos perfumes favoritos nas oferendas à Iemanjá dizendo “Esse perfume, vou no rastro/Lavanda é quem vai mandar” pedindo proteção.

Já o Metá Metá trabalhando com uma sonoridade que une batidas parecidas com as do terreiro, experimentalismo e noise com distorção cria um cântico: “Awoió ori dori re/Iyemanjá cuidou/Ade, ala, beijou/ encheu o ori de mar”. Muito provavelmente quem conhece um pouco das expressões iorubá nas religiões de matriz africana reconhece a construção, Kiko Dinucci e Douglas Germano contam como surgiu o mar e as Iemanjás – no plural das representações – cuidadoras, em versos simples e significativos. Assim como na letra de Alfazema que dá a oferenda para que Iemanjá cuide do futuro, Senhora das Cabeças é também dona do destino e o Metá Metá fala a própria língua da orixá, numa abordagem renovadora.

Ainda o compositor do Metá Metá, Kiko Dinucci, tem uma versão com a violoncelista franco-brasileira Dom – que já trabalhou Jane Birkin e Jeanne Moreau – de Ciranda para Janaína, escrita também por ele, que diz “O seu colar é de concha/Seu vestido se arrasta na areia/Ela tem cheiro de mar/Ela sabe cantar, ponto de sereia”. Diferente da outra música, aqui é a sereia que toma forma, a versão sincrética com a Iara indígena, senhora das águas. A versão conta com trechos em francês o que eleva o canto à outros mares.

A cantora Clara Nunes também rendeu várias homenagens, bem ao estilo sincrético, à rainha do Mar. Em Conto de Areia ela falade uma maré cheia e a busca/espera por Iemanjá, uma figura que se transfigura em moça bonita vestida para dançar, que seduz à ida ao mar, Clara canta nos versos finais do samba “Adeus, meu amor/Não me espera/Porque eu já vou me embora/Pro reino que esconde os tesouros/De minha senhora”. Parecido também é a letra de O Mar Serenou que ela faz alusão à sereia “O mar serenou quando ela pisou na areia/ Quem samba na beira do mar é sereia” fazendo referência à Iemanjá pela imagem da sereia, porém tão dançarina e atraente como a de Conto de Areia.

Pai Rodney de Oxóssi cita Claude Lévi-Strauss para dizer que os mitos dialogam entre si e isso fica bastante evidente quando ouvimos a música composta para homenagear Iemanjá. Seja com Marisa Monte entoando os nomes dos falangeiros da orixá, ou com o tema instrumental de Bnegão & Os Seletores da Frequência soltando frases de pedidos, como se olhasse para o mar oferecendo a sua música para a orixá, dizendo nomes de homens negros importantes na História para que ela permita ainda mais. A presença de Iemanjá é constante, surgindo desde a resistência nas senzalas entoando, passando por ondas de rádio, presente nas ranhuras dos discos até músicas via streaming, sempre pelo movimento. Hoje é dois de fevereiro, dia de festa no mar.