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Bowie, Bach e Bebop: Como a música impulsionou Basquiat

Texto traduzido do NY Times.

“Não sei como descrever meu trabalho” “É como perguntar ao Miles: ‘Como soa a sua corneta?”

Em 1979, aos 19 anos, o artista Jean-Michel Basquiat mudou-se para um apartamento abandonado na rua 12 leste, em Manhattan, com Alexis Adler, sua namorada na época. O imóvel, um prédio de seis andares sem elevador, estava deteriorado e parcamente mobiliado. Basquiat, falido e impossibilitado de dispor de telas, pintou despreocupado nas paredes, no chão e até mesmo nas roupas de Adler.
O único objeto que permaneceu intocado foi o aparelho de som da namorada, que tinha um lugar privilegiado numa estante tirada da rua.

“O principal para nós era ter grandes alto-falantes e um estéreo explosivo. Esse foi o único objeto que comprei.”, diz Adler, que ainda vive no apartamento. Relembra que quando Basquiat estava por perto, “a música tocava o tempo todo”.

Em setembro passado, foi aberta a exposição “Basquiat: Boom for Real” no ¹ Barbican Centre, em Londres. A mostra destaca o relacionamento do artista com música, texto, filme e televisão. Mas é o jazz – o estilo musical que constituiu a maior parte da grande coleção de discos de Basquiat – que se destaca como temática e uma fonte de inspiração pessoal.

A primeira grande retrospectiva de seu trabalho na Grã-Bretanha é uma espécie de retorno ao lar para a arte de Basquiat: em 1984, sua primeira mostra institucional abriu na Fruitmarket Gallery, em Edimburgo, Escócia e depois viajou para o Institute of Contemporary Arts, em Londres. Em um gratificante encerramento de ciclo, será exibido em Barbican um grande desenho que Basquiat fez em Londres para a exposição do instituto, mas que acabou não sendo exposto naquele momento.

Os gostos de Basquiat eram ecléticos: Curtis Mayfield, Donna Summer, Bach, Beethoven, David Byrne, Charlie Parker, Miles Davis, Aretha Franklin, o album “Metal Box”, do Public Image Ltd. “Ele tinha suas faixas favoritas que simplesmente tocava e tocava”, diz Adler. O “Low” do Bowie, definitivamente. E o lado B do “Heroes”. A influência musical era enorme.

Em dado momento, Basquiat acumulava uma coleção de mais de 3000 discos. Abrangia blues, música clássica, soul, disco e até zydeco, um tipo de música popular do sul de Luisiana. Ele também fazia sua própria música: como líder do Gray, um quarteto de art noise experimental; como o produtor do single “Beat Bop”; e como D.J. em locais como o famigerado Mudd Club, em TriBeCa.

Basquiat fez, com frequência, referências em seu trabalho aos músicos que mais admirava. Prestou homenagem a Parker, cujo apelido era Bird, em pinturas como “Bird on Money”, “Charles the First” e “CPRKR”. “Max Roach” foi uma reverência para a visão e estilo do baterista de jazz com o mesmo nome.

E em “King Zulu”, uma pintura magistral, inspirada nos primórdios do jazz, que ocupa um espaço notável em Barbican, Basquiat evocou a memória de trompetistas como Bix Beiderbecke, Bunk Johnson e Howard McGhee. No centro do azul intenso do quadro, um rosto pintado de menestrel olha de soslaio, a imagem foi tirada de uma fotografia de Louis Armstrong mascarado como um rei Zulu, em um ² Mardi Gras de New Orleans, em 1949.

Basquiat era especialmente devoto ao bebop, o gênero incansavelmente inventivo representado nas figuras de Parker, Davis, Ornette Coleman e Thelonious Monk. O amor de Basquiat pelo bebop alimentou a sua arte, diz Eleanor Nairne, co-curadora de “Boom for Real”.

“O bebop foi um movimento bastante intelectual”, diz ela. “Foi também bastante iconoclasta em querer romper com essas harmonias mais antigas do jazz. Essa ideia de um tipo de ruptura e esses músicos que eram tão jovens, poderosas forças vibrantes; haviam muitos paralelos que ele viu em sua vida e trabalho.”

Basquiat, que morreu de uma overdose aos 27 anos, atingiu alturas vertiginosas em sua curta carreira. Sua primeira venda, a pintura “Cadillac Moon”, foi para Debbie Harry, líder do Blondie, em 1981. Ela pagou 200 dólares.

Em poucos meses, seus trabalhos estavam sendo vendidos por dezenas de milhares de dólares. Aos 20 anos ele havia conseguido seu primeiro milhão. No entanto, Basquiat estava incomodado com o sucesso. Ele tinha uma profunda noção de seu lugar como um dos poucos afro-americanos em um mundo artístico predominantemente branco, onde era considerado por alguns como pouco mais que um intruso.
O crítico estadunidense Hilton Kramer certa vez descreveu Basquiat como “um aproveitador sem talento, malandro mas perdidamente ignorante, que usou de sua juventude, aparência, cor da pele e abundante sex appeal” para ganhar fama.

Segundo Nairne, Basquiat era “constantemente, de forma desconfortável, muito consciente das maneiras racistas com as quais ele costumava ser classificado.” E ele encontrou um forte paralelo entre a sua posição e as dos seus heróis do jazz.

“São músicos que, em uma esfera de suas vidas, são incrivelmente celebrados.”, diz a Sra. Nairne. “E em outros aspectos, no cotidiano e nos termos mais banais, sempre reduzidos à cor de suas peles. Tiveram que, literalmente, usar a porta dos fundos dos clubes. Não há como separar a sua música do tratamento pela sociedade. Havia muita identificação ali.”

SAMO

No final das contas, Basquiat sentiu-se mais em casa no centro de Nova Iorque. Ele teve notoriedade no fim dos anos 70 como um grafiteiro usando a marca “SAMO”, rabiscando as ruas da baixa Manhattan com máximas sardônicas e ardilosamente poéticas: “SAMO em defesa da chamada vanguarda”; “SAMO como final para uma fantasia de neon chamada ‘vida’.”.

A cena do centro era uma famosa fusão de tendências de arte emergentes, urbana, grafite, casas noturnas da moda como a Mudd Club e Area, e os novíssimos gêneros musicais como New Wave e hip-hop.
Esse florescimento aconteceu em um contexto maior de MTV, sampleamento, scratching e teorias semióticas e pós-modernas; um momento em que a criação e disseminação da cultura parecia um processo cada vez mais fluído e sem limites.

Tudo estava em processo de fusão” diz Adler. Para Basquiat “foi um período de descoberta”.
A natureza multifacetada da cena deu licença para Basquiat a entrecruzar formas artísticas, de maneira a desenvolver seu próprio estilo. Ele recitou poesia no palco e produziu o hipnotizante hip-hop “Beat Bop”, do grafiteiro Rammellzee e do rapper K-Rob, que continua sendo um clássico do gênero.

No Gray, tocava sintetizador e clarineta, e fazia experimentos ao estilo de Steve Reich, fazendo looping com fragmentos de áudio em um gravador de rolo. O grupo se apresentava esporadicamente mas atraiu admiradores, incluindo o Sr. Byrne e o pioneiro do hip-hop, Fab 5 Freddy. Uma resenha na Interview Magazine os descreveu como “um conjunto de sons, com efeitos sonoros de bebop industrial, fácil de ouvir.”

Basquiat saiu do Gray em 1981, quando a pintura passou a dominar a sua atenção mais seriamente. Mas a música permaneceu uma marca significante na sua realização criativa.
David Bowie, escrevendo após a morte de Basquiat, o saudou como um espírito semelhante cuja sensibilidade pertencia tanto ao rock como à arte.

“Seu trabalho se relaciona com o rock de formas que poucos outros artistas visuais se aproximam”, observou o músico. “Ele parecia sintetizar o fluxo frenético da imagem e experiências transitórias, colocando-as através de um tipo de reorganização interna e vestindo a tela com essa consequente rede de acasos.”

O próprio Basquiat era menos exibido. “Não sei como descrever meu trabalho”, refletiu uma vez. “É como perguntar ao Miles: ‘Como soa a sua corneta?”

¹ Barbican Centre – Espaço cultural que inclui teatro, espaços para exposição, cinema, restaurantes no centro de Londres.(https://www.barbican.org.uk/)

² Mardi Gras é a terça-feira de Carnaval (igual ao Brasil) de Nova Orleans

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