Discos que estamos aguardando para 2020

Novo ano, uma década novinha despontando e depois de fazer um balanço dos melhores discos dos anos 2010 é hora de esperar os primeiros  anúncios de 2020. Tem disco que ficou escondido por décadas, tem bandas flertando com novas influências, tem sequência, parceria e aqueles artistas que continuam dando a letra para nossos tempos. Selecionamos alguns dos mais esperados, mas também estamos ansiosos pelos projetos, artistas e bandas que vão surgir ao longo do ano, nos fazendo lembrar porque amamos tanto a música que, junto com outras artes, nos conforta mas também nos dá voz e tira do senso comum. Bom ano vinílico à todas e todos!

INTERNACIONAL

Tame ImpalaThe Slow Rush

Algumas música do novo disco da banda já estão disponíveis nas plataformas de música online. Os australianos encabeçaram o revival psicódelico da última década e até ganharam uma versão da Rihanna para Same Ol’ Mistakes. Kevin Parker diz que o quarto disco da banda vai flertar com várias das suas influências setentistas como o Meat Loaf, além de ser um dos discos mais complexos. Sai em fevereiro.

Adele30

A cantora inglesa segue com discos intitulados com as temporadas de sua vida, começou com 19, 21, 25 e agora os 30. Agradando várias tribos com a potência da voz promete não decepcionar.

Neil Young – Homegrown

Durante os anos de 70 o cantor canadense teve um dos maiores fluxos produtivos da sua vida, nem a gravadora dava conta. Esse é o caso desse disco que sai em 2020 e que ficou escondido de 1975. Homwgrown já é lendário entre os fãs e o próprio Young diz que é um disco cheio de “amores perdidos e explorações” e arremata com “Um disco que está escondido há décadas. Pessoal demais e revelador em mostrar o frescor daqueles tempos … A ponte inédita entre o Harvest e Comes a Time. ”

The Strokes

Julian Casablancas afirmou na virada do ano que a banda está voltando com tudo, tendo consciência da importância dela na década passada. A banda não lança nada desde 2013 e a espera é grande, até mesmo porque sempre é difícil de imaginar o que Casablancas e companhia podem trazer nessa virada de década.

Ozzy Osbourne  – Ordinary Man

O Príncipe das Trevas deu alguns sustos aos fãs em 2019, mas para mostrar que seu pacto com a escuridão é forte e que continua vivo, vai lançar um disco depois de uma década! Ozzy se juntou à figuras de bandas como Guns’n’Roses, Elton John e Red Hot Chilli Peppers e promete um disco tão empolgante quanto os seus mais clássicos.

Green DayFather of All

Uma das principais bandas do pop-punk dos anos 90 continua ativa, Armstrong diz que esse disco flerta com o som mod dos ano 60, mas também vai além e adiciona pitadas de  new wave, dance groover e etc. Curiosas/os?

Deftones

Chino Moreno e companhia começam bem a década anunciando disco novo depois de quatro anos de “Gore”. O que esperar? Um art-metal que sempre nos faz lembrar do final dos anos 90, maravilha!

My Bloody Valentine

Esse é mais um lembrete que, em 2018, Kevin Shields disse que os/as fãs poderiam esperar mais dois discos dos ícones do shoegaze. M.B.V é o mais recente banda e saiu em 2013 (22 anos depois do último) e tomara que a gente não tenha que esperar tanto! Façamos figas, os boatos são grandes.

Kendrick Lamar

Sim, parece que foi ontem que saiu o DAMN, ainda teve a trilha sonora para o filme da Marvel, Pantera Negra. Porém, Lamar foi um dos artistas mais prolífica da década que passou e já tá rolando conversas que tem disco em 2020, a agenda do cara já está aberta. E aí? Será que rola mesmo?

Michael Stipe

R.E.M. acabou oficialmente em 2011, Stipe se retirou da música e sofreu uma imersão nas artes. Porém, fez participações especiais com outros artistas e algumas músicas solo apareceram. Há fortes boatos que esse ano sai algo dele, estamos ansiosos!

Matt Berninger

O vocalista do The National  não para um segundo. A banda está em um ótimo momento com disco, outro ao vivo e um filme no currículo de 2019. Mesmo assim Berninger já anunciou trabalho em um álbum solo intitulado de “Serpentine Prison”. Que venha!

Pet Shop Boys

Aquela dupla de synthpop que a gente respeita! O disco já sai em janeiro e o single “Monkey Business” já pode ser ouvido nas plataformas, estamos ansiosos pelo bolachão.

The XX

Jamie XX e cia foram um dos projetos mais interessantes – e bem vendidos – da década de 2010. Não há grandes informações sobre o disco que sai esse ano mas já esperamos um synth dançantes com letras tristes, né?

BRASILEIROS

No âmbito nacional um dos projetos que mais promete trazer discos e shows novos é a plataforma da Natura. No site da empresa já foi anunciado que 41 artistas serão beneficiados em 2020, destacamos alguns logo abaixo. Além disso, já saiu o novo disco dos pernambucanos da Eddie com o EP Atiça, começando as comemorações dos 30 anos da banda. Caetano Veloso também já divulgou teaser do disco que sai no dia 16 de janeiro, uma parceria com Ivan Sacerdote. Kiko Dinucci foi o mais recente, lançando o single Olodé que mostra um pouco do disco que sai em fevereiro, inteiro no violão dessa vez.  Marcos Valle começou o ano lançando o disco Cinzento, que além de dialogar com seu disco de 1973, Previsão do Tempo, também conta com muitas parcerias da música contemporânea. Além de tudo, projetos de assinatura como da Três Selos e Noize prometem ótimos discos tanto de bandas contemporâneas como resgate de sons esgotados ou esquecidos. E você, está esperando algum disco especial fora da lista? Conta pra gente!

EdgarUltraleve

Sequência de Ultrassom, um dos trabalhos mais bacanas de rap nos últimos anos. Edgar ficou conhecido em participar do disco Deus é Mulher, de Elza Soares, na excelente faixa Exú nas Escolas. Um ótimo letrista, o disco promete tirar todo mundo do lugar de conforto.

Ilú Obá De Min

Bloco só de mulheres para celebrar a cultura afro-brasileira. O disco + show serão para comemorar os 15 anos do grupo.

João Donato

Apenas um ícone da música instrumental brasileira, aclamado aqui e fora do país. Aos 85 anos ele promete um disco inédito com participação de vários ícones da música contemporânea brasileira.

Letrux

Depois do ótimo e bem-recebido “Noite de Climão” a cantora carioca vem com tudo nesse segundo disco. Promete acidez e música para dançar!

Russo Passapusso e Antônio Carlos e Jocafi

Vocalista da BaianaSystem se junta a Jocafi para lançar Alto da Maravilha. O projeto já vem rolando há dois anos. O que esperar de um ícone de 50 anos de estrada e de um dos caras mais criativos da música contemporânea?

Mateus Aleluia  – Afrocanto das Nações

Um dos remanescentes d’Os Ticoãs vai até a África para registrar cantos Orixás, Nkises e Vodunsem. Um disco que promete uma jornada pela ancestralidade.

Iemanjá, Sincretismo e Música

Quando os povos d’África chegaram aqui
Não tinham liberdade de religião
Adotaram Senhor do Bonfim:
Tanto resistência, quanto rendição
Quando, hoje, alguns preferem condenar
O sincretismo e a miscigenação
Parece que o fazem por ignorar
Os modos caprichosos da paixão

Gilberto Gil, em De Bob Dylan a Bob Marley

Estátua representado Iemanjá, na Galeria Nacional de Arte, na Nigéria.
Dia dois de fevereiro é dia de festa no mar. Caymmi, Baden Powell com Vinicíus de Moraes, Metá Metá, Clara Nunes, Gal Costa e Natiruts são alguns dos nomes conhecidos, dos gêneros musicais mais variados, que homenageiam a orixá mais celebrada nas festas populares do Brasil: Iemanjá. A Rainha do Mar, Sereia, Dona Janaína, entre tantos outros nomes, por aqui também é fruto do sincretismo religioso e evocada por praticantes e não-praticantes do candomblé e umbanda. Nossas tradições, por exemplo, de pular sete ondas e depositar oferendas no mar no Ano Novo é uma prática ritualística direcionada à Iemanjá, mesmo que ao longo do território brasileiro ela ganhe outras formas e nomes, sempre representa a protetora dos rios e desembocaduras, senhora do destino e poderosa na fertilidade.

No lorubá – idioma secularmente falado no sul do Saara, principalmente na Nigéria e em minorias de outros países, usado largamente na prática das religiões afro-brasileiras – Yèyé omo ejá significa “mãe cujos filhos são peixes” e é um orixá das águas. Pai Rodney de Oxóssi, antropólogo e babalorixá, conta que originalmente Iemanjá não é uma deidade do mar e sim do rio. Mas devido à diáspora africana ela passou a ser associada aos atributos de água salgada, afinal os antepassados e o povo africano vieram para as américas pelas águas do mar, infelizmente por tristes condições.

A viagem das religiões pelo mar nos ajuda a entender como Iemanjá é celebrada em Cuba, na Santeria e no Vodu do Haiti, por exemplo. Com o fortalecimento da representação de mãe das águas e protetora, era quase inevitável que a imagem de Iemanjá não se relacionasse com outras como as das Nossas Senhoras católicas. Sincretizada, Iemanjá também é Nossa Senhora dos Navegantes ou da Conceição, ganhando outras representações que se relacionam mais com a construção de imagens dessa religião. A figura indígena da Iara – que vem do tupi y-îara, também deusa das águas – se juntou à figura de Iemanjá dando um aspecto de sereia, com uma representação de longos cabelos negros, levando ao nome de Dona Janaína.

Pensando nas celebrações de Iemanjá pelo Brasil, sempre no dois de fevereiro, selecionamos alguns artistas que escreveram músicas em homenagem à orixá favorito e que conseguiram em suas músicas mostrar as várias facetas da mães dos peixes e protetora dos nossos destinos.

“Iemanjá, Iemanjá/Iemanjá é dona Janaína que vem” é um lamento de Vinicius de Moraes e Baden Powell, segue o ritmo que compõe a música popular brasileira com base na musicalidade africana, principalmente a praticada nas resistências das senzalas, da forma que se manteve o próprio Candomblé. Afro-Sambas (1966) é um marco na música brasileira e assim como Dorival Caymmi celebra religiões de matriz africana. Nos dois versos da música as duas figuras se juntam numa só, iorubá e indígena juntas. A força de Iemanjá também está presente na música contemporânea, como a parceria entre o Baiana System e o Nação Zumbi, unindo dois centros do Nordeste, na letra de Alfazema – música especialmente lançada no dia 2 de fevereiro de 2018 – que repete um dos perfumes favoritos nas oferendas à Iemanjá dizendo “Esse perfume, vou no rastro/Lavanda é quem vai mandar” pedindo proteção.

Já o Metá Metá trabalhando com uma sonoridade que une batidas parecidas com as do terreiro, experimentalismo e noise com distorção cria um cântico: “Awoió ori dori re/Iyemanjá cuidou/Ade, ala, beijou/ encheu o ori de mar”. Muito provavelmente quem conhece um pouco das expressões iorubá nas religiões de matriz africana reconhece a construção, Kiko Dinucci e Douglas Germano contam como surgiu o mar e as Iemanjás – no plural das representações – cuidadoras, em versos simples e significativos. Assim como na letra de Alfazema que dá a oferenda para que Iemanjá cuide do futuro, Senhora das Cabeças é também dona do destino e o Metá Metá fala a própria língua da orixá, numa abordagem renovadora.

Ainda o compositor do Metá Metá, Kiko Dinucci, tem uma versão com a violoncelista franco-brasileira Dom – que já trabalhou Jane Birkin e Jeanne Moreau – de Ciranda para Janaína, escrita também por ele, que diz “O seu colar é de concha/Seu vestido se arrasta na areia/Ela tem cheiro de mar/Ela sabe cantar, ponto de sereia”. Diferente da outra música, aqui é a sereia que toma forma, a versão sincrética com a Iara indígena, senhora das águas. A versão conta com trechos em francês o que eleva o canto à outros mares.

A cantora Clara Nunes também rendeu várias homenagens, bem ao estilo sincrético, à rainha do Mar. Em Conto de Areia ela falade uma maré cheia e a busca/espera por Iemanjá, uma figura que se transfigura em moça bonita vestida para dançar, que seduz à ida ao mar, Clara canta nos versos finais do samba “Adeus, meu amor/Não me espera/Porque eu já vou me embora/Pro reino que esconde os tesouros/De minha senhora”. Parecido também é a letra de O Mar Serenou que ela faz alusão à sereia “O mar serenou quando ela pisou na areia/ Quem samba na beira do mar é sereia” fazendo referência à Iemanjá pela imagem da sereia, porém tão dançarina e atraente como a de Conto de Areia.

Pai Rodney de Oxóssi cita Claude Lévi-Strauss para dizer que os mitos dialogam entre si e isso fica bastante evidente quando ouvimos a música composta para homenagear Iemanjá. Seja com Marisa Monte entoando os nomes dos falangeiros da orixá, ou com o tema instrumental de Bnegão & Os Seletores da Frequência soltando frases de pedidos, como se olhasse para o mar oferecendo a sua música para a orixá, dizendo nomes de homens negros importantes na História para que ela permita ainda mais. A presença de Iemanjá é constante, surgindo desde a resistência nas senzalas entoando, passando por ondas de rádio, presente nas ranhuras dos discos até músicas via streaming, sempre pelo movimento. Hoje é dois de fevereiro, dia de festa no mar.

Gilberto Gil e Caetano Veloso em Londres

É agosto de 1970 e há 600 mil pessoas em um campo na Ilha de Wight, assistindo o maior festival de música já sediado por ali. Irão, ao longo dos cinco dias de evento, presenciar performances do The Who, The Doors, Joni Mitchell e Leonard Cohen, além do último show de Jimi Hendrix. Mas as atrações principais do segundo dia são dois brasileiros desconhecidos, acompanhados por uma trupe de dançarinos nus cobertos por um plástico vermelho. A dupla começa cantando em português, acompanhada por tambores africanos e flauta. Em seguida, ligam suas guitarras e tocam um set enlouquecido, misturando rock psicodélico, funk e samba.

Os dois caras são Gilberto Gil e Caetano Veloso. Passará algum tempo antes de que estejam lotando arenas pelo mundo afora ou, no caso de Gil, servindo como ministro no governo brasileiro. No verão de 1970 são apenas peças exóticas na cena underground de Londres, improvisando com o Hawkwind e frequentando galerias de arte, comunidades hippies e festivais de música.

“Fiquei atônito ao descobrir como esses caras eram famosos”, diz Nick Turner do Hawkind. “Pareciam tão humildes, tão generosos, tão ansiosos para improvisar com qualquer um.”

Dois anos antes, Caetano e Gil eram dois dos maiores artistas brasileiros, estrelas influentes na sorrateira e subversiva cena de rock psicodélico brasileiro, a Tropicália. Isso durou até a ditadura militar decidir que eles eram uma ameaça. Em dezembro de 1968 foram presos em São Paulo. Tiveram suas cabeças raspadas, ficaram dois meses encarcerados e outros quatro em prisão domiciliar.

“Os militares queriam que deixássemos o país”, diz Caetano. “Nos deixaram fazer um show para levantar dinheiro para a passagem de avião”. Enquanto o resto do mundo assistia às aterrissagens na lua em 21 de julho de 1969, Caetano e Gil se preparavam para deixar o Brasil. Não voltariam por três anos.

“Nosso empresário foi para a Europa na nossa frente, para ver onde moraríamos”, diz Gil. “Lisboa e Madri estavam fora de questão porque Portugal e Espanha também passavam por violentas ditaduras. Paris tinha um ambiente musical entediante. Londres era o melhor lugar para um músico estar.”

Gil, Veloso, seu empresário e suas respectivas esposas acabaram morando em uma casa no número 16 da Redesdale Street, no Chelsea, em Londres, um lugar que amigos brasileiros que os visitavam chamavam de “a Capela Sistina”. Juntos frequentaram museus, galerias de arte e jogos de futebol, e aprenderam a amar o Santo Circo Voador, do Monty Python – Veloso diz que esse surrealismo influenciou algumas de suas músicas mais experimentais.

Durante seu primeiro ano em Londres, Caetano ficou deprimido e com saudades de casa, enquanto Gil era bem mais otimista. “Nós chegamos na semana em que os Beatles lançaram Abbey Road, vimos os Rolling Stones na Roundhouse, improvisamos com ótimos músicos, encontramos pessoas incríveis, ouvimos reggae pela primeira vez”, diz ele. “O fato de que você podia andar em direção a um policial e lhe pedir informações – no Brasil isso simplesmente não acontece!”

Enquanto esteve na preso, Gilberto Gil adotou uma dieta macrobiótica e começou a meditar e investigar o misticismo oriental. Chegou em uma cena hippie londrina que compartilhava seus novos interesses, e rapidamente estabeleceu relações com muitas figuras-chave da contracultura da capital, incluindo o jornalista e vocalista anárquico Mick Farren, Turner e Thomas Crimble do Hawkwind.

Gil, Caetano e suas famílias.

Através de Crimble, Gil envolveu-se com um grupo de boêmios abastados que estavam montando o que viria ser propriamente o primeiro festival de Glastonbury. “A primeira vez que visitei a fazenda Worthy, no outono de 1970, Gil estava lá com Arabella Churchill, Andrew Kerr e Thomas Crimble (co-fundadores do Festival de Glastonbury)” diz Bil Harkin, que desenhou o palco pirâmide original de Glastonbury. “Todos passaram meses na fazenda de Michael Eavis, fumando maconha e discutindo formas de realizar um festival gratuito. Havia ideias de unificar o espiritualismo, o clima, arte e a música.

“Um dos modelos era o carnaval brasileiro, um exemplo perfeito de um festival de artes gratuito, multidisciplinar e quase espontâneo. Lembro-me de ter conversas com Gil sobre medicina alternativa, dervixes giratórios, música africana, indiana e latino-americana, além do poder da música como uma força de cura. Ele estava tinindo de ideias e isso foi crucial para a forma como o festival se desenvolveu.”

Gil convidou Caetano para algumas das primeiras reuniões de Glastonbury – Jarkin lembra dele sugerindo que o palco principal fosse no formato de uma cabana gigante. “Todos gostaram da ideia da tenda”, diz Harkin. “Isso quase ofuscou a minha pirâmide. Se as coisas fossem diferentes, 40 anos depois, poderiamos estar assistindo a um palco-cabana!” Gil permaneceu no festival para se apresentar, aparecendo brevemente em Glastonbury Fayre, filme de Nic Roeg.

Caetano também fez música no exílio, mas ele tendia a ser mais introvertido. Ele brinca descrevendo seu disco de 1971, London London [Caetano Veloso 1971], como “um registro de depressão”. Há músicas como Little More Blue, com a letra “Um dia tive que deixar meu país, praia calma e palmeira” e a faixa-título, com um lamento agridoce “grama verde, olhos azuis, céu cinza, Deus abençoe”.

“Sempre admirei o rock britânico”, diz ele, “que chamo de ‘neo-rock’. Em Londres eu consegui vê-lo de perto: Led Zeppelin, T-Rex, Pink Floyd, o The Who, a Incredible String Band, Jimi Hendrix e, claro, os Rolling Stones. Aprendi que o grande rock não era sobre volume e selvageria, mas sobre precisão e economia.

“Também aprendi sobre autenticidade. Inicialmente eu era relutante em tocar guitarra nos meus próprios discos e delegava isso a músicos mais qualificados. Mas produtores me convenceram que as fraquezas do meu estilo de tocar guitarra eram parte do charme da música. Isso foi muito libertador.”. Caetano ainda tem um grande interesse pelo rock alternativo britânico, seu disco de 2006, o Cê, tem empréstimos do post-punk experimental.

As dívidas de Gil com seu exílio são mais complexas. Seu primeiro disco londrino, Gilberto Gil (Nêga), tem ele tocando versões solo e acústicas de músicas de Steve Winwood, Beatles e Hendrix, mas o reggae tornou-se o legado mais duradouro de seu encanto na Inglaterra. “Fomos sortudos de estar em Notting Hill no momento em que a cultura da Jamaica – Jimmy Cliff, Bob Marley, Burning Spear – estava estourando”, diz ele. “Eu também estava fascinado por tudo da cultura Rasta. Me ajudou a identificar o que tinha de africano na cultura brasileira.”. Mais tarde, Gil levaria essas ideias de volta para o Brasil, engajando-se com políticas negras e sendo pioneiro em alguns dos primeiros híbridos de samba-reggae.

Ambos olham para seu tempo em exílio com carinho. “Nunca quis viver fora do Brasil.” diz Gil. “Mas Londres é uma das cidades mais interessantes do mundo, e tenho sorte de ter vivido lá.” “Só agora posso dizer que gosto da música que gravei ali” diz Caetano. “As coisas que aprendemos no exílio nos tornaram músicos mais criativos. Também nos tornou pessoas mais fortes.”.

Traduzido do The Guardian, escrito por John Lewis, tradução de Emanuela Siqueira

15 discos fundamentais para os Mutantes

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Influenciados basicamente pela verve que vinha do rock americano e inglês, Os Mutantes surgiram na segunda metade dos anos 60 e se tornaram uma das bandas mais importantes da cena brasileira, com o amplo contingente de fãs fora do país. Os álbuns nacionais despertaram a atenção dos estrangeiros e com álbuns exclusivamente lançados lá fora, o grupo se tornou um dos símbolos da música brasileira, misturando o rock psicodélico sessentista, o movimento tropicalista e sonoridades brasileiras, e letras que poderiam aparentemente soar nonsense mas que observadas com atenção tinham a mesma rebeldia implícita dos Rolling Stones, por exemplo.

A revista americana Wax Poetics, dedicada à música soul, jazz, funk, hip-hop, música latina e afins – o belo nome fazendo referência aos discos de vinil – chamou o guitarrista Sérgio Dias para listar 15 álbuns fundamentais para a sonoridade d’Os Mutantes. Na lista traduzida abaixo  você vai fazer um passeio por toda a década de 60 – alguma coisa no fim dos anos 50 – e entrar no universo daqueles adolescentes que dariam forma ao rock brasileiro em um cenário tão adverso como o da Ditadura.


1 The Ventures – Twist with the Ventures (1961)

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Eu comecei minhas aventuras na guitarra aprendendo essas passagens. Nocky Edwards foi o melhor professor, com o seu significativo trabalho na guitarra que é ainda, tecnicamente, muito difícil.

2 Russ Garcia – Fantastica (1959)

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Ele fez orquestrações para os primeros filmes sci-fi. Ele foi um dos primeiros caras, até onde sei, que usava instrumentos eletrônicos como osciladores e outros. Eu fiz minhas primeiras caminhadas “fora do espaço”, perambulando pelas gálaxias de música das esferas, ouvindo esse gênio e sua visão de “música da era espacial”.

3 The Beatles – Revolver (1966)

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Esse me toca no coração, e é matador! Todos dos Beatles – tudo.
Toda vez que um álbum dos Beatles era lançado, era como uma mudança na perspectiva de vida, então eu teria que falar de cada um deles. Em Rubber Soul era a introdução dos vocais como uma parte muito importante de como eles compunham e tocavam. Rubber Soul é fundamental. Revolver também. Se você ouvir “Tomorrow Never Knows”, você ainda não vai acreditar que alguém podia fazer algo como aquilo.

4 Celly Campello – Broto Certinho (década de 60)

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Ela era a voz da juventude brasileira. Ela era rebelde; era a nossa Natalie Wood. Ela foi uma cantora do ínicio do ínicio do rock por aqui. Ela basicamente fazia os primeiros estágios do twist como o Neil Sedaka.

5 Nino Tempo e April Stevens – Nino and April sing the Great Songs (1964)

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Ótimos vocais! Nós amávamos a interação, e a banda de apoio era ótima! A forma como cantavam e a música eram excelentes.

6 The Everly Brothers – The Everly Brothers (1958)

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Arnaldo e eu costumávamos vê-los como espelhos, sendo irmãos e tal. Eles (nos ajudaram) solidificar nosso modo de cantar.


7 Peter, Paul e Mary – In the Wind (1963)

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A Rita entrou para nosso “Everly Brothers”, e começamos a criar harmonias mais complexas. (Arnaldo e eu) estávamos apaixonados pela Mary, claro.

8 Swingle Singers – Bach’s Greatest Hits (1963)

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Este realmente nos toca porque temos influência clássica desde o berço. Quando Johann Sebastian Bach entrou nos Mutantes – foi um prazer! Os caras costumavam cantar Bach, apenas com vocais, e isso nos influenciou muito, porque éramos muito ligados em música clássica. Minha mãe foi uma das primeiras mulheres a escrever um concerto para piano e orquestra, e uma das melhores compositoras e intérpretes que eu já vi tocando piano. Mais do que ninguém, ela foi quem mais nos influenciou. Nós a víamos voltar para o centro do palco para ser ovacionada umas 15 ou 16 vezes no teatro. Ela era ultrajante.

9 Nat King Cole – A Mis Amigos (1959)

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Suave e sexy! Que grande pianista ele era. Ele cantou em português nesta: “Quero chorar, não tenho lágrimas…”

10 Sly and the Family Stone – Stand! (1969)

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Eles realmente nos mandaram para a/pra quinta dimensão! Enlouquecemos com os beats e o baixo distorcido.

11 Demônios da Garoa – Trem das Onze (1965)

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Eles foram uma banda ultrajante de São Paulo. Eles cantavam muito bem, um tipo de estilo do interior. Eles eram o epítome do samba paulista. Tinham um humor precioso que eles carregavam em suas músicas, uma banda incrível com ótimas harmonias, e o modo caipira de cantar acompanhado com o sotaque da Mooca nos tornava orgulhosos de sermos os paulistas que somos!

12 The Rolling Stones – Their Satanic Majesties Request (1967)

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Eu costumava voar com o meu carro ouvindo esse muitas e muitas vezes. Este tornou os Stones transcendentes para mim com o vocal incrível e o trabalho de percussão.

13 Jimmy Smith – Bashin’ (1962)

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Ele foi a maior influência no modo de Arnaldo tocar o Hammond; ele continua sendo o melhor! Ninguém toca como ele. Ele é o Gato!


14 Les Paul e Mary Ford – Bye Bye Blues (1952)

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Meu querido professor, como eu suei para tocar o solo de “Bye, Bye Blues”.


15 Duane Eddy – Dance with the Guitar Man (1963)

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Claudio trouxe ele e aquilo nos deu consciência de que às vezes a sonoridade é tão importante quanto as notas!

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