JOAQUIM

Livros & Discos

Arquivo para a tag “paulo leminski”

Joaquim Apresenta: Trem Fantasma

Partindo do nome de uma música d’Os Mutantes, os curitibanos do Trem Fantasma não temem em organizar as muitas referências de cada membro da banda e criar um estilo próprio e bem produzido. Rayman, Yuri e Leonardo (Marcos, ainda não havia chegado) não titubeam em afirmar – numa conversa bacana, que você pode ver abaixo, com o Abonico Smith – que assim que os australianos do Tame Impala lançaram seu disco de estreia, ficaram ligados que um dos estilos que eles mais curtiam, o psicodélico, poderia ser feito de uma forma moderna e criativa. Não deu outra, os três que se conheciam – e tocavam em outros projetos – desde a época da escola, resolveram se juntar para produzir e encontrar uma sonoridade construída por todos e deu muito certo!

As influências clássicas de cada um foram se somando e dialogando com o que eles ouviam de contemporâneo e também com o que liam. Algumas letras escritas por Rayman tem influências diretas do Paulo Leminski, parceiro constante do pai do baixista, o Paulo Juk do Blindagem, outro clássico de Curitiba. Os membros compõem de forma separada e tocam vários instrumentos, não pense que isso atrapalha o processo, pelo contrário, todos acabam acrescentando um pouco em cada composição. Difícil mesmo é separar tanto material bacana para caber um único disco.

Lapso é o debut do quarteto e foi produzido pelo Beto da banda gaúcha Cachorro Grande. O próprio Beto conta em entrevista que tinha ouvido a EP da Trem Fantasma e se tornado um grande fã da banda, pediu pros caras enviarem uma demo que foi logo repassada ao selo 180 que logo inseriu os caras no catálogo. O disco merece destaque mesmo, é um som cheio de energia e camadas psicodélicas, dá para ficar pirando durante toda a execução. Apesar das comparações com feito hoje em dia pelos já mencionados Tame Impala e Boogarins, a Trem Fantasma consegue ir além e se destacar, imprimindo a identidade de cada membro. E como eles não deixam o tempo passar, já está no prelo o segundo disco Dias Confusos e o clipe do single homônimo você vê aqui embaixo. Além disso, se você tiver a oportunidade de ver eles ao vivo, veja! Como você pode assistir em nosso canal – um pocket especial feito na loja – os caras mantém o público animado do ínicio ao fim. Faça essa viagem com a gente!

Anúncios

Frente e Verso, um LP em homenagem a Paulo Leminski

“Lembrem de mim
como de um
que ouvia chuva
com quem assiste missa
como quem hesita, mestiça
entre a pressa e a preguiça”

leminski-recordPaulo Leminski, o poeta marginal, o polaco de Curitiba, o homem das muitas línguas e um-pouco-de-tudo-mais. Com o lançamento de “Toda Poesia” (Companhia das Letras), em 2013, parece que Leminski entrou no imaginário brasileiro sem fazer muito esforço, estando presente desde grafites em muros, haicais escritos em poltronas de ônibus, até em grandes exposições em São Paulo e Curitiba.

Desde a morte de Leminski em 1989, as memórias sobre o poeta, pai, amigo e criador sempre tentaram se manter presentes no imaginário do curitibano. “Frente e Verso”, um vinil promocional de época, distríbuido pelo Sistema Sul de Comunicação (hoje conhecido como a emissora RIC TV de Curitiba) em alguma celebração de fim de ano, é um desses pequenos registros do tempo que ganha valor atemporal.

Criando um mosaico polifônico de comentários, histórias e detalhes, o áudio de pouco mais de 34 minutos é um registro confortável e íntimo de pessoas que passaram momentos únicos ao lado do hiperativo artista. Alice Ruiz conta da primeira vez que viu aquele “barbudo que lembrava um chinês” subiu ao palco da reitoria para declamar um poema, a ainda pequena Estrela Leminski lembra da textura do cabelo do pai e artistas lembram de como era inspirador ouvir as ideias – aparentemente – mirabolantes e desenvolvidas de Paulo Leminski.

Como quem não quer nada, Leminski entra em cena em “Frente e Verso” com seu sotaque “leite quente”, como música de fundo de um e outro comentário, nas letras embaladas pelo violão de algum amigo. Meio que dizendo para quem ouve, que ele vai estar sempre presente, jamais esquecido, assim como diz Helena Kolody ao final do áudio “Ele é um valor que ficará para sempre, porque além de inteligência ele tinha muita personalidade. Então, o que ele fazia era diferente de tudo que se fez antes e depois dele. O nome do Leminski não vai se apagar, ele vai crescer pelo tempo afora, como aqueles que são geniais”.

Antes que o Leite Quente esfrie

320ANOSCuritiba do muito pinhão. Curitiba cidade-teste. Curitiba aldeia de ares provincianos. Editorial da Revista Leite Quente, nº 1, 1989

leitequente89-leminski-oraçãoJoaquim, Raposa, Nicolau, Rascunho (…) Curitiba é um dos lugares mais prolíficos para que as revistas literárias e suplementos culturais sempre apareçam. Como já falamos em outro post, hoje a cidade não coloca medo nos seus artistas que multiplicam suas artes em várias mídias e não tem medo de mostrar a sua cara.

Em 1989, a capital paranaense completava 296 anos e surgia uma nova revista para tratar de assuntos curitibanos, o modo de vida e a poética da cidade. Intitulada com uma expressão que designa o modo bem peculiar do sotaque do sul do país, Leite Quente teve sua estreia em março daquele ano com uma edição totalmente escrita por ninguém menos que o poeta-e-tantos-outros Paulo Leminski.

leitequente89-leminski-capaLeminski morreria três meses depois do lançamento da revista e deixou nela sua assinatura de curitibano que foi, com olhar peculiar ora apaixonado pelas araucárias ora irritado com o provincianismo de quase três séculos. A primeira edição da Leite Quente, editada pela Fundação Cultural de Curitiba, leva o título de “Nossa Linguagem” e quem melhor que o querido cachorro louco para falar dessa Curitiba?

Com sua escrita sarcástica, mas já apaziguado com a vida e ainda assim poeta, Leminski deixa nessa edição o que talvez seja o seu tratado de cumplicidade com Curitiba. Se você está familiarizado com a escrita do poeta sabe muito bem que ele não fez disso um discurso dramático e saudosista. Muito pelo contrário, o escritor já começa com uma breve oração – cheia de brincadeiras com as palavras – à Nossa Senhora da Luz dos Pinhais pedindo por piedade e em seguida inicia os seus artigos sobre a linguagem, modo de se vestir e viver peculiar aos habitantes da capital.

leitequente89-leminski-fotoantiga

Os textos que compõem essa edição da Leite Quente podem ser lidos como um grande ensaio de Leminski sobre o comportamento do curitibano. Começando pelo jeito de falar que fica entre um jeito sulista e paulista com suas expressões peculiares oriundas dos muitos imigrantes que aqui chegaram. Em seguida, com uma série de fotos históricas dos habitantes da cidade – documentos da Casa de Memória – ele faz divertidas legendas tratando da forma como as roupas influíam no comportamento do curitibano desde os anos 1900.

O curitibano médio não pratica o relacionamento instantâneo dos litorâneos, de pronta chegada, rápida abordagem e intimidades súbitas. O jeitão “tudo-bem” de cariocas e baianos, pode exemplo. Nem é nossa empáfia gaúcha de quem chega dizendo “no más, e me espalho nos baizinhos, dou de prancha, nos grandes, dou de talho”. (p.12)

Claro que Leminski não deixaria de falar do famoso jeitinho curitibano pouco dado à extroversão, ele arremata certeiro dizendo que “O Curitibano é cauteloso, meio arisco. Mas não tímido: analítico”. Ele também comenta sobre a pluralidade de etnias e línguas formadores da cidade que também influenciaram esse jeitão desconfiado. O própio Leminski, mestiço de pai polonês e mãe negra, dado a um pouco de tudo e falante de muitas línguas entendia muito bem essa identidade misturada da cidade cinza.

leitequente89-leminski-fala

Falando da expressão cultural da cidade, comentando sobre os amigos compositores, a cinemateca que recuperou a memória audiovisual do Paraná, Paulo Leminski finaliza com um tom saudosista de sua memória, parecendo que sabia que logo ele também viraria uma “ruína imaterial” – como ele chama o esquecimento que Curitiba dá ao que já foi,  ele diz  “Não admito viver numa cidade artificial”. Ele fala das ruas que costumava passar e já não existem, critica a cidade-modelo aclamada na Europa no fim dos anos 80 e diz , ele gostava mesmo era do tom underground que a cidade podia oferecer aos olhos dele.

Essa edição comemorativa da revista, de 24 anos atrás, marca o começo e o fim de períodos. Era a fama de Curitiba-modelo, perfeita para se viver ao olhos dos europeus e americanos e quase possível de ser vista pelos que a atravessam todos os dias, também era a despedida de Paulo Leminski, o poeta que parece, nesses agora 320 anos, ter sido redescoberto pelos curitibanos e brasileiros, ajudando que a comemoração desses mais de três séculos tenha uma pitada de poesia, antes que o leite quente esfrie.

leitequente89-leminski-fala2

Minha classe gosta Logo é uma bosta

¨pequeno nos contos, enigmático no romance, dogmático nos ensaios, toupeira na poesia, escrachado no Haikai e torrencial na verbosidade do ainda indefinido Catatau¨

Essa é uma breve definição do pesquisador-leminskiano Ildefonso Mello, um dos membros do Grupo de Estudos Catatau, que se encontra no SESC Paço da Liberdade, em Curitiba, para se debruçar sobre a obra do tudoaomesmotempo Paulo Leminski.

Muito se pode dizer da existência de grupos pesquisadores que se levam bastante a sério fora da academia e o Grupo de Estudos Catatau é um desses. Em terças-feiras alternadas desenvolvem um estudo muito pertinente na obra completa de Leminski onde um dos objetivos centrais dos encontros é elaborar uma metodologia para escrever um livro sobre a obra do escritor. E isso sem lançar mão das questões da importância dessa obra hoje ou da figura do escritor como mito dentro das livrarias, sebos e meios literários.

Toda a produção de Paulo Leminski é objeto de estudo. Desde as traduções em várias línguas – lembrando que ele já traduziu desde o japonês de Mishima até o latim de Petrônio – poesia, haicais, artigos de opinião, música e colaboração do escritor em meios de grande circulação como zines, suplementos e jornais.

Numa pesquisa tão minuciosa, de um homem que estava o tempo todo produzindo ou se envolvendo em algo, é claro que surgem algumas produções inesperadas ou que não tenham tido tanta atenção na época. É o caso de um texto intitulado Minha classe gosta logo é uma bosta no suplemento cultural Raposa Magazine, que circulava na década de 80 e que Paulo Leminski colaborou, sendo a primeira essa de edição número 0 em que ele assina a capa que foi publicada em dois momentos. Um texto divertido sobre a raposa, uma bela introdução do que seria o suplemento durante 12 edições recheadas de bons autores e ilustradores.

Considerada uma novela, Minha classe gosta logo é uma bosta saiu em novembro de 1981 e hoje é bastante rara. O texto traz a voz do Leminski inventivo, rápido, pouca pausa e atirando para todo o lado. Uma crítica ferrenha a sua própria geração e no que ela se transformaria num futuro próximo. Leminski abusa das referências e, brincando com o subtítulo la capitulação de um nuvô romã, segue à risca as atitudes do movimento francês Nouveau Roman em quebrar todas as ligações com a escrita clássica.

School is out forever, grita a contracultura, a escola acabou para sempre, e soa engraçado num país que ainda não teve escola para todos. Colonizados até os ossos. O colonizado importando tudo – até a revolta contra a metrópole.

Permissividade anárquica. Contra o horário. O salário. O emprego. A carreira. A gravata. O cabelo curto. O serviço militar. A caretice.

Slogan. Um homem sempre certo, quanto ao principal. Um homem pânico. Privada Joke. Um homem pálido de anos e anos num país sem sol, a História da Literatura Universal. Pisa de leve sobre o chão da cidade que viu nascer, crescer e negar. De leve, bem leve. Quase voando. Minha poética por uma política!

Mesmo que esse texto, do inicio da década de 80, tenhas suas particularidades bem Leminskianas, ainda faz parte de um número de escritos que circulam fora do eixo comum das obras de Paulo Leminski. E isso já prova mais um pouco das propostas, bastante únicas, desse curitibano que já nessa época era multimidiático (veja o que já escrevemos sobre ele e o grafite)

O Grupo de Estudos Catatau também tem encontros abertos ao público, então se você tem algum material, comentário ou simplesmente quer saber como andam os estudos, participe! O grupo conta com nomes que conviveram com o escritor e entusiastas da obra munidos de boas ferramentas querendo descobrir se a filosofia de Paulo Leminski ainda é pertinente e se ele era um homem ou simplesmente um mito dentro da livraria.

Capa da edição número 0 da Raposa Magazine com texto de Paulo Leminski

A mesa da Joaquim: Abril, segunda semana

Começando a segunda-feira muito bem! Mãos à obra:

Formação da Literatura Brasileira: Volume ÚnicoAntonio Candido: Ouro sobre Azul – Para o grande crítico e teórico Antonio Candido o Arcadismo e o Romantismo foram fundamentais para a formação da literatura Brasileira. Nesse volume ele faz uma análise das obras de vários autores dos períodos.

Agora é que são Elas: Paulo Leminski: Iluminuras – Mais uma reedição de um clássico do Leminski. O livro engloba todo o universo do autor onde o personagem, numa eterna festa, se apaixona por Norma, a filha do seu professor e analista, Propp.

Clássico Anticlássico: O Renascimento de Brunelleschi a Bruegel – Giulio Carlo Argan: Companhia das Letras – Uma coletânea de ensaios de Argan com um olhar crítico sobre a arte Renascentista sob os conceitos de clássico e anticlássico.

Com os meus olhos de cão: Hilda Hilst: Brasiliense – Um clássico da escritora, considerado a ponte entre a sua literatuta dita ¨séria¨ e seus textos mais ousados. Tipicamente Hilstiano, com troca frenética de narradores e oscilação entre poesia, prosa e diálogos.

Ilíada: Homero: Ediouro – O poema épico grego trata dos últimos acontecimentos dos 11 anos que englobam a Guerra de Tróia. O título se refere a um outro nome grego para Tróia. Leitura básica!

Tropeiros: Arnoldo Monteiro Bach: Estudio Texto: Um resgate da história dos tropeiros que faziam o sentido SP-RS e que acabaram dando origem a uma boa parcela de cidades no sul do país.

Leminski & Descartes

¨Penso, logo existo¨, a famosa frase do filósofo René Descartes foi a base para o pensamento que permeou o Iluminismo no século XVII indo contra as ideias medievais que vigoravam até aquele momento. Duvidando de tudo para ele próprio existir, Descartes construiu todo o seu método cartesiano em cima dessa ideia de questionamento da existência das coisas e das situações em si.

Brincando com essas ideias europeias, em 1975 o curitibano Paulo Leminski – na época já conhecido pela sua ousadia narrativa e modo de viver – formula uma ideia um tanto bizarra: e se René Descartes tivesse vindo junto na Nau de Mauricio de Nassau e desembarcado em Recife? Quais formulações filosóficas seriam possíveis em meio a tanto calor, animais selvagens e pessoas com costumes totalmente diferentes da metódica vida europeia?

Com essas respostas – e brincando com o famoso texto do filósofo, Discurso do Método – que Catatau foi construído. O diálogo, assim podendo ser chamado já que não conta com pausas formais, é um gigante devaneio/discurso de um homem à base de muito calor, incompreensões de costumes, dúvidas de existência e alucinóginos que o fazem oscilar entre pensamento científico e verborragia, as vezes até demonstrando certo ódio dessa terra cheia de peculiaridades.

Com essa premissa parece quase impossível um livro como Catatau ser traduzido para o cinema, já que funciona à base de diálogo quase infindável. Mas a tarefa do trabalho foi dada ao cineasta Cao Guimarães que deu vida a Ex Isto. O longa faz parte da série Iconoclássicos – projeto do Itaú Cultural – que apresenterá uma série de filmes que discutem sobre a obra de determinados artistas contemporâneos. Ex Isto é o único como obra de ficção que homenageia a atitude iconoclasta – e na época chamada de marginal – do poeta, tradutor, ensaísta e afins, Paulo Leminski. O longa foi uma encomenda direta para o cineasta que tem uma vasta carreira em videoarte e concedeu ao longa uma beleza contemporânea que funcionou muito bem com a narrativa de Catatau, extremamente caótica e metamórfica em se tratando de linguagem.

O ator João Miguel (Estômago, Cinema, Aspirinas e Urubus e etc) se empresta para um René Descartes extremamente apático de olhar mas com uma caricatura extremamente própria. Andando pelas matas verdes, navegando inconformado em um pequeno barco pela baía ou no meio de ruas caóticas de um Recife urbanizado o Descartes preso na terra brasilis duvida de tudo que possa existir, inclusive dele próprio.


“Duvido se existo, quem sou eu se esse tamanduá existe?”

A versão de Cao mostra um pensamento científico quase despercebido andando por um mundo contemporâneo cheio de cores, sons e outros atributos além do questionamento de existência. Uma obra de cinema, mesmo com bases na literatura, não necessita de fidedignidade com o texto e Ex Isto traz uma versão muito pessoal, sensorial e divertida de uma das grandes obras de invenção da literatura brasileira.

A última edição do livro Catatau está disponível na Joaquim, pela editora Iluminuras.

Trailer:

Notas de Tradução (1)

Nada melhor que ler um livro na língua original. Quem nunca ouviu essa frase? Mas bem provavelmente poucos leitores conseguirão ler autores como os russos Tolstoi e Dostoievski nos seus originais e ainda, mesmo que o inglês seja a língua da globalização, nem sempre é fácil de encarar com destreza um Ulisses do James Joyce, por exemplo.

Cada língua possui sua gramática, suas expressões idiomáticas, gírias e afins que a tornam justamente um conjunto linguístico próprio e significativo. E no momento de grandes textos, sejam ficcionais ou técnicos, serem vertidos para uma outra língua, afim de se tornarem acessíveis, surge um profissional que é uma espécie de mágico das palavras, o tradutor.

Traduzir é trair citaria um dos autores mais traduzidos – e um dos tradutores mais prolíficos no mundo – o italiano Umberto Eco. Para o filósofo, a tradução mais próxima da perfeição seria aquela em que o texto chegasse ao leitor com o mesmo efeito do original. Mas sabe-se muito bem que para tal feito, muitas permutações são necessárias ao longo do processo na passagem de uma língua para outra, além de detalhes que não escapam aos olhos do tradutor mais íntimo na obra de determinado autor.

O ato de traduzir vai muito além de verter um texto ríquíssimo de uma língua original para a sua língua de chegada. O profissional tem a árdua tarefa de tornar esse texto tão original como se tivesse sido escrito especialmente para a língua traduzida. Parece complicado de entender à primeira vista, afinal nem sempre se lê um texto traduzido levando em conta a dimensão de como ele foi escrito em determinado contexto e vasto conjunto linguístico de cada idioma.

Com a prática da leitura de obras em mais do que um idioma, fica naturalmente mais claro que o papel do tradutor é extremamente importante e principalmente, que o conhecimento dele em torno da obra e do autor são quase como premissas básicas para que determinada obra seja original, mesmo que em diversos idiomas.

Um bom exemplo de paixão do tradutor pelas obras traduzidas é o do poeta curitibano Paulo Leminski que traduziu obras dos idiomas mais diversos que vão desde o latim, passando pelo inglês e alcançando auge de línguas como o russo e o japonês. O poeta e tradutor afirmava que suas traduções eram um tanto egocêntricas, querendo satisfazer a si próprio e assim carregava – e carrega – muitos fãs pelo seu estilo pessoal de traduzir.

Leminski afirmava que o contexto em que determinada obra foi escrita era uma premissa básica para se pensar a tradução. Não à toa, Pergunte ao Pó, do americano John Fante e até Satiricon, obra clássica latina, do prosador romano Petrônio, ambas editadas pela Brasiliense, são consideradas traduções tão vivas e atuais como a linguagem usada hoje. O curitibano dizia que não lidava com necrófilos, ou seja, se era para traduzir um texto ele deveria fazer pleno sentido no hoje.

A expressão de que traduzir é trair, usada por Eco, só deixa claro que o ato da tradução é um tudo ou nada. Traduzir não é interpretar, é entender os nuances linguísticos de uma língua para outra e se fazer entender, saber fazer as trocas equivalentes sem se colocar como intérprete de determinada obra. Os efeitos no leitor são muito importantes e o papel do tradutor vai além de mero intermediário de duas línguas, ele é o co-autor, uma espécie de comparsa do autor. Quando você lê uma obra traduzida, está na verdade lendo dois trabalhos.

E você, o que pensa do papel do tradutor?

Graças a esses profissionais podemos ler e compreender obras de outras línguas como uma experiência única. A Joaquim Livraria & Sebo sugere algumas obras com traduções imperdíveis, veja quais são e venha conferir na loja física:


Traduções de autores russos pela Editora 34 – A editora conta com uma bela equipe de tradutores para trazer as melhores traduções de autores russos, uma das línguas mais difíceis de se conseguir boas traduções.


Traduções de Modesto Carone, pela Companhia das Letras, do tcheco Franz Kafka.


Traduções de Paulo César de Souza, pela Companhia das Letras, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche

Navegação de Posts

%d blogueiros gostam disto: