Os sambas de Hilda Hilst e Adoniran Barbosa

Meu muito amado
bem o quisera
que esta vontade
que se avoluma
no pensamento
se fosse embora.

Bem o quisera.

(Hilda Hilst)

Hilda Hilst foi um dos nomes mais celebrados em 2018, como homenageada da Festa Literária de Paraty, a FLIP, a poeta teve boa parte da sua obra reeditada, curtas e longas-metragem realizados e uma série de homenagens ao seu trabalho – dizia que seu conjunto não era uma obra – e no meio de tanta celebração, um dos tópicos pouco comentados foi sobre suas parcerias na música. Vamos comentar apenas uma de tantas.

Os versos que abrem esse texto estão no segundo livro de Hilst, Balada de Alzira (1951) e marcaram um dos sambistas brasileiros mais importantes: Adoniran Barbosa. No livro Adoniran: dá licença de contar (2002, editora 34), Ayrton Mugnaini Jr. conta que após ler o segundo livro de Hilda, Adoniran teve certeza de ler alguns dos versos mais bonitos da língua portuguesa e prontamente ligou para a poeta, desejava musicar os poemas dela!

Foi um único encontro no Hotel Jaraguá, em São Paulo, antiga sede do jornal O Estado de São Paulo, porém calcula-se como um dos mais animados e divertidos. Adoniran elogiou os versos de Bem o quisera e Hilda ficou em dúvida se eles funcionariam em um samba, prontamente ele pediu para ela fazer uns outros na hora, para que ele sentisse se daria certo. Naquela noite saíram “Quando te achei”, “Só tenho a ti” e “Quando tu passas por mim”, o primeiro gravado em 1956, para surpresa de Hilda Hilst.

Conta-se que “Só tenho a ti” era uma das preferidas de dona Mathilde, esposa de Adoniram. No vídeo abaixo dá para ouvir um trecho raro de Adoniran comentando e cantando um trechinho dela.

“Música boa nasce em qualquer lugar” já diria o própria Adoniran Barbosa. Imagine, então, juntando um sambista desse com uma das poetas mais geniais da literatura brasileira, só podia dar samba & poesia.

Patti Smith lê Jack Kerouac ao som de Thurston Moore e Lenny Kaye

The last hotel
I can see the black wall
I can see the silhouette on the window
He’s talking, at a rhythm
He’s talking, at a rhythm
But, I don’t care
I’m not interested in what he’s saying
I’m only interested in the last hotel
I’m only interested in the fact that it’s the last hotel
Deep, discordant, dark, sweet
The last hotel
The last hotel
Ghosts in my bed
The goats I bled
The last hotel
JACK KEROUAC

Carl Solomon, Patti Smith, Allen Ginsberg e William S. Burroughs
Carl Solomon, Patti Smith, Allen Ginsberg e William S. Burroughs

No livro “Só Garotos” (Companhia das Letras) Patti Smith conta sobre os seus primeiros anos em Nova Iorque, a fuga da jovem do interior que sonhava ser poeta, ler e escrever em algum loft no Village, tomar cafés em lanchonetes baratas e viver na contracultura. Muitas das histórias vividas pela rainha e poeta do Punk no ínicio dos anos 70 soam muito parecidas com os relatos dos homens e mulheres da Geração Beat durante os anos 40 e 50.

Os Beats iriam influenciar as gerações seguintes, os movimentos contraculturais não seriam os mesmos sem os relatos verborrágicos de Jack Kerouac, a poesia certeira e crítica de Allen Ginsberg ou as memórias e poesias das mulheres da época como Diane di Prima e Joyce Johnson, que colocaram um contraponto nas aventuras contadas pelos homens à beira da estrada.

Entre 1954 e 1965, Jack Kerouac desenvolveu várias ideias em relação à poesia associada a sua prosa espontânea. Conhecido por seus romances, Kerouac passou a escrever poemas sobre assuntos corriqueiros associados à situações um tanto oníricas que dessem um ar de fantasia ao verso. Essa produção foi reunida no livro “Pomes All Sizes” (brincadeira com a palavra poema e pomo) e “The Last Hotel” faz parte dessa coletânea. Relatando brevemente sobre o tédio de estar em um lugar – provavelmente já cansado de perambular – ele se vê com a cabeça longe, pensando em quantas camas de hotel dormiu, nas pessoas que se deitaram com ele e na efemeridade disso tudo. Um breve verso que diz muito sobre Jack Kerouac e que iria ser fundamental posteriormente para compositores como Lou Reed e Patti Smith criarem seus versos acompanhados de dissonantes riffs de guitarra.

000000000-0+026.redimensionadoBaseada nessa produção, nos anos 90 uma grande homenagem intitulada de “Kicks Joy Darkness” foi organizada para Jack Kerouac, que mesmo não sendo muito fã de rock – preferia o jazz e bebop – foi agraciado por nomes como Morphine, Michael Stipe (R.E.M), Lydia Lunch, Steven Tyler, Joe Strummer e meio a tantos outros, Patti Smith fez uma versão do poema “The Last Hotel/O Último Hotel” com acompanhamento de violão por Thurston Moore (Sonic Youth) e Lenny Kaye, companheiro de banda. “Last Hotel” poderia muito bem ser uma narrativa sobre os dias que Patti passou com Mapplethorpe no Hotel Chelsea, talvez por isso sua voz se encaixe tão bem no trecho.

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Lenny Kaye/Patti Smith/Thurston Moore

O último hotel
Consigo ver a parede preta
Consigo ver a silhueta na janela
Ele fala, no ritmo
Ele fala, no ritmo
Mas, eu não ligo
Não me interessa o que ele diz
Só me interessa o último hotel
Só me interessa o fato que esse é o último hotel
Profundo, dissonante, escuro, doce
O último hotel
O último hotel
Fantasmas em minha cama
Corpos lascivos em que suei
O último hotel

(tradução de Emanuela Siqueira)

Ouça o disco completo pelo Spotify abaixo

A mesa da Joaquim: Fevereiro, terceira semana

Estavámos achando que a mesa da Joaquim não combinava com o fim de semana e a partir de agora ela será toda segunda-feira. Você tem toda semana para vir até a loja e conferir de perto essas belezas, que tal? A gente te espera!

As crônicas do Brasil: Edição Bilíngue (português/inglês) Rudyard Kipling: Landmark – Publicadas originalmente em 1927, no jornal Morning Post, as crônicas são resultados das impressões de Kipling em relação ao país e o nosso povo.

Poem(a)s E.E. Cummings (tradução de Augusto de Campos): Unicamp – Uma seleção de poemas do poeta que queria colocar em prática o instrumento verbal e traduzido pelo grande Augusto de Campos que também entendia do assunto.

Aristóteles para Todos Mortimer J. Adler: E Realizações – Um livro que explica por quais motivos as teorias do filósofo clássico colaboram a entendermos melhor o mundo moderno.

Figuras e Padrões: A encomenda do azulejo em Portugal : Museu Oscar Niemeyer – O incrível catálogo da exposição “Figuras e Padrões – A Encomenda do Azulejo em Portugal, do Século 16 à Atualidade” que aconteceu no MON entre 2009 e 2010. Traz toda a história da arte de cerâmica portuguesa desde os árabes até os dias de hoje.

Árvores Brasileiras: Volume 1Harri Lorenzi: Plantarum – O livro é resultado de 15 anos de estudos, pesquisas e trabalhos com florestas nativas. São 352 espécies no país e cada uma ocupa uma página sobre ela.

Ho-Ba-La-Lá: A procura de João GilbertoMarc Fischer: Companhia das Letras – Um livro interessante que narra a jornada desse autor russo vindo ao Rio de Janeiro para convencer João Gilberto a tocar ¨Ho-ba-la-lᨠnum violão centenário. Muitas figuras passaram pelo caminho dele e ele conta tudo.

O Paraíso de Zara: Khalil e Amir: Leya – Mais um quadrinho que retrata o Irã, dessa vez o palco é o inicio do século XXI e as revoltas em andamento no país.

A Morte do SuperMan: Volume 1Dan Jurgens: Panini – O épico que mudou vários rumos dos quadrinhos modernos. O primeiro volume da saga que narra a morte do Homem de Aço, afinal, todos tem seu fim.