O jazz espiritual cósmico de Kamasi Washignton

Ele toca um jazz espiritual cósmico do mais alto escalão. (Pense em A Love Supreme, de John Coltrane.) O tipo de coisa que parece, ao mesmo tempo, uma jornada através do espaço exterior e do interior humano – mas sempre com um groove sólido… Will Welch, na revista GQ, 2016

Muitos escritores na primeira metade do século XX contaram sobre o efeito do jazz em suas vidas. Desde a chamada era do jazz e a boêmia das duas primeiras décadas do século, com Fitzgerald narrando bebedeiras da alta classe nova-iorquina até os vagabundos iluminados de Jack Kerouac, sendo inspirados a viver no ritmo 4/4 pelas ruas dos Estados Unidos. Porém escritoras como Toni Morrison mostraram que o gênero era uma das formas mais importantes da cultura afro-americana construir sua identidade e também se colocar no mundo. Artistas como John Coltrane e Miles Davis, para citar apenas dois, foram importantes não apenas para mostrar que a união da música clássica com a chamada black music, como o soul e o blues, era instigante, mas também foram figuras importantes para que uma identidade se fortalecesse e alimentasse movimentos ao longo do século, desde lutas pelos direitos civis ao atual Black Lives Matter.

“Como músicos, temos uma das maiores ferramentas de juntar pessoas, que é na música. Então, eu não diria [que seja] uma responsabilidade, mas temos a oportunidade de influenciar as coisas de um jeito ou de outro, sabe?”

O californiano Kamasi Washington é um desses artistas que, com menos de quarenta anos, já foi apontado como embaixador do jazz no século XXI por trazer um novo frescor para um dos principais gêneros musicais do século XX, altamente prolífico e mediado entre o clássico e a livre invenção, mantendo sempre a pertinência política. As fotos de Kamasi não deixam o comentário acima de Will Welch apenas flutuando em um balão de elogios, o saxofonista se impõe como algo cósmico em suas fotos, lembrando outro artista importante do jazz: o também compositor afrofuturista Sun Ra. Não apenas no visual Sun Ra e Kamasi se aproximam, ambos são, em suas respectivas épocas, figuras importantes para novas visões e abordagens dentro do gênero musical.

Kamasi Washington contribuiu com o rapper Kendrick Lamar no elogiado álbum To Pimp a Butterfly, de 2015, e fez o jazz contemporâneo alcançar um público ainda mais amplo e novo. Mas não à toa, o próprio saxofonista pesquisa desde muito jovem as conexões entre o hip-hop e o jazz, porém ele evita também as rotulações. “Eu vejo toda essa música como parte da minha herança. Jazz é uma parte de mim”, diz ele se referindo a um dos gêneros musicais que cresceu exposto no bairro negro em que cresceu, além dos lugares que frequentou desde criança e faziam parte de sua herança cultural. Chegou a trabalhar, por exemplo, com o rapper Snoop Dog e mantém um grupo apelidado de “Wu-Tang do jazz” que pensa relações entre o som clássico de L.A. e o West Coast Get Down, grupo de músicos conhecidos pela experimentação e fusão de gêneros.

Aliás, fusão e experimentação são os tons que torna o jazz do século XXI tão interessante, já que graças a essas explorações é que Washington se tornou acessível a tantos ouvintes que talvez nunca tivessem contato com um disco de jazz por conta própria. Em entrevista para o Guardian, Kamasi comenta a importância de bandas de metais, por exemplo, estarem presentes nos shows da Beyoncé e de ele mesmo tocar em um festival como o Coachella. “As pessoas estão aprendendo o valor que o jazz representa: idéias de musicalidade e permitindo que multidões de pessoas se expressem dentro de seu show. Está crescendo. Uma vez que você tenha um gostinho disso, é difícil voltar atrás. ” diz ele.

A atitude de Kamasi Washington não está apenas nas suas roupas, cabelo e a constante inspiração na cultura afro-americana, toda essa atitude de experimentação, trocas e novas possibilidades se relaciona diretamente com a postura do músico que cresceu no centro-sul de Los Angeles. A região se tornou sinônimo de gueto depois das revoltas de 1992, que deixaram muitos mortos e feridos em confrontos com a polícia, mas também se tornou um lugar onde a geração de Kamasi, e também mais jovens, fizessem explodir uma nova cena do jazz e outras musicalidades em constante diálogo.

Kamasi Washington faz uma pequena turnê pelo Brasil em março de 2019 e teremos a oportunidade de ver de perto essa figura importante do novo jazz, ou melhor, da retomada do jazz e outros gêneros que dialogam com a música afrodescendente, como temos visto também na música brasileira contemporânea.

A Joaquim Livros e Discos é uma das apoiadoras do show de Kamasi Washington na Ópera de Arame, dia 24 de março de 2019.